16/04/2012 16h05 - Atualizado em 17/04/2012 18h24

Planos da Atari previam notebooks sem fio e a Wikipédia… em 1982

Augusto Campos
por
Para o TechTudo

O que você faria se alguém lhe trouxesse há 30 anos projetos de notebooks wireless, enciclopédias on-line e streaming de vídeo em rede? Dependendo da resposta, você poderia se tornar um bilionário ou deixar de aproveitar uma grande oportunidade.

Trinta anos atrás, em 1982, vivíamos uma realidade tecnológica muito diferente: o que havia de mais parecido com um computador pessoal em muitos lares brasileiros eram os videogames Atari 2600 e seus clones, e quem queria se informar sobre as mais variadas áreas do conhecimento humano recorria aos incontáveis volumes da enciclopédia Barsa, por edições anuais de almanaques e pelo hábito de visitar fisicamente uma biblioteca.

Todos os conceitos ainda existem, mas os expoentes daquela época já eram, ou ao menos se transmutaram profundamente. A bem-sucedida Atari não se adaptou à evolução e ainda na década de 1980 começou a se transformar de uma empresa de tecnologia em uma mera marca que pertence à Infogrames.

Já as enciclopédias em papel foram sendo substituídas por produtos em CD-ROM até encontrar seu grande rival (em termos de popularidade, no mínimo) na Wikipedia. Seu maior símbolo, a Encyclopaedia Britannica, publicada desde 1768, recentemente anunciou que não mais publicará uma edição impressa.

 (Foto: Reprodução) Enciclopédia inteligente ou notebook? (Foto: Reprodução)

Mas não terem resistido inalterados ao teste das décadas não significa que as empresas envolvidas não conseguiam prever o que vinha pela frente, e em um ricamente ilustrado artigo de Bob Stein no Instituto para o Futuro do Livro podemos acompanhar o que a Atari antecipou em 1982, de forma até mesmo surpreendente, sobre o que seria o futuro da tecnologia pessoal nas décadas seguintes.

O principal visionário a serviço da companhia na época foi Alan Kay, nome conhecido no mundo da tecnologia por seu papel fundamental no desenvolvimento de tecnologias como ambientes gráficos baseados em janelas e a programação orientada a objetos, além de ser o criador da frequentemente citada frase “a melhor forma de prever o futuro é inventá-lo”.

A visão da Atari (e de Alan Kay) é naturalmente emoldurada pelos paradigmas da época, e assim recebe o nome de “Enciclopédia Inteligente”. Mas olhando para as ilustrações e descrições no artigo, é fácil perceber que o equipamento lembra um tablet ou um notebook.

Aliás, que belas ilustrações! Elas são de autoria de Glenn Keane, um animador da Disney contratado para transformar em imagens a visão de futuro da companhia.

 (Foto: Reprodução)Telas para todos os lados (Foto: Reprodução)

Note que vários cenários de uso modernos de um tablet ou notebook estão presentes: há o executivo com o aparelho sobre a bandeja de refeições do avião, o uso em sala de aula, em casa, em simulações imersivas, para consultar detalhes sobre a carta de vinhos em um restaurante, uma enciclopédia digital centralizada, etc.

Também estão presentes, embora apenas no contexto, a comunicação sem fio (uma das ilustrações chega a mostrar a antena do dispositivo) e até a transmissão da imagem do aparelho para uma tela maior, similar ao que hoje se consegue por tecnologias como o AirPlay na Apple TV.

Em 1982 a Internet ainda era um embrião, o protocolo TCP/IP estava em processo de padronização e a ideia de um computador pessoal ainda era representada pelo gigantesco IBM PC, lançado no ano anterior. Por isso não espanta que outros aspectos da revolução que viria nas décadas seguintes, como a possibilidade de publicação pessoal e comunicação diretamente entre usuários, também não tenham sido previstas.

Mas ao analisar quanto estes futurólogos profissionais acertaram torna impossível não pensar em como o futuro de suas companhias poderia ter sido diferente se tivessem aderido estrategicamente a este cenário. A Atari chegou a lançar computadores interessantes, como o Atari ST e Atari XE, mas não teve fôlego para ir muito além da metade da década de 1990, e agora suas visões e projetos são apenas mais uma bela e curiosa nota de rodapé na história da tecnologia.

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