Internet

22/02/2013 14h40 - Atualizado em 22/02/2013 14h40

Pornografia

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Eu já escrevi tantas vezes e em tantas colunas nestes últimos anos que a Internet mudou o perfil de nossa sociedade que dificilmente algum leitor habitual desconhece esta afirmação.

Pois bem: agora estou me dando conta de que não apenas o acesso livre à Internet mudou o comportamento como também revelou (ou confirmou) certos hábitos do cerumano que eram pouco conhecidos mas dos quais já suspeitávamos há algum tempo (a quem estranhou a grafia do termo “cerumano” convém explicar que ele se refere aos indivíduos de uma espécie animal que pouco a pouco, quase desapercebidamente, infiltrou-se entre os “homo sapiens sapiens” e vem sorrateiramente tomando seu lugar no planeta; trata-se do “cerumano stupidus stupidus).

Um destes hábitos, do qual certas peças arqueológicas datadas de muito antes de cristo (e muitas de depois) já nos levavam a suspeitar, é seu (dele, cerumano, por favor; longe de mim querer acusar o preclaro leitor de portador de semelhante hábito) interesse pela pornografia. Na verdade, o Prof. Michio Kako, eminente cientista da Universidade de Nova Iorque e conhecido apresentador de muitos dos documentários sobre ciência e tecnologia exibidos na TV a cabo, no final do século passado, quando a disseminação da Internet entre o público em geral ainda era incipiente, afirmou:

Quando os cientistas criaram a Internet, imaginaram que ela seria um repositório de cultura e hoje nós sabemos que 10% dela é pura pornografia. Isso é porque hoje a maioria dos internautas é de jovens”…

Parece fazer sentido, pois não? E de fato faz, se considerarmos que o Prof. Kako imediatamente completou sua asserção acrescentando:

…”Quando for de velhos, 50% da Internet será pura pornografia.”

O que, agora sim, faz muito mais sentido.

Mas estas porcentagens eram meras estimativas feitas há cerca de quinze anos. Será que há uma forma de quantificar o interesse que a pornografia desperta hoje no cerumano?

Bem, não sou especialista no assunto. Conheço um pouco do cerumano, talvez um pouco mais de pornografia e, na qualidade de engenheiro, quem sabe ainda mais um pouco de estatística. Mas juntando tudo isto não dá para formular um procedimento capaz de analisar o problema. Então sou forçado a beber em fontes alheias.

Encontrei duas.

Uma delas é o interessante sítio “Ask Dave Taylor”, que simplesmente recebe pergunta dos leitores e as responde. Qualquer pergunta sobre qualquer assunto. Um perfil desta quase onisciente criatura pode ser encontrada na página ALL ABOUT DAVE TAYLOR e uma consulta a ela revelará que se trata efetivamente de uma figura impressionante.

A outra fonte é a página de estatísticas de um sítio dedicado à – que me desculpem os leitores, mas não conheço fonte mais segura – própria pornografia.

Então vamos por partes.

A pergunta dirigida a Dave Taylor cuja resposta contém os dados que interessam a esta coluna e que pode ser encontrada na página “What are the most common search terms?” foi: “What are the most common terms or phrases that people type into search engines?” (Quais são os termos ou frases mais comuns que as pessoas digitam nos mecanismos de busca?). A resposta listou em ordem decrescente de frequência as primeiras vinte e cinco consultas mais comuns no sítios de busca Google, Yahoo e MSN ocorridas nos 60 dias que antecederam a resposta (que, infelizmente, Dave não explicita mas que deve ser relativamente recente).

Vamos lá, dê seu palpite. Qual foi a primeira?

Acho que a maioria respondeu “sex” (“sexo”, em inglês; o maior número de consultas à internet é feito neste idioma, portanto é de se esperar que os termos ou expressões mais frequentes também o sejam).

Pois se enganaram.

Sex” continua mantendo sua popularidade, mas caiu para o nono lugar.

