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Seja a arma

sex, 29/04/11 por Affonso Solano | categoria Jogos, Mundinho | tags Mundinho, Seja melhor

Alcatraz olhou através da janela do segundo andar e finalmente teve noção do cenário em que se encontrava:

Pelo menos dez soldados armados patrulhavam a rota de acesso para a rodovia, com seus fuzis destravados e músculos tensos à procura do inimigo invisível. O quarteirão havia sido evacuado há horas e os resquícios do caos eram ilustrados pelas dezenas de carros abandonados, destroços estruturais e corpos de civis menos afortunados. Nova York estava se tornando uma cidade fantasma, mas os soldados sabiam que Alcatraz precisava passar por ali e a ordem que tinham recebido era de atirar para matar.

O ronco de um veículo militar de assalto ecoou entre os prédios baixos do bairro, prevendo a piora ainda maior da situação. Maldição – pensou Alcatraz, fechando seu visor tático.

E então se lembrou de que não estava vestindo uma roupa qualquer.

Ouvindo um dos homens se aproximar pela escada de incêndio, Alcatraz ativou a camuflagem de seu Nanotraje e prendeu a respiração; o soldado olhou pelo batente da porta sem detectar ninguém na luz difusa do corredor. Assim que virou de costas, porém, teve seu pescoço quebrado. Alcatraz largou o corpo e saltou da janela, ignorando a altura que os músculos de seu traje lidariam sem problemas e correndo para trás de um táxi estacionado. Ainda camuflado, olhou sessenta metros dali para o veículo de assalto que acabara de chegar – a metralhadora de alto calibre montada em seu topo lhe injetou um pouco de realidade em sua mente: seu traje era impressionante, mas não fazia dele invencível.

Mal se deu conta disso quando reparou que outro fuzileiro havia dado a volta pela lateral do taxi e o encarava, confuso: de perto e sob a luz direta do sol, a camuflagem do Nanotraje tornava-se falha e sua silhueta, visível. O homem gritou no rádio antes de receber a rajada do fuzil de Alcatraz, que em seguida se encolheu atrás do taxi para se proteger da chuva de balas que se seguiu. Dois fuzileiros se aproximaram, alternando tiros e gritos por reforço no rádio.

Preciso sair daqui – pensou Alcatraz, ouvindo o resto do pelotão se movimentar em sua direção. E então ficou de pé e chutou o taxi com toda a força artificial que seu traje lhe concedia na direção dos dois fuzileiros; transformando o carro em um aríete esmagador e implacável. O estrondo e a buzina se misturaram aos gritos dos homens esmagados – seu pequeno show acabara de denunciar definitivamente sua posição.

Fez mira e despachou mais dois soldados que vinham correndo, fazendo com que o resto buscasse proteção enquanto o veículo de assalto manobrava nervosamente pela rua, buscando passagem entre os carros civis abandonados. Alcatraz ativou sua camuflagem mais uma vez e desapareceu.

Os quatro fuzileiros avançaram coordenadamente para onde o tinham visto pela última vez, fazendo sinal para que o veículo de assalto parasse alguns metros atrás. Um deles foi até as ferragens do taxi e fez sinal com a cabeça de que não havia sobreviventes. Há alguns minutos seu pelotão tinha vantagem numérica e estratégica sobre o inimigo; agora não passava de um bando de homens assustados.

Ótimo. – pensou Alcatraz, observando a cena oito metros acima, na plataforma de construção do prédio ao lado. Ele agora estava diretamente sobre o veículo militar.

E então tomou uma decisão.

Quando deu a ordem para seu Nanotraje, pôde ouvir claramente a carapaça sendo formada sobre sua superfície – era como o som de um punhado de grãos de areia sendo esmagados por uma mão fictícia, pontuando a camada extra de armadura. Alcatraz saltou sobre o teto do veículo militar, agarrou o soldado que comandava a metralhadora montada e o arremessou para longe. Os quatro homens à frente do carro se viraram com o barulho e dispararam diretamente contra o exposto Alcatraz, que sentiu as balas ricocheteando de seu corpo como em um tanque humano. Em seguida exigiu do traje mais força física e arrancou a metralhadora montada da sustentação do carro, devolvendo balas de alto calibre para os fuzileiros desesperados. Enquanto os homens corriam em busca de cobertura, Alcatraz ouviu o comandante gritar frustrado no rádio “Atirem nele, maldição! É só um homem!!”

