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O espírito da escada e os posts que deixei para trás

ter, 09/08/11
por Alexandre Inagaki |
categoria Divagações

Três problemas seríssimos têm prejudicado a minha produtividade quando o assunto é escrever novos textos, a saber: a) falta de tempo; b) a era do #tudoaomesmotempoagora; e c) superego anabolizado.

O primeiro item é fácil de explicar. Nos dias atuais, creio que tempo vale mais do que dinheiro. Afinal de contas, embora a falta de dinheiro possa deixar seu nome sujo no SPC e Serasa, o fato é que é possível pegar um empréstimo aqui, fazer um bico ali e dar-se um jeitinho. Já o tempo é algo inexoravelmente irremediável. Uma vez perdido, não há como resgatá-lo. E, lógico, para quem é péssimo administrador de seu tempo pessoal, 24 horas acabam não dando conta nem do essencial.

Nestes tempos em que vivemos na internet, imersos numa biblioteca de Babel digital de conhecimentos úteis e inúteis, como conseguir se concentrar em uma única atividade? Basta se interessar em um link tuitado ao acaso, e pronto: o Distúrbio de Déficit de Atenção encasulado dentro da gente cria asas e faz com que a concentração necessária para estruturar um artigo com começo, meio e fim suba no telhado.

Há ainda a questão de autocrítica: um inimigo necessário, evitando a publicação de muitos poemas sofríveis e confissões desnecessárias. Mas que, em excesso, acaba por escassear a produção de textos.

Por fim, há um quarto item que completa a receita para um blogueiro que escreve posts com a frequência das passagens do cometa Halley pelo sistema solar: a questão do timing. Vasculhando os posts que deixei em rascunho para serem publicados no meu blog pessoal, encontrei (sem brincadeira) mais de cem textos inacabados, sobre assuntos variados como TEDx Amazônia, o Dia Mundial do Orgasmo, o gol que Iniesta fez aos 47 minutos do segundo tempo numa partida entre Chelsea vs Barcelona, o episódio final de “Scrubs”, as filhas de Héctor Oesterheld, a vida e carreira do Anão Chumbinho, uma crítica de “Ponte para Terabítia”, Regininha Poltergeist vendendo geladeiras, a medalha de bronze de Joannie Rochette, o grito mais famoso do cinema, o tumulto provocado pela nudez de Nicole Neumann, o sonho do ovo em “Saneamento Básico”, Michael Jackson indiano, cinco motivos para se casar, a bunda de Scarlett Johansson, eutanásia, Patti Boyd, games das antigas, o lado pop da política, o mito do texto curto, o musical “Mamma Mia”, o Refúgio de Platão, navios fantasmas, as últimas palavras de Anton Chekhov e a máquina do tempo de Ronald Mallett.

Ok, eu sei que a maior parte desses assuntos ainda poderá render posts interessantes. Mas sabe aquela sensação brochante que dá quando você está concentrado em uma atividade e, por causa de algum telefonema ou alguma pendência mais urgente, você perde completamente o fio da meada? Como fazer para resgatar aquele ímpeto inicial que estimulou sua inspiração e tomou conta de suas ideias, recuperando o gás necessário para finalizar um trabalho que foi interrompido no meio?

E aí recordo uma expressão francesa, “L’esprit de l’escalier” (“espírito da escada”), que eu creio que traduz com precisão essa sensação de frustração. A expressão surgiu em um livro do filósofo Denis Diderot publicado em 1773. Durante um jantar, Diderot ouviu uma observação a seu respeito que o deixou sem palavras. Sem saber o que dizer naquele momento, Diderot ficou sem reação, só conseguindo pensar com clareza numa resposta à altura quando já estava de saída, descendo as escadas da mansão na qual o jantar tinha sido realizado. O espírito da escada é aquela resposta perfeita, a piada infalível, o argumento irretocável que só lhe vem à cabeça quando o momento já passou.

Muitos dos posts que ainda permanecem na pasta de rascunho viraram gasparzinhos que rondam de vez em quando minha cabeça: textos sobre Trending Topics que já ficaram para trás. Ou ideias que me empolgaram num primeiro momento, mas que não foram desenvolvidas por preguiça ou falta de tempo. Um dia, quem sabe, escapam da gaveta virtual e voltam à tona. Mas, por enquanto, ficam cá encalacradas como esboços de textos, pairando no ar. Tais quais os “amores sempre amáveis” citados naquela canção de Chico Buarque, aguardando alguém que enfim possa aproveitá-los.

