11/08/2012 08h43 - Atualizado em 03/07/2013 10h55

As grandes previsões tecnológicas da literatura de ficção científica

Filipe Garrett
por
Para o TechTudo

Ao longo dos anos, diversos escritores de ficção científica souberam antecipar grandes saltos tecnológicos. No entanto, se todos eles estivessem certos sobre nosso futuro, o planeta já teria acabado há um bom tempo. Ainda assim, em meio a muito caos e pessimismo, há muito a se aprender sobre tecnologia e ciência. Vamos conhecer alguns escritores e suas grandes sacadas:

Julio Verne (1828-1905)

Julio Verne foi o grande precursor do gênero (Foto: Reprodução)Julio Verne foi o grande precursor do gênero
(Foto: Reprodução)

Considerado um dos grandes criadores do gênero, Julio Verne, ao contrário de boa parte dos grandes autores de ficção científica, não escreve suas obras usando o futuro distante como cenário. Pelo contrário, as histórias de grandes livros, como “20.000 Léguas Submarinas” e “Da Terra à Lua” passam-se na época do autor (século XIX). Outro contraponto interessante nos seus livros está nos desfechos da história, não tão apocalípticos e pessimistas, algo que se tornou comum na literatura de ficção científica.

Sacadas: em relação às suas previsões tecnológicas, as duas mais marcantes são o submarino e o foguete espacial. Na época de Verne, a maneira mais eficiente de se viajar pela superfície da água era através de enormes caldeiras a vapor, e o barco à vela não havia sido completamente aposentado.

As primeiras incursões no mundo que se esconde abaixo da superfície do mar seriam feitas em 1865, utilizando ineficientes, pesados e quase imóveis escafandros. Até aí, o homem não tinha conhecimento do que se passa abaixo da superfície. Verne identificou essa curiosidade e criou uma história fantástica, em que um homem, desencantado com a humanidade, investe toda a sua fortuna na construção de um submarino capaz de abrigar a ele e toda uma tripulação de fiéis seguidores.

Seguindo as descrições e desenhos de Verne, se tivesse existido, esse seria o Nautilus (Foto: Reprodução)Seguindo as descrições e desenhos de Verne, se tivesse existido, esse seria o Nautilus (Foto: Reprodução)

O submarino ganhou o nome de Nautilus, e seu construtor era o Capitão Nemo. Além de prever o uso de embarcações submersíveis a partir do controle do ar dentro de compartimentos no entorno do casco – tal qual os submarinos que conhecemos – Verne criou uma série de aparatos tecnológicos inexistentes no período e comuns na atualidade, como o motor elétrico, baterias recarregáveis, sistemas de purificação do ar e armas que disparam a partir do ar comprimido. E o mais legal de cada um deles é que os princípios físicos de seu funcionamento são perfeitamente factíveis.

A fonte de energia praticamente inesgotável do Nautilus encontrou paralelo nos submarinos nucleares modernos, que, com uma única pilha de plutônio, funcionam por décadas, sem a necessidade de reabastecimento. Não por acaso, o primeiro submarino nuclear da história foi o USS-Nautilus. As armas de ar comprimido serviam para defesa e caça, uma vez que a pólvora precisa de oxigênio para detonar os projéteis. Em um dos trechos mais famosos de "20.000 Léguas Submarinas", a tripulação sai do Nautilus usando equipamentos de mergulho e levando as armas para “caçar” abaixo da água.

Em “Da Terra à Lua”, a narrativa convida o leitor a uma viagem fantástica por aquilo que se entendia, em 1865, como um planeta vizinho e abundante em vida. Para realizar a viagem, um grupo de homens faz meticulosos cálculos de balística, levando em consideração o movimento relativo do planeta e seu satélite. Mais que isso, os personagens calculam a atração gravitacional dos dois corpos e descobrem que a melhor maneira de realizar a viagem é construir um tipo de projétil, posicioná-lo no rumo para a Lua e realizar uma detonação de enormes proporções, para que a força da explosão direcione o lançamento do projétil no caminho para o satélite.