“Estamos tentando, senhor! Ele é invencível!” – gritou o último deles, antes de tombar.

_____________________________________

- Conhece o jogo?

13 Comentários para “Seja a arma”

  1. 1
    Thiago:
    29 abril, 2011 as 11:21

    Muito bom texto, parabéns.
    Quanto ao jogo, não me lembro a última vez q fiquei tão satisfeito com uma campanha como a desse crysis 2.
    O jogo roda muito bonito e leve no pc lá em casa, no máximo claro e em full hd.

    Espero que a crytec resolva os problemas com pirataria e hackers que tiram o brilho e a diversão desse ótimo fps.

  2. 2
    Eduardo Fonseca:
    29 abril, 2011 as 13:33

    Clap Clap Clap!
    Ficou exelente, me fez até querer jogar o jogo, mas o que gostario mesmo é ver o Affonso escrevendo uma Cronica ou algo do genero agora. xD

  3. 3
    weslley:
    29 abril, 2011 as 13:38

    Muito bom , Parabéns Afonso Solano .
    mas ainda não joguei Crysis.

  4. 4
    André Monsev:
    29 abril, 2011 as 15:20

    Vou dizer só uma coisa (bem grande, no entanto):

    Affonso, Affonso, Affonso, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonso, Affonso, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonso, Affonso, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonso, Affonso, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonso, Affonso, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonso, Affonso, Affonso, Affonsinho, Affonso, Affonsinho…

    HEAVY RAIN!

    HUAHUHEAUHEUAHUHWUAHEUHAUHEUHAUHUHAEUHAUHUAHUEHUAEHAUHUHUEHUAE

    #familyguyfeelings

  5. 5
    Gustavo Nobre:
    29 abril, 2011 as 16:27

    Ótimo texto sobre o “mundinho” de Crysis. Acompanho o MRG a algum tempo e também acho que essa forma de se encarar os games é muito divertida e bate bem com um certo conceito de arte que tentaram atribuir aos games: a imersão. E diferente do que vocês comentavam nos podcasts, o seu texto está bem nos moldes de um “movimento” de jornalistas de games que tentaram dar uma análise maior do que discutir gráficos, sons e jogabilidade. Não sei se já ouviu falar do New Games Journalism, que seria exatamente esse forma de descrever o jogo narrando uma cena, um acontecimento que te informa extamente do que o jogo se trata. No caso de Crysis, um soldado com um traje da hora, cheio de habilidades especiais. Não desmerecendo outras formas de análise claro, mas é sempre bom ver coisas diferentes e essa foi uma boa leitura.

  6. 6
    Affonso Solano:
    30 abril, 2011 as 1:07

    Fala Gustavo! Realmente; tanto aqui quanto no MRG procuro enfatizar essa visão particular que tenho dos videogames (que na verdade não é tão particular, vide a boa recepção que temos e o número cada vez mais crescente de pessoas que dizem se identificar com ela).
    Acredito que essa visão (tanto para quem joga quanto para quem trabalha com isso) seja o resultado de uma geração de pessoas que cresceram jogando jogos, filmes, músicas e peças de entretenimento muito específicos, que acabaram por formar um senso critico igualmente específico (ou, como eu costumo chamar, “O Mundinho”). E esse grupo de pessoas está hoje por aí, jogando e trabalhando com isso e aplicando, pelo que vc mesmo mencionou, através do “New Games Journalism”.

    Enfim, é uma discussão boa que podemos desenvolver com mais calma mais tarde, mas se estou contribuindo para uma mudança positiva nessa forma de “resenha”, e vocês gostam, fico feliz! :) Grande @braço!!

  7. 7
    Affonso Solano:
    30 abril, 2011 as 1:08

    Ahn… Monsev, Monsev, Monsev..?