Isto porque, ao que parece, a turma está ficando, digamos, mais explícita e indo direto a seu alvo (seu, deles, naturalmente; sempre é bom esclarecer para evitar que um ou outro leitor mais pudibundo interprete mal e se ofenda). A vencedora, fácil, foi “pussy”. Que retorna 565 milhões de resultados, talvez por ter mais de um significado. Originalmente significava “gatinho”, “bichano”, mas evoluiu e passou a designar também, em linguagem chula, o órgão genital feminino. O que provavelmente indica que a maioria dos que fazem as buscas são do sexo masculino. Ou não…

Em segundo lugar vem “porn” (“pornografia”). E curiosamente, em terceiro vem “Google”, mostrando a força e popularidade da empresa.

Em seguida vem “boobs” (“seios”) que, juntamente com “tits” (“peitos”) que vem em décimo primeiro, revela certa preferência nacional americana.

Em resumo: entre os quinze primeiros, os que garantidamente pode-se afirmar que nada têm a ver com pornografia além de “Google”, são “Ebay” em sétimo lugar e “Yahoo” em oitavo. Constam também dois nomes de jovens americanas, “Paris Hilton” em sexto lugar e “Jessica Simpson” em décimo quinto. Esta última é uma cantora bastante popular e pouco sei sobre seu comportamento, portanto vou exclui-la da lista dos vocábulos com conotação pornográfica. Já de Paris Hilton o comportamento é bem conhecido e fica a seu critério incluir ou não. De minha parte, para evitar problemas (mas só por isto), a considerarei fora da lista. Então ficamos com dez termos seguramente com conotação pornográfica nos quinze primeiros colocados (se você consultar a lista e desconhecer o significado de “hentai”, que vem em quinto posto, vou lhe poupar o trabalho de efetuar mais uma busca com ele e informar que se trata de um tipo especial de pornografia derivado dos “mangás” japoneses).

Ora, dez entre quinze (e quatro entre os primeiros cinco) revelam um considerável interesse pelo tema.

Mas este tipo de avaliação é mais qualitativa que quantitativa.

Haverá alguma fonte que use números para quantificar o interesse por pornografia?

Sim, claro. É justamente aí que entra a página de estatísticas do sítio Pornwatchers.Com (onde foram obtidas as figuras).

ATENÇÃO: A página acima citada não tem qualquer conteúdo pornográfico. Mas não me responsabilizo pelo que pode ser encontrado em qualquer outra página do referido sítio. Portanto, se desejar visitá-las, faça-o por sua conta e risco e longe das crianças. E, por favor, não me venham acusar de divulgar um sítio de conteúdo pornográfico. Pelo que se verá nos números fornecidos, este sítio definitivamente não precisa de divulgação. Tanto assim que, no alto da página de estatísticas, sobre os números gigantescos obtidos em sua pesquisa, comenta: “Say goodbye to the niche of online porn, it’s in every living room on this planet!” (Diga adeus [ao conceito de] nicho de pornografia online. Ela agora está na sala de cada casa deste planeta).

O Pornwatchers não é propriamente um sítio de pornografia, mas um sítio de busca por pornografia (embora o conteúdo de muitas de suas páginas seja explicitamente pornográfico). Então os dados abaixo não correspondem às suas próprias estatísticas de visitantes, mas apenas às dos dois sítios mais populares no gênero, que foram lançados em 2006. Isto significa que os números que são adiante citados correspondem apenas a uma parcela do total e ainda assim obtida nos últimos seis anos.

Então vamos a eles.

No que toca à quantidade de vídeos pornográficos, os dois sítios armazenam 735 mil arquivos. A duração média de cada um deles é de onze minutos. Isto significa que um internauta particularmente interessado no tema pode passar 16 anos assistindo continuamente a vídeos pornográficos sem repetir uma cena sequer (se aguentar, naturalmente)

GPC20130221_1Fig 1: número médio de vídeos pornográficos
assistidos por cerumao (Foto: Reprodução)

Cada um destes vídeos foi assistido em média cerca de 130 mil vezes. O que, multiplicando pelo número de vídeos disponíveis e distribuindo igualmente pela população do planeta, significa que cada um de nós assistiu em média a quinze vídeos pornográficos. Se nós descontarmos o preclaro leitor, que não é dado a essas coisas, e mais a totalidade dos fanáticos religiosos que jamais se deixaram cair na tentação de assistir a um vídeo pornográfico, a média provavelmente não sofrerá alteração porque o total de possíveis espectadores removido é irrisório.