Da Terra à Lua (Foto: Reprodução)Da Terra à Lua (Foto: Reprodução)

Depois de feita a alunissagem, os astronautas descem da nave e se deparam com um mundo rico em vida e descobertas, fruto da fantasia e imaginação rica de Verne. Com os passeios dos três astronautas encerrado, bastava que eles entrassem na nave e fizessem o voo para a Terra. Desceriam no Pacífico, onde seriam resgatados por um navio da Marinha norte-americana, tudo ao custo de US$ 12 bilhões.

A rigor, é exatamente o que a Nasa pensou 100 anos depois, quando deu início ao programa Apollo, que, de fato, levou o homem à Lua, ao custo de US$ 14,4 bilhões.

Há mais curiosidades interessantes: o canhão lançador chamava-se “Columbiad”, palavra traduzida para o português como “Columbária” em edições mais antigas do romance. O módulo da Apollo 11 foi batizado de Columbia. Outra curiosidade interessante é que o lançamento da nave imaginária de Verne foi em Tampa, a 30 km de distância de Cabo Canaveral, onde 100 anos depois a Apollo seria lançada. Por fim, Verne teve a competência de acertar até mesmo o mês: dezembro.

Verne deixou um romance escrito, o “Paris no Século XX”, que só seria descoberto por um descendente em 1989. Entre outras coisas, o manuscrito centenário falava em prédios envidraçados, veículos pessoais movidos a gás, máquinas de calcular portáteis e uma rede de informação e comunicação que ligaria todos os cantos do planeta.

H.G. Wells (1866-1946)

Escritor inglês e contemporâneo de Verne, H.G. Wells foi o primeiro autor a brincar com uma fantasia que encanta a ciência e mexe, em alguma medida, com todos nós. Wells é o autor de “A Máquina do Tempo”, de 1897. Herbert George Wells também escreveu “Guerra dos Mundos”, onde nosso planeta é invadido por alienígenas e um conflito se instaura. Felizmente, não podemos considerar isso um acerto.

H.G. Wells (Foto: Reprodução)H.G. Wells (Foto: Reprodução)

Sacadas: como sabemos, Wells não previu, ao menos por enquanto, a criação de uma máquina capaz de nos levar em viagens temporais. Mas para ambientar as épocas que seu personagem visitou, foi preciso exercitar muita imaginação. Ele conseguiu presumir que nossas cidades teriam arranha-céus, algo que o mundo não conhecia na época.

O escritor também teve sensibilidade para analisar o destino das nações europeias: observando o barril de pólvora das disputas coloniais e revanchismos por séculos de conflitos, Wells supôs as Guerras Mundiais, que marcaram o início do século XX. Wells só errou de ano: George, o protagonista da história, se depara com guerras e arranha-céus na Inglaterra de 1966.

Em “The World Set Free”, de 1914 (“Mundo Libertado”, em tradução livre), Wells falou em bombas atômicas. Em 1914, as teorias de Einstein, que tornaram o uso desse tipo de armamento possível, ainda eram pouco conhecidas. O inglês também imaginou o uso bélico de máquinas voadoras, que depois conheceríamos como aviões.

Arthur C. Clarke (1917-2008)

Arthur C. Clarke (Foto: Reprodução)Arthur C. Clarke (Foto: Reprodução)

Um dos mais notáveis autores do gênero, Arthur C. Clarke se dedicou a escrever histórias fascinantes sobre viagens humanas ao espaço. Entre seus grandes trabalhos, está a série iniciada com “2001: Uma Odisseia no Espaço”, que se tornou um clássico também na adaptação para o cinema.

Sacadas: Clarke criou o conceito de satélite geoestacionário em 1945, 12 anos antes do Sputnik subir à estratosfera e transmitir seus bips (se tivesse patenteado a ideia, seria um dos homens mais ricos do mundo). O satélite geoestacionário é a tecnologia que nos permite assistir transmissões globais de TV, nos localizar no GPS do celular e etc.

Falando em celular, um dos detalhes que passam praticamente despercebidos em “2001: Uma Odisseia no Espaço” é um certo aparelho computadorizado, destinado a exibir o noticiário dos jornais atualizados constantemente. O pequeno computador foi chamado de Newspad por Clarke e, em princípio, é muito similar a ideia por trás do iPad.