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Maria Bethânia e o blog mais polêmico de todos os tempos da última semana

ter, 22/03/11
por Alexandre Inagaki |
categoria Polêmica da semana
| tags Blog da Bethânia, Lei Rouanet

Nunca antes na história deste país um blog despertou tantas polêmicas e debates antes de entrar no ar. Tudo começou com uma nota na coluna da Mônica Bergamo, publicada na Folha de S. Paulo, informando que Maria Bethânia havia conseguido autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão e criar um blog, intitulado “O Mundo Precisa de Poesia”, que apresentará 365 vídeos nos quais a cantora interpretará versos, sob a direção de Andrucha Waddington.

A notícia repercutiu feito fogo em palha seca nas mídias sociais. O nome de Maria Bethânia entrou nos Trending Topics mundiais, impulsionado por milhares de posts indignados com o que foi considerado um abuso aos cofres públicos. Não demorou para que a tribuna pública do Twitter condenasse em uníssono a cantora, precipitadamente achando que o Ministério da Cultura já havia cedido a quantia à irmã do Caetano.

De fato, o que houve foi a concessão de uma autorização para que os responsáveis pelo projeto busquem captar esse valor junto a patrocinadores da iniciativa privada, aproveitando os beneficios fiscais da Lei Rouanet. Ok, esse R$ 1,3 milhão deixaria de ser arrecadado pelo governo, passando a financiar o blog/videolog da Bethânia através de mecanismos de renúncia fiscal? Sim. Mas, com todo o buzz negativo em torno do site, tenho lá minhas dúvidas a respeito do interesse de empresas em associarem seus nomes a esta empreitada. De qualquer modo, o estopim foi suficiente para catalisar manifestações de todos os tipos.

Fábio Yabu, escritor e ilustrador que já participou de diversos editais promovidos pelo Ministério da Cultura, tentou mostrar como funciona o incentivo fiscal no post “Explicando o Maria Bethânia Gate”, perdeu a paciência com comentaristas indignados que o ofenderam acharam que ele estava defendendo-a e desabafou: “Deus, eu me sinto como uma professora primária”. Eden Wiedemann, após ter xingado muito no Twitter, fez posteriormente um mea culpa em seu blog: “O brasileiro tem mania de sair baixando o sarrafo em TUDO sem ao menos procurar saber exatamente do que se trata. (…) A preguiça de procurar saber mais ou a necessidade de apenas surfar aquela onda, não perder o timing, de se mostrar descolado, de ter opinião – que geralmente apenas valida a da maioria”. O crítico de cinema Pablo Villaça escreveu que não havia como defender “um absurdo como este”, e destacou em seu post: “há que se observar uma perversão do sistema representada pelo modo de captação em si: dos 1,3 milhão de reais aprovados, nada menos do que 130 mil reais (ou 10%) ficarão com a empresa responsável pela captação”. E Gravatai Merengue, por fim, observou: “O ‘Diretor Artístico’, É A PRÓPRIA BETHÂNIA, receberá R$ 600 mil pelo blog (ou pelos vídeos, como queiram)”.

É lógico que, com uma bola quicando na área como essa, não tardaram para surgir as piadas em torno do imbróglio da vez. Vide o Blog da Bethânia, sátira cunhada pelo publicitário Raphael Quatrocci, que graças ao seu timing preciso e a uma única postagem (com 520 comentários até agora) citando o quadro clássico dos Trapalhões com Didi Mocó dublando “Teresinha”, criou um blog que recebeu mais de 78 mil acessos em menos de dois dias. Duas outras sátiras que também merecem destaque: “365 Poemas a Um Real”, que também objetiva “invadir a internet com lirismo, delicadeza e difundir a cultura na rede” (palavras que tomei emprestadas do projeto original da Bethânia), porém com orçamento consideravelmente mais enxuto, e “365 Pagodes” (sua descrição: “A verdadeira poesia brasileira: o pagode. Aqui tem isso: 365 pagodes, nenhum financiamento estatal. Aproveitem”).

Embora o cineasta Jorge Furtado tenha afirmado, em um post enfurecido, que “a gritaria contra o blog de Maria Bethânia é uma mistura de ignorância, preconceito e mau-caratismo”, creio que todo esse imbróglio rendeu boas discussões sobre o papel do Estado em incentivar a produção cultural e as distorções da atual legislação brasileira. E, antes que você se apresse em jogar mais pedras na Geni, recomendo a leitura de dois posts: “Entenda por que Maria Bethânia não está roubando o seu dinheiro”, de Renata Correa, e “Blog da Bethania: tuitar é fácil, cobrar o Estado nem tanto”, de Flavia Penido.

