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26/06/2015 10h59 - Atualizado em 26/06/2015 11h30

Voltando a 1987

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Então vamos retomar nossa viagem no tempo, rudemente interrompida para discutir o lançamento do Windows 10, um sistema do futuro, e voltemos ao passado, onde estávamos no final da coluna “Uma (curta) viagem no tempo” publicada há duas semanas. Para ser exato, voltemos aos meados da segunda metade da década de oitenta do século passado. Acertem então suas folhinhas: estamos em 1987.

Hoje, nem todo mundo tem um computador em casa. Eles são encontrados com maior facilidade nos escritórios, onde seu número vem crescendo de forma acentuada com a evolução dos programas comerciais que começaram a ser vendidos há poucos anos e prestam hoje um excelente serviço para as empresas.

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Explico.

No que toca aos computadores e seus programas, não cabe a velha discussão sobre o ovo e a galinha: sem dúvida o que nasceu primeiro foram os computadores. Há quatro ou cinco anos, logo depois que a IBM lançou o primeiro PC, quem comprasse um computador e quisesse um programa para fazer isso ou aquilo, tinha que desenvolvê-lo “na unha”. Esta é a razão pela qual todo computador era fornecido, além do sistema operacional, com um “programa para desenvolver programas”, ou seja, com uma linguagem de programação completa. E essa linguagem era o BASIC (termo que muita gente acha que deriva de “básico” em inglês mas que na verdade é o acrônimo de “Beginner's All-purpose Symbolic Instruction Code“ ou “código de instruções simbólicas de uso geral para principiantes”).

Na medida em que os computadores foram se disseminando, principalmente nos EUA, programadores brilhantes descobriram que a grande necessidade de programas “genéricos” abria um mercado interessante.

Dan Bricklin (Foto: Reprodução/B. Piropo)Dan Bricklin (Foto: Reprodução/B. Piropo)

Por exemplo, este jovem e sorridente cavalheiro de barba, do lado esquerdo de uma foto a ser tirada comigo daqui a uns dez anos (lembre-se que estamos em 1987), era um brilhante aluno de mestrado na Harward Business School no final da década passada – quando a IBM ainda não lançara seu PC e só havia máquinas de oito bits. Brilhante, porém preguiçoso. E definitivamente não gostava de fazer os maçantes trabalhos de casa, que os professores distribuíam para os alunos às mancheias. E não gostava porque deles pouco proveito se tirava, posto que em sua maioria eram iguais ou muito parecidos e só mudavam os cálculos.

Mas Bricklin era um programador de primeira linha. Então, pensou ele, por que não criar um programa capaz de efetuar cálculos e repeti-los com diferentes dados? Seria uma espécie de matriz composta por linhas e colunas de células onde, em algumas, se codificavam os cálculos a serem feitos e em outras entrava-se com os dados. Outro trabalho chato com os mesmos cálculos, porém com dados diferentes? Ora, bastava entrar com os novos dados que o programa recalculava tudo em segundos.

Ele batizou seu programa de “VisiCalc” e, levando em conta o interesse que o programeto despertou em seus colegas, decidiu criar uma pequena empresa, a “Software Arts”, que vendia o VisiCalc por cem dólares americanos. Há dois anos, em 1985, Bricklin percebeu que o mercado se ampliou bastante com o advento do PC em 1981, deixou a “Sofware Arts” e fundou a “Sofware Garden” que, além do VisiCalc, vendia outros programas de sua autoria. Lamentavelmente ele não conseguiu patentear o VisiCalc, criado em 1979, pois a Suprema Corte americana não considerava que programas de computadores fossem objeto de patentes (só passou a fazê-lo dois anos depois, em 1981). Mas ganhou o prêmio Grace Murray Hopper que lhe garantiu o reconhecimento por haver “inventado” as planilhas eletrônicas.

