Geração touchscreen
Festa de criança. Salão de jogos. Eu, acompanhando meu filhotinho Gui, que está com dois anos e nove meses. No meio dos brinquedos, dois computadores – desktops – à disposição da curiosidade dos pequenos, praticamente peças de museu. Um amiguinho do Gui envolve o mouse com as mãozinhas fofas e, com desenvoltura, clica nos ícones, aciona o game e começa a brincar. Meu Gui olha para a cena, estupefato. Afinal de contas, o que é aquela peça engraçada (o mouse) que permite que o amiguinho acione o sonhado joguinho?
Deixei o pequeno tentar. Estava com as mãozinhas meladas de bala e o mouse grudou na palma das mãos, dificultando ainda mais a interação. Eis que ele se apodera do micro e começa a empurrar o mouse de um lado para o outro, sem sacar a história da setinha na tela – não consegue linkar um ao outro.
A luta continua. Ele não entende o periférico e, por instinto, coloca a mãozinha na tela do desktop para selecionar o game. Sim, amigos, meu garoto faz parte da Geração Touchscreen e acha que tudo se resolve metendo o dedão o display!
Vocês sabem do que estou falando – o Gui é a resposta para a pergunta que Nicholas Negroponte (criador do projeto One Laptop per child, OLPC) fez no TED.com em 1984: afinal, para que ter um mouse entre você e o computador se o natural seria você colocar logo o dedão e selecionar o programa que deseja abrir?
Incrível, mas dia desses fui rever o TEDTalk do Negroponte. E continuo chocada com a capacidade que ele teve de prever todos os fenômenos que temos visto aparecer nos últimos anos.
Negroponte se mostra indignado com a existência do mouse – e jura não ser implicância. A Xerox já tinha apresentado o seu em 1981 e, em 1983, a Apple adotou o periférico em seu computador Lisa. Negroponte não era o único detrator do mouse. O até hoje conceituado colunista de tecnologia John Dvorak chegou a dizer, à época, “não há evidência que as pessoas queiram usar essas essas coisas”.
Cá entre nós, do ponto de vista ergonômicro o mouse não ajuda muito – ele serve como ponte entre o usuário e a máquina e pode causar lesão por esforço repetitivo (LER), um problema de saúde muito sério. A sorte é que o avanço da tecnologia mostrou que ele é totalmente dispensável diante da possibilidade de interação direta homem-máquina.
Meu filhotinho não entende o mouse porque nasceu na era iPhone. Desde antes de ele nascer eu já não usava desktop, apenas notebook. (e sem periféricos, nem teclado extra nem mouse nem caixas de som). Com a chegada do iPhone, passei a usar mais o celular do que o notebook e, depois do iPad, a coisa ficou ainda mais complicada. Agora, tenho um mouse da Apple que comprei apenas pelo impulso e porque ele parece uma joia, protegida dentro daquela caixa linda de acrílico. Culpa de Steve Jobs, o gênio!
O Gui pertence a uma nova geração que interage com a tecnologia da forma mais natural possível, sem intermediários. E se hoje o dedo ainda é o mensageiro, muito em breve nem isso: bastará ele olhar para o notebook (ou algo que o substituirá), piscará os olhos e acionará os programas. Ou usará a voz para comandar as funções. Nada mais simples que isso.
Se pararmos para pensar, o touchscreen faz o maior sentido: torna mais simples o acesso às funções e dá todo o poder ao usuário. Mas temos um problema: para quem precisa digitar muito, o uso da ponta dos dedos não é a ideal. E aqui está um grande nicho esperando para ser atendido pela cada vez mais voraz indústria de tecnologia: há que se criar alguma coisa que vá além do teclado Bluetooth (o ideal não seria ter cada vez menos equipamentos, condensando as funções em um único aparelho?) e que facilite a inserção de dados. Comando de voz? Por que não? Ouso sonhar com a telepatia, mas ainda não chegamos a tanto. Questão de tempo, concordam?
Fico pensando o que será feito dessa geração touchscreen. Já há e-readers, telefones, notebooks, tablets touchscreen. Mas a TV ainda não o é – pelo menos não as domésticas. E meu filho também não entende isso. Está sempre tentando tocar na tela dos aparelhos – já o peguei fazendo isso na TV e no notebook e deu certo com o micro-ondas, que ele comanda sob minha supervisão.
