02/05/2013 10h18 - Atualizado em 03/05/2013 08h58

Com coisa séria não se brinca

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Inalação de monóxido de carbono mata. E mata de uma forma particularmente cruel.

Quimicamente, a única diferença entre este gás e seu irmão maior, o dióxido de carbono, ou o inofensivo “gás carbônico” que existe nos refrigerantes, é um átomo de oxigênio a menos. Um átomo que faz toda a diferença (se não está interessado em saber como e por que o monóxido de carbono mata, pule os dois parágrafos seguintes).

Nosso organismo retira energia dos alimentos através de um processo denominado “catabolismo” que consiste, essencialmente, na oxidação bioquímica de matéria orgânica. Toda oxidação consome oxigênio e libera gás carbônico (CO2). Quem efetua o transporte destes gases em nosso organismo é a hemoglobina, um dos constituintes do sangue e responsável por sua cor vermelha. Quando inspiramos ar, inalamos oxigênio que, nos pulmões, se combina com a hemoglobina formando um composto instável denominado oxiemoglobina. Este composto é distribuído por todo o organismo pelo sistema arterial. Nas células, dada a instabilidade da oxiemoglobina, o oxigênio é liberado e usado no processo de produção de energia. É então a vez do gás carbônico se combinar com a hemoglobina formando um novo composto, também instável, a carboemoglobina, que é transportada para os pulmões pelo sistema venoso. Lá a carboemoglobina se desfaz e o gás carbônico é expulso do organismo quando expiramos. Assim, as mesmas moléculas de hemoglobina prosseguem indefinidamente transportando oxigênio para as células e delas removendo gás carbônico.

Já o monóxido de carbono (CO) também se combina com a hemoglobina. Porém, como a afinidade entre as duas moléculas é muito grande, eles formam um composto estável, a carboxiemoglobina. Ele é formado nos pulmões quando inalamos monóxido de carbono e permanece circulando pelo organismo. Estando ligada ao monóxido de carbono, a molécula de hemoglobina não pode se combinar com o oxigênio para levá-lo às células. E a falta do oxigênio bloqueia a produção de energia vital. Quando 80% das moléculas de hemoglobina se ligam às de monóxido de carbono, o indivíduo morre por impossibilidade de manter as funções vitais do organismo que consomem energia (como por exemplo a respiração e o batimento cardíaco).

Há exatamente uma semana ocorreu uma tragédia brutal em Campo Grande, MS, que causou a morte estúpida de uma criança de dois anos que dormia no banco traseiro do carro da família. A morte, absurda e cruel por ser inesperada, se deu em virtude da inalação de monóxido de carbono proveniente de um vazamento dos gases da descarga do veículo que penetraram por uma abertura na parte de trás do assoalho. Uma morte particularmente atroz por ser absolutamente silenciosa e sorrateira. Tanto assim que foi somente quando chegaram ao destino que os pais se deram conta da morte estúpida da criança, já que até então julgavam que ela dormia. Por isto a inalação de gases do escapamento de veículos é uma das formas mais comuns de suicídio na Europa. E já ganhou até um nome: “pipe job”.

GPC20130502Figura 1: o suicida mal sucedido (Foto: Reprodução)

No mês passado a Innocean, agência responsável pela publicidade da Hyundai, precisava de uma peça para divulgar o lançamento do novo modelo ix35. Cansados daquele velho reme-reme de mulheres bonitas, paisagens deslumbrantes, carros de passeio se comportando como esportivos e coisas que tais, apelaram para a criatividade e se decidiram por algo novo e, presumivelmente, bem humorado. Como uma das características mais revolucionárias do novo modelo é justamente o fato de não gerar emissões de gases tóxicos ou poluentes, emitindo apenas vapor d’água, resolveram fazer uma brincadeira: um vídeo no qual um senhor de meia idade com semblante triste (veja-o na figura, capturada do indigitado vídeo) liga uma mangueira ao cano de escape de seu ix35, a conecta ao interior do veículo, veda a cabine, senta-se ao volante, liga o motor e aguarda a morte. Na manhã seguinte se vê o cavalheiro em questão abrindo a porta da garagem para dar vazão ao vapor d’água e são exibidos os dizeres: “O novo ix35 com 100% de emissões de água” enquanto o senhor, com ar de desconsolo, entra em casa (interessado no vídeo? Já veremos onde encontrá-lo).

