RAIVA

A lâmina-bumerangue deixou a mão do Sobrevivente em busca do bandido desavisado de costas. A arma girou sorrateira pelo ar, sussurrando seu conhecido e silencioso mantra macabro até rasgar o pescoço do homem e acertar a parede do outro lado do salão, sinalizando para os outros cinco a chegada do intruso.
A orquestra de tiros teve início.
O Sobrevivente se jogou para trás de um grupo de sofás despedaçados, amaldiçoando sua tática falha e engatilhando sua pistola. Quando a onda de tiros enfraqueceu e ele ouviu o som de passos apressados, seus instintos lhe disseram que era hora de devolver fogo.
E foi isso que ele fez; derrubou dois deles com os três primeiros tiros antes de retornar para trás da cobertura, surpreso com sua mira intacta – seus reflexos estavam excelentes para alguém que passara cento e seis anos dormindo em estado criogênico enquanto o mundo era bombardeado por um asteróide colossal. Havia se passado menos de uma hora desde que ele fora despertado e já estava invadindo um esconderijo infestado de homens armados.
O que diabos estou fazendo nesse inferno? – pensou o Sobrevivente, inclinando-se mais uma vez por cima da cobertura e estourando o peito de mais um inimigo. – Por que aceitei vir até aqui e matar todas essas pessoas? – continuou ele, descarregando sua pistola no monte de peças de carro que protegiam o último homem – É um tremendo favor a se pedir para alguém que acabou de descobrir que o mundo agora é uma versão piorada de Mad Max.
O último homem gritou algumas obscenidades incompreensíveis e correu para o outro lado do grande salão, buscando uma proteção melhor. O Sobrevivente se deu conta de que não teria tempo de recarregar sua pistola e então recorreu à última lâmina-bumerangue de seu cinto: a estranha arma cantou mais uma vez no ar, desferindo uma curva perfeita e acertando as costas do fugitivo, que morreu com um grito interrompido ao tombar no chão.
O Sobrevivente recarregou sua pistola e se levantou, ouvindo o antigo soldado de sua consciência lhe dizer que tinha feito um bom trabalho. Ele aguçou os ouvidos por mais um minuto para ver se ouvia alguém mais se aproximar, mas aparentemente estava livre para continuar. Livre para prosseguir para a próxima sala e despachar mais meia-dúzia de homens que por alguma razão não tinham escutado o massacre e corrido para ajudar seus companheiros.
Ignorando seus questionamentos, começou a caminhar na direção do corredor. E então ele percebeu.
Oh Deus! Minhas pernas… MINHAS PERNAS!
O Sobrevivente cambaleou para trás, atordoado e confuso, apenas para se horrorizar ainda mais: ele podia caminhar, mas suas pernas não estavam ali. Elas não haviam sido alvejadas ou arrancadas pelos projéteis inimigos; elas simplesmente não estavam lá.
OhDeusOhDeusOhDeusOhDeusOhDeus… – repetiu ele, sentando no chão sujo e tateando desesperado o vazio abaixo de sua cintura. Como seria possível aquilo? Refez os últimos acontecimentos na esperança de encontrar algum tipo de explicação para aquele fenômeno; teria sido envenenado por alguma planta local e agora delirara como um louco febril? Estaria ainda sonhando enquanto ainda dormia em seu sono criogênico, emulando uma realidade em forma de pesadelo? Seria por isso que teria aceitado aquela missão sem sentido sem questionar, como um robô sem alma? Como era possível que olhasse para baixo e NÃO ENXERGASSE SUAS PERNAS?
E então, tão rápido como havia se horrorizado, ele se deu conta do que havia acontecido com suas pernas: A id Software tinha decidido que elas não eram importantes.

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- 10 excelentes FPS com PERNAS!
- Meu TOP 10 Games de 2011 (não estão, necessariamente, na ordem de preferência)
14 novembro, 2011 as 19:15
Texto do Affonso sobre o mundinho é sempre bom.
=D
14 novembro, 2011 as 19:39
Genial como sempre Affonso. Muito bom!
Voce deve ser o melhor mestre de rpg / player ever, sua forma de escrever me poe no mundinho de forma absurda.
hehehe parabens pelo texto, continue o bom trabalho =)
14 novembro, 2011 as 20:32
arrastar um desavisado pro mundinho sempre é exemplo de excelencia tanto na escrita quanto no videogame.
principalmente quando a ambientação de pós-apocalipse estilo Mad Max e Fallout.
14 novembro, 2011 as 20:44
haha realmente muito bom, parabéns
14 novembro, 2011 as 21:02
Simplesmente fantastico…. ! ! !
14 novembro, 2011 as 23:05
Muito bom! Hahahaha! Sempre a ambientação ao mundinho perfeita(são os meus posts favoritos alias).