Nesta altura dos acontecimentos e considerando a magnitude dos números, já deve ter se tornado claro para o estimado leitor que uma minoria simplesmente não teria tempo de gerar tais quantidades de visualizações. Portanto a conclusão evidente é que a maioria dos cerumanos – ou pelo menos daqueles que têm acesso à Internet – assiste, se não assiduamente, pelo menos com alguma regularidade a vídeos pornográficos.

E não é uma maioria silenciosa. Muito pelo contrário, é uma comunidade bastante ativa (se bem que não se pode descartar a provável existência de uma parcela passiva). Pois acontece que os vídeos podem receber graus e comentários. E foram atribuídos quase 160 milhões de graus e escritos sete e meio milhões de comentários sobre os vídeos expostos.

Tudo isto torna o tema tão popular que atrai uma razoável quantidade de material novo: apenas nos dois sítios pesquisados são postados 22 mil novos vídeos diariamente.

Mas, computando o número de vídeos que foi assistido mais de uma vez pelo mesmo

GPC20130221_2Figura 2: Tempo real empregado na visualização de
vídeos pornográficos (Foto: Reprodução)

espectador e a quantidade de espectadores que assistiram ao mesmo vídeo, qual terá sido o total de visualizações de todos estes vídeos? Bem, segundo as estatísticas, apenas os dois sítios pesquisados já acumulam 93 bilhões (esclarecendo: Bi-lhões) de exibições de vídeos pornográficos. E quanto tempo teria sido dedicado pelos espectadores à relevante tarefa de assistir a estas 93 bilhões de exibições? Segundo as estatísticas consultadas, o total monta a 1,2 milhões de anos. Por extenso para que não pairem dúvidas: um milhão e duzentos mil anos só vendo safardagem…

Agora, voltemos a examinar o número de visualizações: noventa e três bilhões!

Faça o seguinte: selecione os sítios mais populares da Internet em todo o planeta. Compute o número de visualizações de todas as páginas de cada um deles a partir de 2006 e some.

Eu não sei quanto vai dar, mas aposto o que vocês quiserem que não chega nem perto dos 93 bilhões de visualizações de vídeos pornográficos apenas nos dois sítios pesquisados…

Mas nem tudo está perdido. Se você abriu a página do Dave Taylor para consulta e se por acaso ela ainda estiver aberta em seu navegador, volte lá e veja qual é o termo situado no décimo sétimo lugar na lista de mais pesquisados.

Viu?

É “poetry” (poesia).

Será que isto quer dizer que ainda existe esperança para o cerumano?

B.Piropo

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populares

  • Marco Borba
    2017-09-20T17:02:30

    Andava eu com a impressão de que escrever bem tornara-se uma arte perdida, especialmente entre meus diletos colegas engenheiros. Assim, não poderia ter vivenciado melhor surpresa do que ler conteúdos interessantes e grafados com elegância e fluência, em vernáculo lídimo e escorreito. Virei fã instantâneo de tuas colunas. Parabéns e obrigado!

  • Hugo Carvalho
    2013-03-05T13:54:20

    Cer ou não Cer...

  • Mc Finn
    2013-02-23T11:11:36

    Piropo continua prolixo. Sugiro, sinceramente, a leitura de Graciliano Ramos para aprender a sintetizar suas ideias.

  • Miseravão
    2013-02-23T07:18:38

    Artigo genial!!

  • Roberta Ferreira
    2013-02-22T15:24:56  

    Cerumano? O que seria isso?

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    • Roberta Ferreira
      2013-02-22T15:24:56  

      É você. Basta ler o texto.