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Qual será o futuro do Qt pós-Nokia?

sáb, 12/02/11 por augusto | categoria Código aberto, Licenciamento

Após o recém-contratado CEO da Nokia, Stephen Elop, anunciar o pacto da sua empresa com a Microsoft, nesta sexta-feira, muitas dúvidas restaram no âmbito de diversas comunidades de código aberto, incluindo qual será o futuro do MeeGo (a Intel aproveitou para reafirmar seu comprometimento com esta distribuição peculiar, originada da fusão do seu Moblin com o Maemo da Nokia) mas – dado o impacto maior sobre projetos populares, como o ambiente gráfico KDE, presente em várias distribuições Linux – a questão principal parece ser a do futuro do Qt.

O ambiente gráfico KDE 4

O Qt, que é o framework fundamental do KDE e seus aplicativos e vem sendo considerado para outros papeis importantes, é uma tecnologia implementada em software livre que pertence à Nokia desde que esta adquiriu a Trolltech, sua criadora original.

Versão oficial

O pessoal do perfil oficial do Qt no Twitter (@qtbynokia) procurou colocar água na fervura horas após o anúncio, divulgando um post no blog.qt.nokia.com que diz que a coisa não é tão ruim assim, pois a Nokia ainda precisa do Qt para os aplicativos para Symbian e MeeGo – e eles se declaram bastante otimistas sobre esperar crescimento da comunidade de desenvolvedores Qt, expansão do próprio Qt, e mencionando até mesmo a continuidade de contratação de mais desenvolvedores do Qt pela Nokia.

O que me parece é que o Qt, para a Nokia, virou uma tecnologia de suporte a um poço que está sendo drenado (o Symbian) e a um laboratório de pesquisa sobre o qual não há expectativa de faturamento (o MeeGo), e imagino que uma imagem similar aparecerá para quem decide onde a Nokia vai investir seus recursos, e para desenvolvedores em geral que precisarem escolher quais plataformas irão ter como alvo para seus aplicativos. Afinal, o que entendi do anúncio do pacto é que a empresa definiu que sua estratégia para o Symbian é usá-lo para recuperar investimentos anteriores e para promover a migração de sua base de usuários para as novas plataformas Windows adotadas pela empresa, e que o MeeGo virará um laboratório para pesquisar projetos futuros.

Bifurcando o projeto?

Só que além de pertencer à Nokia, o Qt é um software de código aberto e objeto de um interessantíssimo acordo com a mantenedora do KDE, que deu origem em 1998 à KDE Free Qt Foundation, com poderes para relançar o Qt sob uma licença livre caso a Nokia ou uma eventual sucessora pare de desenvolvê-lo sob as licenças livres atuais (LGPL e GPL).

Só que parar de desenvolver o Qt em software livre não é a pior coisa que a Nokia poderia fazer com a plataforma (considerando os poderes da Fundação acima). Um cenário ainda mais lamentável poderia ser o do lento estrangulamento, que vai tornando a plataforma cada vez menos desejada pelos desenvolvedores e usuários (ao longo de um período de 2 ou 3 anos), até que todos eles migrem para pastagens mais verdejantes – mais ou menos como a Macromedia teria feito com seu produto Director na época da sua aquisição pela Adobe, sob a direção do mesmo Stephen Elop, nos conta este post do Code Diary que o @filipesaraiva encaminhou para a coluna.

Resumindo a história contada no post acima: a empresa, na época liderada por Elop, assegurou a todos que o Macromedia Director não seria descontinuado, que não havia razão para preocupação para os desenvolvedores que o utilizavam como ferramenta, que várias opções estavam abertas para seu futuro, etc. – de forma bastante similar à versão oficial do que está sendo previsto para o Qt.

Mas os meses foram passando e a ênfase que a empresa dedicava ao Director foi minguando, embora o produto ainda estivesse à venda (recuperando investimentos anteriores, como no caso previsto oficialmente pela Nokia para o Symbian?), e o mercado ia formando a opinião de que o que a empresa queria mesmo é que todos migrassem para o Flash.

Ter alternativas é bom

Naquela ocasião, conta o blog acima, quem apostou fichas na continuidade do Director, em muitos casos, as perdeu e acabou tendo de migrar para alternativas, mas só após longo desperdício de esforço e recursos.

Só que como o Qt é código aberto, não há necessidade de acontecer o mesmo com quem depende dele, se o cenário se repetir: basta que alguma organização com tração suficiente (como o projeto KDE) de início a um fork do Qt que atenda às expectativas dos desenvolvedores atuais e futuros – mais ou menos similar ao que aconteceu na relação entre LibreOffice e Oracle, com a criação de um novo produto, sob nova direção, mas dando continuidade ao desenvolvimento do código original do Qt em sua integralidade.

O cenário descrito acima para o Director vai se repetir com o Qt?

