Produtividade

28/01/2011 15h55 - Atualizado em 14/07/2011 07h05

A verdadeira face do boicote ao Flash

Rafael Monteiro
por
Para o TechTudo

Se você navegou pela Internet nesses últimos anos, provavelmente já fez três coisas: Abriu uma conta em alguma rede social; enviou vídeos engraçados do YouTube para amigos; e jogou algum jogo online em Flash, no seu navegador.

A cultura dos jogos em Flash se enraizou através de nomes como NewGrounds, e se perpetuou com outros como Kongregate e Armor Games. Hoje, há vários sites oferecendo jogos gratuitos para o seu divertimento, além dos grandes conhecidos.

Alien Hominid: Um dos primeiros grandes jogos para Flash (Foto: Reprodução)Alien Hominid: Um dos primeiros grandes jogos para Flash (Foto: Reprodução)

Às vezes a qualidade desses jogos é questionada, já que há uma parcela de produtos ruins, como em qualquer mercado, mas somente os melhores realmente fazem sucesso; casos esses em que os próprios jogadores satisfeitos se tornam agentes de divulgação. Várias empresas já se espalharam por esse mercado e estão ganhando muito, afinal, havia um imenso público de pessoas esperando por jogos simples, que não precisavam de nenhum compromisso para começar a jogar - e o Flash fornecia isso.

Se você instaura uma cultura de jogos gratuitos em Flash, você torna o ato de pagar por um software obsoleto."
Rafael Monteiro

Espera-se então que a plataforma seja idolatrada, não?

Ao olhar para as notícias e comentários das empresas, vê-se uma grande antipatia pelo Flash e pela sua atual dona, a Adobe. Alegações de falta de segurança são uma das mais constantes reclamações, e isso influência até algumas empresas.

A Apple, por exemplo, se recusa a adotar o Flash em suas plataformas, como iPhone e iPad, soltando farpas sempre que tem a oportunidade. Outras empresas fazem uma oposição mais sutil, como apoiando o recente HTML 5, que deverá oferecer uma opção à altura a plataforma da Adobe em várias funções, mas ainda longe de ser um substituto (o que não deve impedí-lo de provavelmente tomar o mercado mesmo assim).

Poderia haver motivos secretos por trás das ações dessas empresas? Como disse Al Gore, a Internet é a realização do mercado livre. E o que se pode notar nos exemplos iniciais, era um ponto em comum: Todos são gratuitos.

O que essas empresas contra a tecnologia mais estão com medo é de, justamente, trazer um mercado livre e gratuito (não a mesma coisa) para o seu próprio quintal. Jogos em Flash podem ser encontrados de graça, sem a menor dificuldade, mas qualquer jogo para iPhone tem que ser comprado através da AppStore (por preços baixos, é verdade, mas ainda acima de zero).

Amateur Surgeon 2: Disponível na App Store... por um preço (Foto: Reprodução)Amateur Surgeon 2: Disponível na App Store... por um preço (Foto: Reprodução)

Se você instaura uma cultura de jogos gratuitos em Flash, você torna o ato de pagar por um software obsoleto. Os jogos online mostraram um modelo que sobrevive puramente pelo dinheiro conseguido por propagandas atreladas ao jogo, como os comerciais na TV aberta. E até mesmo jogos gratuitos em Flash são vendidos em suas versões para iPhone. As pessoas compram e ainda ficam satisfeitas, o que significa que o valor que esses jogos oferecem é real, independentemente do preço. Então por que uma versão é gratuita e a outra paga?

As pessoas compram e ainda ficam satisfeitas, o que significa que o valor que esses jogos oferecem é real, independentemente do preço. Então por que uma versão é gratuita e a outra paga?"
Rafael Monteiro

Quando questionado sobre a questão da pirataria, Satoru Iwata, presidente da Nintendo, mencionou como era perigoso criar uma cultura onde as pessoas ficassem desacostumadas a pagar pelo que consumissem. Será que ele estava realmente com medo da pirataria ou o assunto trata de outra questão?

