Techtudo

Gadgets – TechTudo
  • REVIEWS
  • BLOGS
  • DICAS & TUTORIAIS
  • ARTIGOS
  • JOGOS
  • DOWNLOADS
  • FÓRUM

Adeus, Spirit

sex, 27/05/11 por Cardoso | categoria Inteligência Artificial, Robótica, Tecnologia

A NASA, em 25/5/2011 cancelou depois de um ano as tentativas de contactar a sonda Spirit. Projetada para uma missão de 3 meses, o robozinho sobreviveu a invernos marcianos de –40 graus, tempestades de areia e Sol inclemente por longos seis anos. Uns acham que é o fim. Eu não. Deixo aqui uma visão mais otimista em honra a uma maquininha valente…

Histórias de Viajantes

Na órbita de Netuno as estrelas começaram a cintilar, como se vistas por uma atmosfera que ali não existia. Em alguns segundos uma região do espaço se contorcia como uma bandeira, enquanto toda a cor tendia ao azul, ao branco e a faixas do espectro proibidas para olhos humanos, se ainda existissem. Do nada, onde havia apenas espaço, surge a Nave. Sem fanfarra, sem explosão de luz, sem ruído. Muito quântico, nada hollywoodiano, mas assim é o Universo.

Atraída pelo fraquíssimo sinal de rádio a equipe de pesquisadores decidira por unanimidade investigar. Inteligência era algo raro demais para ser ignorado, raro o suficiente para justificar os imensos recursos necessários para abrir uma ponte Einstein-Rose entre dois pontos no espaço.

Os exobiólogos se contentariam com qualquer coisa rastejante, mas toda uma geração de exosociólogos e xenolinguistas adorariam encontrar Vida Inteligente, para finalmente validar suas profissões. Até então nunca haviam conseguido.

Os Viajantes imediatamente começaram a sondar a região. Computadores com QIs que humanos chamariam de gênio mas que para os Viajantes eram meras ferramentas logo identificaram uma anomalia: O sistema solar não tinha planetas interiores, somente um cinturão de asteroides. O primeiro planeta era uma pequena esfera avermelhada, com um lado totalmente calcinado. Algo muito grande havia acontecido ali. Como em um velho guerreiro (um conceito desconhecido para os Viajantes) as cicatrizes contavam sua história.

A flutuação no nível de neutrinos vindos da estrela foram a resposta: Aparentemente comportada, em verdade era uma armadilha mortal, um Sol que de milhões em milhões de anos expelia trilhões de toneladas de plasma, em uma espécie de roleta russa cósmica. Desta vez pelo menos três planetas estavam na linha de fogo.

Mesmo com toda sua tecnologia os Viajantes tremeram ao pensar no Evento. Com oito minutos de alerta nem eles conseguiriam salvar sua espécie, que dirá os filhos de uma estrela tão nova.

Só que o sinal continuava a ser emitido. De alguma forma algo criado por uma civilização primitiva sobrevivera a um cataclismo solar, um pulso eletromagnético inimaginável e um inferno de chamas.

Alguns dos Cientistas expressavam admiração pelos colegas há muito mortos e sua inventividade. Outros imaginavam estar diante de uma espécie bem mais avançada. O Cientista-Chefe estava mais interessado em desvendar o mistério, e sem se dar ao trabalho de consultar os subalternos, direcionou a Nave para o 1o Planeta, fonte do Sinal.

Imagens de neutrinos mostraram que não havia vida ou civilização ali. Nenhuma estrutura. Observações iniciais fizeram com que um dos cientistas mais jovens vislumbrasse uma série de canais, um belo feito de engenharia planetária mas que se revelaram apenas uma ilusão de óptica.

Telescópios da Nave centrados no Sinal mostravam um objeto minúsculo, pequeno demais para ser uma nave. Nenhum gerador de Matéria Negra, nem mesmo um simples módulo de ponto zero, a fonte de energia do objeto era desconhecida. Não que fosse necessário mais incentivo, mas mesmo assim em uma rara ordem desnecessária para uma espécie que funcionava baseada em consenso o Cientista-Chefe comandou o lançamento de uma nave auxiliar.

Protegidos por campos atmosféricos –trajes espaciais haviam sido abandonamos milênios atrás- os cientistas cercaram o objeto, examinando-o em com todo tipo de sensores. Um deles ergueu um apêndice, no gesto universal de saudação “estou desarmado”. Universal ao menos segundo todos os exoantropólogos, que não estavam ali para comprovar tal universalidade.

O objeto ignorou a presença dos Viajantes. Poderia ser um ato de extrema arrogância de uma Entidade Superior, ou mais provavelmente uma forma de proteção. Foram precisos vários minutos até que a realidade fosse percebida. Por mais inimaginável que seja, estavam diante de uma máquina incapaz de se comunicar e interagir com seres inteligentes.

A noção era ridícula e contrariava o fato incontestável de que a máquina sobrevivera a um evento de destruição de proporções cósmicas. Nada tão simples poderia ser tão resistente.

