Computadores

13/03/2015 08h38 - Atualizado em 15/09/2016 11h37

Montando MACs

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Há exatamente um mês escrevi a coluna “Micro Montado” sobre a velha e quase desaparecida arte de montar computadores.

Era mais uma dessas colunas despretensiosas que de quando em vez escrevo sobre “coisas de antigamente” para que os novos usuários tomem conhecimento de como era a vida de micreiro há duas ou três décadas. Nada de muito especial.

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Pois bem, para minha surpresa a coluna repercutiu um bocado.

Somente aqui postaram 14 comentários, um número bem acima da média. Pois – e essa é mais uma das diferenças entre as coisas de hoje e de antigamente – atualmente as colunas e artigos repercutem mais nas redes sociais que no local onde foram escritas. E não somente a coluna foi compartilhada por sete leitores em uma destas redes como cada um destes compartilhamentos gerou uma penca de comentários. Enfim, como dizia o velho malandro dos tempos de antanho: “o pessoal gostaram…”

Os micros a que eu me referia na coluna eram da linha PC, naturalmente. Da linha Mac eu sequer sabia que era viável montar. Mesmo porque, minha familiaridade com ela é nula.

GPC20150313_1Montar micros da linha PC x Macs

Nunca tive um dispositivo da Apple. Isto vale para micros, telefones, tabletes e mais toda esta parafernália que a Apple passou a fornecer nos últimos anos.

E não é uma questão de qualidade. Quero deixar claro que todas as notícias que tenho de usuários de dispositivos Apple dão conta que sua qualidade é excelente. Minha aversão, portanto, não tem quaisquer bases técnicas. É meramente uma questão de simpatia.

 Eu acho (o pronome pessoal na primeira pessoa do singular que inicia esta frase se refere a mim, pessoalmente, B. Piropo; e o “acho” que o sucede significa que o que vem adiante após estes parênteses é tão somente uma opinião; deixo isso claro porque, em se tratando de algo estritamente pessoal baseado nas minhas impressões colhidas ao longo destas três décadas de estreito contato com computadores pessoais e seus usuários pode até, quem sabe, não ser verdadeiro; mas é indiscutível, já que tenho direito a minhas opiniões que merecem ser tratadas com o mesmo respeito com que trato as opiniões alheias) a Apple uma empresa profundamente antipática, elitista e fechada.

Eu não me considero autoridade no assunto mas estou convicto que o que conheço sobre computadores me permite saber exatamente o que eu quero e não consigo concordar com a afirmação de Steve Jobs que “não se pode simplesmente perguntar ao freguês o que ele deseja e então tentar dar-lhe o que quer” (“You can’t just ask customers what they want and then try to give that to them” – entrevista de Jobs à Inc Magazine em 1989). Assim, para mim, não serve.

Porém – e voltando a ressaltar que se trata de uma postura absolutamente pessoal que não diz respeito a ninguém senão a mim – eu cultivo uma velha e crescente antipatia pela Apple e seus produtos, e justamente por reconhecer que antipatia é um sentimento essencialmente pessoal e que nada tem com as qualidades dos produtos da empresa, evito escrever sobre a Apple e divulgar qualquer opinião sobre seus produtos por saber que a opinião seria inevitavelmente contaminada por esta antipatia e não quero ser injusto com a empresa. Mas a impossibilidade de alterar as características básicas de um Mac, como eu faço frequentemente com os PCs que monto, e de agregar novas funções não é uma opinião, é um fato, e para mim argumento suficiente para que eu (repare novamente no pronome pessoal) me recuse a usá-lo.

Mas por que, de repente, esta diatribe contra os Macs?

Bem, é que recebi esta semana uma mensagem de um leitor anônimo que achei conveniente divulgar. Em princípio não costumo divulgar opiniões anônimas – na verdade, tanto quanto me é dado recordar, esta é a primeira vez que o faço – porém decidi abrir uma exceção por achar que neste caso as razões para o anonimato são justificáveis como logo vocês perceberão.

Trata-se de um leitor que leu a coluna sobre montagem de micros e decidiu comentá-la, como muitos outros leitores o fizeram. A diferença, como vocês verão, é que este monta Macs.

Ora, montar um computador compatível com um Mac viola um caminhão de direitos autorais e de propriedade intelectual, portanto é uma atividade ilegal.

Então como posso eu publicar um comentário sobre esta atividade?

Para começar, o leitor anônimo apenas comenta que monta seus micros Mac compatíveis. Ele não ensina a montá-los, não revela onde comprar os componentes nem divulga os indispensáveis ajustes que devem ser feitos para que o trambolho funcione. Em suma: a leitura de seu comentário não fornece qualquer indicação prática sobre como montar o micro. Nela ele apenas menciona que montou um deles e dá suas razões para fazê-lo (que, como se verá, são típicas dos admiradores dos produtos Apple).

