Video game

12/06/2013 16h31 - Atualizado em 13/06/2013 14h56

Xilo mostra que é possível criar jogos de qualidade inspirados na cultura nacional

Pedro Zambarda
por
Para o TechTudo

Xilo é um game desenvolvido por alunos do curso de Jogos Digitais da Facisa em Campina Grande, na Paraíba. O jogo foi o vencedor do SBGames em 2011 e ganhou destaque no Festival Games Brasil, que ocorreu em maio. O TechTudo conversou com o designer de games Rodrigo Motta (30), da Kaipora Digital, sobre este jogo de aventura em 2D, criado para mostrar a cultura e o folclore do nordeste brasileiro. Confira abaixo os detalhes da coluna Geração Gamer desta semana:

Xilo é um game nacional criado na Paraíba, para mostrar o folclore nacional (Foto: Divulgação)Xilo é um game nacional criado na Paraíba, para mostrar o folclore nacional (Foto: Divulgação)

“Eu venho desenvolvendo uma pesquisa há algum tempo sobre temas nacionais que poderiam ser transformados em jogos. Também se existe um jeito brasileiro de fazer jogos, assim como você reconhece facilmente um RPG japonês”, explicou Motta ao TechTudo. Em várias partes da entrevista, o desenvolvedor mostrou um profundo interesse e respeito à cultura nacional, que muitas vezes nem é considerada como uma visão válida na criação de novos jogos. No entanto, Rodrigo Motta fez uma ressalva: “Uma das primeiras críticas que eu ouvi do Xilo foi uma menina que disse ‘gosto do Xilo porque, antes de ser algo que fala de folclore, ele é de fato um bom jogo’. Esse foi bem o nosso objetivo no projeto. Queremos fazer um jogo legal que ‘por acaso’ trata do folclore”.

Rodrigo Motta se graduou no curso de Design da Facisa, em Campina Grande, fez mestrado na UFPE, em Recife, e está fazendo doutorado em Administração no Mackenzie. Além de ser desenvolvedor na Kaipora, é professor e coordenador do curso de Jogos da Facisa, professor do curso de Design da mesma instituição e consultor do MEC para Desenvolvimento de Jogos Educativos.

Um game cultural feito por cinco pessoas

Com quantas pessoas é possível fazer um Xilo? Rodrigo Motta responde: “Sempre trabalhamos com um grupo de cinco pessoas. Eu faço o design do game e a arte do jogo, como personagens, cenários e história. O Trigueiro Jr. cuida das animações de personagens e cenário, além de também criar personagens. Temos dois programadores, o Diego Braga e o César Augusto. E o André Torres faz a parte de áudio e mixagem”.

Essa equipe de startup, de pequena empresa, foi responsável por um jogo 2D simples, fluido e com os comandos intuitivos, indicados na tela. “Quando você começa a fazer jogos você deve começar com projetos em que você domine boa parte da técnica. Estávamos estudando o 2D na época e o Xilo acabou sendo feito dessa forma”, explicou Motta. O desenvolvedor acredita que, mesmo se a equipe soubesse criar jogos em 3D, o formato do jogo ajudou a contar melhor sua história em xilogravuras.

A história de Xilo

Biliu, o herói do game, diante do Saci (Foto: Divulgação)Biliu, o herói do game, diante do Saci (Foto: Divulgação)

“O personagem principal não é um cangaceiro. Mas a roupa de cangaceiro, o gibão, foi durante muito tempo a armadura do nordestino." Rodrigo explica que o protagonista do jogo, Biliu, foi inspirado em um artista da Paraíba. "Ele é um músico muito engraçado que tem uma personalidade muito marcante. Então fiz uma homenagem no game”, disse o desenvolvedor.

Biliu percorre os cenários no nordeste e encontra mitos do folclore brasileiro, como o Saci. O herói deve recolher as xilogravuras (daí vem o nome de jogo) e vencer os obstáculos no game, como em Super Mario Bros. “Queríamos fazer um jogo que retratasse elementos culturais do nordeste num jogo e o nordeste é tão rico neste sentido que ficou fácil fazer isso. Usamos a estética da xilogravura, a música (Baião, Forró), a história (lendas do Folclore e causos) e o cordel como forma de comunicar partes da história”, diz Motta.

O desenvolvedor também afirmou que a equipe utilizou o trabalho da banda Cabruêra na trilha-sonora, além de um poeta para compor os cordéis presentes no game e uma pessoa para declamar os poemas.

