Internet

09/05/2013 16h11 - Atualizado em 09/05/2013 16h11

Quer trabalhar de graça?

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Muitas vezes eu iniciava uma coluna indagando aos leitores se eles lembravam de tal ou qual coisa. Mas vou parar com isto. E a razão é simples: o tempo passou, os computadores se disseminaram, mudou o perfil da legião de usuários (universo de onde provém os leitores destas colunas sobre informática) e, como hoje ela é constituída principalmente de jovens, não devo esperar que eles lembrem de coisas que ocorreram quando eram crianças ou, talvez, nem tivessem nascido. De modo que, doravante, frases do tipo “lembram do tempo do DOS com sua interface de linha de comando” serão cuidadosamente evitadas. Em vez de perguntar se lembram, eu tentarei descrever como era.

Isto posto, e pondo a mão na massa, vamos adiante. Nos tempos do DOS e sua interface de linha de comando (ou seja, nos anos 80) a forma de comercializar programas era bastante diferente da que se usa hoje. Para começar, a Internet - embora já existisse nos meios acadêmicos e nos órgãos governamentais americanos -, ainda não havia chegado ao alcance do público, o que só ocorreu a partir de 1995. Portanto não existia o conceito de “baixar” um programa. Estes, tinham que ser comprados ou trocados (uma forma bastante delicada de se referir à pirataria. Aliás o meio predominante de disseminação de programas naqueles dias).

Comprar programas era raro - pelo menos no Brasil, que vivia os lúgubres tempos da reserva de mercado de informática . E isto porque, via de regra, sempre devido à altíssima carga tributária, os mesmos eram caros. Muito caros. Então, apesar dos ingentes esforços dos desenvolvedores para criar meios e modos de proteger contra cópia os disquetes (de 5” 1/4 ou 3” 1/2, convém notar), sempre se dava um jeito de burlar a proteção. E, numa distorção dos conceitos éticos (já que, a rigor, quem copiava programas estava cometendo um ato ilegal) provocada pela ganância dos revendedores, quem tinha um disco original e se recusava a copiá-lo para os amigos não era bem-visto na comunidade "micreira".

Depois, acabou-se a reserva de mercado, veio a Internet, que permitiu uma forma de comercialização de programas isenta dos custos de gravação em meios magnéticos ou óticos, impressão de manuais, embalagem e distribuição que fez caírem os preços dos programas a níveis aceitáveis, diminuindo, significativamente, o coeficiente de pirataria. As grandes lojas especializadas em vendas de programa, seja no Brasil (onde eram raras), seja no exterior (onde se constituíam no principal meio de comercialização de programas) praticamente desapareceram.

Então, passou-se a comprar programas transferindo-os diretamente do sítio do desenvolvedor ou de sítios especializados na comercialização de programas, efetuando o pagamento principalmente por meios eletrônicos. Esta foi a primeira grande mudança na forma de comercialização de software, cujo auge foi atingido na virada do milênio.

a Internet, permitiu uma forma de comercialização de programa isenta dos custos, que fez caírem os preços dos programas a níveis aceitáveis"
B.Piropo

E qual era o panorama naquela ocasião?

Bem, havia PCs rodando principalmente uma das muitas versões do Windows, Macs rodando uma versão do Mac OS e PCs rodando diferentes distribuições (“distros”) de Linux. Estes últimos, nas mãos de ferrenhos defensores do software livre, não comercializavam programas, simplesmente os distribuíam. Os programas para Macs eram comprados nas lojas que vendiam Macs. E todos os demais vendedores de programas vendiam programas Windows.

E então o panorama mudou. Vieram os telefones espertos, os tablets, os micros voltados para o entretenimento, que funcionam também como televisores com tela sensível ao toque (“all-in-one”, tudo em um só, em português), um mundo de novos dispositivos.

Além de tudo isso, também tinham os novos sistemas operacionais, que, por sua vez, trazem novos programas para esses dispositivos. Isso deu origem a uma forma nova de comercialização: as lojas virtuais.

Mas, antes de falar nelas, vamos dar uma olhada nos nossos computadores. E não me refiro àqueles que se usa no escritório e são fornecidos pelas empresas, que portanto decidem o que pode ou não ser instalado neles. Me refiro às máquinas pessoais, aquelas que quem resolve o que instalar ou não é o próprio usuário. Que programas rodam nelas?

Bem, nestes tempos em que não se pode separar “computador” de “Internet”, impossível não começar pelo programa navegador. Em cada máquina há pelo menos um (na minha, existem três). E, claro, todo o séquito que os acompanha, como complementos (“plug-ins”) e até mesmo aplicativos que rodam “dentro” deles. E nada disto é comercializado, posto que são oferecidos gratuitamente pelos desenvolvedores.

