Este ainda não será o Natal dos tablets

Todo ano, nesta época, fabricantes e operadoras de telefonia correm para abastecer as prateleiras com seus últimos lançamentos. Os grandes portais, sites, blogs e veículos especializados em tecnologia montam suas listas dos gadgets favoritos para o Natal, baseando-se em tendências e percepção do consumidor.
Há um certo padrão dos veículos brasileiros em replicarem aqui as listas feitas por analistas internacionais. Mas o Brasil é muito mais diferente do resto do mundo do que podemos imaginar.
A chegada dos tablets no Brasil
Embora o iPad tivesse reinado por 6 meses sozinho no mundo dos tablets com OS móvel, foi o Samsung Galaxy Tab que chegou primeiro oficialmente em nossas lojas, no fim de novembro. O iPad chegou logo depois, no começo de dezembro.
O fato de vários tablets estarem chegando ao Brasil simultaneamente está trazendo uma disputa interessante. É verdade que o iPad está a alguns anos-luz à frente, e já estava presente nas mãos de muitos brasileiros mesmo antes do lançamento, que inclusive já podiam até contemplar publicações editoriais nacionais. A expectativa do anúncio de um iPad 2 em janeiro não parece estar assustando os compradores. E o que dizer dos demais concorrentes que deverão estrear num futuro próximo, como o PlayBook da RIM, que talvez seja ser bem mais barato que o iPad, ou um rumoroso MotoPAD?
Uma coisa é certeza: o iPad tem feito muita gente entrar em filas para comprá-lo e, independente de qualquer coisa, será um “sucesso de vendas”. Pessoas de dentro das operadoras culparam a Apple pelo atraso na estréia nacional, já que a empresa de Steve Jobs parece dar preferência a outros países por conta da alta demanda. Com o iPhone 4 não foi muito diferente: apenas algumas dezenas de milhares de unidades chegaram por aqui num primeiro lote, fazendo com que evaporassem rapidinho das lojas. Até as famigeradas listas de espera tiveram que ser abolidas.
Os tablets são uma opção simples e enxuta para quem acha computadores convencionais muito complicados. É possível fazer tudo o que um usuário padrão faz num PC: navegar na web, gerenciar emails, ler livros, jogar, ouvir música, ver vídeos e acessar redes sociais, além de instalar programas de maneira muito objetiva. O leigo do PC vê como barreiras as manutenções chatas, as atualizações de antivírus e spywares, e o excesso de coisas pré-instaladas que ele jamais vai usar. Com um sistema operacional móvel, como iOS e Android, milhares de excuídos digitais, entre estudantes, profissionais e 3ª idade, descobrirão que tecnologia pode ser descomplicada.
Qual será o gadget deste Natal?
Analistas mundo afora não hesitam em apontar os tablets como o grande gadget deste Natal. No Natal do ano passado, foram os eReaders. O tablet é apontado como o grande canibalizador de venda de netbooks — que foi considerado o gadget do Natal de 2008, vejam só.
Quando replicamos essas considerações de especialistas estrangeiros, esquecemos de considerar que no Brasil é diferente, e há múltiplos aspectos envolvidos: 1) a tradicional defasagem tecnológica — lançamentos desembarcam por aqui muito tempo depois; 2) a alta carga tributária; 3) o nível heterogêneo de inclusão digital da população brasileira, como um todo.
Por aqui, ano passado não foi o Natal dos eReaders. Tampouco será esse ano. Muito menos serão os tablets; aqui, o gadget do momento, continua sendo “mais ainda do momento ano após ano”: os laptops. PCs continuam em alta, mas os computadores portáteis despontam cada vez mais como objeto de desejo. Primeiro, por causa do preço, que geralmente é o único fator que importa para muitos brasileiros, à mercê de configurações técnicas. O último lançamento da Positivo, líder no país em venda de PCs populares, é um notebook com processador Atom por R$ 1.000! Segundo, por causa da nossa deficiente cobertura de banda larga fixa. A banda larga tem assumido o papel de única opção de acesso para muita gente, que acaba encontrando nos laptops e modems 3G o seu meio de acesso à internet.
Quanto aos tablets, vão demorar para decolar no Brasil. Porque eles ainda não chegaram em massa às lojas, pra começo de conversa. E os que chegaram, já encontraram uma grande barreira no Brasil: o preço. Na Claro, o Galaxy Tab pode ser comprado por R$ 1.100 no plano de dados de 10 GB, com mensalidade de R$ 200. Sem contrato e desbloqueado, o preço vai a R$ 2.700. Ao mesmo tempo, podemos encontrar notebooks e netbooks muito baratos, custando quase um terço disso. Será que já não está na hora do governo estender os benefícios fiscais dos computadores para os dispositivos móveis?
Até arrisco a fazer uma previsão: a julgar pelos números do comércio nos últimos meses, os PCs e laptops baratos devem continuar na preferência dos brasileiros por um bom tempo, podendo até continuar no topo da lista dos gadgets para o Natal de… 2011!
19 dezembro, 2010 as 2:23
Concordo 100% com a análise. E esse natal também vai ser dos celulares – não dos smartphones – vale dizer.
A vantagem é que muito celular comum já está incorporando a tecnologia da Apple. Não canso de ver Samsung Corbys e até Samsung Wave. Galera tá investindo em mobile. Mas é próprio daqui, não igual aos americanos/europeus.
Pessoal tem que enxergar ao redor. E além da casca e das notícias.
20 dezembro, 2010 as 17:53
Pedro, falou e disse. O mercado está se verticalizando. O que é ótimo. beijos
22 dezembro, 2010 as 13:10
Perfeita a análise. Nada como um bom geomarketing para se
definir tend6encias. Certamente o Brasil não é o melhor mercado
para dispositivos com preços tão pouco atraentes, considerando a
relação custo benefício. O que se lê é muito generalizado e não
foca necessariamente o público brasileiro. Também acho que existe
uma demanda acelerada por notes e celulares mais baratos, com
oferta de tecnologia mais expressiva.