A bomba-relógio dos iPads e da Mídia Digital
Hoje não resisti a brincar com um jornalista inglês correspondente no Paquistão; ele estranhou não ter recebido seus jornais, perguntou se era feriado. Respondi que era o Século XXI.
A mídia impressa cada vez mais se rende ao formato eletrônico, as editoras brasileiras abraçaram o iPad e já estão de olho no Android, essas safadinhas…
No exterior surgem periódicos específicos para a mídia tablet, como a Project de Tony Stark Richard Branson, e The Daily, de Montgomery Burns Ruppert Murdoch.
Ler revistas no iPad é excelente, a possibilidade de compartilhar as informações via redes sociais é muito atraente, e o simples fato de não ter que carregar uma pilha de papel de um lado para outro já é vantagem. Quando olho minha coleção da Wired ocupando boa parte da prateleira fico feliz de viver no futuro.
Mas… será que tudo são flores? Será que esse futuro maravilhoso da mídia digital é tão bom assim? As árvores dizem que é, mas da mesma forma que campanhas pró-vegetarianismo estreladas por vacas, há um interesse oculto. Deve existir algum ponto negativo.
Há. E é um problema sério, que não foi pensado, ou pelo menos tornado público.
Ter centenas de livros no iPad ou no Kindle é algo viável, palavras ocupam muito pouco espaço, mas revistas, principalmente projetadas para tablets são outra história. Uma edição de uma revista relativamente fina ocupa pelo menos 200MB. Se for uma edição com muitas imagens e vídeos, conteúdo multimídia que cada vez mais se torna obrigatório, esse número aumenta. O primeiro número da Wired chegou a quase 500MB.
Digamos que você assine a Época, com uma média de 200MB por exemplar. Em dez semanas temos 2GB de revistas em seu iPad. Se for um modelo de 16GB mais de 10% de seu espaço de armazenamento estará ocupado por UMA revista. Se você for um leitor contumaz, ou mesmo SEM o Tumaz, lerá mais de um titulo.
Duas revistas, 20% do armazenamento.
52 semanas em um ano. Multiplicando por 200MB temos 10.4GB.
O espaço ocupado na estante deixa de ser tão feio, né?
“ah, mas não é preciso guardar tudo”
Claro que não, mas e se eu quiser, ou precisar consultar a revista? Uma das grandes vantagens da mídia eletrônica é a facilidade com que pesquisamos grandes volumes de informação. Uma revista em formato digital deixa de ser papel parado e se torna uma fonte rica e viva de dados.
O armazenamento em tablets é bem precioso, ainda é caro e limitado. Cartões de memória não resolvem, são mais coisas pra gente perder, e Murphy garantirá que você irá precisar de materiais em dois cartões diferentes simultaneamente.
Existe a possibilidade da Nuvem, mas no Mundo Real, fora das demonstrações de feiras de tecnologia a velocidade e confiabilidade das conexões wireless ainda deixa a desejar. Há muitos pontos cegos e pontos de baixa performance, além do custo de manter e disponibilizar esse conteúdo para eventual consulta.
Para alguns isso já ocorre, mas eu entendo que o sujeito tem que ser um louco furioso igual ao Murdock do Esquadrão A para querer levar 40 mil músicas e 10 temporadas de Smallville de um lado para outro. Pessoas normais gerenciam suas bibliotecas de mídia e só colocam nos dispositivos moveis um subconjunto do que possuem.
Só que mesmo pessoas normais sempre levam TODOS os livros digitais em seu dispositivo.
Mídia de leitura e consulta é percebida de forma diferente na cabeça do leitor. Sua própria necessidade tem um timing diferente. Ninguém concebe espear um download de 200MB para procurar algo em uma revista, muito menos quando nem lembramos do número onde a matéria saiu.
Principalmente, a compra digital ainda é algo que não foi bem assimilado pelo leitor. A falta de algo físico para interagir deixa muita gente desconfortável. Por mais cruel que seja, o papel é real, a informação é intangível.