Estamos falando, claro, sobre uma leva de sortudos cujos pais estão na vanguarda da tecnologia – é o caso do meu Gui. Mas há uma porcentagem grande de crianças que sequer desktops com monitor de CRT têm em casa. E mais uma vez se desenha um gap imenso entre os que possuem acesso à tecnologia e aqueles que dela ficam distantes. Um gap que, espero, o avanço tecnológico e os incentivos à produção podem ajudar a diminuir.


22 fevereiro, 2011 as 9:48
O mouse serve como ponte entre o usuário e a LER. Hehehe
Mas, afinal, pra que tocar a tela se você pode simplesmente fazer um gesto (vide Kinect), não é? Ou, como você bem lembrou, piscar um olho e, muito em breve, apenas pensar. E nós sabemos que isso já não é mais ficção científica, mas questão de tempo. O duro, como você bem conclui, é que alguns já estejam flertando com o século 22, ao passo que uma legião ainda vive no século 19. Um abismo.
22 fevereiro, 2011 as 10:05
Um grande amigo trabalha na Motorola na área de novos aparelhos. Tem uma filha de 3 anos e uma de 6 anos. A Motorola com uma enorme gama de produtos Android, todos touchscreen a pequena de 3 anos se acostumou a brincar apenas com as telas e não com botões.
Um dia o pai chega em casa com um celular mais simples, low-end, e deixa em cima da mesa. A pequena pega o celular, olha pra tela, olha aquele sem fim de botões, olha a parte traseira, e começa a apertar a tela.
Nada acontece. Olha pro pai que só observa, e volta a apertar a tela e nada acontece.
A pequena então não se aguenta e diz: “Ih papai, esse aqui é diferente né?”
Mais uma historinha da geração touchscreen.
22 fevereiro, 2011 as 10:21
Olá Elis,
Nada como observar a natureza ANTES, para depois aplicar a tecnologia.
Nossa geração sofreu muito com o caminho inverso, onde a tecnologia ditava nossa natureza. Que bom que o Gui e seus coleguinhas terão um mundo mais adaptado a eles (ao invés de ter que se adaptar ao mundo tech).
Quanto ao Negroponte, considero-o um gênio ainda mais visionário do que Jobs. “Being Digital” tem 15 anos e está totalmente atual (nessa área, após 3 anos os livros já estão ultrapassados).
Agora, visionário mesmo é o Stanley Kubrick! Recentemente, usei trechos do fantástico “2001: uma odisséia no espaço”, que é de – pasmem – 1968! Ele introduz conceitos de interfaces que ainda não alcançamos, mas ao que tudo indica, serão aquelas que o Gui utilizará no futuro. HAL 9000 vive! ;)
22 fevereiro, 2011 as 11:08
Telpatia ? Aí viajou hein !
23 fevereiro, 2011 as 14:09
Seu filhinho toca a tela da tv porque ainda é pequenino e não conhece a combinação perfeita sofá + controle remoto + pacote completo de tv a cabo : )
23 fevereiro, 2011 as 15:14
Olá, bem legal esse assunto, é o tipo da coisa que me atrai.
Eu particularmente quando soube que o iPhone estava chegando, ainda na sua primeira fase, fique alucinado mas sem poder comprar por causa do seu valor. Nesse período eu tinha um celular horrível, era pequeno mas muito simplão, nada de mais. Quando eu vi a capa da revista eu disse pra mim mesmo, “esse eu vou comprar”, demorou quase dois anos, aproveitei uma boa oportunidade em um plano de um ano, aí comprei, só alegria é incrível celular de toque, nada de botão, então fico imaginando o que uma criança pensa a respeito.
Uma coisa eu sempre digo, quem tiver um celular de toque, nunca mais vai querer outro tipo de celular, esses celulares do visor quadradinho já era. Até a minha esposa que sempre falou que não se preocupava tanto com esse detalhe, depois que comprou seu primeiro celular de toque já está pensando diferente, é outra realidade, muito mais prático, limpo e a interação com o sistema é muito mais sofisticado.
Valeu!!!