  8. 8
    Affonso Solano:
    30 abril, 2011 as 1:08

    Opa! Obrigado, Eduardo!! :)

  9. 9
    André Monsev:
    30 abril, 2011 as 13:59

    pô, affonso. Family Guy, saca? \"mom, mom, mom, mommy, mommy, mom….\’WHAT?!\’….HI. HIHIHIHIHI\". Pelo que me lembro até no MRG vocês colocaram, certa vez :P.

    Aliei isso à minha EMPREITADA em fazer você rever seus conceitos sobre Heavy Rain, e como isso (a empreitada) deve ser chata para caceta para o senhor, resolvi unir o chato ao chato e exemplificar o que tenho a dizer fazendo uma analogia com o family guy. Sacou?

    Ou já tinha sacado e esse meu comment foi em vão? hehehe

    abs

  10. 10
    André Monsev:
    30 abril, 2011 as 14:08

    Entendi tua dúvida agora só. Vc deve estar se questionando o que diabos isso tem a ver com o assunto:

    Bom, como quando escrevi deu pau aqui, vou tentar resumir melhor.

    O Heavy Rain te possibilita “ser a arma” – no caso não, mas prosseguindo – ele te permite VIVENCIAR bem aqueles personagens. Isso pq ele alia uma motivação bem realista, com personagens realistas e facilmente identificáveis (em ALGUMA COISA, com eles, você vai se identificar), que são completamente humanos (inclusive é a tua reclamação, né? Que ele se foca em coisas muito mundanas como fazer uma ação um pouco mais desenvolvida pra abrir a porta da geladeira), e além de tudo o jogo JOGA para você a responsabilidade de tomar as ações, sejam elas bobas (tomo suco de laranja, café ou os dois?) até as RELEVANTES de fato (corto ou não o dedo? mato ou não o traficante?). Eu sinceramente acho que o Heavy Rain tem uma capacidade FANTÁSTICA de te atirar dentro de um mundinho, te captar totalmente e fazer com que vc realmente se sinta lá, entende? Por isso acho que esse foco de ter mais atenção para realizar tarefas mais mundanas, não é tão prejudicial. Claro, se vc fizesse isso o JOGO inteiro, beleza. Mas fazer isso pra lembrar que o seu personagem é um HUMANO COMPLETO, alternando com cenas em que você dirige em ALTA VELOCIDADE NUMA RODOVIA MOVIMENTADA, porra, é MUITO foda.

    Sei que não é a mesma coisa que Crysis 2, só puxei o lado VIVA SEU PERSONAGEM do post para fazer uma comparação com Heavy Rain. Quem sabe, assim, vc não muda sua opinião sobre ele! Ou dá uma nova chance, não é? hehehe.

    O Roberto ou o Diogo chegaram a jogar Heavy Rain? Sabe se gostaram?

    Abs.

  11. 11
    Akira Kiam:
    3 maio, 2011 as 20:59

    Assim não dá. Depois de me fazerem comprar Fallout New Vegas por causa do MRG134 de Games, agora vem este texto sobre Crysys2.
    Assim lá vai mais dinheiro em “joguinhos”

  12. 12
    Ricardo Lopes:
    4 maio, 2011 as 9:37

    MAXIMUM BLOG!

  13. 13
    roger_koy:
    4 maio, 2011 as 21:13

    Excelente!

    Se fosse um livro eu leria até o final, como é um jogo, encomendo no quinto dia útil.

    Está cada vez melhor grande Afonso!
    Abraços!

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  • Affonso Solano

    Affonso Solano é um dos criadores do site e podcast Matando Robôs Gigantes, que conta tudo sobre Games, Cinema e Quadrinhos. Além disto é ilustrador, trabalhando para o mercado nacional e internacional desenhando monstros, super-heróis e alienígenas!

    Ricardo Farah

    Designer e jornalista especializado no mercado de entretenimento e jogos no Brasil desde 2001, foi Editor Executivo das revistas EGM Brasil e Nintendo World; Hoje, no comando da SKY7, presta serviços de consultoria, palestras e conteúdo especializado em games, enquanto estuda desenvolvimento de jogos e mantém o site www.ricardofarah.com.br

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