Tablets, games e satélites nasceram antes na mente privilegiada de Arthur C. Clarke (Foto: Reprodução)Tablets, games e satélites nasceram antes na mente privilegiada de Arthur C. Clarke (Foto: Reprodução)

Se você tem um videogame em casa e curte acompanhar os lançamentos de jogos cada vez mais realistas, vai ficar surpreso em saber que, no livro “A Cidade e as Estrelas”, de 1956 (!), Clarke falou sobre um tipo de entretenimento, de jogo, em que os jogadores vivenciavam uma experiência paralela, praticamente como uma outra vida, como se conduzissem a ação de personagens num filme. Se você se diverte com jogos, saiba que a ideia é bem mais antiga que o console da sua sala.

Aldous Huxley (1894-1963)

O britânico Aldous Huxley ficou marcado pelo tom pessimista de seus romances, uma marca da ficção científica no século passado. Mas ainda assim, entre uma calamidade e outra, Huxley conseguiu identificar progressos científicos que, hoje, fazem parte de nosso cotidiano.

Sacadas: Naquele que é o seu maior clássico, “Admirável Mundo Novo”, Huxley identifica um futuro onde a humanidade seria capaz de manipular o código genético de todas as formas de vida como maneira de controle social. Não chegamos a esse ponto, ainda bem, mas usamos a genética para aprimorar diversas culturas, dando origem a um tipo bastante conhecido, e polêmico, de produtos: os transgênicos.

Isaac Asimov (Foto: Reprodução)Isaac Asimov (Foto: Reprodução)

Isaac Asimov (1920-1992) teve uma extensa e muito produtiva produção literária por toda a vida. Seus principais temas sempre foram a redenção do homem, a tecnologia, viagens espaciais e a robótica. Asimov moldou de tal forma a ideia de robô em nosso imaginário coletivo, que as três Leis da Robótica foram criadas por ele.

Sacadas: imaginar uma rede de comunicação que unisse toda a humanidade sempre foi algo que esteve à mão dos escritores de ficção, sobretudo no século XX, que viu o surgimento e explosão dos meios de comunicação de massa. Mas Asimov foi mais preciso em identificar o caráter e organização que a rede teria, unindo computadores.

Outros autores

Ray Bradbury (1920-2012) escreveu o conhecido “Fahrenheit 451” em 1950, que se passa em uma sociedade que desistiu dos livros e passou a usar dispositivos como home-theathers e grandes aparelhos de TVs. Mas uma das grandes antecipações de Bradbury foi a concepção muito precisa de um acessório que faz parte do nosso cotidiano: o fone de ouvido.

Em meio às divertidas confusões de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, Douglas Adams (1952-2001) mencionou um dispositivo que permitia o acesso de uma rede inesgotável de informações. A aparência do dispositivo e a descrição de sua interface, lembram os nossos tablets. O aparelho, nos livros, é o Guia em si, que é alimentado por uma rede de colaboradores espalhados pelo universo. A ideia de um espaço organizado, com todo o conteúdo disponível sobre os mais variados assuntos, assemelha-se à proposta da Wikipedia, a enciclopédia colaborativa.

Hugo Gernsback (1884-1967) falou em 1911, no romance Ralph 124C 41+, sobre dispositivos que eram capazes de enxergar por ondas de rádio, o que hoje conhecemos por radares. No mesmo livro, o protagonista Edward usa um dispositivo portátil chamado de telephot: ele permite que Edward se comunique por vídeo-chamada com outras pessoas, como fazemos hoje com Skype e outros tipos de mensageiros.

Conheça também o Doodle do Google que homenageou o 130º aniversário de Franz Kafka, estritor de clássicos da literatura como "A Metamorfose"!

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  • Luiz Rodrigues
    2012-10-10T10:42:02

    Excelente artigo, porém ressalto uma ausência extremamente importante. O Roteirista e Produtor Eugene Wesley Roddenberry, mais conhecido como Gene Roddenberry, criador da série Star Trek (Jornada nas Estrelas), a qual é diretamente responsável pela inspiração de diversos avanços tecnológicos, como telefones celulares, monitores de alta resolução, artefatos médicos, entre outros. Importante destacar que esta série também inspira os pesquisadores da NASA, ESA e de outros importantes centros de pesquisa espacial.

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