Com uma abordagem que julgava bem humorada a agência ressaltou um item importante de segurança do veículo. E transformou em piada um assunto lúgubre: o suicídio.

No início o anúncio foi um sucesso. O sítio da influente “The Drum”, uma revista britânica especializada em publicidade, apontava o vídeo como “Anúncio do dia” (mais tarde, da semana; depois, presumo que tenha desistido). O não menos influente “The Guardian” sugeriu que “valia a pena dar uma olhada” no vídeo. Enfim: tudo parecia encaminhado para, quem sabe, o vídeo ser laureado com um desses prêmios anuais de publicidade com os quais as agências tanto sonham.

Parecia que o tiro certeiro havia atingido o alvo.

Foi só há exatamente uma semana, em 25 de abril, que a agência e a Hyundai começaram a perceber que, muito pelo contrário, ele havia saído pela culatra. Porque neste dia, Holly Brockwell, uma jovem que por acaso também trabalha no ramo publicitário, publicou em seu blog a postagem “An open letter to Innocean and Hyundai”.

Aqui vai um trecho do texto, em tradução livre, da carta aberta dirigida ao fabricante do veículo e à agência que criou o vídeo publicitário:

Como uma profissional da publicidade eu gostaria de me congratular com vocês por terem provocado a reação visceral que todos almejamos. E por me motivar a compartilhá-la na minha página do Twitter e no meu blog. Mas eu não gostaria de me congratular com vocês por me haverem feito chorar por meu pai.

Quando seu vídeo começou a rodar e eu vi as belas tomadas de um carro vedado com o gás do escapamento penetrando na cabine, comecei a tremer. E tremi tão intensamente que tive que largar o copo em que bebia para evitar que respingasse. E então comecei a chorar. Eu lembrei de mim mesma vendo a polícia e a ambulância através da janela enquanto eu imaginava o que teria acontecido. Lembrei de minha mãe pedindo que eu me sentasse para ouvi-la explicar que papai fora dormir e não mais acordaria e, não, ele não poderia me levar ao aniversário de minha amiguinha na semana seguinte. Não, ele também não retornaria do céu apenas naquele dia, mas ele bem que gostaria de fazê-lo se pudesse. E lembro que descobri que ele morreu segurando no colo o coelhinho de pelúcia de minha irmã menor.

Surpreendentemente, quando eu vi o final de seu vídeo mostrando que o homem não morrera graças às emissões limpas da Hyundai, não parei de chorar. Eu não descobri de repente que minhas lágrimas foram justificadas por sua divertida mensagem. Eu me senti esvaziada. E mal. E querendo meu pai”.

E segue por aí, lamentando que um grupo de desconhecidos a tenha levado às lágrimas apenas porque queriam lhe vender um carro. Diz ela que, como profissional, havia se envolvido com publicidade de carros de passeio, tendo trabalhado com a Honda por quase um ano. Mas jamais lhe havia ocorrido que o melhor meio, o meio mais criativo, o mais inteligente de anunciar seus produtos seria fazê-los recordar do horrendo evento de um suicídio. E sugere que na próxima oportunidade eles levem isto em consideração lembrando-se dela, de seu pai, de milhares de outras vítimas de suicídio e de suas famílias deixadas para trás.

Holly inseriu no blog uma pungente cópia do bilhete de suicídio de seu pai e do vídeo da Hyundai. E encerrou sua carta aberta com a frase: “Meu pai jamais dirigiu um Hyundai. E, graças a vocês, tampouco eu o farei”.

Caramba, que cacetada!

Cacetada tão certeira que, em virtude dela, não mais que de repente o vídeo deixou de ser uma mensagem bem humorada sobre as qualidades de um carro e transformou-se em uma brincadeira de péssimo gosto sobre depressão e suicídio. Coisas muito sérias.

E com coisa séria não se brinca.

A Hyundai imediatamente reagiu postando um pedido de desculpas no Twitter e informando que o anúncio seria imediatamente retirado do ar. Mas nesta altura dos acontecimentos a cangancha já estava obrada.

