07/11/2013 19h01 - Atualizado em 07/11/2013 19h01

Meninos do Morumbi

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Hoje tenho que começar com um pedido de desculpas. Aliás, com dois. O primeiro pela ausência da coluna na quinta-feira passada. Como sei da importância de manter a periodicidade quando se trata de colunas semanais, faço o que está a meu alcance para não deixar falhas. Mas na semana passada infelizmente não deu: tive um problema de saúde que, embora não fosse grave, me impediu de digitar. Lamento a falha, mas vou fazer o possível para que ela não se repita. O segundo pedido de desculpas é pela nova interrupção da série de colunas sobre o SSDs. Pois acontece que, ontem, participei de um evento. E se eu esperasse terminar a série sobre SSDs, o evento já estaria “frio” e esquecido. Então vamos a ele.

O evento foi o SAP Americas SME Summit, que pela primeira vez ocorreu no Brasil, mais especificamente em São Paulo em 6/11/2013. Seu objetivo foi discutir a estratégia da SAP para disseminar seu software de gestão no mercado das pequenas e médias empresas, engajando seus parceiros nesta missão. E dele participaram, além do pessoal da SAP e seus muitos parceiros no Brasil e Américas, jornalistas especializados em tecnologia do Brasil e demais países da região. Seu tema foi “Como promover o desenvolvimento do empreendedorismo e criar redes de relacionamento”.

O evento foi muito bem sucedido. Consistiu de uma Mesa Redonda de abertura seguida de palestra do vice-presidente sênior global de vendas indiretas da SAP, Kevin Gilroy, sobre a importância das redes de relacionamento, além de painéis de discussão sobre casos de empresas que incrementaram seus negócios usando tecnologias como análise e gestão de dados, mobilidade e computação na nuvem. E evidenciou vez a importância que as pequenas e médias empresas adquiriram na última década, que se reflete não apenas no seu crescimento numérico mas também, e sobretudo, no enorme volume da totalidade de seus negócios.

Empresas, sejam enormes ou minúsculas, devem ser geridas. E é esta a finalidade do software da SAP: gerir empresas, independentemente de seu tamanho. E justamente por isto a SAP oferece versões básicas de suas soluções “Business All-in-One” com os principais processos administrativos adaptados às pequenas empresas e configuradas de acordo com as necessidades de cada país da região a um custo surpreendentemente acessível. E, como todos os produtos da SAP são modulados, quando a pequena empresa se tornar média e, mais tarde, transformar-se em uma gigante de seu setor, não precisará abandonar os aplicativos de gestão nem treinar novamente todo o pessoal. Basta adquirir na SAP os módulos necessários.

Como? Acha que o título da coluna foi trocado?

GPC20131107_1Logo Meninos do Morumbi (Foto: Reprodução)

Pois não foi.

Acontece que, como a SAP é conhece sua responsabilidade social, procura cumprir com sua parte. E o faz oferecendo o que tem de melhor: seu software de gestão de empresas. Porque querendo ou não, uma organização não governamental é, ora bolas, uma organização. Que deve ser administrada de forma semelhante – na verdade muito semelhante – à uma empresa. E quando a SAP encontra uma dessas organizações que realmente fazem diferença, busca entre seus parceiros um que também esteja interessado em ajudar, doa o software necessário para gerir a organização e, juntamente com seu parceiro local, oferece treinamento para o pessoal da organização gerir melhor o seu negócio. Que é o mais nobre dos negócios: ajudar a quem realmente precisa pedindo em troca pouco ou quase nada.

A coisa funciona. O primeiro destes projetos a chamar minha atenção foi a assistência prestada a uma empresa mexicana sem fins lucrativos voltada para a construção de casas para a população carente sobre o qual já escrevi alhures. Tomei conhecimento dele no SAP Partner Leadership Summit realizado este ano em Miami, EUA, através de uma das palestras do evento.

