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09/02/2012 14h29 - Atualizado em 09/02/2012 14h48

Campus Party debate o fim da "blogosfera moleque"

Nick Ellis
por
Da Campus Party

O debate “O Fim da Blogosfera Moleque” animou o palco de Mídias Sociais da Campus Party 2012 na manhã desta quarta-feira (8), com a presença de Carlos Merigo (Brainstorm 9), Cora Rónai (O Globo), Thiago Mobilon (Tecnoblog), Pedro Burgos (Gizmodo Brasil), a escritora Clara Averbuck e com a mediação de Alexandre Inagaki (Pensar Enlouquece). O tema buscou questionar o que aconteceu com a blogosfera amadora de tempos atrás, e como os blogs foram gradualmente evoluindo para veículos cada vez mais profissionais.

Debate: o fim da blogosfera moleque  (Foto: Reprodução (Nick))Debate: o fim da blogosfera moleque (Foto: Nick Ellis/TechTudo)

Inagaki começou a conversa falando sobre a época do surgimento dos primeiros blogs no Brasil, um tempo em que ainda não havia a preocupação de fazer do blog um estopim de uma nova carreira profissional. Quando Inagaki começou seu blog em 2002, ele escrevia simplesmente para compartilhar idéias e coisas interessantes. Usava um estilo descompromissado e sem muita pretensão, como se fosse uma mensagem na garrafa, enviada para os potenciais leitores. Ao longo dos anos, ocorreu um processo paulatino de profissionalização. E muitas pessoas transformaram seus blogs em novas oportunidades.

Tecnoblog

Falando sobre sua intenção no início do Tecnoblog, Thiago Mobilon disse que a ideia, na época, era aprender a usar a ferramenta, bem como configurar o servidor. Com o passar dos meses, viu que era capaz de ter um bom retorno de programas de afiliados. Depois vieram as agências de publicidade, que queriam anunciar no blog.

Tecnoblog (Foto: Divulgação)Tecnoblog (Foto: Divulgação)

Para Mobilon, não aconteceu nenhum pulo do gato em especial, e, sim, uma evolução natural e constante. Em 2006, o blogueiro abriu uma empresa, e, em 2008, começou a ter parceria externa. Em 2009 o Tecnoblog fez uma parceria com a Globo, e em 2010, inaugurou seu escritório próprio. Por causa do serviço, Thiago acabou virando um empreendedor.

Brainstorm 9

Brainstorm 9 (Foto: Divulgação)Brainstorm 9 (Foto: Divulgação)

Carlos Merigo criou o Brainstorm 9 em 2002 na ferramenta Blogger. O blog, que era escrito nas horas vagas do autor, se tornou hoje um dos maiores veículos online do Brasil, e a referência número 1 em blogs de publicidade. Com o tempo, o Brainstorm 9 foi crescendo em volume de audiência, de relevância e ganhou um formato mais formal, mas sem perder a personalidade do blog.

Perguntado por Inagaki se ele pensava que o blog se tornaria sua profissão, no tempo em que ainda trabalhava em agências, Carlos Merigo disse que acabou percebendo que não estava conseguindo nem trabalhar na agência e nem escrever no blog. Foi quando tomou a decisão difícil de largar a carreira publicitária para se dedicar ao Brainstorm 9.

O B9 estava bem consolidado quando Merigo resolveu dar o passo de transformar o blog em um negócio. “Se já era difícil explicar para minha mãe o que eu fazia quando trabalhava em publicidade, imagine agora”. Merigo disse que hoje em dia não sabe mais o que é feriado e domingo. Ele sente muito prazer em escrever e administrar o Brainstorm 9 todo dia.

Sobre Cora Rónai, Inagaki disse que era emocionante estar ao lado da primeira jornalista brasileira a criar um blog (em 2001). Ainda ressaltou sua atuação na coluna de informática no JB e depois no jornal O Globo. Para ele, Cora abriu as portas para que a blogosfera brasileira desse certo.

Cora mostrou todo o seu estilo e personalidade ao dizer que a web 2.0 foi inventada para postar fotos de gatos, em uma forma de colaboração com a “causa felina”. Para ela, desde o começo, a blogosfera no Brasil mostrava um ótimo potencial de permanência. A partir disto, a tendência natural é que o autor desses serviços acabasse ganhando dinheiro com o conteúdo divulgado. Isto porque as pessoas gostam de ler textos opinativos. O que acabou por criar uma demanda de publicidade pelo blog.

