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19/09/2014 09h09 - Atualizado em 19/09/2014 09h12

Prêmio Darwin 2014

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Todo ano são concedidos alguns prêmios Darwin e eu costumo citar os mais relevantes. São exemplos que ilustram fielmente uma característica inerente à nossa espécie cuja crescente magnitude não cessa de me causar admiração: a estupidez. Tanto assim que, na página de abertura do sítio “The Darwin Awards: In Search Of Smart” (de onde foram extraídos os exemplos abaixo, cujos direitos autorais pertencem, portanto, à responsável por sua compilação, Wendy Northcutt) consta a afirmação: “Human Intelligence is MIA, Presumed Dead”. “MIA” é o acrônimo da expressão do inglês: “perdido em combate”, portanto a frase significa “A inteligência humana foi perdida em combate. Presumivelmente está morta”. O que faz todo o sentido.

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Relendo o parágrafo anterior, me ocorreu que ele pode dar a impressão que o Darwin Award é um galardão concedido à estupidez. Não é, mesmo porque a estupidez não merece recompensa ou reconhecimento. Um prêmio desta magnitude só é dado a quem é responsável por haver desempenhado uma ação relevante que trouxe benefícios a alguém. E é justamente este o caso do prêmio Darwin: o benefício recai sobre toda a humanidade. E a ação consiste em provocar a remoção de seus próprios genes do “pool” de material genético da nossa espécie.

Trocando em miúdos e usando uma frase colhida também no sítio dedicado ao prêmio, livremente traduzida: “Em memória de Charles Darwin, o prêmio Darwin presta homenagem aos indivíduos que protegem nosso ‘pool’ de genes através do supremo sacrifício de suas vidas. Os galardoados eliminaram a si mesmo do rol dos vivos de uma forma extraordinariamente idiota, portanto aumentando as chances de nossa espécie de sobrevivência a longo prazo”. Simplificando ainda mais: para se capacitar a receber o Darwin Award é preciso provocar a própria morte de uma forma tão estúpida que o fato de eliminar seus próprios genes pode ser considerado um benefício para toda a espécie.

O que leva à conclusão elementar que, via de regra (a única exceção que conheço ocorreu justamente este ano, como logo veremos) a concessão do prêmio é póstuma.

GPC20140919_1Figura 1: o padre baloneiro

Sempre que menciono o Darwin Award cito um exemplo antigo por duas razões. A primeira é porque se trata de um exemplo bastante esclarecedor da forma pela qual se pode qualificar como concorrente ao laurel. A segunda, por haver concedido ao Brasil a duvidosa honra de integrar a lista de países onde há ganhadores do prêmio. Trata-se da façanha do “Padre Baloneiro” da cidade portuária de Paranaguá, Paraná que, em abril de 2008, para arrecadar recursos para uma causa beneficente, ascendeu ao céu pela primeira vez amarrando uma cadeira flutuante a um punhado de balões inflados com gás hélio, vestiu um colete salva-vidas, carregou consigo um telefone celular e um GPS, sentou-se na cadeira e cortou as amarras dos balões com o intuito de bater o recorde de permanência no ar suspenso em balões. O tempo fechou, o vento mudou e o reverendo tomou o rumo do mar. Quando constatou que estava perdido, usou o celular para pedir socorro. Solicitaram então que ele consultasse o GPS para informar suas coordenadas para que o socorro fosse providenciado. E, imensamente surpresos, ouviram o padre responder que não sabia usar o GPS. Durante as semanas seguintes cachos de balões coloridos apareceram flutuando ao longo da costa do Paraná até que, finalmente, o corpo do reverendo foi encontrado, o que levou à constatação que ele ascendera ao céu pela segunda vez. Considerando que os padres católicos fazem voto de castidade o que, pelo menos em tese, os impede de procriar, questionou-se o fato de que, já tendo voluntariamente removido seus genes do pool da espécie, ele não estaria qualificado para receber o Darwin Award. A conclusão foi mais que favorável: considerando que, ao prestar o voto de castidade e empreender a aventura dos balões, ele removeu seus genes não uma, mas duas vezes do pool de genes da humanidade, ele mereceu a concessão, pela primeira vez, de um duplo Darwin Award.

Mas vamos ao que interessa: os laureados de 2014 e as façanhas que os levou a ganhar o prêmio.