“Acho que o que mais nos influenciou foi Limbo. Esse é um jogo de plataforma com uma estética diferenciada, cujos desafios se mesclam muito bem com a condição do personagem. O Xilo é bem isso, porque nós criamos uma estética pro jogo, baseada no nordeste, e os desafios todos devem fazer sentido neste contexto”, disse o designer sobre as influências do jogo nacional. Outros games indies também inspiraram o time da Kaipora, como Super Meat Boy, Braid e Fez.

Xilo foi premiado antes de chegar ao grande público

“Essa história do desenvolvimento é muito engraçada. Apresentamos o Xilo ao mundo no fim de 2011, quando ganhamos o SBGames como o Melhor Jogo pelo voto popular. O SBGames é o evento onde a maioria dos desenvolvedores de games se encontra. Depois disso a coisa tomou uma proporção que não esperávamos." O desenvolvedor explica que o jogo ganhou destaque a nível nacional, em reportagens sobre jogos arte e até com declarações da Ministra Marta Suplicy.

De acordo com Motta, eles eram apenas estudantes de Campina Grande, sem uma empresa estruturada na época. O reconhecimento pela boa ideia com o game os forçou a acelerar o processo de melhoria no trabalho deles. Mesmo assim, o game ainda não foi lançado, porque eles passaram 2012 parados na formalização da empresa, sem um time completo.

Diz Motta, sobre o atual estado do projeto: “As pessoas dizem ‘caramba, faz 3 anos que estão fazendo esse jogo’. Não é bem assim. Nós voltamos a trabalhar neste ano e pretendemos lançá-lo dentro dos próximos meses para PC/Mac e iOS/Android. Depois começar a jornada pra portá-lo para Xbox 360 e PSVita. Gostaríamos de lançar o Xilo durante as festividades do São João, mas não vai dar ainda”.

A Kaipora Digital no mercado de games

Rodrigo Motta, um dos criadores de Xilo (Foto: Divulgação)Rodrigo Motta (Foto: Divulgação)

“Hoje a empresa está dividida entre os advergames e jogos sob encomenda que fazemos, e nossas próprias produções. Estamos atualmente desenvolvendo uma série de 13 mini-games educativos para o Ministério da Educação e TV Escola, este projeto é bem legal e deu pra aumentar a equipe, inclusive trabalhar com outras companhias”, diz Rodrigo Motta, sobre as atuais oportunidades de trabalho. O desenvolvedor acredita no potencial dos jogos brasileiros e aponta um aumento de games com temas nacionais após a divulgação de Xilo.

“Alguns desses novos games eu sei que foram inspirados pelo Xilo, porque os próprios autores me confessaram. No entanto, outros devem ter surgido naturalmente. É muito difícil falar de alguma coisa que pode acontecer porque você simplesmente acredita, mas com Copa do Mundo e Olimpíadas, o interesse pelo Brasil em todo o mundo vai crescer bastante”, diz o desenvolvedor, num tom otimista. Motta acredita que jogos genéricos vão dar espaço para trabalhos personalizados, que refletem a realidade e a cultura do país.

“A Kaipora tem pelo menos mais três projetos que já apresentamos em eventos, como o Orbitron, um jogo casual com foco em tablets, o Cidade Vermelha, um jogo sobre o Zé do Caixão e o Three Little Kings, uma versão bizarra da história dos Três Porquinhos. Também já criamos mais de 10 protótipos de games diferentes, em geral em maratonas de desenvolvimento de jogos”, explica Rodrigo Motta, sobre as iniciativas da empresa. O desenvolvedor também aproveitou para deixar um rumor no ar sobre um game maior: “Existe um outro projeto, que não posso falar muito, que demandaria uma equipe gigante pra ser desenvolvido. Nós vamos apresentar um protótipo pra ver a reação das pessoas e quem sabe conseguir investimento”.

Seja investindo em advergames ou em títulos próprios, Rodrigo Motta e seus amigos na Kaipora mostram que é possível chamar atenção com jogos inspirados em elementos tipicamente brasileiros. Xilo está previsto para ser lançado no segundo semestre de 2013.

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  • Rulio
    2013-06-13T13:03:05

    Parabens, algo que sempre esperei é um jogo mais "brasileirado", isso mostra que temos capacidade de criar também e não somente copiar.

  • Sandra Araujo
    2013-06-13T07:46:11

    É incrível descobrir que no Brasil é possível conquistar prêmios antes mesmo de atingir o grande público! Principalmente em um mercado tão especializado, cada vez mais descobrimos, que é urgente a necessidade de investimentos em projetos como esse. Muito bom ter tido acesso a tais informações a partir dessa matéria.