18 comentários »

Decretaram a morte dos blogs. De novo.

sex, 04/03/11
por Alexandre Inagaki |
categoria Blogosfera

Não é de hoje que profetas do apocalipse afirmam que os blogs subiram no telhado, seguindo o mesmo destino de outras ferramentas como mIRC, ICQ e Napster. Em 2008, a mesma Wired que anunciou recentemente a morte da Web já havia afirmado: “Twitter, Flickr, Facebook fazem os blogs parecerem tão 2004″ (recomendando, inclusive, que pessoas que estivessem pensando em começar um blog abandonassem a ideia). Um ano depois, uma matéria no The Guardian fez a mesma fatídica previsão, também imputando esse “assassinato” à ascensão de mídias sociais como o Twitter.

Pois bem: agora foi o New York Times, que em matéria publicada no fim de fevereiro, baseada em pesquisa realizada pelo Pew Research Center, afirmou que os blogs estão perdendo seu apelo. Para tanto, cita casos como o do aspirante a cineasta Michael McDonald, que deixou de postar seus vídeos no blog para publicá-los diretamente no Facebook, onde seus amigos também podem ver e comentar seus trabalhos. O texto do NY Times inspirou uma matéria da Folha de S. Paulo cujo título vaticina: “Novas gerações abandonam blogs”. E aí, será que podemos chegar à conclusão de que o ato de blogar virou coisa de tiozinho de meia-idade? Twitter, Facebook e outros meios de publicação de conteúdos na rede como o Tumblr e o Posterous teriam matado os blogs com um candelabro na biblioteca, tal qual o Coronel Mostarda?

Ilustração do The Daily Swarm, comentando a matéria do NY Times sobre a "decadência" dos blogs.

Nem 8, nem 80. Concordo com a conclusão de Mark Evans, colunista do The Globe and Mail, que parafraseou aquela frase clássica de Mark Twain: “as notícias sobre a morte dos blogs são muito exageradas”. Pois, se é fato que jovens de 12 a 17 anos, ao menos segundo a pesquisa citada pelo NY Times, estão deixando de manter blogs (de 2006 para 2009, o número de blogueiros nessa faixa etária caiu de 28% para 14%), basta fuçar o mesmo levantamento feito pelo Pew Research Center para constatar um outro número tão significativo quanto: entre os internautas com mais de 18 anos, o número de adeptos da boa e velha atividade de blogar subiu de 11% para 14%. Ou seja: tudo na vida é uma questão de perspectivas. Recordo aqui uma pérola de sabedoria do grande filósofo Homer Simpson: “As pessoas inventam estatísticas para provar qualquer coisa. 40% das pessoas sabem disso!”.

Não custa lembrar também que Tumblr, Twitter e Facebook, “vilões” citados em todas as principais matérias que profetizam de modo mãedinahstico a agonia dos blogs, não deixam de ser novas formas de publicar conteúdos na internet. São mais simples, mais rápidas e práticas do que um WordPress ou um LiveJournal da vida? Sim, mas não deixam de ser novas ferramentas de blogagem, que facilitam o trabalho de quem não tem tempo de redigir longos posts ou prefere publicar fotos, ilustrações e vídeos com uma e outra linha de texto. Além disso, como bem pontuou a edição de 2010 do State of the Blogosphere, pesquisa anual feita pelo Technorati, blogueiros têm usado Facebook e Twitter como ferramentas eficientes para divulgar seus posts e trazer novos visitantes a suas páginas. Enfim, trata-se de um filme que já vimos outras vezes: a fotografia não matou a pintura, a TV não acabou com as rádios, blogs convivem com as redes sociais e cada qual tem o seu espaço e função neste cenário de convergência de mídias.

Por fim, resgato uma declaração dada por Scott Rosenberg, autor do excelente livro “Say Everything”, sobre a história da blogosfera e os rumos que ela está seguindo. Em entrevista à revista Time, afirmou Rosenberg: “Antigamente, blogs eram considerados triviais, mundanos e cheios de posts comentando coisas como o que você tinha comido no almoço. Essas mensagens agora estão no Twitter – junto com outras coisas, é claro – enquanto blogs servem como uma esfera pública para expressar ideias e um local no qual pessoas exercem sua criatividade e auto-expressão”.

Sim, os blogs permanecem vivos, fortes e perseverando por aí: revelando novos talentos, divulgando causas e, principalmente, conectando pessoas afastadas geograficamente, mas unidas através de ideias, ideologias, idiossincrasias e amizades.

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A Campus Party 2011 está longe de acabar

seg, 07/02/11
por Alexandre Inagaki |
categoria Campus Party
| tags #cpbr4, Campus Party Brasil 2011

João Paulo Cuenca, escritor que veio pela primeira vez a uma Campus Party nesta edição de 2011, fez uma descrição bastante precisa do evento: “A experiência de caminhar pelos corredores da Campus Party é quase como navegar na internet: um monte de estímulos e de barulhos e de coisas nas telas. É estranho, mas é interessantíssimo.”