Hoje, ela vê a questão dos blogs de uma forma diferente. Para Cora, os novos blogs estão ameaçados pelo Facebook, que oferece uma boa vitrine para a divulgação de idéias. Ela chama o Facebook de “grande incubadora de blogs”. Sobretudo, Cora não sabe de onde vão surgir os blogs daqui para frente, pois as pessoas estão começando a postar diretamente no Facebook.

Inagaki lembrou que os comentários dos blogs diminuíram muito com o avanço das redes sociais. Cora concordou, e contou que publica automaticamente os textos do seu blog no Twitter e no Facebook, e tem percebido que os comentários estão cada vez mais reduzidos no blog, e se tornando mais comuns nas redes sociais.

Cora vê um bom campo para os blogs que já estão consolidados, e também para novos blogs que atendem a nichos de assuntos que são importantes para as pessoas. O blog hoje em dia virou um veículo socialmente aceito, os blogueiros passaram a ser chamados para eventos. Ela vê uma cena com blogs já consolidados, respeitados com temas de interesse geral, e, ainda, novos blogs surgindo dentro do Facebook.

Cardoso Online

Inagaki conversou com Clara Averbuck, uma das colunistas do Cardoso Online (do final da década de 90), e uma das primeiras escritoras que fizeram a transição do blog para o papel .

Citando alguns de seus trabalhos, Clara contou que a obra “Das coisas esquecidas atrás da estante” foi o primeiro blog que virou livro no Brasil, e talvez até no mundo. O livro “Máquina de pinball” também tem alguns textos publicados no blog, mas não é uma transcrição. Ela começou a escrever e espalhar seus textos no Mirc, cliente de IRC usado para troca de mensagens.

Com o final do Cardoso Online, Clara resolveu encontrar outro canal para publicar seus textos. Para ela, a imensa maioria dos blogs na época eram adolescentes, algo como “termina um namoro e cria um blog”. Hoje em dia, as coisas mudaram, mas ela ainda procura passar sua visão de vida em seu blog.

Para Clara, “um blog é o que o autor quer que ele seja”. Não existem regras, e também não existe algo chamado “literatura de blogs”. Cada blogueiro pode falar sobre o que quiser, seja tecnologia, receitas, ou até mesmo política. De acordo com Clara, é uma péssima idéia criar um blog para ganhar dinheiro, uma vez que é um caminho bem longo, e não existe uma fórmula de sucesso.

Gizmodo Brasil

A proposta do Gizmodo Brasil era já começar de forma profissional. Segundo Pedro Burgos, editor do blog e um bom símbolo do fim da “blogosfera moleque”, isso só foi possível graças a outros blogueiros, que pavimentaram o caminho.

Sobre a evolução da blogosfera e do jornalismo, Burgo disse que o grande trunfo dos blogs está na independência. Para ele, ninguém precisa escrever seu blog seguindo as regras de um manual de um jornal tradicional. "O blog é pura opinião e ela precisa ser informada, por mais difícil que isto seja". Burgos foi contratado para ser o editor do Gizmodo Brasil em 2008, a convite do Adriano Silva.

O jornalismo, para o editor do Gizmodo, está caminhando para a opinião, que é o que as pessoas estão buscando. Cora entra na discussão defendendo o jornalismo de tecnologia no Brasil, dizendo que em 1997 já tinha uma coluna no JB que era repleta de opinião. Quando ela foi chamada pelo jornal O Globo para fazer o caderno Internet Etc, foi para dar justamente um viés de opinião.

Nas palavras de Cora, a “pequena aldeia na Gália (que é a cobertura de tecnologia no O Globo) resiste bravamente”. Ela diz que o Informática Etc sempre foi algo atípico dentro do jornal, e que ele já tinha o espírito dos novos tempos.

Já Clara disse que as coisas estão mudando, o mundo está ficando mais coloquial. Para ela, se um discurso mais opinativo não for adotado, a velha mídia vai acabar perdendo todos os seus leitores. Inagaki disse que o blog hoje em dia já é mainstream, e faz parte da linguagem dos grandes portais. E, como tal, vai chamar cada vez mais a atenção do público.

Perguntas do público

Prosseguindo com o debate, o moderador abre para perguntas. A primeira diz respeito aos blogs que ajudam outras pessoas a criarem seus próprios blogs e a ganharem dinheiro. Na opinião de Thiago Mobilon, as pessoas que criam este tipo de blog muitas vezes não contam com experiência no assunto. E só pensam na questão financeira, sem prestar atenção no lado editorial ou na questão da publicidade.

