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Onde estão os robôs?

ter, 29/03/11 por Cardoso | categoria Inteligência Artificial, Robótica

Você falhou comigo mais uma vez, Starscream!

O bordão de Megatron poderia muito bem ser repetido pelo Japão em peso, pelo que se deduz de uma matéria da Reuters, onde é questionada a ausência de robôs nas usinas nucleares japonesas.

Faz sentido. Um robô seria uma forma bem mais segura de lidar com uma zona altamente radioativa, remover escombros com força sobre-humana e trabalhar horas a fio.

O Japão por sua vez é líder mundial em tecnologia robótica, quase todo roboticista (Obrigado, São Asimov) de ponta é de lá. Mesmo assim não há nenhum robô em Fukushima.

Bolas, robôs foram usados em Chernobyl e até em Three Mile Island, em 1979.

Era de se esperar grandes Mechas revirando escombros pelo país, procurando sobreviventes e transportando suprimentos essenciais. No mínimo aqueles PowerSuits como o que a Ripley usou em Aliens.

Onde estão os robôs?

Vou contar um segredo: A maioria dos robôs de hoje em dia são muito semelhantes a isto:

Esse brinquedo dos anos 80, conhecido como Mão Biônica da Estrela, se resumia a isso que você está vendo: Uma alavanca que puxada fechava a mão, que por ter ventosas prendia bem em copos, maçanetas e pescoços de irmãos mais novos. E só.

A maioria esmagadora dos robôs de hoje em dia segue o mesmo design. São carrinhos de controle remoto glorificados. Mesmo o incrivelmente sofisticado Robonauta 2, da NASA é em essência um equipamento de telepresença. Imitará com perfeição os movimentos de um astronauta mas terá um mínimo de autonomia.

Os robôs usados em guerras seguem a mesma linha. Carrinhos de controle remoto com câmeras, algumas vezes armas. Controlados (não comandados) por um operador humano.

Não é culpa dos japoneses, Inteligência Artificial é algo muito mais complicado do que até mesmo Arthur Clarke previu, quando escreveu 2001. A quantidade de informação que precisamos processar e compreender para interagir com o mundo ao nosso redor é imensa. Um computador humano está bem longe da capacidade de processamento até de um inseto.

Sim, há equipamentos autônomos. Neste momento boa parte da aquisição de alvos e reconhecimento na Líbia está sendo feita via GlobalHawks, este avião-robô autônomo que já deu a volta ao mundo sozinho:

Você diz aonde ele deve ir, o quê fotografar. Ele decola, chega até o local, filma, fotograma, dá checkin no FourSquare e volta pra casa. Pousa sozinho, se você quiser.

Na prática os pousos e decolagens são manuais, US$35 milhões não é algo que alguém queira arriscar se puder evitar, e as câmeras são controladas por operadores remotos também, o olho humano é essencial para determinar áreas de interesse e modificar parâmetros da missão, se for o caso. Mesmo assim toda a parte chata é feita pelo robô.

Então… como não há nada assim em terra?

Digamos que é muito mais fácil voar, sem nada à sua volta do que negociar seu caminho em um terreno cheio que pedra, gente, bichos, carros e outros robôs. Um avião está sujeito a Leis Físicas relativamente simples e bem compreendidas. Não há obstáculos acima de 8 mil metros e as chances de se chocar com outro avião são mínimas (eu sei!). Há sistemas automatizados de navegação inercial desde o final dos Anos 50.

Em terra, no Japão as unidades de resgate precisam de agilidade. As unidades de busca utilizando cachorros são uma ajuda muito mais bem-vinda. NADA robótico que temos hoje se compara a um pastor alemão saltando por entre escombros e farejando sinais ínfimos da presença de vítimas nas proximidades.

E nas Usinas?

Há relatos de que a França estaria enviando robôs para medir radiação. É uma iniciativa louvável, e útil, mas é complicado chamar de robô um carrinho de controle remoto com um contador Geiger amarrado. E mesmo esses não terão grande utilidade, por causa de um detalhe crucial:

Não foram feitos para andar em usinas destruídas.