O Cientista da Informação do grupo se aproximou com uma Sonda Universal. Os dados o fizeram repetir a sondagem. Aquela máquina funcionava com uma única CPU de 20MHz, sua memória era de 128MB, um valor tão baixo que não existia fora das aulas de teoria básica. Como algo poderia funcionar com tão poucos recursos?

A resposta veio aos poucos, enquanto os circuitos de tradução do Computador Central faziam engenharia reversa nos circuitos do objeto. Aos poucos um modelo exato era montado na mente cristalina da Nave. Espectrografia de Antineutrinos indicava a composição de cada peça. “Usavam Silício” – disse o Cientista da Informação – “Li sobre isso em livros antigos mas nunca pensei em ver algo assim funcionando”.

O Computador Central da Nave desvendou o principal mistério. Há muito congelada, a pequena máquina havia sido coberta por centenas de anos de poeira vermelha, enterrada para sempre. Quando a estrela lançou sua língua de plasma e destruição a máquina, sepultada, estava do lado oposto do planeta. As tempestades e ventanias que se seguiram a livraram de sua cobertura protetora de terra.

Como já havia acontecido antes, aquele brilhante equipamento inimaginavelmente simples e resistente acordou de seu sono e seguindo sua programação apontou a antena para um planeta que não mais existia, tentando contatar seus criadores.

Seu chamado para as estrelas havia sido atendido, por criaturas mais estranhas do que a pequena máquina –e mesmo os Homens que a criaram- seriam capazes de imaginar.

Agora era claro. Uma espécie perdida, o primeiro sinal de Inteligência encontrado pelos Viajantes, e o único memorial de sua existência era um pequeno robô e seu grito solitário na superfície de um planeta vermelho.

De posse de toda a informação na pífia memória do robô, os viajantes voltaram para a Nave. Em um último gesto o Cientista-Chefe ordenou que as células solares fossem substituídas por uma minúscula Unidade de Ponto Zero, que abasteceria a máquina por incontáveis milênios. Em sua volta foi erguida uma redoma de carbono cristalino antiestático. Nunca mais sua voz seria calada pela poeira dos anos.

Foi um gesto pequeno, mas o máximo que poderiam fazer em honra a uma espécie irmã, que em sua infância demonstrara a mesma curiosidade que os Viajantes. Que a pequena sonda-robô prosseguisse em sua missão, anunciando ao Universo que a Humanidade por um breve momento havia existido.

Adeus, Spirit.

 

27 Comentários para “Adeus, Spirit”

  1. 1
    roberto tauil filho:
    27 maio, 2011 as 14:05

    Muito bom! Um dos textos em que Arthur Clarke gostaria de ter escrito mas não deu tempo.

  2. 2
    Vinicius:
    27 maio, 2011 as 14:06

    Simplesmente genial.

  3. 3
    Fabio Cabral:
    27 maio, 2011 as 14:21

    Caiu uma lágrima aqui. Parabéns, belo post.

  4. 4
    Cristiano:
    27 maio, 2011 as 15:49

    Genial. Muito bom mesmo. Parabéns. Quem gosta de ciência, assim como eu, vai se emocionar lendo seu texto.

  5. 5
    Júlio César:
    27 maio, 2011 as 17:14

    Foi fácil ler e imaginar tudo acontecendo.
    Parabéns.

  6. 6
    Luigi Almeida:
    27 maio, 2011 as 18:44

    Emocionante.
    Essa palavra resume tudo.
    Parabéns.

  7. 7
    profeloy:
    27 maio, 2011 as 19:08

    Muito bom. E o último parágrafo realmente marejou os olhos!

  8. 8
    Rubens:
    28 maio, 2011 as 1:29

    Brilhante e emocionante.

  9. 9
    Alexandre Lopes:
    28 maio, 2011 as 3:53

    Simplesmente genial. Sou fã de ficção científica e digo que não deveu nada aos melhores.

    Os personagens escolhidos foram perfeitos. Lembrei de alguns contos do Asimov que eram assim sucintos e diretos.

    Parabéns…

  10. 10
    Frederico Palmeira:
    28 maio, 2011 as 12:18

    Mais um excelente texto do Cardoso, um oásis nessa terra medíocre e infértil chamada blogosfera.

  11. 11
    Diego Bandeira:
    28 maio, 2011 as 13:30

    Quando eu crescer, eu quero escrver que nem você!

  12. 12
    Xico:
    30 maio, 2011 as 3:47

    Tomei emprestado (e de assalto) o sentimento de perda/vazio daqui:
    http://xkcd.com/695/

    (sei que o Cardoso já conhece, mas fica a referência)

    Quanto ao texto? Emocionante.

  13. 13
    Carlos Alexandre:
    30 maio, 2011 as 10:26

    Sensacional. Valeu, Cardoso!

  14. 14
    Fabrício:
    30 maio, 2011 as 22:47

    Caralho, que puta texto!

