15/05/2013 15h00 - Atualizado em 15/05/2013 15h25

Jogo brasileiro que trata déficit de atenção concorre a prêmio na E3 2013

Pedro Zambarda
por
Para o TechTudo

Como você se sentiria se tivesse um game seu concorrendo em uma votação na maior feira de jogos do mundo? É essa sensação que Thiago Strahler Rivero, de 28 anos, está vivendo nos últimos dias. Ele ajudou a desenvolver um jogo, chamado Project Neumann, que está concorrendo no concurso Indies Crash da maior feira internacional de games, a E3. Rivero, aproveitando a proximidade do evento – que ocorrerá entre os dias 11 e 13 de junho em Los Angeles, nos Estados Unidos -, conversou com a coluna Geração Gamer, do TechTudo, sobre seu próprio game, seus gostos e ideias para o mercado de jogos eletrônicos.

Imagem de Project Neumann: Mini-games para combater déficit de atenção (Foto: Divulgação)Imagem de Project Neumann: Mini-games para combater déficit de atenção (Foto: Divulgação)

“Minha ideia de unir games e psicologia começou ainda no segundo ano da faculdade, quando comecei a estudar o RPG de mesa como ferramenta de treino de habilidade sociais”, disse Thiago Rivero, explicando que nem sempre os jogos foram focos de seus estudos e que a união entre esses dois campos não é tão comum no Brasil, mas sim de outros pesquisadores ao redor do mundo.

“Algumas pessoas foram essenciais pra mim, mas a pessoa que mudou meu pensamento foi a professora doutora Sabine Pompeia, da Federal de São Paulo, que olhou para mim e disse: ‘Thiago, você é psicólogo, faça uma pesquisa de intervenção e vai ajudar as pessoas que tanto precisam disso’. Aquilo deu o clique final que eu precisava para criar um jogo na minha área”, explicou o desenvolvedor, sobre suas motivações iniciais em seu projeto.

Thiago Strahler Rivero, desenvolvedor de games formado em psicologia (Foto: Divulgação)Thiago Strahler Rivero, desenvolvedor de games formado em psicologia (Foto: Divulgação)

Project Neumann atualmente faz parte do projeto de doutorado de Thiago Rivero, na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), que está sendo orientado pelo professor Orlando Francisco Amodeo Bueno. “O jogo surgiu de uma necessidade de construção de ferramentas modernas, adequadas e engajadas para o tratamento tanto psicoeducativo, quanto o tratamento focado em cognição de crianças e adolescentes com dificuldades atencionais e de controle dos impulsos”, explicou Rivero, sobre os princípios do game.

No entanto, para colocar os fundamentos do jogo para funcionar, o projeto precisou de uma base mais sólida para sua jogabilidade. “Por esse motivo, criamos um modelo chamado de Metacog-cog. Com esse modelo, através de um game de aventura, o jogador poderá conhecer melhor suas próprias dificuldades do dia a dia e suas características pessoais que fortalecem ou são barreiras no seu tratamento (Metacog), ao mesmo tempo que diversas habilidades mentais serão treinadas, aumentando a pericia e a precisão do jogador (Cog)”, completou o desenvolvedor que é também psicólogo.

O código do game começou a ser criado em julho de 2011, mas, segundo Thiago Rivero, a produção do jogo só “começou efetivamente” em abril de 2012. Ou seja, Project Neumann tem quase dois anos de idade até conseguir entrar em um concurso da E3.

O que é o Project Neumann na prática?

Até um dragão é seu inimigo em Project Neumann (Foto: Divulgação)Até um dragão é seu inimigo em Project Neumann (Foto: Divulgação)

O jogo se trata de vários mini-games que colocam o gamer no combate contra bruxos, resolvendo puzzles ou mesmo percorrendo um cenário com obstáculos. O objetivo médico, e psicológico, do game é mostrar as habilidades e as limitações do jogador, para tratar principalmente de casos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, doença conhecida também pela sigla TDAH.

Project Neumann quer tratar de pessoas com déficit de atenção e usa conceitos de neuropsicologia (Foto: Divulgação)Project Neumann quer tratar de pessoas com déficit de atenção e usa conceitos de neuropsicologia (Foto: Divulgação)

Sobre seu projeto, Thiago falou que a ideia de criar esse jogo surgiu da necessidade de trazer o mundo dos games como aliado para todas as pessoas que enfrentam dificuldades atencionais e de controle de impulso. "Principalmente os pacientes, cuidadores, familiares e, por que não, todos aqueles que jogam. Nossa ideia é que, através do game, todos possam compreender melhor como organizar melhor sua rotina, focar melhor sua atenção, controlar melhor o impulso motor, controlar distrações e flexibilizar as suas ações."

