Video game

25/01/2011 16h15 - Atualizado em 14/07/2011 07h06

Conquistas vazias e Troféus sem valor

Rafael Monteiro
por
Para o TechTudo

Com a entrada da Microsoft na geração passada, muita coisa mudou no mercado de videogames. Durante a entrada da Sony, por exemplo, a gigante japonesa não tinha uma cultura própria, apoderando-se da cultura remanescente do Super Nintendo, mas eventualmente moldou-a ao seu gosto, criando seu próprio estilo de fazer videogames e jogos.

Já a Microsoft não é uma empresa conhecida por adicionar personalidade aos mercados que participa. Tudo se resume ao mesmo fator universal: Eles têm dinheiro. É uma empresa que entra em um setor, compra sua posição no mercado e se senta, esperando por oportunidades de lucro ou dominação, mesmo que perdendo dinheiro para defender seu posto no meio do processo. É o famoso jogo que só a Microsoft pode jogar.

E assim a menina dos olhos de Bill Gates entrou no mercado de jogos sem uma cultura própria, assim como a Sony, mas sem a menor vontade de desenvolvê-la ao longo do caminho.

Comprou um estúdio promissor, a Bungie, que preparava Halo para o PlayStation 2, e comprou a Rare, ex-parceira da Nintendo, responsável por muitos bons jogos no Nintendo 64.

 

Xbox 360 e seus mascotes (Foto: Divulgação)Xbox 360 e seus mascotes (Foto: Divulgação)

Pela falta de vontade de desenvolver uma cultura própria, a empresa se utilizou da cultura dos jogos de computador. Esse é o motivo pelo qual os jogos de Xbox lembram tantos jogos para PCs, e há tanta abundância de jogos em primeira pessoa. É também o motivo pelo qual o Xbox 360 começou a canibalizar o mercado de jogos para computador na geração seguinte.

Antigamente, nós terminávamos o trabalho pra ir jogar. Hoje, o jogo é o trabalho a ser terminado."
Rafael Monteiro

Mas como em Alien: O Oitavo Passageiro, a Microsoft não percebeu que estava transportando o embrião de um monstro para dentro do seu console. A cultura dos jogos de computador entraria em crise, inevitavelmente, mas ela trouxe a sua própria bomba-relógio pra dentro de casa.

Os jogos começaram a ficar desinteressantes, basicamente o principal motivo pelo qual o público da geração anterior não migrou para os consoles da nova geração. Eles se tornaram extremamente lineares, jogos feitos para se jogar por oito ou dez horas e então encostá-los para nunca mais.

Antigamente os jogos eram mais abertos, você tinha mais escolhas, menos história à seguir. Você tinha seus próprios motivos para jogar, e as sessões de jogo se resolviam em torno do prazer da ação, não da sensação de dever cumprido por terminar o jogo. Antigamente, nós terminávamos o trabalho pra ir jogar. Hoje, o jogo é o trabalho a ser terminado.

Quando um jogo nos cativa, é natural continuarmos explorando-o, pois aquela experiência é única pra nós. Como os jogos eram mais abertos à situações adversas, menos voltadas para contar uma história, cada jogador tinha a sua própria lenda pessoal, uma história que só acontecia com ele.

Como aquela vez em que você matou aquele chefe faltando só um coração. Ou quando a energia do oponente já estava "na alma" e ele te acertou um golpe de sorte. Mesmo aquele dia em que você ficou quatro horas matando os mesmos inimigos e comprou a melhor espada do jogo.

Todos estes eram elementos abertos que permitiam que cada jogador tivesse uma experiência única. Nos jogos lineares, todos fazem praticamente as mesmas coisas, não há espaço para escolhas ou exploração.

Antes mesmo de sabermos que os jogos ficariam assim, no lançamento do Xbox 360, veio com ele o famoso sistema de Achivements / Conquistas. Neste sistema, ao realizar tarefas, não necessariamente relacionadas ao objetivo principal do jogo, o jogador ganharia uma mensagem dizendo: "Achievement Unlocked / Conquista Desbloqueada" e a tarefa que ele cumpriu.

Conquista em um jogo de Blackjack (Foto: Divulgação)Conquista em um jogo de Blackjack (Foto: Divulgação)

As tarefas vão de coisas inúteis: "100 Inimigos Mortos", passando pelo ridículo: "Inimigo morto com uma bola de praia" e até paródias e homenagens de jogos ou filmes, como: "Super Banjo Universe", que remetia à Super Mario Galaxy, no jogo Banjo-Kazooie: Nuts & Bolts; ou "Vegas Samurai" em Fallout 3: New Vegas, remetendo ao filme Six-String Samurai.

Conquistas são como as claquetes de riso em séries de humor. Eles temem que, sem elas, você não sinta realmente prazer em realizar essas tarefas."
Rafael Monteiro

No início, o sistema ganhou popularidade, e com algum atraso, a Sony tratou de lançar as suas próprias Conquistas. Ela os chamou de "Trophies / Troféus", e o funcionamento era o mesmo da rede da Microsoft. Enquanto isso, a Nintendo se recusou a adotar um sistema de Conquistas unificado, apesar de aplicá-las em alguns jogos isolados, como Metroid Prime 3: Corruption e Wii Sports Resort.

Como as Conquistas adicionavam pontos ao perfil do usuário, o que chamam de Gamer Score, logo surgiu um novo tipo de jogador, que jogaria até mesmo os piores jogos ou mais infantis somente para ganhar pontos. Uma verdadeira disputa de tamanho de egos virtuais.

Shigeru Miyamoto, criador de Super Mario e The Legend of Zelda, comentou uma vez sobre as Conquistas: "Não gostamos de usar as cenouras para incentivar o cavalo". E é exatamente isso que as Conquistas são - um tapinha nas costas que diz: "Você é bom", mas que não querem realmente dizer nada.

Achievement Unlocked: Jogo em Flash que satiriza o sistema (Foto: Divulgação)Achievement Unlocked: Jogo em Flash que satiriza o sistema (Foto: Divulgação)

 

Conquistas são como as claquetes de riso em séries de humor. Eles temem que, sem elas, você não sinta realmente prazer em realizar essas tarefas. E, obviamente, eles só tem esse medo porque eles sabem que o jogo não ficou interessante o bastante pra você querer jogar por conta própria.

Bill Trinen, um tradutor que trabalha constantemente com a Nintendo, quando perguntado sobre o assunto, afirmou: "Nós não nos opomos às Conquistas", e adicionou durante a conversa: "Basicamente, o jeito que os jogos são feitos é para que você explore o jogo por conta própria e tenha esse senso de descoberta".

E em seguida, confirmou que o Nintendo 3DS não terá um sistema de Conquistas.

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