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07/03/2012 10h55 - Atualizado em 07/03/2012 11h31

O pixel da maldade

Affonso Solano Para o TechTudo

by Ralph Damianiby Ralph Damiani

“Quem quer que lute contra monstros deve cuidar para que no processo não se torne um também.”

- FRIEDRICH NIETZSCHE, Além do Bem e do Mal

                Quando eu tinha por volta de dez anos, fiz parte de algo no colégio que me marcou para sempre.

                Havia um menino na classe (vou chamá-lo de “B”) que, apesar da idade, já se encontrava no mais elevado nível Nerd: ele era muito inteligente, jogava videogames, lia quadrinhos, era socialmente inadequado, magro demais… os ingredientes básicos de um pária escolar.

                E o fato de B ser a única criança negra da turma só contribuía para que ele se destacasse ainda mais.

B se esforçava em se esquivar dos problemas típicos que a categoria nerd enfrenta – porém é de conhecimento da ciência que os nerds são atraídos para certas situações que lhes tragam dor e sofrimento, assim como mariposas atraídas pela luz de velas. Por exemplo; se forçado a escolher entre um caminho que passe em frente à sala da diretora ou outro que passe em frente ao pátio onde todos os valentões estão jogando bola, o nerd CERTAMENTE optará pelo segundo.

Sendo assim, eis que certo dia durante uma aula qualquer, B percebeu que havia esquecido seu caderno em casa. Impossibilitado de anotar o que a professora dizia, ele avaliou os coleguinhas ao seu redor e optou por pedir uma folha para aquela que deveria ter sido sua ÚLTIMA escolha: a menina mais bonita, mais loira, mais popular e mais da classe.

Sim. Isso foi um erro.

A menina – sob os olhares e risinhos de suas amigas (e ditada por sua criação obviamente horrorosa)despejou sobre B todo o desprezo e repugnância por sua pessoa, deixando claro (e BEM alto) para toda a turma que ela nunca iria abrir mão de uma de suas preciosas folhas de seu precioso e caro fichário para alguém como B.

A turma riu, a professora fingiu que nada havia acontecido, e B calou-se em sua insignificância, segurando as lágrimas que ele já era mestre em segurar.

E eu, três cadeiras atrás, odiei silenciosamente.

Algo precisava ser feito.

Vinte minutos depois o sinal sonoro soou, indicando o início do recreio. Ávidas por liberdade, as crianças correram para fora da sala enquanto eu fingi desenhar no meu próprio caderno. Após alguns minutos, eu estava sozinho.

Assim sendo, caminhei até a cadeira da “menina má” e abri seu precioso fichário. Lembro-me exatamente de como ele era: a capa com ornamentos detalhados em rosa exaltando um mascote antropomórfico bondoso e simpático, alheio a personalidade de sua dona. O seu interior havia sido cuidadosamente organizado por matérias divididas por fitas coloridas, e seu conteúdo preenchido pela letra impecável de uma menina atenciosa a cada detalhe.

Eu o destruí completamente.

Ao final de meu serviço, enfiei o fichário debaixo da mesa da menina e saí para o recreio, deixando antes uma única folha intacta em cima da cadeira com os dizeres “não trate as pessoas assim.”

Sim, meu plano tinha falhas, mas lembrem-se de que eu era uma criança de dez anos de idade, descarregando minha indignação quanto ao destrato público e implacável de um semelhante indefeso. Meu senso de justiça infantil não previu que o primeiro suspeito do “crime” seria exatamente a pessoa que eu estava tentando proteger (“B”), e foi isso que teve lugar quando retornei do recreio: B interrogado pela diretora do colégio na frente de toda a turma horrorizada, enquanto a menina chorava e esperneava sobre seu fichário destroçado.