O desenvolvedor e doutorando também esclarece que o objetivo de seu game não é apenas oferecer soluções médicas para quem sofre de TDAH, mas também ser uma experiência divertida. “Eu sou neurótico com imersão no game. Por esse motivo, um dos estudos que mais nos orgulham são os que estamos realizando com as ferramentas de rastreio de pupila (eye tracker) que nos permite conhecer por onde o olho dos nossos jogadores se movimentam durante a sessão do game”, contou Rivero.

Como o game foi criado?

Uma game mais adventure em Project Neumann (Foto: Divulgação)Uma game mais adventure em Project Neumann (Foto: Divulgação)

“Somos um time pequeno, com muitos colaboradores pontuais, de vários países e diferentes backgrounds. Temos médicos, designers, programadores, psicólogos já tivemos até historiadores no grupo de desenvolvimento. Um dos nossos parceiros Gavin Koh, tem um trabalho muito grande com games na Tailândia e nos indicou para o projeto”, explicou Thiago Rivero sobre a formação dos integrantes da equipe de criação do Project Neumann. O game tem colaboração de professores de outras universidades e instituições, como a Universidade Federal de Minas Gerais e a Duke University, dos Estados Unidos.

Além de Thiago Rivero e Gavin Koh, o game conta mais pelo menos mais quatro desenvolvedores, em um grupo chamado NeuroGames: Vinícius Fontoura, Emanuel H. Gonçalves, Vitor Sugimoto e João Vitor Guedes. “Nossa equipe entrou na batalha e cavou um espaço na competição da E3. Pra isso, foi necessário dois longos anos de background para finalmente sair e começar a se mostrar para um publico maior."

Não é a primeira vez que o Project Neumann participa de uma competição de games, mas é novidade um game brasileiro desses, desenvolvido dentro das universidades, finalmente conseguir chegar ao maior evento internacional de jogos. “O nosso projeto, quando ainda tinha outro nome e outra equipe, participou de alguns eventos legais, mas sempre na área de ciências. Eventos grandes na área de games eu nunca tive a alegria e prazer de ir e creio que esse vai ser nosso primeiro”, disse Thiago Rivero, sobre a nova oportunidade que seu time conseguiu agora.

Como é a área de desenvolvimento de jogos no Brasil?

Os programadores e designers brasileiros normalmente desenvolvem jogos para publicidade e não produtos finais como é a indústria de games nos EUA. “Minha percepção do mercado no Brasil é muito parecida com a percepção que tenho da America Latina em geral. Aqui muitas empresas de game pra social media, que fazem marketing, estão começando a dar o passos para se tornarem corporações de games auto-sustentáveis. Os mercados mobile estão colaborando demais para o desenvolvimento de estúdios semiformais indie”.

Para ele, os programas para celular estão abrindo oportunidades para que empreendedores brasileiros pensem em iniciativas fora da propaganda.“O Brasil sempre foi um país com muita iniciativa criativa, mas a área de games educativos precisa de muita transpiração e empreendedorismo para poder levar os projetos adiante e transformar os protótipos em produtos”, disse Rivero.

Para o desenvolvedor e pesquisador em psicologia, o principal trabalho não é apenas criar programas com temáticas educativas, mas oferecer experiências realmente divertidas e imersivas que abordam esses temas para o usuário.

O que vai acontecer se o game ganhar na E3? E se não ganhar?

Game brasileiro concorrendo na E3 (Foto: Divulgação)Game brasileiro concorrendo na E3 (Foto: Divulgação)

Project Neumann está em terceiro lugar na votação do Indies Crash da Electronic Entertainment Expo (E3), disputando com outros dois projetos de empresas de médio porte. “Ganhando ou perdendo, acho que nós já ganhamos. Ir para a E3 é consequência de um trabalho de muito tempo. O que garantimos é que a NeuroGames e o Project Neumann ainda vai ser muito conhecido e vamos trazer uma qualidade de trabalho muito boa."

O desenvolvedor acredita que o futuro dos games está na forma de como eles se adaptam em diferentes conteúdos digitais, em um conceito conhecido nos Estados Unidos como “gamificação”. “As novas tecnologias têm aumentado a forma como o homem vem aprendendo e conhecendo a realidade. Ficar sentado estudando está cada vez mais difícil. Por esse motivo, simulação é a palavra de ordem, assim como realidade aumentada é a ferramenta de trabalho”, afirmou.

Seja como for, o Project Neumann da NeuroGames é uma aposta do Brasil no mercado de games internacional. É um jogo criado para uma iniciativa importante no ramo da saúde, que é atender e tratar pessoas com problemas de déficit de atenção. Essa iniciativa pode ser o primeiro passo do país em direção a um nicho de jogos eletrônicos que não é tão explorado pela grande indústria. E você pode colaborar com Neumann votando no game dentro do site do Indies Crash, da E3.

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  • Rodrigo Vescovi
    2013-05-22T16:25:41

    Pô, mataram a pau...