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Empreender é a religião fanática da vez

sex, 28/10/11 por jonnyken | categoria Empreendedorismo


Será que quando palestro eu viro um pastor empreendedor?

Até hoje não sei se estamos vivendo uma bolha empreendedora ou se eu comecei a acompanhar melhor essa área, mas o fato é que o número de vezes que  me deparei com termos relacionados a empreendedorismo (empreendedor, startup, etc) na internet, tv, mídia impressa e rádio cresceu absurdamente nos últimos meses. Perigoso? Acho que não. O que me assusta realmente são as pessoas que, querendo ou não, acabam atuando como pastores, ao invés de incentivadores.

Quando alguém me pergunta qual a minha religião, sempre respondo “eu não ligo para religião”. Isto é diferente de ser agnóstico ou ateu. No Brasil, existem pessoas que não ligam para o rugby. Eu não ligo para religião. Eu não me importo se existe um ser superior ou não. Assim como há pessoas que não estão nem ai se os All Blacks ganharam a Copa do Mundo de Rugby semana passada.

Entretanto, eu entendo o valor da religião e até agradeço por existir. Muita gente acredita mais na justiça divina do que na justiça dos homens. Levando em consideração o nosso poder judiciário, acredito que se não fosse a religião o Brasil estaria muito pior.

E o que a religião tem a ver com empreendedorismo? A religião em si não tem nada a ver, mas a maneira como alguns tentam “arrebatar novos seguidores”, sim. Toda vez que você lê ou assiste a alguma entrevista com empreendedores, a história é basicamente a mesma: sempre quis ser empreendedor desde criança ou teve uma grande ideia enquanto trabalhava, suou muito a camisa para fazer seu empreendimento dar certo e hoje vive super bem, colhendo os frutos de sua aposta. Legal! Parabéns! Este é REALMENTE um exemplo a ser seguido por pessoas que pretendem empreender.

O problema é que a história é sempre muito empolgante (afinal, a pessoa que conta sempre tem orgulho da sua história de sucesso), levando muitas pessoas a ver negativamente seu momento profissional atual (infeliz com o trabalho ou com a remuneração, chefes exigentes demais, pressão, trabalho desenvolvido pouco acrescenta nada na sua vida) e considerar aquela história de empreendedorismo como uma nova oportunidade de vida. Ver uma pessoa empolgada contando como sua vida mudou da água para o vinho graças ao seu empreendimento é tudo que alguém precisa para falar que é isso o que ela quer para a vida daqui para frente!

Mas até ai, tudo bem! O entrevistado, na grande maioria das vezes, não faz isso por mal. Normalmente, essas histórias realmente dariam um bom livro ou um ótimo filme. A minha crítica é com quem faz isso por acreditar cegamente que uma das (ou “a”) solução do Brasil é o “espírito empreendedor” se espalhar pelo país. Quando vejo alguma palestra ou entrevista desse tipo, sinto-me assistindo a programas religiosos de madrugada, onde o objetivo não é fazer o convertido realizar suas preces, mas sim converter mais e mais pessoas por motivos que realmente desconheço. Por que nessas apresentações só se falam de casos que deram muito certo? Por que só se falam as receitas para atingir o sucesso? Por que nunca se tem o depoimento de alguém que foi enganado por algum sócio ou que por inexperiência acabou assumindo dívidas impagáveis? Por que se é para fazer críticas é sempre para os altos impostos do governo e nunca das burradas que sempre fazemos quando estamos cegos pelas nossas criações? Por que sempre incentivam a começar, mas nunca falam quando é a hora de parar? Ou será que eu não acompanho essa área direito e só vejo o lado ruim das coisas?

Para quem vai empreender, deixo três opiniões. Primeiro: empreender só é legal quando as coisas estão dando certo. Segundo: o fato de só falarem de exemplos positivos não significa que 100% dos casos são positivos. Terceiro: empreenda porque você acha que é a sua vocação, e não porque te convenceram disso.

No mais, se você estiver assistindo a uma apresentação e o palestrante falar “porque no Vale do Silício é assim e assado”, lembre-se de que culturalmente/politicamente/economicamente/fiscalmente Brasil e Estados Unidos são bem diferentes entre si e que se o palestrante não percebeu isso, é porque ele é um pastor empreendedor.

[editado] Bem lembrado pelo tio .faso. Um livro que aborda os lados negativos citados acima é o “O Livro Negro do Empreendedor” do Fernando Trías de Bes (ed. Best Seller). Livro obrigatório antes de tentar se aventurar pelo mundo do empreendimento.

