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27/02/2014 17h58 - Atualizado em 27/02/2014 17h58

Bitcoin: o final da série em plena tormenta

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Encerrei a coluna anterior prometendo que ela seria a derradeira da série. E será.

O problema é que nesta última semana o universo Bitcoin voltou a efervescer como nunca se viu antes. E, nestes últimos dias, ocorreram fatos de tal magnitude que ameaçam a própria sobrevivência do sistema. Seja como for, promessa é promessa e cumprirei a minha. Mesmo porque, se não mudarmos de tema, esta coluna acabará se tornando uma resenha sobre bitcoins.

A questão é que, indo no popular: no mundo Bitcoin o bicho está pegando. Por isto esta coluna será um pouco mais extensa do que de costume.

Na semana passada vimos que, após suspender as transações externas com bitcoins, a maior bolsa de moedas da Internet, MtGox, havia admitido em um comunicado a seus clientes que a dita suspensão foi devida à ação de “hackers” que tinham detectado uma falha na segurança do sistema Bitcoin. Mas não identificou a natureza da falha.

Bitcoin: a moeda virtual (Foto: Divulgação)Bitcoin: a moeda virtual (Foto: Pond5)


Esta identificação apenas foi feita em comunicado posterior no qual MtGox dá duas explicações. Uma para técnicos (que poderia ser consultada no dito comunicado caso ainda estivesse no ar), outra para leigos, que vai aqui transcrita: “A bug in the bitcoin software makes it possible for someone to use the Bitcoin network to alter transaction details to make it seem like a sending of bitcoins to a bitcoin wallet did not occur when in fact it did occur. Since the transaction appears as if it has not proceeded correctly, the bitcoins may be resent” (um “bug” no software Bitcoin possibilita que a rede Bitcoin seja usada por terceiros para alterar detalhes de transações de forma a fazer parecer que o envio de bitcoins de uma carteira para outra não ocorreu, quando de fato havia ocorrido. Como a transação aparece como se não tivesse sido processada corretamente, as bitcoins podem ser enviadas novamente).

A cotação da moeda, que após começar a se estabilizar depois de uma queda de um patamar ligeiramente acima dos US$ 800 em 04/02 até um valor ligeiramente abaixo de US$ 700 em 08/02 devido ao anúncio do Governo da Rússia declarando “potencialmente suspeitas” as transações efetuadas com bitcoins, após o anúncio de MtGox – que, afinal, punha em dúvida toda a segurança do próprio sistema Bitcoin, caiu novamente até US$ 600 em 13/02, oscilou e acabou, aparentemente, por se estabilizar ligeiramente acima disto por cerca de uma semana (veja gráfico atualizado no site da CoinDesk; note que, embora por padrão o gráfico mostre apenas a variação de um dia, clicando no local adequado é possível encurtar ou estender o período desde uma hora até todos os anos da existência da moeda; sugiro clicar no “1y” para acompanhar a variação em um ano).

Esta estabilização, que parecia pôr fim à crise, foi devida ao comunicado da MtGox divulgado na segunda-feira da semana passada, 17/02, se desculpando pelos eventuais incômodos causados pela suspensão e anunciando que conseguiu implementar uma solução para o problema que permitiria retomar as transações e mitigar os danos. A solução, alegadamente obtida em conjunto com a bolsa BlockChain e a Bitcoin Foundation, consistiu na inclusão de um identificador único que permite detectar se uma transação foi alterada, impedindo a fraude. Finalmente, o comunicado informava que a retomada das transações no MtGox seria reiniciada paulatinamente, já que a implementação das novas medidas de segurança exigia a reindexação das cerca de 32 milhões de entradas da cadeia Bitcoin e a implementação completa tanto da nova identificação quanto de uma nova linha de retiradas. Além disto, o anúncio informou que foi implementada uma simples, porém efetiva, medida de detecção de fraudes: cada vez que uma conta é acessada, uma mensagem de correio eletrônico é enviada para o endereço registrado do proprietário.

Na data da publicação da coluna anterior parecia que, apesar do baque, o sistema Bitcoin seguiria firme e forte.

Mas não. Foi justamente a partir de então que ele quase desabou.

O primeiro golpe foi a divulgação de que o problema não se restringia ao MtGox: ao que tudo indica mais alguém tirou proveito do “bug” do sistema Bitcoin.

