20/09/2012 08h15 - Atualizado em 20/09/2012 08h15

Aliyun: o sistema que incomoda o Google é mesmo derivado do Android?

Augusto Campos
por
Para o TechTudo

A semana passada fechou com uma notícia surpreendente: apesar da sempre propalada licença aberta adotada no Android, a Acer teria sido ameaçada pelo Google de perder o direito de continuar a distribuí-lo em seus aparelhos se concretizasse o plano de lançar seu smartphone A800, trazendo o sistema rival Aliyun, desenvolvido pela Alibaba, gigante chinês do varejo.

Acer-CloudMobile-A800Acer A800 com sistema Aliyum: o ponto da discórdia (Foto: Divulgação)

A consequência prática ocorreu: o lançamento do A800 foi cancelado em cima da hora, a ponto de convidados terem dado com a cara na porta ao chegar ao local marcado. Mas a causa, que inicialmente era apenas uma alegação difusa lançada pela Alibaba, acompanhada de silêncio da Acer e do Google, foi ficando mais clara conforme os dias passaram.

No momento a situação é a seguinte: o Google não teria ameaçado impedir que a Acer continuasse a usar o Android, mas sim informado que ela perderia o apoio e suporte do próprio Google neste uso, pois como membro da Open Handset Alliance (a entidade que reúne as empresas associadas ao Android) ela é impedida de distribuir clones do Android sem certificação de compatibilidade.

Em outras palavras, a ideia de que o Google estaria usando sua influência para impedir que um sistema rival fosse distribuído por um de seus parceiros deve ser entendida de outra forma: a intenção declarada é impedir a distribuição de um fork do Android incompatível por parte de um parceiro.

A sintonia ou não entre considerar a licença open source um ponto forte do Android ao mesmo tempo em que seus principais apoiadores são impedidos (“por fora” da licença) de lançar ou distribuir à vontade forks (ou seja, derivados do mesmo código, permitidos pela licença) do mesmo é assunto interessante para outra ocasião, mas no momento o que me chama mais a atenção é verificar uma premissa: a de que o Aliyum é um fork do Android.

O Aliyum não é santo, mas será mesmo um fork?

Representantes do Google afirmam e repetem que o Aliyum é um fork do Android, e de que não há dúvida disso, pois ele inclui o runtime, framework e ferramentas do Android (e assim roda apps feitos para o Android). Já os desenvolvedores do Aliyum negam veementemente que seu produto seja um fork, embora não neguem a presença de código do Android em seu produto (algo que a licença deste explicitamente autoriza).

Comecemos com a definição de fork. Forks são bifurcações no desenvolvimento, que ocorrem quando um conjunto de desenvolvedores duplica o código de uma versão de um determinado projeto, e passa a desenvolvê-lo de forma independente do projeto original.

Alguns exemplos práticos de forks são o LibreOffice (que divergiu do código do OpenOffice), o WebKit (motor do Safari e do Chrome, que divergiu do código do KHTML do KDE), e o Firefox (que divergiu, então com o nome de Phoenix, do código do antigo Mozilla Application Suite).

O argumento dos desenvolvedores do Aliyum se baseia na natureza de um fork: segundo eles, o seu código não divergiu de algum ponto do código do projeto Android. Seu kernel é próprio (também derivado do kernel Linux, assim como ocorre com o do Android), sua máquina virtual não é o Dalvik (implementação do Google similar à JVM, do Java), e ele se baseia em seu próprio app engine voltado a rodar apps HTML 5.

Mas uma questão colateral não ajuda a simpatia em relação ao Aliyum crescer: os seus repositórios oficiais de instalação de apps contam com cópias não autorizadas de apps que não são open source.
Augusto Campos

Ainda segundo eles, o runtime open source do Android está mesmo presente no Aliyum, mas isso é um recurso adicional (permitido pela licença) para permitir que seus usuários possam também rodar apps do Android nele. O requisito de compatibilidade da Open Handset Alliance dá a um produto a possibilidade de pedir permissão para usar alguns recursos como a marca Android, o acesso ao repositório de apps e conteúdo do Google, entre outros.

Ocorre que o Aliyum parece não desejar estes recursos. Ao mesmo tempo, a existência de outros aparelhos que o Google reconhece e até menciona como exemplos (como o Kindle Fire), que usam sistemas operacionais que são legítimos e assumidos forks do Android mas são mantidos por empresas que não são parte da Aliança faz pensar na natureza dos incentivos para entrar e permanecer no grupo, e o quanto eles são compatíveis com a natureza normalmente esperada de um projeto open source. Novamente, assunto para ser desenvolvido em outra ocasião.