Depois, há os utilitários fornecidos juntamente com o sistema operacional, como reprodutores de vídeo e música, organizador e exibidor de fotos, utilitários do sistema - tipo desfragmentador de discos -, gerenciamento da máquina, monitores de desempenho e etc. E, embora existam similares pagos - que talvez sejam um pouco melhores -, com a evolução dos sistemas operacionais ao longo dos anos, tudo o que vem com eles costuma ser bastante satisfatórios. E também não são comercializados.

Há ainda programas gratuitos fornecidos por terceiros, alguns dos quais poderosíssimos e de imensa utilidade, como o “Google Earth”, o “Skype” e gerenciadores de arquivos “na nuvem” como o extraordinário “Dropbox”. Isso sem contar com dezenas de quinquilharias como joguinhos, pequenos utilitários, leitores de notícias, livros eletrônicos e afins, tudo isto desenvolvidos por terceiros e também gratuitos.

Mas afinal, não se usa programas pagos?

Claro que sim. A começar pelo indispensável programa de proteção contra vírus e softwares mal intencionados. Há alguns oferecidos gratuitamente, mas costumam ser limitados. No que me diz respeito, já há alguns anos me tornei um usuário fiel do pacote de segurança “ESET Smart Security” que inclui proteção contra vírus, “firewall”, filtro de programas mal intencionados recebidos via Internet (tanto por correio eletrônico quanto os invocados por páginas falsas do programa navegador) que até hoje jamais me falhou. Este tipo de programa, convém pagar. E como não costumam ser caros, a relação custo/benefício é sempre extremamente favorável.

Depois uma suíte de aplicativos. Quem usa Windows, geralmente usa MS Office. Se bem que não é obrigatório. Em uma máquina dedicada a desenho auxiliado por computadores, por exemplo, depois de um pesado investimento em um programa pago, poderoso e, portanto, caro como o AutoCad, nem sempre é necessário instalar uma suíte igualmente poderosa como o pacote da MS. Pode-se usar um sucedâneo mais simples – e gratuito – como o OpenOffice.

O mesmo ocorre com máquinas “especializadas” em determinadas tarefas. Por exemplo: a máquina de um artista gráfico ou fotógrafo pode conter a (cara) Adobe Creative Suite com seus programas poderosíssimos no campo da criação, edição e gerenciamento de elementos gráficos - inclusive fotografia com o imprescindível Photoshop -, mas não precisa de muito mais que isso. Já se o usuário se dedicar à edição de filmes e vídeos, há programas comerciais poderosíssimos – e caros – com nível profissional para esta tarefa. Um deles resolve a maioria dos problemas dos usuários.

Resumindo: no que diz respeito a programas pagos e de custo significativo, a maioria das máquinas não corporativas estão bem servidas com um programa de segurança, um software especializado na principal atividade na qual a máquina é usada e, eventualmente, com o Microsoft Office. O resto ou vem com o sistema operacional ou é oferecido gratuitamente (alguns destes últimos oferecem, juntamente com a versão gratuita, uma versão “Premium” geralmente a preços muito acessíveis que dificilmente ultrapassarão duas dezenas de reais).

Feitos os comentários acima, voltemos à questão das lojas virtuais: aquelas criadas e mantidas pelos responsáveis pelos sistemas operacionais onde rodarão os programas nelas comercializados.

GPC20130509_1A App Store conta com mais de 50 bilhões de arquivos transferidos (Foto: Divulgação)

Tanto quanto eu saiba, quem começou com isto foi a Apple, com sua App Store. Que vende de tudo, desde o hardware até qualquer tipo de software. E fez tamanho sucesso que apenas seu iTunes, onde se pode comprar e baixar desde aplicativos – especialmente para os dispositivos móveis da Apple que usam o sistema operacional iOS – até músicas, vídeos e filmes. A empresa fez tanto sucesso que está prestes a comemorar os 50 bilhões (Bi, mesmo) de arquivos transferidos (hoje, 09/05, data da publicação desta coluna, a contagem se aproxima dos 49,615 bilhões e segue subindo rapidamente). A AppStore oferece mais de 700 mil aplicativos.

GPC20130509_2O número de apps na Google Play Store supera os 600 mil (Foto: Divulgação)

Depois, veio a Google com sua loja, hoje conhecida como Google PlayStore, para aplicativos que rodam no sistema operacional por ela desenvolvido com base no Linux, o Android. O número de aplicativos disponíveis na PlayStore supera os 600 mil.

Finalmente, a mais recente: a Windows Store, que oferece aplicativos não apenas para os dispositivos móveis onde roda Windows 8 RT e Windows 8 Pro como para qualquer computador onde funcione o sistema operacional. Embora no lançamento do Windows 8 a MS tivesse prometido que, até o final de 2012, teria 100 mil aplicativos à disposição dos usuários, mal conseguiu ultrapassar a ridícula cifra dos 65 mil.