Por outro lado, divulgar que se pode montar um Mac compatível não chega a ser uma apologia a uma atividade ilegal, já que desde que a Apple passou a usar os processadores da Intel esses clones se tornaram comuns e já ganharam até uma designação própria: “hackintosh”.

Então, deixemos de delongas e vamos à íntegra do comentário de nosso leitor anônimo.

Deixei de montar micros há alguns anos, mais ou menos na mesma época que deixei de usar o Windows. Adotei a plataforma Apple, com seus Macbooks, iPhones, iPads e outras bugigangas que se compram prontas, duram muito tempo e são super-eficientes em suas tarefas. Porém, senti falta de um desktop e infelizmente a Apple não disponibiliza algo dentro das minhas expectativas.

A linha de iMacs não me interessava porque eu já tinha fantásticos monitores e não precisava de um desktop que já viesse com monitor. A linha Mac Mini, teoricamente mais indicada, era limitada demais para minhas necessidades e quase não suporta upgrades, vícios daqueles que montavam PCs. E a linha Mac Pro, apesar de fantástica e na medida para mim, custa no Brasil o preço de um automóvel popular. Não me restou outra alternativa a não ser montar um Mac, tal como se montava PCs no passado, escolhendo cada componente cuidadosamente para garantir a compatibilidade com os sistemas oficiais da Apple.

Os chamados “Hackintoshes”, nome que se dá aos Mac Intoshes caseiros, não deixam nada a dever em relação aos oficiais, mas requerem uma escala de compreensão do sistema muito maior do que a exigida na montagem de PCs tradicionais.

Junta-se um conjunto de peças praticamente compatíveis, mais algumas vindas de produtos Apple reais, como os módulos de infravermelho e bluetooth, altera-se os device-ids (códigos pelos quais cada hardware existente é reconhecido pelos sistemas operacionais) de alguns componentes para serem reconhecidos como originais Apple, acrescenta-se um bootloader capaz de fazer a ponte entre a velha BIOS (mesmo as novas UEFI) e o mundo proprietário da Apple, altera-se alguns valores nas tabelas DSDT e SSDT (tabelas do firmware do hardware) para assegurar o correto funcionamento de alguns componentes, como o Power Management da CPU Intel, e com mais alguns truques envolvendo registros na memória e alteração de endereços acaba-se com algo muito próximo de um Apple original. Muito próximo MESMO!

Aos que lamentam a perda do romantismo, o fim do hobby prazeroso que era montar PCs, a montagem de hackintoshes eleva essa prática a outro nível. O prazer obtido em atender uma ligação telefônica no desktop, através da interface “Handoff” que conecta os iPhones aos iMacs via bluetooth proprietário da Apple ou de enviar um SMS pelo desktop sabendo que todas as interações possíveis em um Mac real foram lindamente replicadas naquele conjunto de peças compradas na rua, ou fazer um update oficial do sistema operacional sem se preocupar se alguma coisa vai deixar de funcionar, ou ainda fazer um Airdrop entre seu iPad e seu Hackintosh, sabendo que até nas entranhas dos mais variados dispositivos Apple aquele grupo de peças que você montou em casa é efetivamente reconhecido como um produto Apple oficial ativado em sua conta, isso meus amigos, supera qualquer desafio que eu possa ter tido quando montava meus PCs Windows.”

Confesso que já tinha conhecimento da possibilidade de montar micros Mac compatíveis, mas o depoimento de meu anônimo leitor me surpreendeu. Primeiro, porque pensei que fosse muito mais fácil e pelo que li a tarefa exige um bocado de conhecimento sobre a arquitetura interna dos dispositivos da linha Apple. Depois porque não havia me dado conta que o nível de prazer proporcionado pela agradável sensação de ver funcionar pela primeira vez o trambolho montado talvez seja ainda maior que o proporcionado pela montagem de um PC, já que o grau de dificuldade é bem mais elevado – e quanto mais difícil a missão, maior o prazer em cumpri-la.

Pois é isso. Meu leitor anônimo fecha sua mensagem com o parágrafo:

Esse comentário, junto com outros sobre a montagem de dispositivos baseados em Rapsberry Pi ou Arduino, pode dar uma visão diferente para o tema “Montador de PCs”. Na pratica, continua-se montando computadores, mas não são PCs”.

Pois não é que ele tem razão? (Para quem não sabe, Raspberry Pi e Arduino são pequenas placas de circuito equipadas com um microprocessador e que podem ser configuradas como controladores e até mesmo como pequenos computadores).