Flagra da abertura oficial da Campus Party Brasil 2011, no dia 17 de janeiro.

Foto: Cristiano Sant’Anna/indicefoto.com

Eu, que tive o privilégio de estar presente na Campus Party Brasil desde a sua primeira edição, em 2008, posso aproveitar quase as mesmas palavras que usei para descrevê-la três anos depois. A mudança mais significativa é que o evento foi transferido do prédio da Bienal do Ibirapuera para o Centro de Convenções Imigrantes, por questões de espaço. De resto, ao menos no aspecto mais importante, que é o contato com as pessoas, a CParty essencialmente mantém-se a mesma: “O aspecto que mais me impressionou até agora foi a quantidade de gente bacana e interessante que tenho encontrado in loco por lá. A dinâmica das conversas que tive na Bienal hoje se assemelhou a uma engrenagem que não parava; foram muitas as vezes nas quais eu participava animadamente de uma roda de amigos até ser cumprimentado por um colega de outros carnavais, um camarada que até então só conhecia virtualmente ou um leitor do meu blog que parava pra dar um alô. E eu então me movia de um bate-papo para outro, feito a brasa de um cigarro aceso em outro, e muitas foram as vezes em que eu (mea culpa) simplesmente esquecia de me despedir de meu interlocutor anterior, porque imergia totalmente em uma conversa, e outra, e mais outra, na imensa rede de conversações que está personificando em carne, osso e idéias a teia de hiperlinks que caracterizam a blogosfera como ela deveria ser.”

Ok. É lógico que, de lá para cá, passaram-se quatro edições do maior evento de tecnologia e cultura digital do país. E que a Campus Party Brasil cresceu de tamanho e de importância: nesta edição de 2011 cerca de 6.800 campuseiros compartilharam conhecimentos, produziram conteúdos, assistiram a palestras e oficinas, mirabolaram projetos, compraram adaptadores de tomada por até R$ 12, conheceram pessoas que vieram de todos os estados do Brasil, deram check-ins nas “filas monstro”, divertiram-se às pampas abstraindo os problemas de apagões de luz e de internet, pegaram autógrafos de personalidades como Steve Wozniak, fizeram balbúrdias com seus roupões, laser pointers e “gritos de guerra” em uma semana intensa.

O grito de guerra dos nerds na #cpbr4 na visão apurada de Mr. @graveheart

ôôÔÔôÔôôôôÔÔÔôô…

E no entanto, assim como ver o show de sua banda predileta na TV não passa nem um quinto da emoção de assisti-la alguns metros à sua frente, falar sobre todos os eventos, ideias pipocando, encontros e reencontros proporcionados pela Campus Party é algo que jamais poderá se comparar à emoção de ter feito parte de toda aquela balbúrdia divertida e altamente produtiva. Menos mal que momentos antológicos como a palestra sobre “orgulho nerd” dada pela dupla Alexandre Ottoni & Deive Pazos, do Jovem Nerd, que contou com a participação de Eduardo Spohr e Marco Gomes, ficaram registrados em vídeo. Mas só quem viu aquele instante ao vivo é que sabe da emoção que foi aquele momento.

Bia Granja e o momento #CampuseiroDaDepressao

E aí, quando é começam as inscrições para o #cpbr5?

Nestes tempos nos quais estamos conectados o tempo todo, seja através de celulares, tablets ou dispositivos móveis que fazem com que consigamos ver informações e compartilhar momentos num estádio de futebol, numa fila de banco ou assistindo ao Big Brother, as fronteiras entre o online e o offline são cada vez mais tênues. Por essas e outras, a experiência de viver os dias da Campus Party, vendo pessoalmente alguns dos principais players que estão catalisando as mudanças aqui e agora, foi tão bacana. Boa parte dos projetos que foram engatilhados a partir dos encontros que rolaram na semana de 17 a 23 de janeiro está começando a acontecer, me dando a impressão de que a #cpbr4 ainda está longe de terminar e foi apenas o capítulo inicial de boas histórias e empreitadas bacanas que haverão de render muitos frutos.

Tomo emprestada, pois, a pergunta feita por Maurício Saldanha em seu vídeo com os “créditos finais” desta edição da Campus Party: quando chega o ano que vem?

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O melhor (e o pior) dos blogs em 2010

qui, 30/12/10
por Alexandre Inagaki |
categoria Blogosfera, Retrospectiva 2010

Não. Nem o Twitter, nem o Facebook, tampouco o Tumblr, o Formspring ou o Foursquare foram capazes de matar os blogs em 2010. Muito pelo contrário, a blogosfera permanece firme e forte, tanto no Brasil como no exterior. Segundo estudo feito pelo The Blog Herald, há mais de 146 milhões de blogs no ar, sendo 2% deles (ou seja, cerca de 292 mil) em português.