Mas agora foi diferente. Na noite de anteontem, em SP, visitei pessoalmente outro destes projetos. E fiquei vivamente impressionado com o que vi.

GPC20131107_2Coquetel de congraçamento no espaço Meninos do Morumbi (Foto: Reprodução)

Pois, na noite anterior à abertura do evento, a SAP promoveu um coquetel de congraçamento antecedido de um espetáculo de música e dança do Grupo Artístico Meninos do Morumbi. E este é um dos projetos de interesse social com o qual a SAP colabora oferecendo software de gestão de empresas e treinamento no seu uso.

O projeto tem seu próprio sítio na Internet, o Meninos do Morumbi. E nasceu da mente criativa de um artista, o maestro e percussionista Flávio Pimenta.

Sempre seu se menciona que algo “nasceu da mente criativa” de fulano ou beltrano, pensa-se em alguma coisa que surgiu do nada e cresceu sem esforço. E acontece que nunca é assim. Transformar a ideia que teve ao ver três crianças em idade escolar tomando banho em um riacho imundo, quase um valão de esgotos, de uma das muitas comunidades carentes existentes em torno do elegante bairro do Morumbi, em São Paulo, no projeto pujante, cheio de alegria, bem equipado e, sobretudo, formado por um bando de gente alegre que têm em comum um enorme entusiasmo pelo que fazem, definitivamente não há de ter sido mole não. E não foi. Exigiu de Flávio Pimenta muito sacrifício, muito trabalho, muito suor, muita persistência e fé no futuro.

Como começou, já mencionamos acima. Flávio abordou os três meninos, disse-lhes que estava pensando em montar uma banda e perguntou se queriam participar. Ele nunca havia pensado em formar uma banda de jovens, mas naquele momento achou que era a forma mais viável de tirá-los da rua. Os três aceitaram, chamaram alguns colegas, Flávio começou a recebe-los em casa, primeiro os três, depois uma dúzia, um pouco mais, foi convidado para uma entrevista em um programa de rádio na qual mencionou o trabalho que recém havia iniciado e foi a partir de então que a coisa cresceu. Isto foi em 1996. E em dezessete anos “a coisa” transformou-se no Grupo Artístico Meninos do Morumbi, uma companhia de Dança, Coral e Músicos Instrumentistas dedicada a apresentações cujo repertório inclui músicas folclóricas do Brasil e África, dos cultos Afro-Brasileiros, do universo pop e da autoria dos próprios Meninos, além de obras conhecidas de compositores do Brasil e do exterior. No espetáculo que tive o privilégio de assistir foi apresentada uma bateria poderosíssima e um pequeno conjunto instrumental que acompanhavam um grupo de cerca de uma centena de dançarinos naquilo que me pareceu uma mistura de candomblé com samba de roda e uma dança com sólidas raízes na capoeira. Se não foi bem isso, foi alguma coisa parecida, mas o que interessa é que foi lindo de se ver e ouvir. Lindo e, para quem sabia o que o projeto representa, comovente.

A instituição, evidentemente, nada cobra dos jovens. Muito pelo contrário: lhes oferece. Mas não bens materiais, dos quais eles bem necessitam, mas que neste contexto não é o mais importante. O que é oferecido é a proteção do meio hostil, tirando-as da rua e transformando sua visão das drogas, do crime e da violência. São recebidas gratuitamente crianças a partir dos cinco anos, sem olhar diferenças sejam econômicas, raciais, religiosas ou opção sexual. Portadores de deficiência também são bem recebidos. Não há distinções nem privilégios, exceto um: menores em situações de risco e vulnerabilidade tem prioridade. Não são aceitos menores em idade escolar que não estejam frequentando instituições de ensino e seu progresso escolar é acompanhado.