Há quem considere que os maiores responsáveis pela disseminação dos computadores entre as empresas foram as planilhas eletrônicas (a mais moderna hoje em dia é a Lotus 123) e editores de texto, como o moderno WordPerfect (consta que a Microsoft está trabalhando no desenvolvimento de um novo editor que se chamará simplesmente “Word” e que tem tudo para ser um grande sucesso dentro de alguns anos).

O interesse corporativo pelos computadores pessoais e seus programas criou um mercado crescente tanto para o hardware quanto para o software. Um dos resultados disso é a explosão de “clones” do IBM, que hoje existem aos milhares por serem mais baratos que o original embora absolutamente compatíveis com ele e entre si (rodam os mesmos programas e sistema operacional, o DOS da MicroSoft). Outro é disseminação de empresas de desenvolvimento de programas, como a própria MicroSoft e suas concorrentes: Digital Research, Word Perfect Corporation, MicroPro (que comercializa o editor de textos WordStar), Ashton-Tate (com seu extraordinário banco de dados dBase II) e um bando de outras.

Já os usuários domésticos são menos numerosos. Na verdade, somos poucos. Pois ainda há quem questione para que um cidadão comum deseja ter uma máquina destas em sua casa.

É verdade que somos poucos, mas bons. E, quase todos, viciados em nossas maquininhas.

Formamos quase que um clube. Nos juntamos, trocamos ideias e trocamos programas. Sim, pois há muitos programas em domínio público cujo intercâmbio é totalmente legal. E dizem que há até mesmo pessoas inescrupulosas que copiam programas comerciais e os distribuem para os amigos – na maioria das vezes gratuitamente, então o “inescrupulosas” lá de cima é questionável.

Estas pessoas são conhecidas como “piratas” e corre o boato jamais confirmado que lá pelos lados de Água Santa vive um certo “Capitão Gancho” que coleciona programas exclusivamente com o objetivo de trocá-los com os amigos, alguns poucos felizardos que guardam o endereço de seu covil em absoluto sigilo. E consta ainda que, apesar do apelido ameaçador, trata-se de uma criatura afável que tem um caramanchão ao lado do escritório doméstico onde é servido um cafezinho insuperável. Mas este boato jamais foi confirmado – exceto, naturalmente, pelos felizardos que tiveram a ventura de conhecer o legendário caramanchão.

Pois bem: uma coisa que causa espanto aos não iniciados é o fato de os computadores se comunicarem. Perguntam eles: como é possível que meu computador troque mensagens e arquivos com o de um amigo que mora a quilômetros de distância, até em outro estado ou país, se não estão interligados?

Ora, como consta no primeiro de todos os sambas: pelo telefone, naturalmente.

Mas telefone transmite voz, som, não transmite dados, particularmente dados digitalizados. O telefone é um dispositivo “analógico”, não digital. E os computadores lidam com dados digitalizados.

Bem, então, se você quer que um dispositivo analógico transmita um sinal digital é preciso que na origem este sinal digital seja convertido em analógico (mais precisamente em som), que o som seja transmitido pelo telefone, que sabe fazer isso muito bem, e no destino este som analógico seja reconvertido no sinal digital original.

Ora, converter alguma coisa em som chama-se “modular”. E reconverter esse som na “coisa” original (no caso, um sinal digital) chama-se “demodular”. O dispositivo capaz de MOdular e DEModular sinais chama-se “modem”.

Sabendo disto, a coisa fica simples. Basta que eu tenha em meu computador um modem e que meu amigo tenha outro em seu computador, ambos ligados ao sistema telefônico público. Se eu quero transmitir um arquivo ou uma mensagem para meu amigo, meu computador transforma o conjunto de bytes (formados por oito bits cada) em uma “fileira” de sinais digitais que representam esses bits.

É este conjunto de bits alinhados que meu modem converte em uma corrente sonora (modula) e a transmite pela linha telefônica até o modem de meu amigo. Que, por sua vez, reconverte a corrente sonora em sinais digitais (demodula), reconstituindo assim o arquivo ou mensagem que é armazenado na memória, winchester ou disquetes de seu computador.