Após observar por alguns minutos o caos que eu causara, me aproximei silenciosamente da professora (que estava um pouco mais afastada, tentando acalmar a turma) e confessei em segredo meu ato de vandalismo. Ela me encarou por alguns segundos, me mandou sentar, foi até a diretora cochichar algo em seu ouvido até que ambas se dirigiram a turma e anunciaram: B era inocente e o verdadeiro culpado havia se entregado as autoridades. O assunto seria tratado em particular e a aula deveria retornar ao curso normal.

Após a aula fui requisitado na sala da diretora junto com minha professora, onde expliquei a razão pela qual havia agido daquela maneira. Elas se entreolharam, me explicaram porque eu não deveria repetir aquilo e me disseram para ir para casa. Meus pais nunca foram chamados ao colégio e eu não recebi qualquer tipo de penalidade.  Simples assim. Talvez eu tenha atingido o nervo de justiça da instituição, disseminando na sala dos professores a lenda do “aluno vigilante” que se vingou da “garota má” que todos detestavam. Não tenho certeza do que aconteceu.

O que tenho certeza é de que aquele episódio definiu grande parte de minha personalidade. Até então, minha mente jovem acreditava que “algumas pessoas eram más simplesmente porque eram más”; porém eu também havia cometido uma maldade contra outro ser humano (ainda que teoricamente justificada). Uma “pessoa má” (como a menina do fichário era para mim) tornava-se muito mais complexa a partir daquele ponto.

E foi pensando nisso que decidi, pela primeira vez na minha vida, fazer o exercício de criar um personagem de RPG “MAU”.

Silent kill...Silent kill...

“A intenção do homem falha quando este tenta curar o mal com o mal.”

- SOPHOCLES, Os Filhos de Aleus

Eu nunca consegui “ser mal” nos videogames. Claro, em uma escapada desesperada da polícia eu posso ter atropelado alguns inocentes pelas calçadas de GTA, e enforquei uma ou outra testemunha do Agente 47 em Hitman, mas a moral e a motivação desses personagens sempre nos foi entregue pelos produtores de maneira clara, permitindo ao jogador aceitar esses “efeitos colaterais” dentro da lógica daquele mundinho. Um ser humano mentalmente sadio é incapaz de sustentar muitas horas em um simulador de assassinato hiper-realista a não ser que exista uma razão (ainda que fraca) para aquele comportamento. No caricato Postal 2, por exemplo, praticamente todo ser humano do jogo é exageradamente grosseiro com o personagem principal – uma motivação ridícula frente ao genocídio que o protagonista inicia, concordo, mas ainda assim uma tentativa de reduzir a empatia do jogador para com seus semelhantes pixelados.

Mas desta vez eu não queria um personagem maligno “pronto”; eu queria CRIÁ-LO. Tal qual o Dr. Frankenstein, eu queria dar vida e motivação à minha criação e vê-la evoluir sozinha enquanto estudava seu comportamento (e, de preferência, não ter meu pescoço quebrado por ela como o falecido Doutor…).

E com isso em mente, escolhi o jogo SKYRIM para meu exercício.

SkyrimSkyrim

“A maldade é um ponto de vista.”

- ANNE RICE, Entrevista com o Vampiro

Era uma vez um elfo chamado Fahilin.

Sentado na carruagem gasta e barulhenta, ele ouvia os outros prisioneiros gritando sobre a guerra civil que assolava Skyrim, enquanto avaliava sua situação injusta: havia sido confundido com um dos rebeldes que lutavam contra o domínio do Império, e – apesar dos protestos – encontrava-se agora a caminho da execução.

Fahilin lamentou silenciosamente seus últimos meses de existência; ele aceitara que sua esposa e filhas estavam agora com a deusa Y’ffre, e julgara que em Skyrim encontraria paz e, possivelmente, um recomeço… Mas parecia que os deuses tinham outro destino para o elfo.

