Internet

22/08/2014 08h00 - Atualizado em 22/08/2014 08h00

Internet: o que temem os especialistas?

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Na virada do século – ou do milênio, para soar mais grandiloquente – quando a Internet ainda era uma novidade para o público em geral (até 1994 ela estava apenas ao alcance de membros das instituições acadêmicas e militares), um velho amigo e colega de trabalho, Orlando Eulálio, me olhava de esguelha enquanto eu punha em dia o correio eletrônico. Suas previsões para o futuro da rede eram negras. Dizia ele que um meio de transferência de informações de tão amplo alcance, disponível para toda e qualquer pessoa e com acesso tão fácil e barato não poderia se manter livre assim por muito tempo. Que logo seriam impostas barreiras, condições, filtragem de conteúdo, censura ou simplesmente bloqueio da rede pelos diferentes governos. Era só esperar para ver.

Eu, por outro lado, argumentava que a estrutura da Internet foi concebida nos tempos da guerra fria justamente para evitar que as comunicações nos EUA fossem interrompidas em caso de ataque nuclear e depois, quando se espalhou pelo mundo, manteve esta característica de rede quase anárquica, com centenas de milhares de nós interligados de tal forma que os dados, que procuravam sempre a rota menos sobrecarregada entre a fonte e o destino, poderiam burlar qualquer tentativa de bloqueio simplesmente fluindo automaticamente por outra rota. Sendo o número de rotas praticamente infinito e não havendo um “centro de comando” ou coisa parecida, não seria possível estabelecer qualquer controle ou bloqueio sobre ela. E acrescentava que, caso um governo lograsse sucesso em suas tentativas, os especialistas em redes sempre conseguiriam contornar o problema restabelecendo inda que parcialmente a comunicação. Portanto, no máximo, aquilo viraria um interminável jogo de gato e rato.

Passaram-se quinze anos e quem inspecionar a situação atual da Internet chegará a uma conclusão um tanto paradoxal sobre nossas previsões: ambos estávamos certos. Há governos que conseguiram filtrar o conteúdo da rede dentro de suas fronteiras, como previu Orlando. Por outro lado, como se viu na recente primavera árabe, a Internet ainda pode ser uma ferramenta essencial para que informações sobre o que ocorre em alguns países corram o mundo à revelia de seus governos ditatoriais, como eu antevi.

Porém o temor dos especialistas é que, nos próximos onze anos, as previsões dele se mostrem mas verazes que as minhas.

GPC20140822_1Figura 1

Pelo menos isso é o que se pode concluir dos resultados da prospecção sobre o futuro da Internet conduzida este ano em conjunto pelo Pew Research Center e pela Universidade de Elon. Os autores classificam o trabalho como “prospecção” (“canvassing”) e não “pesquisa” (“survey”) porque o universo de onde foi colhida a amostra não foi constituído por um conjunto aleatório de internautas, como o exigido por um projeto de pesquisa, mas por um grupo seleto de convidados que pertencem a um conjunto de especialistas notoriamente conhecidos por sua atuação na área tecnológica e por terem contribuído com previsões mais acertadas nas pesquisas anteriores sobre o futuro da Internet conduzidas pelas mesmas instituições . Ainda assim a amostra não foi pequena: mais de 1.400 especialistas atenderam ao convite e forneceram suas respostas e opiniões (quem estiver interessado no critério usado para a seleção e em uma lista parcial de participantes pode encontrar mais informações aqui).

Um (alentado) resumo do projeto e de seus resultados pode ser encontrado no artigo de Janna Anderson e Lee Rainie “Net Threats” publicado mês passado no sítio do Pew Research Center. É apenas um resumo, mas levando-se em conta que o trabalho analisou minuciosamente as respostas de mais de 1400 especialistas, não dá para publicar aqui sequer um resumo do resumo. Mas tentarei expor pelo menos a forma pela qual a prospecção foi realizada e as principais conclusões a que chegaram os responsáveis pelo projeto.

Cada participante devia responder apenas a duas perguntas. A primeira, a ser respondida apenas com um “sim” ou “não”, em tradução livre era a seguinte:

Em 2025 haverá significativas mudanças para pior e maiores obstáculos nos meios usados para obter e compartilhar conteúdo “online” em comparação com as formas usadas hoje peias pessoas globalmente conectadas?

… e a segunda, mais curtinha porém diabolicamente mais complicada, foi:

Por favor, elabore sua resposta.

… seguida de uma longa lista de tópicos que deveriam ser analisados para justificar a resposta à primeira pergunta, incluindo “no seu entender, quais são as mais sérias ameaças ao acesso e compartilhamento de conteúdo via Internet”.

Bem, no caso da primeira pergunta, que admitiu como resposta somente uma entre as duas alternativas, fica mais fácil resumir o resultado que, aparentemente foi positivo: apenas 35% responderam “sim” contra otimistas 65% que responderam “não”. O problema é que – justificando o “aparentemente” da frase anterior – alguns dos que responderam “não”, na justificativa de sua resposta informaram que se tratava mais de uma “esperança” do que de uma previsão, e muitos declararam que gostariam que houvesse uma terceira opção: “sim ou não”.

