O Evangelho Segundo Jobs: Tesão, Paixão e Fé
Deve ter sido porque eu acreditei no roteiro de “Piratas do Vale do Silício”. Ou porque sua participação em projetos ligados a cura de diversas doenças tenha colocado sua contribuição ao Planeta numa esfera mais palpável e humana. Fato é que tenho muito mais simpatia pela figura de Bill Gates do que pela de Steve Jobs.
Mas Jobs é um cara que alcançou aquilo que mais admiro numa pessoa: viveu conforme suas crenças e deixou um legado que durará por muitos anos. Aposentado, lutando contra uma saúde visivelmente precária, ele certamente pode afirmar que “combateu o bom combate”. Pelo menos segundo seu credo. Jobs revolucionou o mundo que mais me atrai, o da tecnologia. De certa forma, revolucionou meu mundo, sim. Nem que seja ao levar outras empresas a fazer coisas melhores do que seus produtos – mas que não existiriam se não fosse por ele.
Jobs é tudo o que falam dele. Mas Jobs não é Deus, como muitos parecem crer. Porque apesar de seus seguidores evangelistas, não vejo ele como um cara estruturado somente na fé. Jobs é brilhante porque reúne em uma só pessoa três tipos de empreendedores de sucesso: o movido pelo tesão, o movido pela paixão e o movido pela fé.
O empreendedor em série é um típico representante dos movidos pelo tesão. É uma coisa de carne. Sua energia está nos hormônios. É o cara que tem prazer no fechar de um negócio. Na identificação de uma oportunidade. “No Gol”. Conheço vários caras fantásticos com esse perfil. Empreendem em tecnologia, artes e boi gordo com a mesma dedicação, empenho e energia. E farejam o sucesso em qualquer dessas frentes. O tesão é, acredito, uma característica que distingue os profissionais bem-sucedidos dos caras podres de rico.
É como diz o incrível mestre Silvio Santos – “depois de certa faixa, depois de garantir o conforto necessário, dinheiro é apenas troféu. Ter muito dinheiro é ter muitos troféus, que atestam que você foi bem-sucedido no que fez”. O tesão busca esses troféus. Jobs tem tesão. Os investidores tem tesão. Eike Batista tem esse tesão. Steve Woz, o parceiro e cérebro por trás do nascimento da Apple, não tinha tesão. Tinha fé. E traçou um rumo completamente diferente para sua carreira.
A paixão é o elemento mais fácil de se encontrar, mas não menos valioso. Paixão pelo negócio. É o empreendedor da indústria têxtil que pode passar horas na fábrica após o expediente sentindo o cheiro dos tecidos. É o que eu, estagiário, sentia ao entrar na gráfica do Jornal do Brasil. Paixão por aquele cheiro de tinta e papel.
A paixão – cega como sua irmã amorosa -, é o que move o empreendedor que inventa seu mundo, seu país, sua bandeira. É o cara patriota não por um país, mas por sua criação. Paixão de Larry Page e Sergey Brin. Paixão e tesão de Bill Gates. Paixão de tantos outros empresários.
A fé você não encontra tanto na Forbes, na Fortune ou na FastCompany. Fé é o que você encontra nas páginas da Wired. A fé move montanhas, mas não tem o mesmo efeito sobre montanhas de dinheiro andando para contas bancárias. Tim Berners-Lee é movido pela fé. O guru do software livre Richard Stallman também.
A fé leva pessoas brilhantes a cruzadas. A desafiar opiniões. A ignorar conselhos. A criar religiões em torno do que fazem. “Organizar todo a informação do mundo”, lema do Google, não é só uma missão/visão corporativa, é um credo.
Steven Johnson, no livro “De onde vêm as boas ideias?”, demonstra como a maioria das grandes invenções vieram de setores não motivados pelo dinheiro em si. Vieram de ecossistemas onde a ideia fluía livremente, porque seus autores não estavam cegos pela paixão a uma invenção, nem guiados pelo tesão de fazê-la virar dinheiro. Estavam motivados pela fé de que aquilo poderia ser algo grande. Nem que para isso fosse preciso abrir mão dos próprios filhos. O cara guiado por essa fé é guiado por seus mandamentos pessoais, e sonha em ver sua utopia realizada.
Steve Jobs conduziu a Apple e tudo o que fez guiado por essas três forças. O tesão que o levou a ser dono da empresa aberta mais valiosa do mundo; a paixão pelo design que o tornou obcecado por seu padrão de qualidade; e a fé que construiu uma religião em torno de produtos que nem sempre foram pioneiros, não necessariamente são os melhores, e que padecem dos defeitos, vícios e contradições de qualquer produto tecnológico moderno.
Jobs – como Gates, Silvio Santos e outros – são MBAs humanos prontos a serem estudados. No caso dele, aprendemos que três forças juntas podem fazer uma empreitada de sucesso. No caso de nós mortais, isso é trabalho para um time inteiro. Ao que parece, Jobs dá conta disso sozinho.
28 agosto, 2011 as 17:35
A que tudo parece, o que realmente é importante é ser verdadeiro, ser movida pela sua verdade interna, sua crença inabalável ao se engajar-se novo num projeto .Gostei de suas colocações, uma visão global. Parabéns. Continue nos trazendo textos deste nível.
28 agosto, 2011 as 19:57
Obrigado, Daria!
29 agosto, 2011 as 9:34
Bela colocaçao….. realmente poucas pessoas compreende casos de homens que fazem sua historia e se torna marca! Jobs será unico será complicado existir um cara que consiga entender a tecnologia como ele entendia……abraço
29 agosto, 2011 as 10:06
Realmente concordo com suas colocações em relação à visão de empreendedorismo. Não basta ter talento, tem que ter algo a mais… você citou fé, tesão e paixão e realmente é o que vemos hoje em dia e basicamente como podemos classificar desde os pequenos até os altos executivos no mercado. Muito interessante, parabéns.
29 agosto, 2011 as 11:46
Otimo texto cara, muito bom mesmo Jobs e Bill Gates são pessoas que inspiram muita gente que é ligada na tecnologia e sabem que ela tem força para mudar muita coisa pena que para se obter o sucesoo tem que se abrir mão de coisas valiosas na vida… Novamente parabéns pelo texto
29 agosto, 2011 as 15:41
De fato Jobs revolucionou a história do pensamento humano, suas ideias mudaram a forma de se comunicar no mundo e, por isso, q eu o admiro mesmo não tendo conhecido de perto…
26 setembro, 2011 as 18:17
São estilos diferentes, de gênios igualmente transformadores. Modelos paradoxais de comportamento que provocaram uma mútua melhoria contínua. Fiz um comentário sobre o filme num blog que criei recentemente: euentendiassim.blogspot.com Obrigado por compartilhar conosco. Forte Abraço!
7 outubro, 2011 as 13:48
Será que Jobs era feliz, ele morreu novo. O dinheiro não pode impedir sua morte.
Será que ele tinha paz?