Em outro estudo, o State of the Blogosphere (levantamento anual realizado pelo Technorati, principal diretório de blogs do mundo, desde 2004), algumas tendências significativas foram constatadas. Por exemplo, a crescente convergência dos blogs com outras mídias sociais e o aumento do uso de tablets e smartphones para leitura e publicação de posts (25% dos entrevistados já usam dispositivos móveis para atualizar seus sites).

Em um ano marcado por eleições e Copa do Mundo, a blogosfera tupiniquim foi protagonista de debates apaixonados e acirrados. Pela primeira vez um Presidente do Brasil concedeu uma entrevista exclusiva para blogueiros. Mas, em meio a esse fato inédito, testemunhamos a proliferação de sites apócrifos, brigas em espaços de comentários e uma polarização inflamada de embates entre militantes tucanos e petistas na rede. E, se por um lado a Web é uma página em branco quase infinita que abriga opiniões de todos os tipos, por outro me preocupa a tendência de pessoas limitarem-se a somente ler blogueiros ou seguir twitteiros que já corroboram suas opiniões, em vez de buscarem acompanhar também pontos de vista discordantes. Mau sinal: vivemos tempos nos quais internautas parecem ter desaprendido a rebater opiniões contrárias com argumentos, atendo-se a xingar quem pensa diferente com comentários anônimos e réplicas raivosas.

2010 também foi o ano em que a TV se rendeu ao celeiro de novos talentos que é a blogosfera. A MTV, que desde 2008 já buscava na internet nomes como Mari Moon para integrar seu quadro de VJs, prosseguiu garimpando em blogs e Twitter revelações como Thiago Borbolla (do Judão), Marina Santa Helena, Daniel “Katylene” Carvalho e Leandro “MussumAlive” Santos para a televisão. Mesmo caminho trilhado pelo Multishow, cujo portal abriga blogs como Jacaré Banguela e Chongas.

É uma pena que projetos bacanas de coletivos como o Interbarney e o Verbeat decretaram o seu fim em 2010. Um minuto de silêncio também para o BlogBlogs. Que, criado por Manoel Lemos em 2006, foi durante muito tempo o principal diretório brasileiro de blogs. Mas enfim, vida que segue. Enquanto alguns projetos são descontinuados, outros novos surgem a todo instante em tempos nos quais novidades como Chatroulette e Google Wave aparecem e somem no aparentemente enorme intervalo de um ano.

A seguir, cito dez blogs brasileiros que se destacaram em 2010 pela qualidade de seus posts e capacidade de reverberação de seus conteúdos. Os blogs a seguir foram elencados em ordem alfabética.

Blog do João Villaverde

Blog do João Villaverde – É um alento encontrar na blogosfera brasileira lugares em que a política é discutida sem maniqueísmos reducionistas. Caso do blog de João Villaverde, jornalista que escreve no Valor Econômico e também colabora no Amálgama. E que, já em agosto deste ano, antecipou uma discussão que o PSDB está enfrentando após a derrota nas eleições presidenciais, sobre os novos rumos que a legenda precisa seguir.

Blog de Leonardo Sakamoto

Blog do Sakamoto – Mais um blog que se destacou no período eleitoral, mas que também botou o dedo em outras feridas como liberdade de expressão, trabalho escravo no Brasil e direitos humanos.

Blog de Leonor Macedo

Eneaotil – Leonor Macedo é uma cronista de mão cheia, com senso afiado de observação do cotidiano, humor e delicadeza. A não perder: a série de posts narrando as desventuras amorosas de seu filho Lucas. Por exemplo, o “capítulo 13″, que fala de mulheres ardilosas e homens burros.

Blog de Aline Lima

Godot Não Virá – No blog de Aline Lima você encontrará posts sobre tartarugas fujonas, profissões ideais como as de dona de sebo, jogadora da seleção russa ou dançarina de burlesque, e discussões sobre temas como aborto, liberdade artística, livros e filmes. Em textos que, apesar de soarem densos à primeira vista, são de leitura sempre prazerosa, com “food for thought” da melhor qualidade.

Blog de Juliana Cunha

Já Matei por Menos – O espaço pessoal de Juliana Cunha, jornalista colaboradora de publicações como Superinteressante e O Estado de S. Paulo, e também do excelente blog de moda Oficina de Estilo. Aqui, sem deadlines ou pautas pré-definidas, Juliana fala sobre todos os assuntos que lhe vêm à cabeça, para o deleite de seus bem mais do que trinta leitores.