    Mandou muito bem Cardoso! Meus sinceros parabéns!

  15. 15
    Roger:
    1 junho, 2011 as 10:33

    Cardoso (falo como fôssemos velhos conhecidos), espero poder continuar lendo teus posts (principalmente no MeioBit) por muito tempo, mas sei que isso não vai durar muito tempo. Logo logo você vai tomar seu tempo com projetos maiores (cinema, por exemplo).

    Parabéns mais uma vez!

  16. 16
    Mike (@eusoumike):
    1 junho, 2011 as 11:57

    Muito legal o texto.
    Mas fica a indagação. O que será que aconteceu de verdade com o Spirit?

  17. 17
    Rafael Leite de Freitas:
    1 junho, 2011 as 13:42

    Mais um excelente texto…
    Você podia começar a pensar em escrever mais contos, quem sabe um livro.

  18. 18
    Eder Lima:
    1 junho, 2011 as 14:33

    Fiquei aqui imaginando de quem seria o texto (já que eu não vi o crédito), mas fiquei com esses dois nomes na cabeça: Arthur Clark e Carl Sagan, o primeiro comentário me aliviou a dúvida! :D

    Sensacional o texto, digno! :)

  19. 19
    Eder Lima:
    1 junho, 2011 as 15:47

    Me confundi com o primeiro comentário.

    Ele disse “Um dos textos em que Arthur Clarke gostaria de ter escrito mas não deu tempo”.

    Novamente, excelente texto! :)

  20. 20
    Henrique Cavalcante:
    1 junho, 2011 as 17:12

    BRAVO!! BRAVO!!
    Quem tem a habilidade de imaginar cenários enquanto lê um texto diante da tela do PC, certamente se arrepiou.

  21. 21
    Tanti:
    1 junho, 2011 as 20:47

    é ou não é a cara da animação Wall-E ?
    Tanto a imagem do Spirit quanto o enredo do texto do Cardoso remete ao filme da Disney.
    Gostei mto do resultado…

  22. 22
    Henrique Cavalcante:
    1 junho, 2011 as 21:46

    BRAVO! BRAVO!

  23. 23
    Cecília:
    1 junho, 2011 as 22:00

    Genial! Vou utilizar nas aulas de física.

  24. 24
    h3nr1qu3:
    2 junho, 2011 as 10:25

    Fácil se deixar levar pela imaginação enquanto se lê as linhas do texto. Brilhante! Parabéns.

  25. 25
    Cícero Lourenço:
    2 julho, 2011 as 3:38

    Senti um nó na gargante.
    Texto primoroso.

  26. 26
    William Silva:
    7 agosto, 2011 as 9:52

    CLAP! CLAP! CLAP!

    Excelente texto! Gosto muito de finais alternativos, do tipo “e se …”. Fazem a mente trabalhar e pensar fora da caixa.
    Parabéns!

  27. 27
    Felipe Miranda:
    7 dezembro, 2011 as 1:56

    Dando continuidade ao assunto do conto. Pelo que a história descreve, esses visitantes do espaço exterior teriam chegado aqui depois do sol ter engolido os tres planetas mais internos ao crescer em super-nova. Isso segundo o que os astronomos dizem, é coisa pra acontecer daqui à cerca de tres ou quatro bilhões de anos no futuro. Certamente a espécie humama estará extinta muitos antes disso acontecer.

    Mas será que o Spirit sobreviveria tanto tempo assim? Componentes eletronicos se deterioram com o tempo mesmo sem uso, Questionavel que ainda possa funcionar após bilhões de anos inativo…

Comentar

deixe seu comentário

« post anterior
próximo post »
  • Carlos Cardoso

    Carlos Cardoso é um legítimo filho da Era Espacial, fã de Júlio Verne e Carl Sagan, e um grande apreciador de tudo o que for relacionado a tecnologia. Escreveu 11 livros e atualmente trabalha como blogueiro profissional em seus sites pessoais e no Meio Bit.

  • Últimos posts

    • O Maligno Segredo que a Apple (e o Google e a Microsoft e a RIM e a Nokia) não quer que você descubra
    • Uma Wikipédia do Século XIX, com papel e garrafas
    • HP Touchpad e o sonho impossível do Tablet de US$100,00
    • 3 hábitos que a tecnologia tornou obsoletos
    • Novos gadgets, velhas histórias
  • Categorias

    • Formatos (3)
    • Fotografia (2)
    • Games (1)
    • Geolocalização (6)
    • Inteligência Artificial (4)
    • Internet (6)
    • Mercado (2)
    • Redes Sociais (1)
    • Robótica (3)
    • Sem categoria (2)
    • Smartphone (4)
    • Tablets (1)
    • Tecnologia (7)
    • TVs (1)
  • Mais colunas

    • Baixatudo
    • Blogs
    • Fotografia
    • Google
    • Hardware
    • Internet
    • Jogos
    • Linux
    • Mac
    • Microsoft
    • Mobile
    • Negócios