O primeiro deles também foi um Darwin Award duplo, mas não no sentido daquele atribuído a nosso padre baloneiro. Este foi duplo por ser compartilhado por dois laureados que decidiram empreender simultaneamente um teste de coragem na estação ferroviária de Roterdã, Holanda. No início da noite de um sábado, com a estação lotada pelos torcedores que retornavam de uma partida de futebol, os dois cavalheiros apearam da plataforma diretamente sobre o leito da ferrovia. Um deles deitou-se entre os trilhos, longitudinalmente, para provar que sairia ileso após o trem passar acima de seu corpo sem tocá-lo. O segundo, menos confiante, ajoelhou-se e se encostou à parede da plataforma, com a cabeça abaixada, para demonstrar que cabia no vão entre ela e o comboio. O trem passou pontualmente no horário e na costumeira velocidade de 130 km/h. Infelizmente, era mais baixo e mais largo do que supunham os dois laureados com o prêmio. A remoção de seus restos mortais e a limpeza do lugar interrompeu o tráfego ferroviário por horas.

GPC20140919_2Figura 2: Knights Tower

Curiosamente, a segunda concessão do galardão em 2014 também foi dupla. Os laureados foram um casal de adolescentes que participavam de uma festa em um dos apartamentos do sexto andar do Knights Tower, um conhecido edifício situado à margem do Rio Tâmisa em South London. Consta que as luzes da cidade refletidas na superfície do rio e toda a ambientação local criam um efeito romântico irresistível e, segundo reportam os vizinhos, é comum avistar casais nos balcões em atividades amorosas, digamos, muito mais ardentes do que seria permissível em público. Pois em uma cálida noite de verão de junho passado, os dois supracitados jovens foram vistos no balcão do apartamento praticando jogos amorosos particularmente ardentes. Em um dado momento, o mancebo levantou a donzela (!?) para que ela se sentasse sobre o peitoril do balcão, de costas para a rua, enquanto, segundo uma testemunha, o dito cavalheiro postou-se diretamente em frente dela “fazendo movimentos ritmados para a frente e para trás”. Em um dado momento, o excesso de entusiasmo chegou a tal ponto que um desses movimentos particularmente bruscos projetou o casal para fora do balcão, o que resultou em uma queda fatal para ambos. A responsável pela compilação do prêmio Darwin classificou o fato como “controle de natalidade por meios naturais” e concedeu o laurel a ambos. O feito foi registrado pelo jornal Capital Bay, de onde foi obtida a foto do Knights Tower que aparece na Figura 2.

E, por estranho que pareça, também o terceiro prêmio Darwin concedido este ano foi duplo. Quem fez por merecer a honraria foram Leornad Tonui e Michael Shikuku, dois jovens quenianos. Em abril passado, visitando a reserva animal da floresta de Kiptagich, um parque de proteção dos elefantes onde os animais andam soltos em seu ambiente natural, os garotos conseguiram se aproximar de um deles e passaram a tirar fotos junto ao animal. A cada foto, agradeciam com pancadinhas afetuosas na tromba e nas presas do bicho. Que, a páginas tantas, cansado daquelas pancadas e denotando uma tão absoluta falta de sensibilidade que não lhe deixou perceber que se tratava de um ato de afeto, investiu contra os jovens, levantando-os com a tromba e os arremessando longe. Depois disto, ainda não satisfeito, pisoteou-os até a morte. Segundo Wendy Northcutt eles violaram uma regra atribuída a Charles Darwin que diz: “ao tirar fotos junto a animais, não se esqueça do Photoshop”. E foram honrados com o galardão.

O próximo prêmio Darwin de 2014 foi mais que duplo: foi concedido a sete pessoas da pequena cidade polonesa de Karczówka, de apenas 160 habitantes (embora eu discorde veementemente da concessão como veremos adiante). A primeira foi o motorista de um caminhão limpa fossa, um veículo especializado na remoção de lodo de fossas sanitárias, que realizava seu trabalho em uma grande fossa que tratava resíduos de uma criação de suínos. O rapaz, intoxicado pelos gases emanados da fossa, perdeu a consciência e caiu dentro dela, morrendo em minutos. Seis outras pessoas, que pularam uma após a outra para salvar as anteriores, tiveram o mesmo destino, o que reduziu em 5% a população da cidade.