Blog editado por Alex Correa, Neto Rodrigues e Marçal Righi

Move That Jukebox – Capitaneado pelos editores Alex Correa, Neto Rodrigues e Marçal Righi, o Move That Jukebox traz entrevistas exclusivas, resenhas de lançamentos e notícias do universo musical em posts de leitura saborosa que fizeram deste blog referência obrigatória entre os veículos independentes do país em pouco menos de três anos no ar. E que reflete o bom momento do jornalismo musical na rede, muito bem representado por outros blogs como Rock’n'Beats, Urbanaque e o indispensável Scream & Yell.

Blog de Celso Rocha de Barros.

Na Prática a Teoria é Outra – Outro grande destaque durante as eleições presidenciais, o NPTO de Celso Rocha de Barros ganhou merecida citação na Folha de S. Paulo pelo modo como conseguiu escapar das discussões polarizadas no auge da disputa Dilma vs Serra. Sem esconder suas preferências ideológicas, escreveu posts críticos e ao mesmo tempo bem-humorados. IMHO, foi o grande blog de política de 2010.

Blog de Maurício Cid

Não Salvo – Maurício Cid começou a se destacar na rede moderando mais de 600 comunidades no Orkut (quando ainda usava a alcunha de C!). Há dois anos, migrou para o universo dos blogs. Nesse intervalo de tempo, seu Não Salvo chegou à marca de 15 milhões de páginas visitadas por mês, foi considerado o blog do ano em eleição promovida pela Folha de S. Paulo e também foi o primeiro blog brasileiro citado pelo New York Times, graças ao vídeo do “Cala Boca Galvão” criado por Nando Pax. Que é um dos vários exemplos de webhits postados primeiro pelo Não Salvo, que também ajudou a popularizar vídeos como Justin Biba (vencedor do VMB) e Dunga em Um Dia de Fúria. Provas de que, se você quer saber o que está rolando de mais quente na internet brasileira, precisa ter o Não Salvo como bookmark obrigatório.

Blog de Ricardo Yoshio Okama

Ryot IRAS – Não é de hoje que os blogs se transformaram em ótimas plataformas de publicação de quadrinhos, vide o Manual do Minotauro de Laerte Coutinho, os Malvados de André Dahmer, o Mau Humor de Arnaldo Branco e o Nanquim na Unha de Leandro Caracciolo. Mas, pela qualidade dos webcomics que produziu durante todo o ano de 2010, destaco em especial o blog de Ricardo Yoshio Okama Tokumoto, que impressiona pela constância e pelo alto nível de suas tiras.

Blog de Tiago Dória

Tiago Dória Weblog – Blogueiro desde 2003, Tiago Dória permanece sendo referência obrigatória para qualquer um que deseja compreender melhor este universo cada vez mais dinâmico da cultura web. Recomendo em especial a leitura destes posts: Por uma internet mais humana, Chatroulette nos tira da zona de conforto, Arte de criar e transmitir boatos e Cinco livros que eu comentei em 2010.

Por uma internet mais humana

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Blogs e a pergunta que não quer calar

ter, 21/12/10
por Alexandre Inagaki |
categoria Blogosfera

Em todos estes anos trabalhando nesta “indústria vital”, eu nunca deixei de ouvir uma pergunta em todos os eventos que reúnem blogueiros desde que participei do BarCamp São Paulo. Para quem não sabe, este evento organizado por André Avorio nos dias 24 e 25 de março de 2007, representou o pontapé inicial de todos os BlogCamps que foram realizados no Brasil de lá para cá.

BarCamp Sampa em 2007

Recordar é viver. Quantas figurinhas carimbadas da blogosfera você reconhece nesta foto de março de 2007, publicada no blog do Tiago Dória?

Os blogueiros das antigas, que já participaram dos BlogCamps organizados desde 2007 e de outros eventos como a Campus Party Brasil, não aguentam mais ouvir falar na pauta que sempre é levantada por algum incauto na multidão: como ganhar dinheiro com blogs? E não preciso pegar uma carona no DeLorean da memória para relembrar discussões acaloradas e as polemizações de sempre envolvendo blogueiros que “traíram o movimento”, posts paraquedistas, uso indiscriminado de Google Adsense e programas de afiliados, publieditoriais, jabás, posts patrocinados, yada yada yada. Enfim, os mesmos papos sobre monetização que acabaram por inspirar uma piada genial do Luiz Biajoni.

Monetizando blog

A inusitada participação do pintor Claude Monet nos debates que envolveram a blogosfera brasileira.