Quando comecei a ler a \"falta de pernas\" me lembrei de seu comentário no facebook fazendo esta reclamação, mas nunca havia pensado que poderia faze-la de uma forma tão criativa e divertida.
Mais uma vez parabéns de um grande fã de sua coluna!
Abraço!
15 novembro, 2011 as 10:56
Ótima narrativa, nunca joguei o jogo e já estava esperando algo surpreendente quando chegou a parte de revelar que a questão das pernas era um “erro” da produtora. Queria mesmo era que fosse um conto, ai sim, ficaria feliz haha. Muito bom Affonso, continue sempre o bom trabalho.
15 novembro, 2011 as 16:33
Foi realmente ‘imersivo’. Descreve claramente o ambiente e a interação dos personagens nele, mas sem detalhar de forma extravagante, deixando espaço para criarmos nossas próprias imagens e seqüências. Parabéns, texto muito bom.
15 novembro, 2011 as 16:38
P.S: A parte de descobrir que se pode andar ‘sem pernas’ foi realmente muito hilária!
15 novembro, 2011 as 22:29
Em Halo eu corro olhando para baixo, nas horas de fugir. Com aquela sensaçãode que “minhas pernas ainda estão lá” então vou correr até não poder mais
15 novembro, 2011 as 23:42
Obrigado, Danilo! :)
16 novembro, 2011 as 12:02
Valeu, Douguk!
Escrevi dois outros textos nesse estilo “conto” (só que sem a QUEBRA no final, hehe), já viu?
http://www.techtudo.com.br/platb/jogos/2011/07/27/terras-devastadas/
http://www.techtudo.com.br/platb/jogos/2011/04/29/seja-a-arma/
@braço!
16 novembro, 2011 as 23:50
Não vi ainda Affonso, abrindo agr mesmo pra conferir :D
Abraço pra você também matador
17 novembro, 2011 as 0:15
Quem precisa de pernas quando se pode fazer isso http://www.youtube.com/watch?v=_H5wB58r3T0
E li gente reclamando que não era um jogo oldschool…
17 novembro, 2011 as 10:46
Ótimo texto. Affonso tu já escreveu alguma HQ?
17 novembro, 2011 as 10:49
Há muitos anos atrás, para o Omelete… :)
17 novembro, 2011 as 11:12
Muito bom o texto! Descreveu perfeitamente como o mundinho funciona, e como um detalhe pode te arrancar de toda a imersão. O texto conseguiu emular essa quebra, pois foi só ler “id Software”, que o mundinho cai por terra e vc lembra que só tá lendo um texto, ou jogando um jogo, ao invés de estar realmente ali.
Eu senti que o Affonso não gostou do jogo =)
No aguardo do MRG sobre ele. (se tiver)
19 novembro, 2011 as 21:24
realmente este negocio de olhar pra baixo e não ver as pernas é horrivel!
porem não vou deixar de jogar este jogo, que tem no probema do sumiço das pernas o menor de seus problemas nos consoles!! o carregamento de texturas é horrivel!
20 novembro, 2011 as 14:38
Celso, o problema de carregamento de texturas é realmente um problema (e injustificável, na minha opinião). A melhor solução é instalar o jogo no HD do console, no caso…. :P
@braço!
20 novembro, 2011 as 16:18
o jogo já esta devidamente instalado, porem ainda assim demora, segundos pra carregar texturas do embiente, segundos estes muito perceptíveis, porem vou jogar ele ate o fim…comprei e tenho que zerar!
e como sou colecionador, não poderei vende-lo ira para a pratileira!
20 novembro, 2011 as 16:47
Assim Affonso,por mais que RAGE nao seja muito legal,é no mínimo ridículo (na minha opinião) questionar a qualidade do jogo por causa disso.Se for assim,O PODEROSO CHEFÃO é ridiculo,porque quase nunca mostram as pernas do senhor Corleone.
21 novembro, 2011 as 0:00
Daniel, se eu disser que os efeitos especiais de “ET: O Extraterrestre (1982)” são “mal feitos”, estarei sendo injusto, uma vez que na época eram os melhores que a equipe podia fazer. Agora, se eu disser que a “cena da corrida de dinossauros de King Kong (2005)” está “mal feita” eu estou sendo JUSTO, pq para os padrões atuais, sim, ela está abaixo do esperado.
A “falta de pernas” antigamente era justificável pelas limitações de hardware. Hj estamos longe disso tanto no quesito técnico (principalmente em um jogo cujo poderio gráfico está sendo usado como garoto propaganda) quanto no de design de jogos (vide a crítica destruidora do novo Duke Nukem qto seu design ultrapassado) . Logo, é passível de crítica justa (e não só minha, a crítica especializada está comentando negativamente também).
Eu nunca disse no texto que achei o jogo “ruim”; critiquei um detalhe importante que quebra a imersão/mundinho do jogo.
