25/03/2011 11h01 - Atualizado em 14/07/2011 06h58

A tecnologia salvou o dia - Episódio 1: O Rádio e o Detetive

Caio Bersot
por
Para o TechTudo

Pods. Pads. Nem sempre essas palavras foram sinônimo de tecnologia. Por isso, neste espaço vamos contar histórias com fusíveis, eletrodos e válvulas. Vamos até um mundo de papel laminado, luzinhas piscando, blips e blops, indo audaciosamente onde os cientistas do passado estiveram antes de sequer pensarmos em bits e bytes.

O assassino Dr. Crippen (Foto: Arte/Charles George)O assassino Dr. Crippen (Foto: Arte/Charles George)

O rádio era uma invenção assombrosa e recente há 100 anos, mas já estava sendo usado há meia década como meio de comunicação de longa distância em alto mar. Foi ele o principal responsável pela captura do Doutor Hawley Harvey Crippen e sua amante, que tentavam realizar uma discreta fuga para a América. Em seu plano de fuga, Dr. Crippen não contava era com o avanço tecnológico.

Em 31 de janeiro de 1910, Crippen (50) envenenou sua mulher, a polonesa Cora Henrietta e, vai anotando aí, desmembrou seu corpo, queimou os ossos e enterrou o que restou do cadáver em vários pontos do porão de sua casa na zona norte de Londres. Para quem estranhava seu misterioso sumiço, ele dizia que a mulher tinha viajado para a América, para depois dizer que Cora havia falecido nos Estados Unidos.

Os vizinhos estranharam a história e a estranha presença de sua secretária (na verdade a amante, Ethel le Neve, de 27 anos) instalada na casa e usando as roupas e joias da falecida. Chamaram a polícia, que revirou a casa e acabou encontrando os restos mortais da esposa do Dr. Crippen, já na Bélgica àquela altura. A famosa Scotland Yard empreendeu uma verdadeira caçada ao assassino e sua amante que só teve sucesso pela participação de uma discreta aliada: a tecnologia.

Entra em cena o capitão Kendall, Comandante do SS Montrose, entusiasta de histórias policiais e do avanço da ciência. Foi ele quem reconheceu Clipper e sua amante (disfarçados de pai e “filho”) a bordo do navio que rumava para o novo continente. Suas pistas foram um bigode recém raspado, marcas de um par de óculos que o suspeito não usava e o fato dele andar pelo convés de mãos dadas com o “rapaz”, o que já levanta suspeitas hoje, imaginem há cem anos.

Capitão Kendall correu para o rádio e avisou a Scotland Yard por telegrama. Seguiu-se uma alucinante (lembrem-se, estamos em 1910) perseguição naval com o Laurentic, uma embarcação menor e mais ágil, e com o inspetor Walter Drew a bordo, partindo a toda velocidade. Encontraram-se já na costa canadense, onde, disfarçado, o inspetor finalmente capturou o maníaco e sua amante.

O mais interessante: dias antes, o próprio Clippen, disfarçado, havia comentado com o Capitão que “invenção notável” era o tal rádio. Invento esse que pouco depois providenciaria sua prisão. A história acabou no cinema quatro vezes: os alemães “Dr. Crippen an Bord (1942), Dr. Crippen Lebt (1958), o americano “Dr. Crippen” (1962) e o inglês "The Last Secret of Dr. Crippen" (2004). Hawley Crippen não assistiu a nenhum deles. Acabou enforcado.
 

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