04/01/2013 12h05 - Atualizado em 04/01/2013 12h05

Conheça os efeitos da Internet na cognição humana segundo especialistas

Giordano Tronco
por
Para o TechTudo

O modo como lidamos com a informação na Internet e com a possibilidade de acesso rápido a diversos conteúdos influencia o modo do homem pensar. Mais do que isso, muda o nosso funcionamento biológico padrão. Seguindo o curso natural da evolução, nossos cérebros estão nos preparando para funcionarmos como ciborgues.

Não é papo de ficção científica: as mudanças que a tecnologia causa no funcionamento da mente e do corpo humano são estudadas a sério por pesquisadores de áreas como antropologia e psiquiatria. Alguns acham que a Internet nos faz pensar mais rápido e de modo não-linear; outros, mais pessimistas, dizem que a tecnologia está nos tornando viciados em estímulos e incapazes de processar grandes blocos de informação, e recomendam mais calma.

Conectividade com Internet influencia modo de pensar do homem (Foto: Reprodução)Conectividade com Internet influencia modo de pensar do homem (Foto: Reprodução)

Leitura está mais rápida, mas menos profunda

Há uma boa chance de que você não passe muitos minutos nesta página. A maior parte das pessoas utiliza como padrão de leitura na Internet o “scanning” – ato de passar os olhos pelo texto em busca de palavras-chave interessantes – e não a leitura linear, como habitualmente fazemos com livros e revistas. Antes um macete para ler textos longos em pouco tempo, o scanning agora é prática corriqueira para várias pessoas, tanto online quanto offline. Acostumamo-nos a “escanear” qualquer texto por conta da overdose de informações a que somos expostos na Internet. Quem nunca se pegou com dezenas de abas do navegador abertas ao mesmo tempo, cada uma com um conteúdo diferente?

O escritor Nicholas Carr, conselheiro editorial da Enciclopédia Britânica e autor de A Geração Superficial, livro que estuda os impactos da Internet no comportamento humano, diz que estamos nos programando biologicamente para esse novo jeito de consumir conteúdo. Baseado em pesquisas científicas que comprovam a plasticidade do cérebro em idade adulta, Carr defende que a Internet altera o nosso modo de pensar, de aprender e até de lembrar. “À medida que passamos mais tempo navegando, muitos de nós estão desenvolvendo circuitos neurais feitos para aumentos repentinos de atenção direcionada”, diz o especialista, na obra.

Estamos mais ágeis, mas também absorvemos menos profundamente o que aprendemos. Se por um lado conseguimos fazer o nosso foco de atenção pular facilmente entre vários assuntos, por outro perdemos a capacidade de ler grandes textos. Carr conta sobre um entrevistado que diz ter perdido a capacidade de leitura linear, o que tornava a leitura de livros – ou mesmo publicações de blogs com mais de quatro parágrafos – um sacrifício.

O próprio Carr explica como seu cérebro passou a operar: “Independentemente de eu estar online ou não, minha mente agora busca absorver informação do mesmo modo que a internet a distribui: num fluxo veloz de partículas.”

Em oposição ao scanning, um grupo de acadêmicos e intelectuais ingleses criou o movimento slow reading (literalmente “leitura lenta”), que prega uma leitura mais atenta dos textos impressos, deixando de lado a informação adquirida na internet. É algo interessante na teoria, mas, nos dias de hoje, bem difícil de ser posto em prática.

Eu, ciborgue?

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 Imagem geral do aparelho (Foto: Stella Dauer) (Foto:  Imagem geral do aparelho (Foto: Stella Dauer)) Smartphones são vistos como extensão do homem
por antropóloga (Foto: TechTudo/Stella Dauer)

Qual a definição de um ciborgue? Um robô humanoide, uma mistura de ser humano com androide? Para a antropóloga Amber Case, somos todos ciborgues, e nossa parte robótica não está num braço mecânico ou numa visão infravermelha, mas sim nos nossos celulares.

Os smartphones funcionam como uma extensão da memória: dentro deles, guardamos contatos de amigos e a agenda com os nossos compromissos, além de termos acesso instantâneo a boa parte do conhecimento humano com um aparelho com boa conexão à Internet. A inteligência potencial de uma pessoa com um smartphone é diferente da inteligência da mesma pessoa sem ele. Não é exagero comparar a perda de um celular com a perda de uma parte do cérebro para a autora.

Os smartphones nos dão ainda outro superpoder: a capacidade de dobrar tempo e espaço e entrar em contato com qualquer pessoa a qualquer momento. É possível ligar para um amigo a qualquer instante. Se ele não atender, é possível deixar uma mensagem ou um recado na sua página do Facebook. “Não é que estejamos conectados a todo mundo o tempo todo, mas podemos nos conectar com qualquer um a qualquer momento”, explica Case em uma palestra disponível no site TED.

