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07/02/2013 11h50 - Atualizado em 07/02/2013 11h52

Com ajuda da Microsoft, Dell fechará capital. O que isso significa?

Rodrigo Ghedin
por
Para o TechTudo

A Dell deixará de ser uma empresa com ações negociadas na bolsa de valores e voltará a ser uma de capital fechado. O acordo, anunciado ontem, será orquestrado pela empresa de investimentos Silver Lake e pelo próprio Michael Dell, fundador e atual CEO. O que mudará com isso?

Dell na Times Square.Dell na Times Square (Reprodução/Flickr)

O negócio é de US$ 24,4 bilhões. Além do dinheiro da Silver Lake e de Michael Dell, completam o rol de compradores a empresa de investimentos desse, a MSD Capital, e a Microsoft, que entrou com US$ 2 bilhões. Espera-se que a transição seja concluída até o segundo trimestre fiscal de 2014, não sem antes ser aprovada por órgãos governamentais norte-americanos.

Para os consumidores, pelo menos em um primeiro momento nada mudará. A Dell continuará vendendo seus notebooks, computadores, workstations, servidores e serviços, como vem fazendo tem um bom tempo. Embora seja a terceira maior fabricante de computadores do mundo, atrás de Lenovo e HP, mesmo assim as contas não fecham. Culpa dos smartphones e tablets.

Não é de hoje que a vida da Dell, e não só dela mas de todas as demais fabricantes de computadores, anda difícil. O termo é quase clichê, mas a “era pós-PC” não dá sinais de cansaço e números comprovam que a tendência é que ela se fortifique mais ainda – tablets e smartphones continuam saindo alucinadamente, enquanto as vendas de notebooks e PCs estão em declínio há um bom tempo.

A Dell, que lançou o seu "iPod touch" anos antes da Apple fazê-lo com a linha de PDAs Axim, parece não ter muita sorte com timing e execução. O Axim estava à frente do seu tempo, mas não empolgava com o fraco Windows Mobile e outros problemas que, somados, tornavam a experiência bem ruim. O Streak 5 era um smartphone (ou foblet, se preferir) de 5” lançado dois anos antes da atual leva de foblets de 5”, capitaneada pelo HTC Butterfly, surgir. Se hoje todo mundo leva a sério smartphones gigantescos, na época o Streak 5 foi motivo de piada. E, claro, não vingou.

Não foi por falta de tentativa que a Dell fracassou nessas duas áreas tão importantes – ao longo dos últimos anos eles fizeram algumas investidas, como a própria linha Streak, os smartphones Venue e tablets –, mas não foi o suficiente. Os produtos, com Android e Windows Phone, não emplacaram. Em dezembro de 2012, a Dell se retirou oficialmente do segmento de celulares. Permeando tudo isso, como um urubu esperando a morte lenta e dolorosa da sua refeição finalmente acontecer, estavam os balanços financeiros trimestrais, exigência a toda empresa de capital aberto, que com resultados ruins causavam a ira de investidores e uma queda vertiginosa no seu valor de mercado. Em 2005, no auge da sua valorização, uma ação da Dell valia US$ 40. Agora, em 2013, a Dell pagará aos acionistas US$ 13,65 por ação, 25% acima do que elas custavam no dia 11 de janeiro, o último antes que rumores dessa reviravolta tomassem os noticiários.

O papel da Microsoft

Analistas dizem que foi para fugir dessa pressão com data marcada de Wall Street e defender o seu cargo que Michael Dell tomou essa direção. O fato de uma empresa de grande porte como a Dell fazer o caminho inverso, 25 anos depois de seu IPO, é curioso por si só, mas um detalhe nessa história chama ainda mais a atenção: os US$ 2 bilhões da Microsoft.

Dell XPS 12.Dell XPS 12 (Reprodução/Flickr)

“Por quê?”, é a pergunta que se faz por aí. Rapidamente surgiram comparações com o acordo da Microsoft com a Nokia, que tornou a fabricante finlandesa de celulares praticamente uma subsidiária da Microsoft. A Nokia ainda sofre para emplacar os smartphones Lumia, equipados com o Windows Phone, um histórico não muito animador para a Dell se, e esse é um grande “se”, a história dela com a Microsoft for parecida. Mas não parece ser o caso – antes mesmo do fechamento de capital a Dell já trabalhava pesadamente com produtos da Microsoft.