A carruagem parou no povoado de Helgen. Ao som dos cavalos ofegantes e da população curiosa, os prisioneiros foram enfileirados em frente ao carrasco, que iniciou as execuções sob o olhar impassível dos guardas do Império. Fahilin fechou os olhos e tentou lembrar de sua família, mas tudo que viu foi o horror do dia em que havia sido chacinada… e com isso odiou os deuses e os mortais.

Sua vez chegara. O carrasco ordenou com sua voz abafada pelo capuz que Fahilin apoiasse sua cabeça na bigorna e ele o fez, fechando os olhos.

Um rugido ensurdecedor o fez abri-los mais uma vez.

Uma sombra gigantesca cobriu o sol quando o animal lendário cuspiu fogo contra tudo e todos. Caos. Guardas brandiam suas espadas inúteis contra o réptil voador imenso, que destruía prédios e incendiava vidas. Fahilin correu. Correu até que os gritos se tornaram distantes e suas pernas desistiram, e ele finalmente tombou, oculto entre as árvores.

Quando retomou a si, o elfo viu que estava livre, e o cheiro de carne e madeira carbonizada havia ficado para trás. Ele havia sido salvo pelo acaso? Pelo destino? Ele encarou sua consciência em busca da resposta, mas ela o encarou de volta, vazia.

Não havia razão. Não havia justiça no mundo. Apenas caos e dor. E ele ia retribuir.

Cara de malvadoCara de malvado

“A apatia é a luva na qual o mal desliza sua mão.”

- Autor desconhecido

Tirando o que se passou dentro da mente de “Fahilin”, tudo o que relatei aí em cima me foi fornecido pelo próprio jogo. O que fiz foi criar um background para meu personagem para justificar minhas ações que viriam a seguir.

Isso porque durante minha vida nas semanas seguintes como o elfo Fahilin eu sangrei, feri, roubei, trapaceei e enganei centenas de pessoas. O dinheiro era meu deus agora, e minhas flechas o meu gospel (nossa, essa foi profunda, heim?).

Tornei-me o assassino mais temido de Skyrim, mas só fui capaz de seguir em frente com meu exercício porque me convenci de que aquela pessoa estava apenas devolvendo a dor que ela acreditava “dever” ao mundo. Eu precisei entender a maldade para colocá-la em prática, buscando levar o conceito do Role-Playing Game (ou “jogo de interpretar papéis”) ao meu máximo, pois sempre que determinada situação extraía do Affonso Solano sua reação natural (“ajude o próximo”, “combata a injustiça”, etc), eu travava uma breve luta de consciência onde eu resgatava o background do meu personagem (Fahilin) e agia de acordo com ele.

E ao final da minha jornada eu não via Fahilin como uma pessoa . Eu o via simplesmente como uma pessoa. Tal qual a menina do fichário, acredito.

E por último…

B, se você está lendo isso, me desculpe meu amigo. Eu não queria te causar mais problemas naquele dia.

… e se você que estiver lendo essa coluna for a menina do fichário… bom, o que eu posso dizer? Revenge is a bitch.

- Affonso Solano

_________________________

Para conferir:

- Ilustrações por Ralph Damiani

- Trailer de Skyrim

- MRG sobre o jogo

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Gênero

  • Demetrios Pantaleão
    2013-05-21T01:09:22

    Muito bom, depois de ler isso, minha próxima aquisição vai ser o Espadachim De Carvão.

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  • Hugo Carvalho
    2013-05-20T23:54:27

    Ótima matéria, aliás, gostei muito da ideia, tentarei fazer algo nesse estilo para o meu próximo personagem em skyrim.

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  • Fernando Freitas
    2013-05-20T23:45:45

    The Nerd Avenger!!!

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  • Murilo Rm
    2012-11-18T11:18:00

    Muito bom! Também espero que B veja isso heheh

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  • Paulo Matheus
    2012-03-23T13:43:27

    Cara que mente que voce ja tinha aos 10 anos, pensou certinho só se esqueceu em quem ia cair toda a culpa, teria feito o mesmo no seu lugar, e espero que o B veja isso!

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