O site “Silk Road”, que adota medidas que impedem a identificação de seus visitantes e por isto é usado para realização de negócios escusos, inclusive e principalmente tráfico de drogas (segundo a Wikipedia, era conhecido como “a Amazon das drogas ilegais” ou “o eBay das drogas”), fechado em 2013 pelo FBI americano mas recriado em novembro passado com os mesmos objetivos e finalidades com o nome “Silk Road 2.0”, anunciou que também havia sido vítima dos “hackers” e dele foram subtraídos bitcoins no valor de cerca de 2,7 milhões de dólares americanos. Um negócio um bocado conveniente, diga-se de passagem, já que a maior parte deste valor pertencia a depositantes. Tão conveniente que cada vez mais parece ter sido um golpe arquitetado pelos próprios responsáveis pelo Silk Road 2.0 contra seus “clientes” (veja comentários neste artigo).

Mas sendo ou não golpe, o anúncio agitou o mercado. Que, por fim, entrou em pânico com um segundo golpe, quase devastador: a bancarrota do MtGox.

Antes, convém salientar que o MtGox nada tinha a ver com o sistema Bitcoin. MtGox era apenas uma das muitas bolsas de negociação de bitcoins (e outras moedas virtuais) e o sistema Bitcoin é formado por uma imensa rede cujos nós se espalham por todo o mundo. Mas, indiscutivelmente, havia uma forte ligação entre ambos, já que a maioria das transações em bitcoins era feita no MtGox que por sua vez era a maior bolsa que negociava a moeda. Portanto, embora em tese nada que ocorresse com o MtGox afetaria diretamente o sistema Bitcoin, em se tratando de um ativo volátil cuja cotação flutua ao sabor dos humores do mercado, é claro que na prática havia uma forte interdependência.

Pois bem: nesta última segunda-feira, 24/02, o MtGox desapareceu. Sumiu. Escafedeu-se do mercado.

Uma visita à sua página mostra (até a data de publicação desta coluna, 27/02) apenas o que se vê na Figura 1 – na qual o comunicado mais recente, que em cima a página, foi postado ontem, 26/02, por seu proprietário Mark Karpeles nos seguintes termos: “Caros clientes MtGox: considerando as especulações sobre MtGox e seu futuro eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para reassegurar a todos que eu ainda estou no Japão e trabalhando duro com o apoio de diferentes parceiros para encontrar uma solução para os nossos recentes problemas. Além disto eu gostaria de pedir a todos que se abstenham de fazer perguntas a nossa equipe: seus membros foram instruídos a não fornecer qualquer resposta ou informação. Por favor, visitem esta página para futuras comunicações e atualizações”.

GPC20140227_1Figura 1 - Site da MtGox com comunicado (Foto: Reprodução)

O efeito, naturalmente, foi desastroso. O mercado entrou em polvorosa. A cotação da moeda, que andava muito próxima dos US$ 600 na manhã de 24/02, desabou para cerca de US$ 450 na manhã do dia seguinte. Uma queda de 25% em um dia.

Parecia que todo o sistema estava desabando.

A MtGox continua desaparecida do mercado e, apesar do comunicado em sua página, tudo indica que a ele não retornará. E a razão aparente é que descobriu-se que a fragilidade recentemente detectada que provocou a suspensão das transações há duas semanas já vinha sendo explorada há bastante tempo sem ser percebida. E que ao longo deste período seus responsáveis teriam desviado do MtGox mais de 740 mil bitcoins, que ao preço corrente (a cotação no momento em que esta coluna está sendo escrita, na tarde de 27/02, é de US$ 575,35) corresponde a um prejuízo superior a 425 milhões de dólares americanos, muito maior que o total de ativos da empresa.

Houve protestos em todo o mundo, o paradeiro de Karpeles é desconhecido (por isto ele afirma em seu comunicado que “ainda está no Japão”), a MtGox foi desligada da Bitcoin Foundation e a confusão generalizou-se. Não dá para entrar em detalhes, mas você poderá encontrá-los em artigos da Reuters, da AP publicado em Yahoo News, da BBC News e, por último mas não menos importante, daqui mesmo na Globo.Com (este último, naturalmente, em português).

Tudo indicava que o sistema não sobreviveria.

Pois não é que a cotação reagiu?

Dos US$ 450, fundo do poço atingido anteontem, ela subiu até quase US$ 600 (para ser exato: US$ 594,33 na manhã de ontem) e a partir daí tem flutuado sempre acima dos US$ 500 e abaixo dos US$ 600, em uma aparente estabilidade. Veja a variação na última semana na Figura 2.

GPC20140227_2Figura 2 - Variação de bitcoin na última semana (Foto: Reprodução)

Como diria o folclórico personagem americano “Yogi” Berra, “fazer previsões é muito difícil, especialmente quando são sobre o futuro”. Mas, considerando que quem “quebrou” foi apenas uma bolsa de moedas, não o sistema, que existem quase 150 instituições (e quase dois mil membros individuais) ligados à Bitcoin Foundation que, neste momento, lutam denodadamente para sua sobrevivência, que o sistema Bitcoin tem demonstrado uma notável resiliência à crises, que parece que a cotação tende a se estabilizar nas próximas semanas e que, afinal, quem há exatamente seis meses investiu em bitcoins a US$ 117,45 cada ainda desfruta hoje de um lucro líquido próximo aos 400% apesar da crise, algo me diz que ele escapará de mais uma. 