Um smartphone cria facilidades incríveis, mas também situações desconfortáveis: ao carregá-lo no bolso você está levando consigo uma sala repleta de amigos, parentes, colegas e eventuais chatos que você não gostaria de conviver, mas que têm acesso a você a qualquer hora. Com tantos estímulos permanentes é difícil parar, relaxar e refletir.

A perda da capacidade de autorreflexão das pessoas é uma das principais preocupações da antropóloga: “elas não desaceleram, não param, já que estão sempre rodeadas por estas pessoas na sala competindo pela sua atenção”.

Vício em Internet

A Internet pode ativar em algumas pessoas as mesmas áreas do cérebro que certas drogas. O Facebook, por exemplo, tem um grande potencial viciante: cada nova mensagem recebida tem o potencial de liberar substâncias no cérebro que causam prazer. Por isso tantas pessoas sentem urgência em acessar suas redes sociais a cada minuto.

Mas calma! Sentir prazer em navegar na Internet não faz de ninguém um viciado. Segundo o psiquiatra e coordenador do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas, Daniel Spritzer, a adição ocorre somente quando o comportamento causa prejuízo ao indivíduo.

O especialista lista os componentes que caracterizam o transtorno: 1) uso intenso da Internet, geralmente associado à perda da noção de tempo ou mesmo negligência de atividades importantes; 2) necessidade de utilizar a Internet por um número cada vez maior de horas; 3) abstinência, irritabilidade, tensão e até mesmo sintomas depressivos quando o acesso à rede não é possível 4) prejuízo em áreas importante da vida (acadêmico, profissional, social, familiar, financeiro ou legal).

Causa ou consequência?

Apesar de pesquisar o “lado negro” da tecnologia, Spritzer não considera o impacto da Internet na mente humana como invariavelmente negativo. “Acho importante pensar que a nossa memória não precisa funcionar do mesmo jeito ao longo dos tempos”, opina.

O psiquiatra acredita que a velocidade e imediatismo da Internet são derivadas do modo de vida atual, e não o contrário. Em outras palavras, com ou sem a Internet o mundo nos forçaria a adquirir conteúdo o mais rápido possível: “Neste sentido, a tendência de ir atrás do conhecimento de uma maneira mais exploratória que profunda parece ser uma decorrência da quantidade cada vez maior de informações necessárias para a vida contemporânea.”

Culpa da Internet ou da vida contemporânea, é inegável que nossos hábitos mudaram. Estamos muito mais seletivos com a informação que consumimos: chegar ao final de um texto longo pode representar um grande número de atividades que tiveram que ser postas de lado. Se a informação não parece interessante numa primeira análise, já a descartamos e seguimos para a próxima. Se você chegou até aqui, parabéns!

E você, como  lida com a Internet? Comente no Fórum do TechTudo!

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  • HERINGTON MAULAZ
    2013-01-08T09:27:46

    Acredito que outros fatores nos forçam a ficar em frente ao computador, fatores como: violência nas ruas, engarrafamentos, o calor em algumas partes, frio em outras, tudo isso nos desanima de sair de casa ou trabalho. As "informações" que deixamos de pegar no dia a dia é compensada ao ficar em frente ao computador.

  • Olacir Oliveira
    2013-01-06T22:54:46

    Verdade, com a grande quantidade de coteudo disponivel na internet (ou não), queremos ou precisamos, absorver o mais rápido possível, só de abrir a home de alguma midia especializada/notícias, abre varias abas, sem falar dos smarts, eu leio as meterias que me interessam com pouco mais de cconcentração, as que nem tanto eu passo so os titulos as vezes e algumas leio, mas rapido e sem concentração.

  • José Gonçalves
    2013-01-04T21:41:16

    É bem verdade tudo que foi dito, eu sou exatamente assim, não sei como cheguei a ler essa matéria toda, geralmente leio apenas os títulos, e as que me interesso, leio bem rápido! Acho que não é uma boa prática, vou tentar evitar um pouco isso. Bela reportagem!

  • Samuel Franco
    2013-01-04T15:41:27

    Ótima reportagem. As informações correm numa velocidade tão impressionante que sinto necessidade de saber de tudo que é possível ler no menor espaço de tempo que der e se tratando da área de TI, que estou sempre a procura, são muito mais informações não dá para se aprofundar muito por isso prático muito isso que chamam de 'scanning'.

  • Luiz Jesus
    2013-01-04T13:11:08

    Interessantíssimo ! Adorei a reportagem.