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GPC20130509_3A Windows Store mal conseguiu ultrapassar 65 mil aplicativos à disposição (Foto: Divulgação)

 

A julgar pelos últimos acontecimentos, se alguma providência não for tomada, o crescimento será ainda mais lento. Por quê? Bem, como eu disse, alguns deles são comercializados a preços muito atraentes. Por exemplo, na página de “Ferramentas” da Windows Store são oferecidos pequenos utilitários cujos preços variam de R$ 2,49 à R$ 13,99. Seus desenvolvedores recebem uma porcentagem do valor arrecadado pela MS e o preço é baixo porque confiam na economia de escala. Mas grande parte – se não a maior parte – são gratuitos.

Alguns são oferecidos para atender o interesse do próprio responsável pelo desenvolvimento, como o aplicativo que explora o sítio da Decolar.Com, o que permite aos associados do Netflix ter acesso aos filmes e vídeos do sítio; o AMD AppZone; cujo objetivo é encontrar aplicativos que utilizem os recursos exclusivos da empresa e etc. Como quanto mais arquivos destes aplicativos forem baixados, mais o interesse dos responsáveis serão atendidos, logo não faz sentido cobrar por eles.

Porém, e os demais aplicativos gratuitos? Como seus desenvolvedores são remunerados? Afinal, não seria de esperar que um exército de desenvolvedores trabalhasse ativamente para criar aplicativos para Windows 8 por amor à arte. De alguma fonte há de pintar uma graninha.

O segredo está no MS pubCenter e em seus anúncios.

A coisa funciona assim: se você é um desenvolvedor de aplicativos para Windows 8 e deseja ter seu programa exposto para venda na Windows Store, visita o pubCenter, se inscreve e cria uma conta. Depois, desenvolve seu programa, o apresenta para aprovação e, caso aceito, ele fará parte do acervo da Windows Store para distribuição gratuita.

A função do pubCenter é contratar publicidade para ser exibida nos aplicativos Windows 8 (“Ads in Apps for Windows 8”). Os aplicativos podem ser baixados gratuitamente para a máquina do usuário, mas, enquanto estão rodando, exibirão (geralmente discretas) mensagens publicitárias, que, se o usuário se sentir incomodado por elas, pode gastar um dinheirinho e comprar a versão “Premium” do programa). E, cada vez que uma dessas mensagens for exibida no aplicativo, uma fração do que a MS cobrou por exibição é depositada na conta do desenvolvedor.

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A função do pubCenter é contratar publicidade para ser exibida nos aplicativos Windows 8 "
B.Piropo

É assim que a coisa funciona. Um esquema inteligente que é satisfatório para a Microsoft, que aumenta o número de aplicativos a serem oferecidos em sua “loja”, para o usuário, que pode rodar um programa (por vezes surpreendentemente bom) sem nada pagar por ele, e para o desenvolvedor, que fatura seus caraminguás para remunerar seu trabalho (se você está interessado neste esquema de remuneração, consulte a página de “Frequent Asked Questions” sobre ele no sítio da MS).

E tudo estava indo muito bem até o final de março passado, quando, por alguma razão, o número de exibições de anúncios nos aplicativos gratuitos caiu radicalmente, reduzindo a remuneração dos desenvolvedores a quase zero.

Artigos sobre o assunto começaram a pipocar na Internet, como o de Alex Wilhelm na TNW, e o de Andy Patrizio, no ITWorld, além da nota de Soulskill no sítio Slashdot, especulando sobre as causas do problema. Os desenvolvedores, por sua vez, promoveram uma chuva de protestos indignados nos fóruns do pubCenter.

Em suma: tá todo o mundo reclamando, menos a Microsoft. Que não fala nada, nem pra se explicar. Além disso, age como se tudo não passasse de uma variação sazonal da quantidade de anúncios, como fica claro por sua declaração a Alex Wilhelm e publicada no artigo citado mais acima.

O fato é que até o momento – ao menos pelo que eu pude apurar – não há uma explicação oficial sobre o que está acontecendo e quanto tempo esta situação se manterá.

No entanto, uma coisa é certa: se alguma providência não for tomada a curto prazo, a disseminação de Windows 8 Pro e Windows RT nos dispositivos móveis poderá ser seriamente afetada. Um problema que refletirá nas vendas de Windows 8 para máquinas de mesa.

É esperar para ver que providência a MS tomará. Pois afinal, como bem diz aquele velho ditado que cai como uma luva nos desenvolvedores de aplicativos para a Windows Store: “quem trabalha de graça é relógio”.

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  • Bruno Croys
    2013-06-14T22:44:26

    Faz 3 meses que não consigo receber do pubCenter, e o suporte só enrola!!! Já recebi várias vezes, mas do nada falaram que meus dados estão errados e tenho que arrumar (Como assim?). Parece loucura, mas eles informaram o que estava errado, e pediram pra corrigir, mas adivinha!? A página dos caras não funciona mais, não dá nem pra criar um novo método de pagamento nem pra editar o que tá la? PubCenter ta osso!