Para fechar minha opinião 

Esta série sobre o sistema Bitcoin deveria ter sido bem mais curta. Porém, quanto mais eu escarafunchava o tema garimpando informações para escrevê-la, mais fatos interessantes, surpreendentes e fascinantes afloravam, o que a encompridou significativamente. E mais: com as coisas no pé em que estão, se eu continuar a escarafunchar, mais detalhes interessantes aparecerão, ela se tornará infindável e eu vou acabar virando um “colunista de bitcoin”. Então, decidi encerrá-la por aqui. Se você continua ávido por informações sobre o tema, poderá consultar as dezenas de URLs citadas nas diversas colunas da série ou efetuar pesquisas no Google com o termo “bitcoin”.

Para fechar, então, minha opinião sobre o sistema Bitcoin:

Antes e acima de tudo, tenho uma forte impressão que, caso o sistema Bitcoin consiga superar a crise atual e estabilizar sua cotação mais ou menos na faixa em que está agora, dificilmente alguma coisa poderá derrubá-lo no futuro. Penso que neste exato momento o sistema está encarando seu teste definitivo.

Isto posto, e partindo do princípio que ele venha a atravessar esta tormenta emergindo dela ainda com boa saúde, o que ocorrerá depois?

Se o sistema Bitcoin será ou não o meio de pagamento do futuro, não sei. Ele apresenta vantagens e desvantagens e tem contra si a ação dos diversos governos nacionais, que não estão nem um pouco satisfeitos com o surgimento de um sistema monetário paralelo sobre o qual eles não têm controle, dos bancos, que temem sua concorrência e não são adversários desprezíveis, e dos economistas e colunistas financeiros que são quase unanimemente contra: cada queda brusca da cotação é saudada por eles como a “falência do sistema”. Ora, como os economistas constituem a única classe que está sempre meio certa, pois cada vez que opinam sobre algo metade e à favor e a outra contra, esta unanimidade contra me parece um bom sinal a favor do sistema Bitcoin.

Outro argumento não desprezível a favor é sua notável capacidade de sobreviver a crises. Quem acompanhar a evolução da cotação nestes pouco mais de quatro anos de vida da moeda, especialmente a partir de meados de 2012 até o presente, notará que, embora oscile, sempre cresce. Explicando melhor: a cotação se mantém em um dado patamar, repentinamente sobe por alguma razão, não se sustenta lá no alto e cai. Mas, ao cair, acaba se estabilizando em um nível bastante superior ao do patamar anterior. E este é um fator a favor. Se o mesmo ocorrer depois da crise que ora está sendo enfrentada, o futuro do sistema Bitcoin me parece garantido.

O problema é que esta contínua valorização pode ter um efeito perverso. Porque se por acaso, como eu acredito, ficar claro que a cotação tende a subir a médio e longo prazo, as pessoas tenderão a entesourar a moeda e somente se disporão a vendê-la quando muito necessário. O que virá a dificultar seu uso como moeda corrente.

Senão, vejamos: em outubro de 2010 um bitcoin valia dez centavos de dólar americano, aproximadamente 25 centavos de Real. Você já imaginou como há de se sentir hoje um indivíduo que, naquela época, tivesse tirado de sua carteira virtual cem bitcoins para comprar uma pizza média de muçarela ao se dar conta de que, se tivesse guardado seu dindim, teria hoje, apesar da crise, pouco mais de US$ 57 mil? Ou – o que vem a dar no mesmo – que pagou, em bitcoins de hoje, 57 mil dólares americanos por uma pizza média de muçarela? Este cara dificilmente voltará a usar seus bitcoins para efetuar transações comerciais rotineiras. Ou a comer pizza…

A tendência, então, será entesourar as moedas.

Ocorre que moedas entesouradas não movimentam o comércio – e o comércio é o único meio pelo qual uma moeda se firma no mercado. E, no que diz respeito ao bitcoin, isto apenas ocorrerá quando sua cotação se estabilizar por um longo período. O que não é a tendência atual.

Então o que vai acontecer com o sistema Bitcoin a partir de 2040, quando a derradeira moeda for emitida?

Eu poderia dizer qualquer coisa, já que com a idade que tenho, jamais poderei ser cobrado por uma previsão errada.

Mas a única resposta honesta que tenho é: “não sei”.

E bem que gostaria de saber…

B. Piropo

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  • Marcos Júnior
    2014-02-28T13:18:27

    é 2140 e não 2040