Ainda não precisamos de um novo Xbox
Como nascem rumores? Às vezes a informação, a princípio sigilosa, se espalha feito rastro de pólvora e chega aos ouvidos de um jornalista que, aqui, serve de trampolim para o mundo. Em outras, alguém intencionalmente ligado ao objeto do rumor entrega a informação ao jornalista. A tal “fonte confiável que não quis se identificar” é, em geral, a culpada.
Em outras, ninguém sabe. Alguém pode ligar fatos passados e presumir algo futuro; atentar a detalhes ínfimos que aos olhos de todos passam batidos; e, o que é pior e danoso: rumores podem ser fabricados.
A única unanimidade quando se trata de rumores, a única certeza é a de que não há certeza alguma. Fontes “confiáveis” falham com frequência, elucubrações elaboradas caem por terra com uma confirmação oficial. Não é fácil a vida dos futurólogos da tecnologia.
A gênese de um rumor
Em outubro do ano passado o Gamespot comprou um desses rumores que pairam de baixo do nariz de todo mundo. No trailer do jogo Real Steel, aparece um estádio e, nas placas publicitárias, algumas marcas reais. Dentre elas, “Xbox 720”.

Xbox 720 no jogo Real Steel. (Imagem: Gamespot.)
Faz algum sentido. 720 é o dobro de 360, “sobrenome” da atual encarnação do Xbox, console da Microsoft. Ao lado dessa propaganda havia outras de produtos reais, como o Bing, da própria Microsoft, e de outras empresas renomadas — Coca-Cola, Mercedes Benz etc.
Infelizmente, “fazer sentido” não é o mesmo que ter certeza e, da mesma forma que detalhes corroboram a história, outros a enfraquecem. Como apontou Flavio Freitas em uma discussão no Facebook, 720 é a forma como a “pior alta definição” é referenciada — o 720p, relativo a 1280×720. Associar a marca Xbox a esse número traria de carona a alta definição não tão alta assim, deixando o 1080p, ou Full HD, obscurecido, e o 4K, a próxima fronteira do vídeo, ainda mais. De resto, não há nada, absolutamente nada além do puro “achismo” que leve a crer que o nome do terceiro Xbox deva obedecer a alguma convenção em sua nomenclatura. Nada.
Pode até ser que o sucessor do Xbox 360 se chame Xbox 720. Eu duvido, mas… pode acontecer.
Mais rumores, mais “fontes internas”
A última semana foi testemunha de um turbilhão de rumores sobre o novo Xbox. O IGN afirmou que a nova geração será seis vezes mais rápida que a atual e 20% mais veloz que o Wii U, que ninguém ainda viu em funcionamento — as demonstrações na última E3 eram de concorrentes da Nintendo da atual geração. Ops.
O rumor do IGN ainda especifica o chip gráfico a ser usado, uma Radeon HD 6670 e desenvolvedores receberão os kits de desenvolvimento em agosto.
A fonte “confiável” não foi identificada e a Microsoft, claro, não se manifestou sobre o assunto. O rumor vai fundo ao especificar o modelo da GPU que será utilizado, mas isso, no contexto, não quer dizer muita coisa. Há um mar de diferença entre a arquitetura de um console e a de um computador, de modo que não dá para dizer que o novo Xbox terá a mesma qualidade gráfica de um PC atual com uma Radeon HD 6670.
E… convenhamos: é óbvio que a nova geração terá gráficos melhores que a atual. Tem sido assim desde o Telejogo. Isso não é previsão, é encheção de linguiça.
No Kotaku, novos rumores, dessa vez de que o novo Xbox usará Blu-ray em vez dos limitados DVDs e, o que é pior, trará um mecanismo que impedirá o uso de jogos usados, de segunda mão.
Mas… isso já existe. É o online pass.
A solução atual não impede o uso de jogos usados, mas limita suas funções online. Para habilitá-las, o comprador do game usado precisa comprar um “desbloqueador” nas lojas virtuais da Microsoft ou Sony. É sacanagem? Muitos acham que sim, mas é a forma que as empresas encontraram de capitalizar em cima de jogos já vendidos, ou posto de outra forma, de entrar no baco das lojas de games dos EUA, que ganham muito com esse comércio.
O fluxo de rumores, somado à ansiedade dos gamers, colocam até como final de 2012 uma possível data de lançamento do “Xbox 720”. A maior parte, porém, apsota em 2013. Novamente: pode acontecer, especialmente porque a Microsoft lucraria bastante com isso. Minha aposta? Vai demorar mais.
Xbox 720? Não faz sentido — ainda
Toda geração de consoles surgiu com um grande, mas bota GRANDE nisso, selling point.
Quando o primeiro PlayStation apareceu, ele trouxe para as casas dos jogadores gráficos tridimensionais minimamente reconhecíveis. Ainda eram um amontoado de blocos que lembraram pessoas, carros e paisagens, mas bons o suficiente para se passarem por tais.

Tekken, da Namco, de 1995.
A geração seguinte apresentou gráficos mais refinados (mera evolução), mas deu os primeiros passos na jogatina online (GRANDE selling point).
Com a atual, vimos novamente a consolidação do maior chamariz da anterior: Xbox LIVE e PSN atingiram níveis de integração, facilidade e universalização sem precedentes. O GRANDE selling point, porém, não foi esse, foi o dos gráficos em alta definição.
O que falta à geração atual? Melhores gráficos são, como dito acima, consequência, ganho incremental. Uma certeza. Interfaces naturais? Acessórios supriram a lacuna com mais agilidade, daí Kinect e Move serem, na minha visão e na de muitos outros, objetos que ajudarão a retardar a chegada dos sucessores de Xbox 360 e PlayStation 3. O que sobra? Televisores com resolução 4K? Nem estão à venda ainda. O que mais…? Eu sinceramente não consigo vislumbrar nada.
A produção de hardware novo é cara e exaustiva. Quem desenvolve jogo teria que deixar de lado ou dividir os esforços agora exclusivos para as plataformas em alta (e como estão em alta) para percorrerem toda uma nova curva de aprendizado nos novos SDKs. Todos ainda ganham muito com o mercado aquecido de games, só recentemente a Sony começou a ter lucro na venda de PlayStation 3, até então subsidiada devido ao alto preço de produção do console.
O momento não é propício para uma nova geração. Todos a esperam porque, historicamente, as gerações de consoles duram mais ou menos isso: cinco ou seis anos. Essa, todavia, tem tudo para causar uma ruptura nessa tradição. E isso seria bom para todos, de verdade.
Rumores, rumores, rumores… Às vezes eles guiam, ainda que indireta ou inocentemente, toda uma indústria. Pelo bem dos games, eu torço para que não seja o caso dessa vez. Uma coisa já é certa, porém: a Microsoft da França negou a vinda de um sucessor do Xbox 360 em 2012.
Vida longa ao Xbox 360!