Para Burgos, o “conteúdo é rei”. E mesmo com o pouco espaço no mercado, quem cria um blog de nicho, sobre Android, por exemplo, pode ter uma boa chance de sucesso. Clara disse, ainda, que a unidade da linha editorial também é essencial. "As pessoas procuram no site uma coerência no conteúdo, uma consistência, e não posts desconectados dos outros".

Campus Party 2012 (Foto: Rodrigo Bastos/TechTudo)Campus Party 2012 (Foto: Rodrigo Bastos/TechTudo)

A segunda pergunta, de uma jornalista, queria saber como equacionar a questão de falta de tempo para escrever para o veículo que paga o salário e os seus blogs pessoais. "É possível se dedicar a duas coisas ou isto é algo inviável?" Na opinião de Cora, nem toda empresa quer que o jornalista exprima a sua opinião própria, principalmente sobre assuntos polêmicos como política em época de eleições, etc. O blog dela, por exemplo, é um reflexo do seu lado profissional.

Clara, por sua vez, respondeu a pergunta citando Nelson Rodrigues, que escreveu suas melhores obras quando estava no bagaço, cansado pelo excesso de trabalho. Merigo acrescentou dizendo que, enquanto trabalhava em agências, sofria por não poder atualizar o blog, por não poder responder aos comentários. Com o tempo, a importância de ter uma carreira profissional foi diminuindo, e a vontade de tocar o seu próprio veiculo crescendo. Não teve outro jeito para ele, a não ser pedir demissão e tocar seu próprio veículo.

Para Burgos, o importante é a qualidade dos textos. "Não se culpe se você não estiver atualizando o blog com freqüência, e sim se estiver produzindo conteúdo abaixo do padrão", disse. Inagaki disse que o blog lhe deu a liberdade de escrever sobre qualquer assunto, e demonstrar seus interesses e gostos pessoais. Para ele, o blog começa a se tornar relevante a partir do momento em que o autor encontra seu ponto de vista original, pessoal.

A pergunta seguinte foi de uma pessoa da platéia, sobre a possibilidade de uma convergência entre os blog e os grandes veículos. "Seria este o caminho para a grande mídia, adaptando uma linguagem informal dos blogs, e abrindo espaço para que os leitores colaborem com os jornais?"

Segundo Cora, a resposta para a pergunta “como conquistar novos leitores” não existe. Para ela, o caminho é fazer um jornal com cada vez mais colunas de opinião, pois a notícia já é dada pela TV, e pela Internet, então o importante mesmo é a opinião. "O diálogo entre o jornalista e o leitor aumentou incrivelmente nos últimos tempos. E isto é uma via de duas mãos, pois o leitor fica fascinado quando uma foto ou uma notícia que ele enviou é publicada". Ela acredita que este é um bom caminho para os jornais, sejam eles de papel ou não.

Respondendo sobre como lidar com a enorme quantidade de informações nas redes sociais, Cora disse que o ruído é cada vez mais intenso. Para ela, a ferramenta unfollow, por exemplo, dá uma ideia de como o conteúdo é intenso.

A última pergunda foi sobre a postura em relação aos comentários e a interação com os leitores, em especial com a questão dos “trolls” - os comentários críticos.

Para Pedro Burgos, os comentários são os grandes diferenciais dos blogs. Segunde ele, é uma forma do leitor dar a sua opinião e até mesmo chamar a atenção para eventuais problemas. Já Carlos Merigo, disse que no Brainstorm 9 existem muitos trolls. Por isso, eles precisaram partir para comentários pré-moderados. Cora, por sua vez, falou que seu critério para a aprovação de comentários é muito simples. Se determinado comentário pode ser publicado na seção de cartas dos leitores de um jornal, ela aprova, caso contrário, é apagado.

Merigo diz que a aprovação dos comentários no Tecnoblog é feita de acordo com os e-mails usados, se o leitor comenta sempre com o mesmo e-mail, ele terá seus comentários automaticamente aprovados. O problema para ele não é exclusivo dos blogs, pois desde a época dos fóruns, muitas pessoas tem o hábito de entrar em discussões apenas para agredir, sem acrescentar nada na discussão.

Pedro Burgos concluiu lembrando que os comentários do TechCrunch são feitos através do Facebook - o que aumenta a qualidade dos textos, visto que o comentário também é publicado no mural do leitor. A ideia de Burgos é fazer o mesmo com o Gizmodo Brasil, assim que o Facebook estiver mais estabelecido no país.

Para a platéia, ficou a sensação de que a blogosfera do Brasil ainda tem um belo potencial para evoluir, mas para isto, é preciso que os blogueiros usem toda a sua criatividade para conquistar novos leitores e anunciantes.

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