Aconselhar a quem sente falta da velha arte de montar micros a começar a fabricar “hackintoshes” não devo, por ser ilegal. Mas o mundo dos Arduinos e Raspberries abre possibilidades mais que interessantes…

B. Piropo

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populares

  • Andre Junqueira
    2015-03-17T15:58:13

    Mas é o Raspberry Pi a grande sensação do momento. Para quem não sabe, é possível encomendar um na Amazon e despachá-lo para o Brasil, sem frete adicional se for escolhido um fornecedor asiático (da lista de fornecedores da Amazon). O Raspberry Pi 2 tem compatibilidade com Linux e com Windows 10, e acredito que você Piropo se sairia muito bem descobrindo o que é possível fazer com esta nova plataforma. Assunto é que não falta para os futuros montadores de micro-pcs.

  • Andre Junqueira
    2015-03-17T15:57:58

    Sobre a questão da legalidade do sistema Apple, devo dizer que este se assenta em grande parte sobre código Open Source, mais ou menos como acontece com o Android. Há uma espécie de "troca" de interesses e talvez por isso mesmo as pessoas se sintam tão à vontade para burlar a lei. "Lei" que tem mais fundamento nas estratégias de marketing do que propriamente na proteção intelectual, caso contrário o corpo jurídico da Apple há muito teria exterminado os milhares de sites e forums que ensinam a montar um mac.

  • Andre Junqueira
    2015-03-17T15:57:39

    Olá Piropo, Feliz de encontrá-lo neste site, após sua longa temporada no ForumPcs. Sobre a questão da montagem de micros compartilho seu entusiasmo. Sobre o Hacintosh, estou neste momento postando de um, um pouco mais, digamos, ousado, pois desmontei um gabinete MacPro da própria Apple e montei este mac "alternativo" dentro dele, com as devidas adaptações, de modo que o trambolho é e não é um verdadeiro Mac.

  • Juliano Olivette
    2015-03-13T22:34:11

    Interessante e desafiador! Mas também tenho uma aversão à família Apple, pra não dizer que não tenho nada, comprei a algum tempo um iPad Air, que uso basicamente para ler jornais...

  • Guilherme Ferreira
    2015-03-13T09:25:17

    ta e daí?

  • Cristiano Scalamato
    2015-03-13T11:10:38

    Ainda monto meus PCs. Ainda dou manutenção nas máquinas de amigos, sejam elas notebooks ou desktops, mesmo não sendo meu "carro-chefe" (trabalho como Administrador de Redes em uma empresa). Já instalei diversos Hackintoshs virtuais para amigos, com curiosidade de utilizar o sistema (mas sempre em VMWare ou VirtualBox). Legal saber que dá para fazer com hardware... Muito legal essa reunião de experientes... (para não dizer que estamos ficando velhos...)

  • Emerson Bastos
    2015-03-13T09:12:36  

    Eu sou bem da época em que montar micros era uma obrigação para quem quisesse ter seu próprio desktop!, ainda na década de 90 resolvi comprar um Macintosh Performa 7200 e era notório como o micro era superior ao Windows da época, lembro que o Mac tinha algo em torno de 90Mhz e pude confrontar com um Pentium de 100Mhz.. era incrivel como o Mac era superior, mesmo com seu mouse esquálido de apenas um botão. No fim da história depois de anos, tentei montar um hacintosh e consegui!, valeu pela aventura, mas hoje fico com meu Windows 7 feliz da vida e meu Macbook branquinho funcionando lindamente!

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    • Emerson Bastos
      2015-03-13T09:12:36  

      Também sou dessa época, embora a apple esteja ganhando mercado, ainda e melhor usar Ruindows. Os MACs são bem superiores na visualização de imagens, gráficos e etc,... Mas para o dia a dia o Ruindows e o que há.

  • Carlos Velho
    2015-03-13T09:55:07

    Muito boa a coluna. Nem imaginava que era possível montar um "hackintosh". E certamente nem saberia fazê-lo. Mas é interessante saber que é possível. Ainda me lembro, na década de 90, como os Apple eram superiores aos Windows (um conhecido tinha um Mac e outro amigo tinha um PC), mas a arquitetura mais fechada, dificuldade de upgrades, e diversas imposições feitas pelo SO e pela própria arquitetura da máquina acabaram me afastando dos Macs. Hoje, a situação permanece com os demais dispositivos da Apple. Mas a qualidade dos produtos da maçã me parece que continua muito elevada.

  • Eduardo Magliano
    2015-03-13T09:53:26

    Uma das poucas matérias decentes que leio aqui! Parabéns!