Mas uma questão colateral não ajuda a simpatia em relação ao Aliyum crescer: segundo relatos, os seus repositórios oficiais de instalação de apps contam com cópias não autorizadas de vários apps para Android que não são open source – uma prática lamentável, além de naturalmente vedada pelas licenças envolvidas.

Android-Jelly-Bean (Foto: Android-Jelly-Bean)O sistema que incomoda o Google é mesmo derivado do Android? (Foto: Reprodução)

Os discursos ainda vão mudar

Os interesses comerciais envolvidos na disputa são evidentes: o mercado chinês de smartphones está em vias de se tornar o maior do mundo e ainda tem muita possibilidade de expansão, a Alibaba tem suas raízes firmemente plantadas lá, e o Aliyum nasceu fluente na forma chinesa de interagir com a tecnologia.

Empresas em disputa por um mercado dizem o que precisam dizer para justificar suas posições ou mesmo para direcionar a discussão ao ponto em que pensam ter vantagem. O jogo das manifestações públicas normalmente é uma escalada que termina com alguma das duas empresas mudando sua atitude, ou com a outra recorrendo a outra ferramenta: bolsos largos, acordos de bastidores, um tribunal, etc.

Na primeira manifestação pública da parte do Google, falou-se em fork, e que os membros da Aliança não podiam distribuir forks. A Alibaba respondeu com dados, e o discurso do Google já se modificou em seguida: agora fala em trabalho derivado, e em responsabilidade da Alibaba em buscar garantir a compatibilidade (com a participação do Google, frise-se), ou então afastar-se.

Não é a primeira vez que o argumento da busca da compatibilidade entra em cena trazido pelo Google: ele já surgiu anteriormente, por exemplo, quando a empresa convenceu a Motorola (bem antes de acabar adquirindo-a) a desistir de seus planos de trocar a busca geográfica do Google pela de sua concorrente SkyHook nos seus smartphones Android.

Creio que a disputa atual ainda vai evoluir de muitas formas, mas a mim parece que aproveitar a licença do Android para rodar apps dele em outros sistemas operacionais desenvolvidos a partir de componentes open source é algo bastante positivo para os consumidores e desenvolvedores de apps envolvidos, e certamente é buscado também por outros sistemas operacionais, como vimos nos tablets BlackBerry recentemente.

Independentemente das providências que outros aspectos da situação (como a presença de cópias piratas de apps no repositório do Aliyum) demandam, lamentarei se em vez de a situação terminar oferecendo uma alternativas open source capaz de rodar os mesmos aplicativos, ela terminar com a assimilação ou extinção do projeto.

De uma forma ou de outra, um bom teste prático da natureza open source de um projeto é a convivência de seus desenvolvedores com outros que reaproveitam seu código, e após vermos como o Google lidou com os mantenedores de outro projeto (o Java) que o acusavam de desenvolver um derivado incompatível, chegou a hora de ver como ele se comporta num papel oposto.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

recentes

populares

  • Luciano Rocha
    2012-09-24T00:46:33

    A Google é uma piada mesmo né? Copiou a iOS (Interface) de "cabo á rabo", usou a plataforma Linux para desenvolver seua linguagem e agora acusa os Chineses de plágio? kkkkkkkk . . . Só podia ser uma piada mesmo... . . . Já dizia os sábios: "Quem com ferro fere, com o ferro será ferido"...

  • André Ramos
    2012-09-21T16:36:53

    André Carneiro da Silva Ramos

  • André Ramos
    2012-09-21T16:35:14

    Se os interesses da Acer em produzir esse aparelho com sistema Aliyun vai contra os ideais da Open Handset Alliance, então não há o que condenar. Ao meu ver, a idéia central da Google é fazer do Android o melhor e mais popular SO móvel do mundo, juntamente com as grandes empresas montadoras de aparelhos. Se a Acer firmou contrato de parceria e mesmo assim quer ir contra os princípios, é errado e daqui a pouco vira bagunça. Quer produzir smartphones de baixo custo? Faça como a Sony ou Samsung, por exemplo, que produzem aparelhos dos mais simples até os mais avançados e possuem bons preços.

  • Marcio Martins
    2012-09-20T13:52:17

    Quem com ferro fere, com ferro será ferido.... A google nos ultimos 10 anos saiu desenvolvendo inúmeros programas, plataformas e sistemas, copiando a ideia dos outros e desenvolvendo as suas, ganhando o mercado massivamente. Mas a china é meio comunista ainda e foi cortando as asinhas da google por lá, com o baidu e outras plataformas chinesas copiadas da google. Só que a China é a fabricante de quase tudo que há no mundo. Logo logo ao invés de só se preocuparem com o consumo chines, esse mesmo baidu e afins vai vir em tudo quanto é produto fabricado por lá.