Já me manifestei sobre o assunto várias vezes, e minha opinião não mudou muito de lá para cá. A resposta definitiva para quaisquer questões relacionadas a monetização é simples: a chave está na produção de conteúdo inédito e relevante. Se você publicar posts capazes de apresentar um conteúdo diferenciado do que já estamos habituados a encontrar em portais ou outros blogs, paulatinamente se fará conhecer. Expresse opiniões, compartilhe conhecimentos, dê a cara a bater. E escreva sobre os assuntos que você melhor domina, ao invés de agir feito mais uma maria-vai-com-outros, postando sobre os temas e as celebridades da vez só porque teoricamente eles gerarão mais visitas. Destacar-se da multidão, em especial numa época na qual há milhões de pessoas produzindo conteúdos em blogs, Twitter, Facebook, Flickr e YouTube, não é tarefa fácil.

É bom lembrar, porém, que há diversas e diversas maneiras de usar blogs como maneira de ajudar a manter o nome limpo no SPC e Serasa. Vide, por exemplo, o caso do Papo de Homem. Criado há quatro anos pelo publicitário Guilherme Nascimento Valadares sob o conceito de lifestyle magazine, o PdH cresceu a tal ponto que, de blog, acabou por se tornar um portal de conteúdos voltados para o público masculino. Como resultado de todo o trabalho desenvolvido até hoje, o Papo de Homem possui nove funcionários (sendo seis deles em tempo integral), provando que blogs podem, sim, representar o ponto inicial para a criação de novos e promissores negócios.

Papo de Homem: um blog que virou empresa.

Papo de Homem: exemplo de blog que virou empresa.

Há diversos outros exemplos de sucesso na blogosfera brasileira, provando que só os caducos da vida digital ainda são capazes de definir blogs como “diarinhos online”, estereótipo que foi muito disseminado no começo desta década. Vide, por exemplo, o “business plan” de um blog como o Amélias, que foi criado a partir da necessidade de divulgação de produtos ligados a um e-commerce, no qual as pautas eram criadas a partir das ofertas promovidas por uma loja virtual. Ou o Garotas Estúpidas, da pernambucana Camila Coutinho. Além de promover o concorrido evento Shopping Day, reunindo leitoras para um dia de compras, Camila teve o privilégio de ver o Garotas Estúpidas sendo citado como um dos 45 blogs de moda mais bacanas do mundo pelo site da Vogue Paris.

Mas o caso é que os blogs não são nada mais do que ferramentas de publicação que facilitam a vida de quem deseja compartilhar ideias, fazer novas amizades e puxar uma cadeira na imensa mesa de bar da Internet. Assim como existem livros que compilam receitas, elencam dicas duvidosas de autoajuda, reúnem poemas, romances épicos ou confissões cotidianas, também existem blogs para todos os gostos, sexos e públicos. Fazer negócios é apenas uma das muitas facetas de uma ferramenta fantástica, que possibilitou que um taxista como Mauro Castro iniciasse carreira literária, um cardiologista como o Dr. Leonardo Diamante começasse a blogar aos 65 anos de idade e uma mãe como Odele Souza criasse o blog Flávia Vivendo em Coma para denunciar ao mundo o caso de sua filha, que está em coma há mais de 12 anos em decorrência de um acidente provocado pelo ralo de uma piscina.

Por causa destes e de tantos outros motivos personificados pelos muitos amigos que fiz graças ao meu blog pessoal, não posso deixar de dizer que fico meio frustrado quando vejo a insistência com que ainda me fazem a tal pergunta que não quer calar. Ok, não sejamos hipócritas: como diz aquela piada surrada, dinheiro não traz felicidade, mas pode encomendá-la por delivery. Porém, há razões muito mais gratificantes para começar a escrever em um blog. A vida é boa e cheia de possibilidades. =)

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Internet “hemburresce”?

qua, 08/12/10
por Alexandre Inagaki |
categoria Vida digital

A internet pulveriza nossa atenção. Cada link que encontramos em um texto é um estímulo a mais para o DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção) que há dentro da gente. E bastam alguns minutos para que meu browser fique repleto de abas abertas carregando sites sobre os quais não tenho a menor ideia de como fui parar neles, feito um turista acidental que perde seus mapas no meio do caminho.

Nicholas Carr, professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology), escreveu em 2008 um artigo polêmico intitulado “O Google está nos fazendo estúpidos?”, no qual lançou a tese de que a internet (simbolizada pela sua ferramenta de buscas mais conhecida) está minando nossa capacidade cognitiva e reflexiva.

Oras, por que se preocupar em guardar certos dados no HD limitado de nossos cérebros, se o Google está aí como muleta do conhecimento, capaz de nos dar as respostas mais imediatas ao alcance de poucos cliques? E assim, segundo a visão crítica de Carr, estaríamos caminhando para um cenário de pessoas cada vez mais distraídas, incapazes de se concentrar na leitura de textos mais longos sem resistir à compulsão de apertar a tecla Page Down e pular alguns parágrafos.