Difícil responder, mas não imagino que possamos contar com um twitter e um blog oficiais da Nokia para nos contar a hora certa de agir. Por enquanto, vale considerar a importância da cautela e, no caso de quem tem influência sobre as organizações com tração suficiente para pensar em um fork, aproximar-se delas e apoiar os seus processos de análise da situação!

7 Comentários para “Qual será o futuro do Qt pós-Nokia?”

  1. 1
    André Machado:
    12 fevereiro, 2011 as 21:15

    Em minha opinião, o fork do QT é algo inevitável: a comunidade vai acabar criando um Tq ou um Kt em pouco tempo. Sempre lembrando que a comunidade de software livre sempre viveu uma relação de amor e de ódio com este framework: primeiro, ele não era totalmente livre, o que desgostou muitos usuários após a decisão do time do KDE adotá-lo, o que levou, consequentemente, à criação do GNOME, como uma alternativa que usava as bibliotecas GTK, estas 100% livres. Agora, quando todas as questões sobre licenciamento pareciam estar resolvidas e o QT estava ganhando um destaque cada vez maior, temos esse soco no estômago. Realmente, nos últimos tempos, o software livre está em maus lençóis. Só o tempo dirá.

  2. 2
    Péricles Luz:
    12 fevereiro, 2011 as 21:38

    Parabéns pelo texto! É uma preocupação válida, ainda mais se levarmos em consideração o clima de déjà vu.
    Mas também acredito que o fato de não ser um software proprietário, junto com a existência da KDE Free Qt Foundation, podem evitar que o Qt tenha um destino parecido com o do Director. Já que não dá pra confiar na palavra da Nokia quando suas ações mostram tendências diferentes.

  3. 3
    Elder Marco:
    12 fevereiro, 2011 as 22:06

    Esse tipo de acontecimento parece ser bom para a comunidade a longo prazo. Na medida em que o seu desenvolvimento depende de uma comunidade muito mais comprometida com a filosofia Open Source do que a Nokia, o Qt — ou qualquer outro nome que poderá surgir — terá somente a ganhar, juntamente com a sua comunidade.

  4. 4
    Jhonatam da mata de jesus:
    12 fevereiro, 2011 as 22:12

    Bom, temos material e pessoal o suficiente para esse acordo ou seja lá qual for o motivo não impedir ou apresentar problemas para a tecnologia QT.
    Software Livre tem essas vantagens se alguém para outro continua, se não está bom alguém cria um fork e por aí vai.
    nao temos motivos para ter medo quanto ao QT.
    Sobre o Meego ele deve ser abracado de forma total pela Intel e devem tentar outras parcerias pois a Nokia assinou seu atestado de óbito como grande empresa !

  5. 5
    Adriano:
    13 fevereiro, 2011 as 1:08

    Minha pergunta é: A Canonical, com o Ubuntu estava a um passo de adicionar o qt mais profundamente.

    Cara, acabei de fazer um baita investimento em estudo, justamente visando o QT como uma ferramenta para bons aplicativos multiplataforma – desktop.

    Fiquei muito apreensivo e ao mesmo tempo decepcionado. Pois agora, mesmo com um fork, ou outro caminho, isso começa a dividir, e chega um ponto a ter 10 tipos diferentes, com caracteristicas diferentes… sei lá.

    Fiquei achando que fiz mal negócio ter focado no QT. Sendo uma biblioteca tão boa, realmente tenho dúvidas se ela vai adiante… será?

  6. 6
    Anonymous:
    13 fevereiro, 2011 as 1:59

    O pessoal do KDE não colocando o retardado “k” semi-obrigatório deles no fork, estará de excelente tamanho. Não precisamos de outro ambiente antipático.

  7. 7
    Mauricio Piacentini:
    13 fevereiro, 2011 as 23:00

    Augusto, sou o autor do post citado por você. Escrevi no meu blog em inglês pois ele é sindicado para o PlanetKDE e o meegoPlanet, mas se soubesse que você ia citar teria traduzido também, para facilitar!

    Fico feliz com o fato de que a sua análise da situação é bem parecida com a minha. Infelizmente, acho que muitos desenvolvedores envolvidos com o Qt (e com amigos e companheiros ligados à Nokia) vão demorar para perceber esse cenário. Até cair a ficha de que a Nokia provavelmente não vai manter o mesmo nível de suporte (ou seja, vai cozinhar o galo sem admitir) muita água já vai ter passado por baixo da ponte, e o Silverlight vai estar rodando em celulares Nokia e conquistando novos desenvolvedores, infelizmente. Bom, fiz minha parte contando a minha experiência prévia com o Elop, espero que ajude.

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  • Augusto Campos

    Augusto Campos mantém o BR-Linux.org, site da comunidade Linux brasileira que está no ar desde 1996. Especialista em implantação de software livre, atua na cena open source brasileira desde seu início.

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