[Agora falando sério, um adendo incluído por meu alter-ego, o engenheiro sanitarista: este tipo de acidente é mais comum do que parece e definitivamente não é fruto da estupidez das vítimas, mas de sua falta de conhecimento técnico, o que é natural em uma cidade de tão pequeno porte. O gás que provocou a morte das vítimas é o H2S, ou gás sulfídrico, normalmente presente – em pequenas concentrações – nos esgotos, resultante da putrefação da matéria orgânica e conhecido pelo seu odor desagradável. O que leva a imaginar como as pessoas podem se expor a um gás mortífero se é tão fácil identificar sua presença pelo odor. Ocorre que o H2S só exerce sua letalidade quando em concentração de 12% ou superior na atmosfera e, nestas condições, seus primeiros efeitos afetam as papilas olfativas das vítimas, impedindo que elas percebam o cheiro. Como o gás é incolor, torna-se apenas perceptível pelo odor e não se nota sua presença antes que comece a  exercer seus efeitos. Resultado: quando uma pessoa entra em um ambiente onde se acumulou gás sulfídrico em alta concentração, perde a consciência quase imediatamente e a morte se manifesta em pouco mais de três minutos. Como não há causa aparente, a conclusão natural de um amigo ou colega de trabalho que presencie o fato é que se trata de um mal súbito e o impulso imediato é prestar socorro, o que faz com que seja a próxima vítima. As sete vítimas de Karczówka apenas sofreram um infausto e lamentável acidente que poderia acontecer a qualquer pessoa, mesmo às mais brilhantes, e decididamente não são merecedoras do prêmio Darwin pois nada fizeram que denotasse estupidez, apenas seguiram o impulso natural de ajudar seu semelhante. Acreditem, eu sei do que estou falando. Por duas vezes já perdi colegas de trabalho, profissionais experientes e com anos de prática, exatamente nestas circunstâncias. Na última vez, dois faleceram e o terceiro, percebendo a tempo do que se tratava devido a seu treinamento em segurança do trabalho, conseguiu escapar a tempo, porém bastante intoxicado. É claro que o prêmio Darwin não é coisa para ser levada a sério, mas ainda assim concedê-lo às vítimas do acidente de Karczówka é uma grave injustiça. Pronto. Daqui para a frente reassume o B. Piropo que raramente fala sério].

Vamos então ao quinto e derradeiro prêmio Darwin até agora concedido este ano. Um caso muito especial porque sua concessão, embora mais que merecida, não foi póstuma: o laureado continua vivo – apesar de haver definitivamente removido seus genes do pool da espécie.

O galardeado não foi identificado – por razões óbvias, como logo se verá – e o fato foi relatado por uma paramédica de Londres que fazia parte de uma equipe de bombeiros chamada a um pronto-socorro local para fazer um atendimento que, se não é rotineiro, certamente é relativamente comum: um cavalheiro, objetivando prolongar seu estado de ereção, introduziu seu órgão sexual em um anel (ou teria inserido um anel em seu órgão sexual? Não importa, acredito que vocês tenham entendido a situação) e o objeto precisava ser removido. Segundo a paramédica, geralmente a operação – no sentido lato e no estrito – é fácil e rápida: basta utilizar uma das ferramentas de corte de metal que os bombeiros dispõem e o problema se resolve com pequenos danos, um forte beliscão e um grande susto. Mas no caso deste paciente em particular, a coisa era bem mais complicada. Primeiro, pelo estado da, digamos, área afetada: todos os seus, ahn, componentes estavam extremamente inchados e com uma cor púrpura, quase negra – provavelmente resultante do fato do cavalheiro haver cometido o ato imprudente já há três dias e até então evitado comparecer ao hospital por um compreensível sentimento de vergonha e uma incompreensível esperança de que o problema se resolvesse sozinho. Segundo porque o anel utilizado na empreitada, além de bastante grosso, era de titânio. Um metal cuja dureza e resistência ao corte desafiou todas as ferramentas da equipe dos bombeiros. Não havendo como removê-lo, a solução foi remover as partes afetadas, ou seja, a completa castração do paciente. O que, evidentemente, mesmo estando o cavalheiro ainda vivo, tem o efeito prático de remover seus genes do pool da espécie. O que o qualifica plenamente para receber o Darwin Award. Presumivelmente, o indivíduo em questão é o único laureado pelo prêmio Darwin que sobreviveu após a façanha que lhe garantiu o laurel.

No ano que vem voltaremos a falar no prêmio Darwin.

Mas antes disso faremos o breve resumo anual da cerimônia de entrega dos troféus do prêmio Ig Nobel, realizada ontem à noite, 18 de setembro, e transmitida em tempo real para todo o planeta, dada a importância da premiação.

Não conhece o Ig Nobel? Pois não sabe o que está perdendo.

Aguarde até a próxima semana.

B. Piropo

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