@br!
21 novembro, 2011 as 0:13
Mas Affonso, quantos jogos hoje mostram as pernas do personagem? Lembro que F.E.A.R foi um dos que mostrava as pernas, outros no passado também, mas sempre esbarrava na proporção. O corpo do personagem sempre ficava esquisito. Eu nunca me peguei olhando pro chão e falando: “Minha Santa Querupita, meu personagem não tem corpo”. Nós já estamos, eu então só eu, acostumados a não vermos o corpo do personagem. Agora não me vem na cabeça se em Battlefield 3 mostra o corpo inteiro, mas quando o personagem pula as pernas são mostradas. Isso num engine nova. RAGE está sendo feito há 5 anos. Creio que a beleza dela seja nas texturas e na luz. Creio que se focar nessa característica do jogo é um tanto cruel, ou você foi com expectativas muito grandes.
Mesmo entendendo o conceito de mundinho, creio que ele deva ser relativizado, se não na crítica de Skyrim você vai falar que nas opções de diálogo não tem nada o que você queria dizer, ou como mostrado no NerdPlayer, vais reclamar que só por que matou uma galinha todos os aldeões queriam te matar.
21 novembro, 2011 as 0:14
Affonso, beleza? A verdade é que esse tipo de truque (corpos desaparecendo, não ter pernas nos personagens, modelos detalhados de um lado e sem detalhe nenhum do outro) são sim truques utilizados até hoje devido a limitações de hardware. O fato é que os polígonos para construir as pernas foram colocados para criar um cenário mais detalhado, algo que você provavelmente verá com mais frequência. Existe um “polygon budget” para todos os dispositivos, e para consoles de 4 – 5 anos de idade esse está no limite das otimizações possíveis. Não estou falando que estavam certo de “remover suas pernas”, e você está certo em criticar coisas das quais não gostou. Eu nein joguei o jogo para julgar, só estou dando o parecer técnico boring do porque isso aconteceu.
21 novembro, 2011 as 0:50
Concordo com o Affonso, hj em dia não ter as pernas do personagem, é o mesmo que ele não aparecer em um espelho por exemplo… não é justificável ainda mais hj em dia, e complementando qnt ao lance de mundinho, qnd vc chega na 3a cidade se nao me engano, o guarda mesmo diz para vc não falar mto e andar com a cabeça baixa, ai vc abaixa a cabeça e não ve seus pés… sei lá, quebra o lance de vc entrar no personagem…
21 novembro, 2011 as 2:24
Sim, CmdrEdem, mas no Rage não havia essa necessidade técnica, nem de longe. Vejo mais como uma falta de preocupação por conta da id, em vista da “falta de pés” ter se tornado uma “convenção do mundo dos FPS” (algo estabelecido pela própria id, por acaso, heheh).
Sei que é um elemento que não “estraga” o jogo pra muita gente, mas como me incomodou, tentei fazer um texto divertido sobre como que “quebrou o clima” pra mim!:)
@br!
21 novembro, 2011 as 2:30
Fala Leonardo!
Nós estamos MAL acostumados a não ver o corpo do personagem, esse é o problema (fomos acostumados a isso por conta das limitações de hardware de antigamente. Hj não há + pq). “Estávamos” mal costumados – corrigindo – em vista da nova geração que superou isso (Crysis ou Halo, só para citar alguns). O que me surpreende (e daí o meu texto brincando com isso) é um jogo com a proposta de RAGE ainda apresentar um conceito arcaico como esses… :P
21 novembro, 2011 as 18:41
pra mim incomoda muito a falta de pernas no personagem. O fato de um jogo ficar em desenvolvimento mais tempo que outros deveria ser um plus para ele, e não ser uma desculpa pelas suas deficiências.
21 novembro, 2011 as 21:51
Dá pra notar com clareza as influências do sr. King, que também é meu autor favorito, no seu estilo de escrita, Affonso! Além disso, também gostei muito da crítica à falha, e muito mais do modo que a fez.
Continue com o ótimo trabalho aqui nas colunas do TechTudo, mas publica o MRG também poxa, to na ansiedade faz 1 semana. =D
22 novembro, 2011 as 0:58
Heheh obrigado, Marco! Um baita elogio! Grande @braço! :)
(MRG novo tá saindo, prometo, heheh)
22 novembro, 2011 as 22:27
texto muito bom!!! parabéns!
22 novembro, 2011 as 23:28
Muito bom o texo, hehe, mais imersivo que o jogo.
Sobre o jogo, não aguentei jogar nem 4 horas, tem tanta coisa errada neste jogo que é até difícil listar.
Até Doom tem uma história mais convincente que esse jogo. Como foi dito no texto tmb, um pensamento presente durante todo o tempo que eu tentava jogar esse jogo era \"por que estou fazendo isso?\", o jogo nem tenta dar qualquer motivação ao personagem principal.