É simples assim. Pelo menos em teoria.

Na prática a coisa é um pouco diferente.

Para começar, o processo é lento. Os primeiros modems eram de uma simplicidade franciscana e se conectavam acusticamente com o telefone.

 Modem em conexão acústica (Foto: Reprodução/Wikipédia) Modem em conexão acústica (Foto: Reprodução/Wikipédia)

Veja, na figura 2 (obtida na Wikipedia, "Analogue modem - acoustic coupler" by secretlondon123) o modem (a caixa branca) conectado acusticamente a um telefone. No modem há dois rebaixos circulares, um para seu alto-falante e outro para seu microfone. Para fechar uma conexão, apoia-se o braço do telefone nestes rebaixos de modo que o alto-falante do telefone fique sobre o microfone do modem e vice-versa. Disca-se então o número do telefone no qual está conectado o modem do interlocutor e, após alguma negociação para estabelecer os parâmetros, a conexão é fechada. Um modem como este transmite a uma taxa de 300 bps (bits por segundo). A transmissão de um arquivo de tamanho médio pode demorar horas.

Depois a tecnologia evoluiu, os modems passaram a se conectar diretamente à linha telefônica, as taxas aumentaram, passaram rapidamente a 1.200 e 2.400 bps, ainda comuns hoje em dia, embora em 1984 tenham aparecido os caros modems de 9.600 bps que, com o desenvolvimento de uma técnica conhecida como “correção de erros”, deram origem aos modems de 14.400 bps. Pesquisas recentes dão conta que dentro de pouco mais de dez anos, em 1998, haverá modems com taxas de transmissão de 56 Kbps, o máximo admissível através de modulação via linha telefônica.

Mas hoje em dia os modems mais rápidos transmitem em uma taxa de 14.400 bps. E o fazem através da linha telefônica comum. Que, para efeito de cobrança, não distingue a transmissão de sinais da transmissão de voz. Que é cobrada por minuto e não é barata.

Por isso os BBS, discutidos na coluna “BBS” aqui publicada há três semanas, são tão populares. Porque as mensagens recebidas pelo servidor (ou seja, pelo computador que hospeda o BBS) ficam nele armazenadas. Quando um membro do BBS deseja recebê-las, faz uma única conexão ao BBS e baixa todas as que lá ficaram acumuladas desde sua conexão anterior. Depois, desconecta-se (e para de usar os pulsos da linha telefônica) e, usando um programa gerenciador de mensagens desenvolvido especificamente para BBS, lê as mensagens e edita as respostas que julga necessárias com a devida calma, pois está desconectado da linha. E, se os “pacotes” a serem transmitido e recebido forem muito grandes, aguarda até depois de meia noite quando a cobrança é feita por ligação, não mais por minuto. E na noite seguinte repete o processo, recebe novas mensagens e respostas, que editará com calma no dia seguinte.

Como se vê a vida dos “bbzeiros” é divertida, mas tem seus percalços.

Dizem, mas é difícil de acreditar, que em menos de trinta anos haverá telefones portáteis que se comunicarão sem fio uns com os outros, como os rádio transmissores receptores de hoje, só que bem menores. E que, mais que isso, serão dotados de pequenas telas onde aparecerão mensagens de texto, imagens, vídeos e mais um monte de coisas, tudo isso transmitido em taxas da ordem de Gigabits por segundo. Consta que serão chamados de telefones celulares ou telefones espertos.

Para quem usa os modems de hoje, que mal transmitem texto em uma taxa da ordem de poucos Kbps, é realmente muito difícil de acreditar.

Mas vamos ter fé no futuro e esperar até 2015 para ver se é verdade.

Até lá.

B. Piropo


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    2015-06-30T10:28:54

    Bacana!! Bem sacado!

  • Ronaldo Santos
    2015-06-27T10:44:56

    Singular, nostálgico e futurista. Obrigado mestre.