Especulações mais sensatas dizem que a intervenção da Microsoft na Dell é uma medida de proteção. O Windows 8, apesar de todo o esforço da Microsoft em tentar fazê-lo parecer um grande sucesso, enfrenta dificuldades para emplacar. A experiência completa com o sistema só é possível com telas sensíveis a toques e essas, hoje, custam caro. Para o consumidor isso se traduz em equipamentos caros e, seja aqui, seja nos Estados Unidos, todo mundo gosta (ou acaba precisando) de pagar pouco por seus gadgets. Entra aí o Chrome OS.

Sim, sim, é loucura, hoje, posicionar o Chrome OS como uma ameaça ao reinado do Windows. A penetração do sistema do Google é baixa. Mas as empresas estão experimentando e, mais importante, puxando para baixo os preços. Samsung, Acer, Lenovo e HP oferecem Chromebooks por menos de US$ 500. O mais barato, um Chromebook com processador ARM, da Samsung, sai por míseros US$ 249. Isso é muito, mas muito barato. E num momento pós PC, onde a importância e a relevância de notebooks se deterioram como nunca antes, e em alta velocidade, essa combinação de preço baixo + teclado físico é ameaçadora para o Windows e seus caros híbridos e ultrabooks.

Outra frente que a Microsoft pode estar tentando defender com essa aquisição é o seu pé firme no mercado corporativo. O Google (de novo) Apps é uma alternativa mais barata e totalmente voltada para a nuvem. Aqui, embora as duas empresas ainda não se equiparem em participação (a da Microsoft, ainda maior), estão mais parelhas. Tanto que a oferta do Google meio que forçou a Microsoft a criar um novo produto, o Office 365, que oferece Exchange, SharePoint e Lync na nuvem. Até então cada empresa interessada nesses produtos precisava ter a sua própria infraestrutura para usufruir deles.

A competição com o Google e startups focadas em atividades para as quais a Microsoft oferece soluções tende a se intensificar com o tempo. Windows, Office e soluções empresariais ainda são o ganha-pão da Microsoft, o que deixa os balanços financeiros trimestrais da empresa no azul. Estar próxima da Dell, que tem força no ambiente corporativo, reforça por tabela a presença da Microsoft lá.

O que muda para a Dell

Michael DellMichael Dell (Reprodução/Flickr)

A mudança mais significativa para a Dell será ter fôlego para pensar na “próxima grande coisa”. Trabalhar sob a pressão dos investidores é um tanto tenso, o temperamento imprevisível e agressivo da Bolsa é, por vezes, incompreensível – no último trimestre fiscal, por exemplo, a Apple bateu o recorde maior faturamento em um trimestre da história (US$ 54,5 bilhões) e, mesmo assim, suas ações fecharam o dia em queda de 10%. Na ânsia de agradar os investidores, a Dell se via obrigada a entregar produtos em pouco tempo, muitas vezes privilegiando a celeridade em detrimento da qualidade.

Agora não é preciso prestar contas a ninguém, não há pressão para colocar novos produtos à venda, nada parecido. A Dell está por sua conta e risco e, embora tem que enxergue nisso o começo do fim (a HP divulgou um release bem desanimador sobre a nova condição da rival), pode ser, também, um recomeço.

A Dell poderá gastar alguns meses a mais pensando em um novo computador, ou tablet revolucionário. Testar e testar e testar esses novos produtos, corrigindo falhas de projeto antes que eles cheguem às mãos do consumidor. Enxugar a sua linha de produtos e primar pela qualidade, que não falta quando eles se dispõem a fazer direito – o elogiado XPS 13 é prova disso. Enfim, só depende da própria Dell se reinventar.

Em 1997, quando a Apple estava à beira da falência, Michael Dell foi questionado sobre o que ele, se estivesse na posição de CEO da rival, faria. “O que eu faria? Fecharia [a Apple] e devolveria o dinheiro aos acionistas.” Mais de uma década depois, e com a Dell ainda longe, mas começando a flertar com a falência, ele fez exatamente isso. No mínimo, é um cara de palavra.

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  • Gabriel Filho
    2013-02-13T16:31:14

    Parabéns pelo ótimo texto.

  • Everton Celistre
    2013-02-07T14:27:57

    Dell falindo em 3,2,1...