Você compra uma televisão e não paga para assistí-la. Assina um serviço de internet e não paga para acessar sites. Mas se você compra um videogame, obrigatoriamente terá que pagar a uma empresa por jogos. Não há qualquer canal gratuito de distribuição, pois, se houvesse, produtos gratuitos competiriam com os pagos, questionando seu real valor de mercado.

Este modelo se assemelha a outros mercados que também entraram em crise, como o de CDs e DVDs. Presume-se que o investimento inicial que a empresa toma para criar algo justifica a exploração sobre o conteúdo criado da maneira que achar melhor, mas o consumidor não trabalha por essa lógica.

O ônus de pagar pelos seus investimentos e de ter possíveis falhas é da empresa, e o consumidor, no fundo, sabe que não quer essa responsabilidade, então acaba por boicotar, consciente ou inconscientemente, o produto. Não é uma mera questão de preço, mas de valor. Pagar um preço que ele veja como "justo".

Plants Vs Zombies: Atual destruidor de famílias (Foto: Reprodução)Plants Vs Zombies: Atual destruidor de famílias (Foto: Reprodução)

O modelo citado, tomando como exemplo as empresas de CDs, é movido por falhas. Basta atirar pra todo lado que a cada dez falhas surge um sucesso, e cada falha, na verdade, deixa você mais perto de conseguir um sucesso. Por usá-lo uma vez, um sucesso cobre os gastos de todas as outras falhas. Mas essa "herança" encarece o produto, pois você está pagando pelas falhas da empresa.

Com os jogos em Flash, a popularidade acaba sendo diretamente proporcional ao valor que o público vê no jogo"
Rafael Monteiro

Já o gratuito não funciona assim, pois não há preços exagerados para cobrir as falhas: Ou se faz dinheiro ou se declara falência. Não é possível uma empresa que depende do fluxo de entrada se dar ao luxo de ter várias falhas. E como isso é melhor para o consumidor? A empresa que desenvolve um produto gratuito está mais antenada ao que ele deseja.

Quando uma empresa já trabalha com falhas, ela não tenta prever a reação do consumidor. Mais falha, menos falha, não importa, ... É só um degrau.

Ao desconhecer o consumidor, não se sabe que tipo de produto realmente vai fazer sucesso, então tenta-se de tudo e depois explora-se a franquia com sequências até esgotar-se, partindo, então, à procura de outro sucesso inesperado.

Uma empresa que tem que controlar melhor seu capital não pode se dar a esse luxo. É onde mora a grande diferença entre o padrão industrializado e o padrão gratuito. Porque, como William Friedkin uma vez disse: "O público nunca está errado".

Já que no modelo de falha a empresa não se preocupa com o que está sendo produzido, ela pode fazer o que quiser, e isso é bastante prazeroso para os envolvidos no processo de criação, já que eles podem expressar seus egos o quanto quiserem. Assim, acabam surgindo produtos desconectados com a vontade do público. Grandes jogos cheios de expectativa e notas altas em análise que não se convertem em prazer para o jogador. Com os jogos em Flash, a popularidade acaba sendo diretamente proporcional ao valor que o público vê no jogo, pois não há falsos valores atrelados a eles.

Robot Unicorn Attack: Inesperadamente viciante (Foto: Reprodução)Robot Unicorn Attack: Inesperadamente viciante (Foto: Reprodução)

Os jogos em Flash não só oferecem o melhor preço, mas oferecem maior conexão com as vontades do público. Eles se provam os piores competidores que uma empresa poderia querer lutar contra, e provavelmente esse é o real motivo pelo boicote da indústria dos jogos gratuitos.

Enquanto isso, a plataforma Android, da Google, arriscou-se abrindo caminho para jogos em Flash, mas ainda de maneira limitada. A verdadeira questão é: Poderia o gigante das buscas abrir a Caixa de Pandora, "só um pouquinho"?

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