O nosso mundo é quase tão hostil aos robôs quanto o mundo pré-Matrix na Segunda Renascença, e se você não sabe do que estou falando, baix-digo, alugue Animatrix agora.

Nossos robôs não possuem um design muito inteligente. São projetados para um mundo ideal de terrenos planos, com algumas pedrinhas, onde suas esteiras ou rodas conseguem boa tração e não há risco de caírem.

Quem viu Robocop lembra da cena mais realista do filme, o gigantesco e malvado robozão ED-209 tentando descer uma escada e falhando miseravelmente.

Uma casa normal é uma armadilha mortal para a maioria dos robôs, com degraus, carpetes, mudanças de nível e escadas. Bolas, nem R2D2 conseguiria se safar, ainda mais com seus providenciais foguetes auxiliares fora da validade. (foi por isso que eles não apareceram nos Episódios IV,V e VI – Cardoso também é Cultura Nerd)

Nosso mundo é projetado para humanos. Ao criar o Robonauta 2, chamado com muita cara-de-pau pela NASA de R2 foi feito o correto: Ele é humanoide para se adaptar ao nosso mundo. Utilizará as mesmas escotilhas e as mesmas ferramentas que os humanos. É muito mais fácil ensinar um robô a pegar uma ferramenta usando uma mão humana do que provê-lo de tentáculos e primeiro tentar entender como aquilo funciona (se bem que os japoneses provavelmente gostariam do projeto) e depois ensinar ao robô.

Mais ainda: nosso mundo é projetado para gente com dois braços e duas pernas. Não adianta criarmos robôs-tanques, robôs-carros se tudo à nossa volta foi feito para gente que anda. Só estaríamos tornando mais complicada a vida do robô, que sofreria com sua mobilidade reduzida.

E se você duvida desse preconceito arquitetônico contra rodas, converse com um cadeirante.

6 Comentários para “Onde estão os robôs?”

  1. 1
    Josemberg:
    29 março, 2011 as 18:40

    Se voar é mais fácil, que se criem balões com braços articulados, fica mais fácil negociar a rota tem mais autonomia, só não vai rastejar para chegar ao local, mas isso pode ser resolvido com um balão retratil.

  2. 2
    Rafael Leandro:
    29 março, 2011 as 20:16

    Irado o texto. Acho que pra usar rodas, é necessário um aro de grande porte. Rodas pequenas tendem a um desequilíbrio. As coisas são mais simples no céu

  3. 3
    Marina:
    29 março, 2011 as 22:02

    Muito bacana este texto. Parabéns! :)

  4. 4
    pedro:
    30 março, 2011 as 10:54

    Ótimo post, queria compartilhar! cadê os botões?

  5. 5
    sergio:
    30 março, 2011 as 22:40

    belo post e belo testo bem inteligente (não é robo) grande abraço sergio

  6. 6
    José Augusto:
    18 abril, 2011 as 23:40

    “Um computador humano está bem longe da capacidade de processamento até de um inseto”. Essa frase não apresenta o que podemos pensar em ser um paradoxo nos dias atuais?

    Computador humano… Atualmente, e provavelmente pelos próximos (100) anos, ou é computador ou é humano, não?

    Um computador humano não seria um cyborg ou algo do estilo, caso afirmativo, existe, se não me engano, um professor inglês que decidiu fazer implantes de chips de silicone em seu corpo… Mas aí ele tem sim capacidade de processamento de um humano… Bom, não quero ser chato, mas ficou estranho pra mim.

    Bom, o texto está muito legal… “supimpa” ou “da pontinha da orelha” como diriam meus pais, e que venham as pesquisas sobre robôs no brasil…

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  • Carlos Cardoso

    Carlos Cardoso é um legítimo filho da Era Espacial, fã de Júlio Verne e Carl Sagan, e um grande apreciador de tudo o que for relacionado a tecnologia. Escreveu 11 livros e atualmente trabalha como blogueiro profissional em seus sites pessoais e no Meio Bit.

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