Conforme mencionado acima, não dá nem mesmo para resumir o resumo das opiniões de mais de mil autoridades mundiais em assuntos da Internet. Mas dá para transcrever e comentar os quatro tópicos que mais chamaram a atenção dos organizadores do trabalho não apenas pelo número de especialistas que os mencionaram como também pelas justificativas por eles oferecida. Estes tópicos estão listados na primeira página do artigo de Anderson e Rainie sob o título: “As ameaças à Internet temidas pelos especialistas”. Aqui vão elas, em ordem de importância:

1 – Ações implementadas por estados ou países por questões de segurança e controle político redundarão em mais bloqueios, filtragem, segmentação e “balcanização” (ver adiante) da Internet;

2 – O fato de tomarem conhecimento de que governos e grandes corporações bisbilhotam o conteúdo que flui pela internet e a real possibilidade de que o nível de bisbilhotice aumente ao longo do tempo pode deitar a perder a confiança dos cidadãos na Internet;

3 – Fortes pressões comerciais sobre praticamente tudo, desde a arquitetura da rede até o fluxo de informações, porão em risco a estrutura aberta da vida “online”; e, finalmente:

4 – Os esforços para resolver o problema do excesso de informações (TMI ou “Too Much Information”) pode resultar em um efeito perverso que, em vez de proteger o internauta da enxurrada de informações, prejudique o compartilhamento de conteúdo.

Alguns comentários deste vosso amigo e humilde escrevinhador:

Começando pelo significado do termo “balcanização”, relativamente comum nos EUA porém raro no Brasil (sim, o vocábulo existe em português). Trata-se de uma alusão à mutável geografia política da península balcânica, originalmente parte do Império Otomano e que, a partir do início do século dezenove, começou a se fragmentar em diversos países, alguns hostis e pouco colaborativos com seus vizinhos. A fragmentação recrudesceu no final do século passado ao ponto da região conter hoje mais de quinze países independentes (vale a pena consultar o tópico correspondente na Wikipedia apenas para apreciar a animação que mostra as fragmentações, fusões e novas fragmentações da região). No contexto da pesquisa, ao se referirem à “balcanização” da Internet, os especialistas expressam o temor de que, devido à cada vez maior interferência dos governos, a Internet se fragmente em redes menores, cada uma delas submetidas a regras e regulamentos diferentes conforme políticas locais.

Já a possível – e provável – desconfiança dos cidadãos que tomaram conhecimento das estripulias de alguns governos, notadamente o dos EUA, espionando tudo o que fluía pela rede, dispensa maiores comentários.

Por outro lado, o receio das pressões comerciais tem a ver com a crescente monetização (detesto este termo, mas ele existe em português, está dicionarizado, portanto não há impedimento para que eu o use, embora a contragosto) das atividades na rede, que está afetando cada vez mais o fluxo de informações e conteúdo. Um dos principais temores é que a ganância venha a interferir com o princípio da neutralidade da rede (se você não sabe o que é isto, sugiro uma consulta à coluna sobre o assunto, por mim publicada aqui mesmo em abril passado, posto que a interpretação literal da expressão nada tem a ver com seu significado técnico). Além disto, receiam ainda que as rígidas restrições sobre direitos autorais e patentes, devidas a uma visão de curto prazo que privilegia o lucro, acabem resultando em prejuízos para o compartilhamento de informações que podem ser de grande valor futuro. Quanto à seriedade da questão dos direitos de propriedade intelectual, basta lembrar a celeuma despertada pela inclusão na coleção de imagens públicas da Fundação Wikimedia da foto que um macaco tirou de si mesmo sob a alegação de que, como foi o animal que tirou a foto, o dono da câmara (o fotógrafo profissional David Slater) não detém direitos sobre ela. A questão gerou uma ação judicial e, aproveitando enquanto ela está disponível na coleção da Wikimedia, aqui vai a foto do trêfego primata com seu sorriso arrebatador, cujo nome não foi divulgado provavelmente em respeito à sua privacidade.

GPC20140822_2Figura 2

Mesmo sem levar em conta suas habilidades como fotógrafo, percebe-se que o simpaticíssimo animal tem uma indiscutível vocação artística, pois não?

Finalmente, as preocupações relativas ao último tópico têm a ver com o uso cada vez mais frequente de filtros de conteúdo que visam poupar o internauta da enxurrada de informações que a Internet despeja sobre ele. O temor é que de tanto filtrar, se acabe limitando demais o espectro de informações que o usuário venha a receber, resultando em um efeito mais prejudicial do que benéfico, principalmente levando em conta que muitos dos provedores destes filtros recebem “incentivos econômicos” de empresas interessadas em que a informação seja apresentada desta ou daquela forma.

Pois é isso. Como esta coluna está se tornando demasiadamente longa, sugiro que os interessados nos detalhes consultem o artigo citado acima. Na verdade, mais do que sugiro: recomendo, e com veemência.

Porém, para não encerrá-la de forma tão abrupta, vou fazê-lo citando um trecho da resposta de Robert Cannon, especialista em direito e políticas da Internet com larga experiência no assunto. Diz ele:

Nós já vimos a repetição do mesmo padrão… logo após a implementação dos primeiros serviços de telégrafo, telefone e rádio. O início é a era utópica da inauguração dos serviços, saudando a tecnologia com clamores de paz mundial. Depois, vem a era da competição, com o surgimento de diversas empresas pequenas que tiram proveito do novo mercado e da inovação. E por fim vem a era da consolidação, na qual os vencedores da era da competição se movimentam para garantir suas posições no mercado e eliminar a concorrência”.

E Cannon encerra seu comentário com:

Nos serviços de informação, acabamos de entrar na era da consolidação”.

O que pode ser muito bom para algumas empresas. Mas, definitivamente, não é bom para os usuários.

Quanto a mim, apesar de ninguém ter me perguntado, tomo a liberdade de, metendo o nariz onde não fui chamado, dar minha opinião. A julgar pelo que vem acontecendo nestes vinte anos em que venho acompanhando de perto o que acontece na Internet, que cada vez fica menos lúdica, não sei o que acontecerá em 2015 no que toca à intervenção do Estado, à falta de confiança, à tal “monetização” ou ao excesso de informação.

Mas desconfio que ficará bem mais “sem graça” do que é hoje.

B. Piropo

 

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