O vídeo começou a ser postado no YouTube e rapidamente tornou-se viral. A Hyundai tomou as providências legais para que as cópias fossem retiradas, mas como as medidas devem, por lei, serem individuais, novas cópias eram postadas muito mais rapidamente que os advogados da empresa conseguiam removê-las. É por esta razão que, aqueles de vocês que visitaram os atalhos acima citados, não encontraram o vídeo na carta aberta de Holly Brockwell nem no artigo do The Guardian, onde há apenas um aviso que o conteúdo foi removido “porque incluía referências impróprias e inconsistentes com a orientação editorial do Guardian sobre a cobertura de suicídios”. Mas os que tiveram sorte talvez o tenham visto no artigo do The Drum (na tarde da véspera da publicação desta coluna, em 01/05/2013, ele ainda lá estava). Porém os que não o encontraram em qualquer destas páginas não devem se afligir: basta consultar o artigo de Jim Edwards, publicado no respeitabilíssimo Business Insider, “Desperate Hyundai Is Trying To Make Its Suicide Video Disappear — And Failing” (Desesperada, a Hyundai tenta fazer desaparecer seu vídeo sobre suicídio – e falha). Lá, depois de um breve comentário dizendo que o vídeo por ele postado no YouTube havia sido bloqueado, o autor incluiu uma relação de diversos locais onde ele ainda pode ser encontrado e, de lambuja, o repôs no próprio artigo.

O assunto, é claro, rendeu pano para mangas – e mal transcorreu uma semana desde a postagem no blog de Holly. Em 26/04 Laura Stamper, também no Business Week, publicou o artigo “Hyundai Could Have Avoided An Epic PR Crisis For Its Suicide Ad” onde afirma que, antes de tudo, “o vídeo jamais deveria ter sido produzido e, muito menos, aprovado. Exceto em campanhas de utilidade pública, o suicídio não tem lugar na propaganda – especialmente como uma piada”. E lembra ainda que em 2008 a Pepsi se viu na mesma enrascada após publicar um anúncio no qual alguém, personificando uma caloria, cometia suicídio de diversas maneiras, todas ilustradas. Porém, continua Laura, o mais importante é que em 19/04, quase uma semana antes da postagem no blog de Holly que jogou o assunto no ventilador, David Giantanasio publicava na AdWeek o artigo “Yet Another Car Ad Depicts Failed Suicide to Promote Clean Emissions” criticando severamente o tema do vídeo. E nem Hyundai nem Innocean deram a menor atenção às críticas (a propósito: hoje, 01/05, o vídeo pode ser visto em ambos os atalhos acima).

Eu não encontrei em parte alguma um único artigo ou comentário favorável à posição da Hyundai depois que se deram conta de sua verdadeira natureza. Não conheço quem tenha aprovado o comercial. Humor negro raramente é um tema bem aceito nos meios publicitários e não compreendo como os executivos de ambas as empresas, Hyundai e Innocean, aprovaram aquele monstrengo.

Mas uma coisa é certa: foi cangancha pra mais de duzentos talheres…

E tudo isto porque se meteram a brincar com coisa séria…

B. Piropo

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  • Odirlei Júnior
    2013-05-03T08:25:21

    Coitado do coelhinho....

  • Taian Monsores
    2013-05-02T12:54:28

    É sempre complicado fazer piadas com coisas sérias. Quem nunca passou por aquilo, acha graça. Quem passou, acha ruim, chora, é contra...

  • Douglas Faget
    2013-05-02T14:18:10  

    "Quimicamente, a única diferença entre este gás (monóxido de carbono) e seu irmão maior, o dióxido de carbono, ou o inofensivo “gás carbônico” que existe nos refrigerantes, é um átomo de carbono a menos." Só pode está de brincadeira! A diferença é um átomo de OXIGÊNIO a menos! Isso que dá dormir nas aulas de química...

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    • Douglas Faget
      2013-05-02T14:18:10  

      Pode ter sido erro de digitação... kick back...

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    • Douglas Faget
      2013-05-02T14:18:10  

      Certamente foi erro de digitação. Será corrigido. Obrigado por chamar minha atenção para ele.