A música é apenas o polo de atração. Capturada a atenção do menor atraído pela banda, ele passa a participar dos demais programas da ONG, que incluem nutrição (são servidas mensalmente 29 mil refeições), cultura, tecnologia, informática, esportes e educação. Além dos cursos de música, dança e canto, que gravitam em torno da banda, são oferecidos ainda cursos de jiu-jitsu, capoeira, futsal e condicionamento físico, no campo esportivo, e informática, inglês, fotografia, artes, pintura, teatro e escultura, no campo da educação e cultora.

Hoje em dia o Meninos do Morumbi atende a pouco mais de três mil crianças. Em toda a sua história, passaram por seu portões mais de catorze mil jovens e, para orgulho do maestro Flávio Pimenta, agora começam a aparecer os da segunda geração, filhos e sobrinhos de ex-participantes.

O Meninos do Morumbi são considerados projeto modelo pela Organização das Nações Unidas para Ciência, Educação e Cultura (UNESCO). Ganhou um punhado de prêmios de respeitabilíssimas organizações nacionais e internacionais. E, por fim, mas desta vez, para variar, menos importante, ganhou também minha admiração.

Mas de que vive a instituição Meninos do Morumbi? Afinal, tocar um projeto que envolve mais de três mil jovens e dezenas de atividades paralelas, além de dar um trabalho insano, custa dinheiro.

E de onde vem este dinheiro?

GPC20131107_3Flagrante do espetáculo de dança (Foto: Reprodução)

Bem, parte dele dos parceiros da instituição, cuja lista pode ser encontrada clicando no botão “PARCEIROS” na página principal do sítio Meninos do Morumbi. Mas, como você poderá perceber se inspecionar a lista, entre eles está a SAP, que oferece uma contribuição importantíssima (afinal, administrar uma instituição com milhares de membros, centenas de ações e dezenas de programas paralelos sem um poderoso software de administração como a suíte da SAP não há de ser fácil) porém não financeira. Como muitos outros da lista de parceiros que apoiam a instituição.

Ora, apoio é bom e muito benvindo mas não enche barriga. E para tocar para a frente os Meninos do Morumbi é preciso dindim. E bota dindim nisso…

A primeira coisa que vem à mente é um financiamento governamental.

Ledo engano. Mestre Flávio Pimenta não é um grande entusiasta deste tipo de financiamento nem gostaria de deixar que a sobrevivência de seu projeto, que já pode ser considerado de grande envergadura, dependa do humor e da assinatura de um burocrata.

E é então que vem o que eu considero o ponto mais importante da história. Como é sabido, a maioria das ONGs é criada para mamar nas tetas do Governo e instituições internacionais (há alguns anos constatou-se que o número de ONGs para cuidar de meninos de rua no Rio de Janeiro era aproximadamente igual ao número de meninos de rua no Rio de Janeiro; como não lembro a fonte não posso assegurar se isto corresponde à realidade, mas a julgar pela situação dos meninos de rua do Rio de Janeiro, onde vivo, “se non é vero, é bene trovato”)

Pois bem: o Grupo Artístico Meninos do Morumbi dispensa esta mamata e vive, vejam vocês, praticamente às suas próprias custas. Porque sua principal fonte de receita é o pagamento que recebe de seus espetáculos. E, apenas em 2008, ofereceu 87 deles.

São espetáculos públicos, aberturas de eventos esportivos, espetáculos fechados para indústrias e corporações que os contratam e que, além de desfrutarem de um interessantíssimo espetáculo de música e dança (sou testemunha), ganham o reconhecimento por associarem seu nome a projetos sociais (e se você é responsável pela agenda de eventos de uma destas empresas, porque não pensar em contratar o Meninos do Morumbi para, digamos, a abertura do evento?).

Em suma: o Grupo Artístico Meninos do Morumbi, como qualquer cidadão honesto, vive de seu trabalho.

No Brasil de hoje, isto não é uma coisa extraordinária?

Parabéns, maestro Flávio Pimenta. E saiba que fez deste velho escrevinhador um amigo e admirador.

Até a próxima coluna.

B. Piropo

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  • Undiness Pedro
    2013-11-07T20:09:41

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