7 Comentários para “Empreender é a religião fanática da vez”

  1. 1
    tio .faso:
    28 outubro, 2011 as 15:04

    Rapaz,

    Empreender não é para todo mundo mesmo! Eu que tenho a minha empresa aqui estava passando por maus bocados, não por falta de cliente ou dinheiro, mas porque no meio de tudo acabei meio que perdendo o sentido existencial do que eu estava fazendo, o que me levou a uma profunda depressão.

    Agora com tratamento, pílulas mágicas e muitas noites mal dormidas, estou me recriando. Buscando me conhecer novamente e achar o meu caminho que acabei perdendo… ou encontrando uma nova rota! X)

    Em tempo: há um livro que fala sobre as mazelas de se empreender > “O Livro Negro do Empreendedor” do Fernando Trías de Bes (ed. Best Seller) – esse livro fala um pouquinho dessa parte oculta que você abordou.

    Um super abraço,

    tio .faso

  2. 2
    Gustavo Periard:
    28 outubro, 2011 as 15:05

    Olá Jonny, tudo bom? Bacana ver você falando de empreendedorismo por aqui.
    O tema é muito importante e deve mesmo ser discutido. E respondendo a pergunta do primeiro paragrafo, acho que a internet tem colaborado muito para que este tema esteja tão em voga hoje. Os cases de sucesso brotam aos montes em cada esquina da internet.

    Acredito que os exemplos ruins devem sim ser comentados, como você bem disse. Temos que ensinar as pessoas a verem os 2 lados da moeda, e pensarem se querem e se estão preparados para empreender. Acho que com uma conscientização maior, o número de empresas que fecha no primeiro ano reduziria bastante.

    Gostei muito do texto e da temática levantada!
    Vamos debater! :)

    Um abraço e até mais!

  3. 3
    Kemily Beatriz:
    28 outubro, 2011 as 15:07

    Gostei do ponto de vista. É muito fácil ver pessoas que mal conseguem administrar seus próprios negócios e ainda querem empreender. Acredito que um futuro empreendedor deve ter muita força de vontade e fazer pelo gosto e não apenas por causa de possíveis recompensas.

  4. 4
    jonnyken:
    28 outubro, 2011 as 15:10

    É verdade… vou até colocar uma foto dele aqui no post! :p

  5. 5
    Leonardo Araujo:
    28 outubro, 2011 as 15:35

    Ótimo artigo, Jonny. Também me sinto desconfortável em ver tanta gente cantando delícias sobre empreender, quando na verdade sabem e sofrem as dificuldades no dia a dia. Nem tudo são flores.
    Abraços

    PS.: Coloca uns botões de share aqui nos posts. ;)

  6. 6
    Raphael Pinheiro:
    31 outubro, 2011 as 23:32

    Ótimo texto. E costumo replicar uma máxima que ouvi, não lembro de quem, sempre que esse assunto vem à tona: respeite o seu próprio grau de empreendedorismo. Digo, pouca gente admite isso ainda, mas a verdade é que sim, existem as pessoas que nasceram pra criar e as que nasceram para tomar conta. E tanto estes evangelizadores, quando algumas publicações e até mesmo parte do mercado, parecem querer incutir na cabeça das pessoas que se você não cria, é mal-sucedido. Isso é um verdadeiro engodo. Eu invejo muito quem tem toda essa capacidade de começar um negócio do zero, inovando, gerando lucro, crescendo e ficando milionário, para depois contar a sua história de vida. Mas tenho a consciëncia de que esse não é o meu perfil, e sinto-me ótimo sabendo que não vou dar um passo maior do que a perna justamente por pensar nisso antes. Muita gente por aí precisa fazer essa autocrítica, conhecer um pouco mais a si própria, ao invés de se bitolar com os gurus da moda. Quebrariam muito menos a cara e seriam mais felizes. Abraços!

  7. 7
    Eduardo Fermano:
    2 novembro, 2011 as 12:04

    Realmente, empreendorismo não é para todo mundo. Ainda bem! Imagina o caos que seria se todas as pessoas do mundo fossem empreendedoras?

    Gostei muito de sua explanação honesta, sensata e imparcial.

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  • Jonny Ken

    Jonny Ken é o criador do Migre.me, um dos encurtadores de URL mais usados do Brasil e de outras ferramentas na internet como o Kindim ou o Podpods. Também já escreveu em vários blogs corporativos. Atualmente é autor do blog Infopod e do Podcast Decodificando.

    Roberto Cassano

    Roberto Cassano é formado em Jornalismo, com MBA em Marketing. Atua em Publicidade desde 2001 e em Mídia On-line desde 1996. Participou dos movimentos iniciais do primeiro jornal brasileiro na internet, o JB On-Line, e das pioneiras revistas "internet.br" e "Internet Business". Foi executivo do portal de tecnologia Canal Web e diretor de Mídias Digitais na Seluloid. É diretor de Criação e Estratégia da Agência Frog, com ênfase em mídias sociais.

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