Essa visão apocalíptica, segundo a qual o Google e a Web – com seus milhões de blogs, sites e mídias sociais – dispersam nossa atenção a ponto de pulverizar nosso foco, me fez recordar de “Nada Tanto Assim”, canção composta por Leoni e Bruno Fortunato, gravada pelo grupo Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens em 1984. É curioso pensar que, por trás de um pop/rock aparentemente inofensivo e feito para tocar em FMs, há versos que refletem uma geração que parece encarar esta era de excesso de informações de modo cada vez mais superficial.

Só me concentro em apostilas

Coisa tão normal

Leio os roteiros de viagem

Enquanto rola o comercial

Conheço quase o mundo inteiro

Por cartão postal

Eu sei de quase tudo um pouco

E quase tudo mal

Eu tenho pressa

E tanta coisa me interessa

Mas nada tanto assim

Não deixa de ser significativo o fato de que este hit do Kid Abelha foi gravado há mais de 25 anos. Ou seja, muito antes da difusão da World Wide Web, do surgimento de dezenas de canais de TV por assinatura que zapeamos a cada minuto, e do lançamento de celulares e smartphones que tocam e vibram a qualquer momento, inclusive em meio a reuniões, palestras e demais atividades que deveriam merecer 100% da nossa atenção.

Que atire o primeiro mouse aquele que nunca interrompeu uma leitura para bisbilhotar a caixa de e-mails. Ou que nunca acessou o Twitter no meio de um evento, a fim de compartilhar suas impressões em tempo real e aproveitar para fuçar opiniões alheias. E aí, matutando a respeito da tese ciberapocalíptica de Nicholas Carr, penso: será que, de fato, o Google está tornando as pessoas mais estúpidas?

Lembro, por exemplo, que antes da Apple lançar o iOS 4.2, o iPad não era multitarefa. Ou seja, não permitia que vários programas fossem rodados ao mesmo tempo. O que parecia ser um defeito, no entanto, acabou virando qualidade para mim. Pois, graças a isso, consegui ler livros no iPad sem que meu foco se perdesse por causa de janelas do Messenger e avisos de chegada de novos e-mails pipocando na tela.

Em tempos nos quais a gente se habitua quase que automaticamente a escanear com os olhos textos mais longos, dando uma passada de olhos superficial num artigo ao invés de ler cada linha e cada parágrafo com a atenção necessária, confesso que pensei duas vezes antes de atualizar o sistema operacional do meu iPad. Porém, sucumbi e acabei instalando o novo OS.

Há ainda alguns focos de resistência em meu cérebro, contudo, para toda essa saraivada de informações simultâneas. Experimentei o RockMelt, por exemplo, e abandonei de cara a ideia de trocar o Firefox ou o Chrome pelo novo browser do momento.

Até eu, que já estou mais do que habituado a navegar com dezenas de abas abertas, me incomodei com a quantidade caudalosa de informações ao estilo #TudoAoMesmoTempoAgora do RockMelt. Que dá acesso direto, em painéis laterais, a updates de Twitter, Facebook, atualizações de feed e contatos que estejam online no FB. A sensação foi claustrofóbica, como se um tsunami de informações tivesse me engalfinhado por todos os lados. Obrigado, mas ainda prefiro checar as atualizações do Twitter ou das minhas assinaturas de RSS em janelas separadas de um Firefox ou Safari.

Nem para o céu, muito menos para o inferno. Não penso que o Google ou as novidades tecnológicas que permeiam cada vez mais o nosso cotidiano nos emburrecem. A provocação de Carr é válida por instigar reflexões sobre a atual era de informações. Porém, entendo que links, mais do que veículos de dispersão, são janelas que ampliam pontos de vista, aprofundando conhecimentos e trazendo novos dados sobre determinado assunto. Do mesmo modo, penso que os muitos sites que abro em diferentes abas do meu navegador distraem, mas também são fontes de inspiração e fomento de novas ideias. Enfim: como tudo na vida, precisamos descobrir como chegar ao equilíbrio entre o 8 e o 80, almejando chegar a algo próximo do 44. Ou do 42…

16 comentários »

  • Alexandre Inagaki

    Alexandre Inagaki é o autor dos blogs Pensar Enlouquece, Pense Nisso e Pop Cabeça, colaborador das revistas Pix, Trip e Rolling Stone Brasil e curador de eventos como a Campus Party Brasil e o Social Media Brasil. Também é air drummer, poeta bissexto, japaraguaio, cínico cênico e torcedor do Guarani F.C., não necessariamente nesta ordem.

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