05/09/2012 08h00 - Atualizado em 05/09/2012 08h00

O olho recorta o tema

Ticiana Porto
por
Para o TechTudo

O que faz de uma foto boa? Certamente, mais de uma coisa… E chegamos numa sentença subjetiva e insuficiente, ainda que satisfatória, quando olhamos a imagem e nela podemos afirmar que essa sim, essa ficou boa. Justificamos, mas a pergunta insiste quando estamos fotografando. Em nenhum momento somos alienados disso se posicionamos a câmera, buscamos um enquadramento e temos alguma intenção ao fotografar.

Hyères, 1932 (Foto: Henri Cartier-Bresson)Hyères, 1932 (Foto: Henri Cartier-Bresson)

Estive lendo um ensaio de Henri Cartier-Bresson, publicado em 1952. Trata-se de um texto que abre o livro “Images à la Sauvette” e fala, dentre outras coisas, de condições para uma boa foto. Duas coisas me chamaram atenção: a observação e o espírito alerta. Não é uma surpresa, mas a maneira como isso foi tratado revelou que cada vez é preciso entrar num determinado estado para que as duas coisas aconteçam.

O olho que percorre a cena do mundo pode ver a realidade e, atento, fazer um recorte para dizer alguma coisa dela. Isso só é possível se observamos, se podemos ver linhas, volumes, valores, sombra e luz – e extrair algo disso que vemos.

Erramos quando queremos cobrir todo e qualquer detalhe."
Ticiana Porto

Bresson diz que não chegamos ao tema, ele se impõe – mas é preciso ver cuidadosamente, situar-se em relação ao que percebemos, “e como há tema em tudo que acontece no mundo ou no universo pessoal, basta ser lúcido diante do que acontece e honesto em relação ao que sentimos”. Bem, isso basta a Bresson… Exercitamos nosso olhar, queremos o que para Bresson se amplia, ganha espaço infinito até fixar um instante preciso. Queremos aquilo que fica, enquanto todo o resto esvai efêmero e impermanente.

Para tanto, é preciso o espírito alerta, pronto à captura do calor da hora. Não apenas a cena, mas a tensão que ela transmite. Bresson afirma que é fundamental estar a postos e “tirar fotos como se fossem flagrantes de delitos”. Raras vezes somos exatos e precisos quando estamos diante do tema. Erramos quando queremos cobrir todo e qualquer detalhe.

IMG_0781Rio de Janeiro (Foto: Ticiana Porto)

Uma boa foto requer uma composição boa. A forma deve ter rigor e riqueza. O conteúdo deve ter ressonância. Quase nunca conseguimos reunir isso tudo numa única imagem. Para compor é preciso simplificar: o que devo cortar? O que deve consistir nessa imagem? E muitas vezes gastamos muito tempo fazendo equações, sem que haja perda. Santa infantilidade… Para compor uma boa imagem é preciso saber perder: “Não se deve acumular esboços inúteis que atravancam a memória e prejudicam a nitidez do conjunto.”

photo 3Para compor, é preciso simplificar (Foto: TIciana Porto)

E voltamos ao olhar fotográfico, condição primeira e determinante para uma boa foto. É o olho que recorta o tema, que deve medir, avaliar, decidindo o momento do clique e a expressão da imagem. “Se quiser aplicar a proporção áurea, o fotógrafo tem que levar o compasso do olho.”

Ontem fiquei na seção de fotografia de uma livraria, me deliciando com as imagens. Sim, a sensação era de estar me alimentando daquele equilíbrio e lugares geométricos. Percebi que devo fazer isso mais vezes, lembrando quando Bresson diz que não se compõe gratuitamente, é preciso haver uma necessidade.

Veja mais fotos em @ticianaporto

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