23 fevereiro, 2011 as 16:52
E a viagem só começa: http://www.newscientist.com/blogs/culturelab/2011/02/telempathy-a-future-of-socially-networked-neurons.html
24 fevereiro, 2011 as 9:50
É incrível como a molecada de hoje em dia interage com coisas que na nossa infância nem sonharíamos em ter! Isso eu acho o mais legal.
Eu e o pessoal da minha geração, de 25 a 30, jogaram todas as gerações de vídeo-games, hoje a molecada de 2 a 5 anos, vai poder dizer quando tiverem a nossa idade que interagiram com todas as gerações de aparelhos touchscreen.
Com o que será que os filhos deles (seus netos) interagirão?
O seu discurso “touch rules!” e “mouse crap” é bastante plausível e se é baseado no do Negroponte realmente se torna forte, porém existe um tal de “impulso mercadológico” que, ao que tudo indica, não leva tão à sério as tendências da galera geek e outra, o touchscreen, comandos de voz e coisa e tal, existe para facilitar o manuseio de produtos “mobile”.
Não me vejo dando suporte à um ERP, por exemplo, rodando em cima de uma tela touchscreen tão cedo (a não ser que seja um sistema mobile, como um coletor de dados).
O que estou querendo dizer é que, o mouse e o teclado, tanto quanto periféricos em geral ainda serão utilizados por algumas gerações, não porque as tecnologias novas não os substituam, mas porque não há ainda um “impulso mercadológico empresarial” por trás delas.
Pode ficar tranquila que o “seu Gui” com certeza aprederá a mexer no mouse.
Abraços.
4 março, 2011 as 16:26
Acredito que você superestima seu filhote. QUalquer criança de 2 anos de qualquer época (até minha tataravó) apontaria para o que quer ao invez de utilizar um simulador virtual de gestos (mouse). Não se trata de geração touchscreen… E os tables, smatphones e afins ainda estão muito longe de substituir os computadores.
-Chegaram interfaces que reconhecem gestos (mas não quero ficar fazendo mimica na frete do pc.
-Chegou o touchScreen, mas é muito melhor ter o braço apoiado sobre a mesa e alcançar toda a tela com pequenos gestos do que ficar espichando o braço até o monitor.
Graças ao papai do céu ainda pderei copmrar meu descktop com 4Gb de RAM 2 Tb de HD processador de 4 nucleos e placa de video fodastica e suas atualizações ao longo dos tempos por muitos anos!
5 março, 2011 as 10:39
Alam, como assim eu superestimo meu filhote? Aponte-me uma mãe que não o faça e aí conversamos.
E faça um favor, sério: assista ao vídeo do Negroponte – gravado em 1984!!! E aí sim podemos falar sobre o que é renovação tecnológica. Que traz empregos, que impulsiona o mercado.
Se todo mundo pensasse assim, ainda estaríamos usando 286 e modem dial up.
atenciosamente,
9 março, 2011 as 14:47
A verdade é que não sabemos o que vem por ai. Não sabemos a proporção da tecnologia no mundo de hoje. O que podemos imaginar é a junção de algumas tecnologia, pro exemplo, temos as telas sensíveis ao toque e tempos também a tecnologia do momento, o Kinect, capta movimentos do corpo, ja testadas em computadores e outras maquinas, um dia teremos as nossas casas com alta evolução, bastando simples comandos de voz para ligar o som,tv, carro etc.
de qualquer forma, a unica maneira é esperar.
abraço
10 março, 2011 as 8:17
Kkkk! Desculpa, tem razão quanto ao fato de toda mãe acreditar em seu filho. E em fim… desculpe se não estou tão empolgado quanto as novas tecnologias elas avançaram muito mesmo. Mas… não dá pra substituir um desktop por nenhum tablet, smartfone, etcs do mercado.
17 março, 2011 as 15:49
A mudanca deve ser feita de dentro pra fora. O BR ta cheio de gente trabalhando como escravos, na cultura do ” nao gostou procura outro emprego” e tb que se deve vestir a camisa da empresa, e levar relatorios pra casa, ou ficar ate tarde trabalhando, entregando projetos que foram pedidos pra “ontem” e isso qdo os proprios colegas de trabalho nao te olham com cara feia, pq vc quis sair as 5 da tarde pra ver a apresentacao do seu filho na escola. Como se a vida so fosse pra o trabalho.