As seções de tiroteio do jogo, eram uma tortura de tão chatas, deu até pena da ID, que não consegue mesmo abandonar os shooters de corredor, todas as missões que eu fiz consistiam em entrar em algum lugar fechado onde tinha que enfrentar uma duzia de acrobatas mutantes, pra que construir grandes espaços abertos então? Pra andar de carrinho?
Esse jogo parece ser mais uma tech demo da engine do que qualquer outras coisa e até nisso ele falha (joguei a versão de PC com tudo no máximo, não sei como esta nos consoles), pra começar tive que esperar semanas para que pelo menos parte dos bugs fossem resolvido. Com o jogo funcionando me deparo com texturas terríveis, algumas dignas de um jogo de PS2, apesar disso o jogo consegue ser bem competente em alguns aspectos como as animações faciais e corporais dos NPCs quando estão conversando e os ambientes externos que sofrem menos com a baixa qualidade das texturas.
O triste é que RAGE deve ter vendido horrores. A baixa qualidade das campanhas single players nos FPS é alarmante BF3, Rage e Crysis 2 são bons exemplos disso (quem jogou o primeiro Crysis, que já não era lá um grande jogo, sabe que a continuação andou para trás em todos os aspectos gameplay, gráficos, e até narrativa, que por sinal era fraquíssima), só mesmo esperando Bioshock 2 ou HL3 para ver algo bom mesmo. Pra quem gosta de jogos em primeira pessoa e não curte multiplayer o que salva mesmo são jogos como Deus Ex, Skyrim ou Portal que tmb são em primeira pessoa apesar de não serem shooters per se.
22 novembro, 2011 as 23:39
Não comentei sobre a falta de pernas do personagem. Isso não me incomoda de forma alguma, acho que dependendo do jogo. Em jogos como BF3 ou Mirror’s Edge, acrescenta muito, já que estamos constantemente vendo a perna do personagem quando saltamos, etc), em outros jogos, ou não faz diferença e em agluns casos chega até a atrapalhar.
Por exemplo, espero que nunca coloquem pernas no Gordon Freeman só para agradar a atual convenção, a não ser que isso tenha alguma relação com algum aspecto novo do gameplay.
23 novembro, 2011 as 1:12
Gabriel Wu eu concordo 100% com TUDO q vc disse sobre o RAGE… Tentei pontuar algumas dessas frustrações ao longo do texto, e fico feliz que o pessoal esteja sacando! :)
Grande @braço!
23 novembro, 2011 as 9:14
Muito bom os textos de “mundinho” Affonso. Sacanagem é que a gente chega até o final e quer ler mais….=/
sasahuashusasasa
Quanto ao rage não comprei, e esperei a avaliação de uns amigos meus que tinham comprado no steam.
TODOS se arrependeram, alguns nem jogaram nas primeiras semanas esperando correções.
Vc olhar pra baixo e não ver as pernas quebra a imersão sim, não digo que atrapalha todos os tipos de jogadores porque tem gente que não liga pra isso né? Mas pra jogadores mundinho que realmente queiram se sentir “dentro do jogo” é uma quebra foda.
Continue com os ótimos textos Solano. Abraço.
23 novembro, 2011 as 10:28
Uma coisa que me incomoda ainda mais que a falta de pernas são esses FPS onde o personagem anda ou corre como se fosse um carro deslizando pelo chão. Tira toda a imersão pra mim.
Um jogo que fazia isso direito e inclusive com pernas era o Dark Messiah of Might and Magic. Era possível entrar completamente no mundinho andando devagarinho pelo cenário e com a sensação de realmente estar andando ou correndo, e não patinando por aí.
24 novembro, 2011 as 10:32
É por esta falta de pernas que só a ID é capaz de provocar que eu gosto de Battlefield 3, em que se mostra tudo, desde o corpo do jogador/soldado até o som, na forma de interpretações virtuais dele.
24 novembro, 2011 as 14:01
Essa coisa de “deslizar” é outra coisa horrorosa tb. Tem que ter um mínimo de balançar de câmera…
28 novembro, 2011 as 18:37
Cara, simplesmente demais.
Um lindo texto, me fez viajar.
29 novembro, 2011 as 2:07
Opa! Fico feliz, Bennu! @br!
29 novembro, 2011 as 23:02
Pois é, desculpe criticar após ler tantos comentários elogiosos ao texto, mas neste caso não curti.
Achei que o texto começa com muitos cliches e um tango piegas, dá uma melhorada no desfecho final, mas mesmo assim, um tanto superficial.
Não encare como uma crítica ao seu estilo ou pessoa. Gostei bastante do Terras devastadas.
Critico apenas este texto específico.