RAW e bracketing: cruas e entre parênteses
Semana passada vimos que a maioria das câmeras digitais tem menos latitude de exposição do que seria necessário para capturar todas as nuances de luminosidade que nossos olhos são capazes de enxergar – ou que uma câmera de filme seria capaz de reproduzir. Por conta disso, em uma imagem com áreas muito escuras e outras muito claras, alguma coisa invariavelmente ficará subexposta ou superexposta.
Dependendo da situação, uma possibilidade é capturar duas ou mais fotos da mesma cena com exposições diferentes e depois combiná-las no computador. Naturalmente, isso só funciona com imagens relativamente estáticas e, de preferência, com o auxílio de um tripé. Mas é justamente em fotos de paisagens que as técnicas que discutiremos hoje são mais usadas.
Tanto podemos usar o modo manual quanto uma simples compensação de exposição para forçar a câmera a subexpor um pouco uma foto e superexpor a outra (ou seja lá quantas variações você decidir usar). Ou ainda apelar para o chamado bracketing automático. Desde, é claro, que a câmera em questão seja um modelo relativamente sofisticado e ofereça este recurso.
Bracketing, cuja tradução literal seria “colocando parênteses”, consiste em capturar uma sequência de imagens (geralmente 3 ou 5) variando ligeiramente algum parâmetro – que pode ser o foco, o balanço de branco ou, neste caso, a exposição. No bracketing automático, como se pode imaginar, a própria câmera se encarrega dos ajustes, capturando uma sucessão de fotos diferentes quando mantemos o disparador pressionado. No exemplo abaixo, as cinco fotos têm uma diferença de 2/3 de f/stop na abertura de uma para outra, sendo que a primeira é a “correta”.

Fotos capturadas com bracketing de exposição
O resultado, com um bracketing de 3 fotos, seria uma imagem subexposta, uma superexposta e uma com a exposição “correta”. Serve como uma espécie de seguro caso a exposição tenha sido calculada errado, mas também é uma mão na roda quando o objetivo é combinar múltiplas exposições. Mas existe uma maneira ainda mais prática de fazê-lo.
RAW: captura de imagens “cruas”
Os fãs de fotografia mais exigentes certamente já ouviram falar do modo RAW, disponível em todas as câmeras reflex e na maioria das compactas avançadas. O termo, que vem do inglês “cru”, se refere aos arquivos que contêm exatamente os dados capturados pelo sensor da câmera, sem qualquer processamento ou tratamento automático.
Esses arquivos ficam bem mais pesados, com umas cinco vezes o tamanho dos JPGs a que a maioria dos amadores estamos (sim, eu me incluo nessa) acostumados. Alem disso, exigem um trabalho de pós-processamento no computador – na verdade, à primeira vista uma foto RAW pode parecer pior do que uma JPG, simplesmente porque ainda não recebeu tratamento algum. Em compensação, nos dão muito mais flexibilidade e qualidade final.
Pra começo de conversa, os arquivos RAW não estão restritos aos 8 bits por pixel dos JPGs básicos a que nos referimos na semana passada – eles registram tantos bits quanto a câmera for capaz de capturar. Adicionalmente, seus algoritmos de compressão não degradam a imagem a cada vez que ela é gravada, como na abordagem “lossy” do JPG. A grande vantagem dos arquivos RAW, no entanto, é permitir que controlemos individualmente todos os ajustes normalmente realizados automaticamente pela câmera.
Ou seja: coisas como o ISO, balanço de branco, nitidez, filtro de ruído e, de certa forma, até a exposição podem ser ajustados posteriormente, no computador. E não é como num tratamento de imagem tradicional, em que o que já foi descartado na câmera está irremediavelmente perdido (lembram da coluna sobre histogramas?). No modo RAW, tudo o que o sensor capturou continua lá, à sua disposição.

Edição de um arquivo RAW no Aperture
Em tempo: vale lembrar que, diferente do JPG, não existe um único padrão para arquivos RAW. Cada fabricante implementa o recurso de uma forma, nem todos os softwares de tratamento de imagens são compatíveis com todas as variações e nem mesmo a extensão do nome dos arquivos (aquelas três letrinhas depois do ponto) são padronizadas. Mas o resultado compensa.