A sensação de apagar um número de uma revista digital, para liberar espaço no tablet soa como jogar dinheiro fora, por mais que jogar uma revista velha no lixo não pareça –e seja- a mesma coisa.
Portanto é provável que em um futuro próximo nossos iPads estejam lotados e tenhamos que fazer várias Escolhas de Sofia, por mais doloroso que seja.
Como resolver?
Imagino que uma alternativa seja as editoras criarem agregadores, arquivando exemplares antigos das revistas sob sua bandeira. Esses exemplares seriam armazenados sem imagens, com o texto extremamente compactado e com muitos índices de pesquisa.
Com isso o leitor/pesquisador evitaria ao máximo a consulta online, teria acesso ao grosso das citações e matérias, e se fosse o caso aí sim baixaria somente o artigo que interessa.
Resolveria o problema do uso offline ou em condições não-ideais, resolveria o problema do espaço (a idéia é que os tablets mais novos venham sempre com mais memória) e resolveria o problema da “sensação de propriedade”. Você não apagou nem abriu mão de nada, só guardou as revistas velhas na versão digital do armário da garagem.


18 maio, 2011 as 8:34
Seria uma boa as editoras terem agregadores mesmo. Mas uma outra solução, pelo menos enquanto elas não fazem isso, seria deixar as revistas armazenadas no Dropbox ou algum outro serviço na nuvem pra facilitar o acesso.
26 maio, 2011 as 15:04
Eu também tenho muitos problemas de espaço com meus livros, revistas e HQ’s e ainda não sou adepto de e-readers ou iPad (Não por opção, mas por falta de grana mesmo) e vejo no armazenamento digital de certas mídias um problema que não foi levantado no texto.
Não que eu seja paranóico, mas a manipulação de informação digital é muito mais fácil do que manipulação de dados físicos. Como tudo na vida e na morte isso também tem o seu lado bom e o lado ruim.
O lado bom é que uma matéria que foi impressa com algum erro, ou faltando alguma fonte, ou mesmo com erro de digitação, pode ser facilmente corrigida e os novos leitores não visualizarão a matéria errada e sim a matéria já corrigida. Isso eliminaria boa parte das erratas que hoje em dia tem uma coluna fixa na maioria das revistas e periódicos impressos.
O lado ruim é que qualquer informação pode ser manipulada para o mal (vide 1984 e Revolução dos Bichos ambos de George Orwell). Um personagem histórico pode ser simplesmente “deletado” da história da humanidade com simples alterações de textos e matérias, já que toda a informação ficaria na nuvem e não em um local físico.
Assim como todo geek/nerd/gordo eu adoro tecnologia, mas tenho um certo pé atrás com a digitalização de tudo e tenho certeza que muita informação já foi perdida, muitas músicas não são mais ouvidas e por não terem sido transportadas pras novas tecnologias permanecerão no Limbo, e isso pode acontecer com livros, revistas e informações importantes podem ser perdidas.
Concluindo, novas tecnologias sempre irão angariar novos leitores e isso só faz aumentar o número de publicações o que é muito bom, mas o problema do armazenamento digital seguro, na minha opinião ainda está longe de ser resolvido.
16 julho, 2011 as 2:53
Excelentes observaçoes. É um ponto que eu tambem me preocupo. Ao comprar o ipad a primeira coisa que fiz foi colocar nele a coleçao completa dea revista Engenharia de software, que eunera assinante. Todas em pdf. Ficou perfeito! Ler no notebook era horrivel. Imprimir nao dava. Mas no ipad estava tudo ali. Na mão.
Pensei então: como seria bom se eu tivesse um bom scanner, com velocidade e facilidades para poddr scannear todas as revistas de algumas coleçoes que tenho (HBR, HSM, yogajournal, etc) e colocar elas em pdf.
E entao o que vejo? As editoras criando revistas em formatos diferentes do pdf. Mais bonitos, interativos, mais modernos? sem dúvida… Mais muito maiores… Agora estou eu aqui, olhando para as revistas eletronicas que comprei e pensando quais as que vou jogar fora.
Bons tempos do papel e pdf….