O espírito da escada e os posts que deixei para trás
Três problemas seríssimos têm prejudicado a minha produtividade quando o assunto é escrever novos textos, a saber: a) falta de tempo; b) a era do #tudoaomesmotempoagora; e c) superego anabolizado.
O primeiro item é fácil de explicar. Nos dias atuais, creio que tempo vale mais do que dinheiro. Afinal de contas, embora a falta de dinheiro possa deixar seu nome sujo no SPC e Serasa, o fato é que é possível pegar um empréstimo aqui, fazer um bico ali e dar-se um jeitinho. Já o tempo é algo inexoravelmente irremediável. Uma vez perdido, não há como resgatá-lo. E, lógico, para quem é péssimo administrador de seu tempo pessoal, 24 horas acabam não dando conta nem do essencial.
Nestes tempos em que vivemos na internet, imersos numa biblioteca de Babel digital de conhecimentos úteis e inúteis, como conseguir se concentrar em uma única atividade? Basta se interessar em um link tuitado ao acaso, e pronto: o Distúrbio de Déficit de Atenção encasulado dentro da gente cria asas e faz com que a concentração necessária para estruturar um artigo com começo, meio e fim suba no telhado.
Há ainda a questão de autocrítica: um inimigo necessário, evitando a publicação de muitos poemas sofríveis e confissões desnecessárias. Mas que, em excesso, acaba por escassear a produção de textos.
Por fim, há um quarto item que completa a receita para um blogueiro que escreve posts com a frequência das passagens do cometa Halley pelo sistema solar: a questão do timing. Vasculhando os posts que deixei em rascunho para serem publicados no meu blog pessoal, encontrei (sem brincadeira) mais de cem textos inacabados, sobre assuntos variados como TEDx Amazônia, o Dia Mundial do Orgasmo, o gol que Iniesta fez aos 47 minutos do segundo tempo numa partida entre Chelsea vs Barcelona, o episódio final de “Scrubs”, as filhas de Héctor Oesterheld, a vida e carreira do Anão Chumbinho, uma crítica de “Ponte para Terabítia”, Regininha Poltergeist vendendo geladeiras, a medalha de bronze de Joannie Rochette, o grito mais famoso do cinema, o tumulto provocado pela nudez de Nicole Neumann, o sonho do ovo em “Saneamento Básico”, Michael Jackson indiano, cinco motivos para se casar, a bunda de Scarlett Johansson, eutanásia, Patti Boyd, games das antigas, o lado pop da política, o mito do texto curto, o musical “Mamma Mia”, o Refúgio de Platão, navios fantasmas, as últimas palavras de Anton Chekhov e a máquina do tempo de Ronald Mallett.
Ok, eu sei que a maior parte desses assuntos ainda poderá render posts interessantes. Mas sabe aquela sensação brochante que dá quando você está concentrado em uma atividade e, por causa de algum telefonema ou alguma pendência mais urgente, você perde completamente o fio da meada? Como fazer para resgatar aquele ímpeto inicial que estimulou sua inspiração e tomou conta de suas ideias, recuperando o gás necessário para finalizar um trabalho que foi interrompido no meio?
E aí recordo uma expressão francesa, “L’esprit de l’escalier” (“espírito da escada”), que eu creio que traduz com precisão essa sensação de frustração. A expressão surgiu em um livro do filósofo Denis Diderot publicado em 1773. Durante um jantar, Diderot ouviu uma observação a seu respeito que o deixou sem palavras. Sem saber o que dizer naquele momento, Diderot ficou sem reação, só conseguindo pensar com clareza numa resposta à altura quando já estava de saída, descendo as escadas da mansão na qual o jantar tinha sido realizado. O espírito da escada é aquela resposta perfeita, a piada infalível, o argumento irretocável que só lhe vem à cabeça quando o momento já passou.
Muitos dos posts que ainda permanecem na pasta de rascunho viraram gasparzinhos que rondam de vez em quando minha cabeça: textos sobre Trending Topics que já ficaram para trás. Ou ideias que me empolgaram num primeiro momento, mas que não foram desenvolvidas por preguiça ou falta de tempo. Um dia, quem sabe, escapam da gaveta virtual e voltam à tona. Mas, por enquanto, ficam cá encalacradas como esboços de textos, pairando no ar. Tais quais os “amores sempre amáveis” citados naquela canção de Chico Buarque, aguardando alguém que enfim possa aproveitá-los.





















