13/03/2012 14h57 - Atualizado em 13/03/2012 14h58

O capitalismo wiki

Roberto Cassano
por
Para o TechTudo

Em 2005, escrevi um post/artigo que sugeria a criação de um banco open-source, um wikibanco. O conceito, à época, era usar o melhor do capitalismo dominado pelos bancos em prol de retorno (lucratividade) a todos seus correntistas, e não aos donos do cofre. Um banco cujo objetivo fosse de fato fazer render o dinheiro de quem o financia, os correntistas.

Occupy Wall Street (Foto: Reprodução)Occupy Wall Street (Foto: Reprodução)

Utópico, claro, mas de certa forma a ideia continua viva, e mais do que nunca. Dois movimentos aparentemente antagônicos refletem os mesmos anseios: o “ocupe Wall Street” e a onda do Crowdfunding.

O Ocupe é um flash mob com causa. Um movimento coletivo essencialmente organizado e viabilizado pela internet, executado no “mundo real” e que protesta contra a voracidade exagerada de nosso sistema capitalista.

Já o crowdfunding é uma abordagem colaborativa, wiki, para o lado mais nobre dos bancos: investir em sonhos. Como tudo na internet, os sonhos no caso são os mais variados possíveis. Hoje, você pode participar doando alguns reais para causas diversas como realização de shows, compra de jogadores de futebol, ensaios sensuais e viabilização de empresas.

Os shows começaram o movimento por aqui, num Woodstock capitalista. O Queremos é um projeto incrível, que viabiliza shows onde o próprio publico financia o espetáculo e, em troca, além de curtir seu artista favorito, ainda tem acesso aos eventos a preços justos.

O Palmeiras apelou à tática para comprar o passe de um de seus atletas, com resultados bem menos expressivos. Também é suspeito o projeto Nake It, onde candidatas a musas definem o quanto elas cobrariam para posar nuas. Se o povo achar que vale o show, tudo acontece.

Em comum, temos um desejo que é coletivo e um rateio justo do esforço necessário para tirar o projeto do papel. Assim como a auto-publicação reduz o peso do editor literário como o sujeito que define que ideia vira livro e qual ficará trancada na gaveta eternamente, o crowdfunding reduz o poder de veto do investidor, do agente financeiro que precisa ser convencido.

Um dia esses dois movimentos vão se juntar. A melhor forma de acabar com a hegemonia do oligopólio financeiro (traduzindo, de tirar os figurões de Wall Street e da Av. Paulista do centro do tabuleiro) não é segurando cartazes, é tornando esse povo obsoleto. E isso se faz reconstruindo os circuitos por onde transita o capital.

A internet redesenhou essa estrada da informação. O conteúdo que sempre percorreu uma rota clara, desgastada, hoje é um emaranhado típico dos belos circuitos integrados, aquela confusão prata-verde de conexões. Agora é a hora de fazer a mesma coisa com o dinheiro.

Isso não vem de ontem. O eBay (e o Mercado Livre, por aqui), fizeram isso para o varejo. Não considero as compras coletivas uma grande revolução, mas elas colocaram no mapa novos agentes e fizeram os pequenos varejistas físicos terem uma presença online. A bola da vez é o capital inicial. Agora nós criamos, vendemos, compramos e financiamos.

Todo o poder para o povo.

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  • Igor Peruchi
    2012-06-14T20:59:10

    O que foi sugerido no primeiro parágrafo do artigo é uma idéia bastante antiga. Foi o que motivou a criação de cooperativas de crédito. Muitas quebraram, outras transformaram-se simplesmente em bancos. É verdade que com o avanço tecnológico a fiscalização poderia ser maior, mas é muito fácil a idéia inicial se desvirtuar...

  • Eduardo Rocha
    2012-03-13T15:43:53

    "O conceito, à época, era usar o melhor do capitalismo dominado pelos bancos em prol de retorno (lucratividade) a todos seus correntistas, e não aos donos do cofre." -> OK, a idéia é linda. Há um ditado muito bom que diz "a quem quer o bonus deve assumir o ônus". A fatura também pode ser rateada ou os clientes ficam com o lucro apenas e os "donos do cofre" ficam com as dívidas?

  • Eduardo Rocha
    2012-03-13T15:41:38

    Isto de "todo o poder para o povo" é algo complicado. Cristo foi crucificado a pedido do "povo". Vemos diáriamente movimentos absurdos, em nome do "povo". O que não vemos é o povo, de fato, fazendo a parte que lhe cabe nas eleições. A economia é algo mais complexo do que simplesmente comprar, vender e lucrar. Precificar um produto não é algo tão trivial quanto "gastei 10, vou vender por 30". Se assim fosse uma Ferrari deveria custar uns 30% do preço. E com um lucro brutal.