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28/11/2014 08h32 - Atualizado em 28/11/2014 08h32

Notícias e Opiniões

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Nesta coluna vocês tomarão conhecimento de duas notícias interessantes e uma opinião sobre elas de um amigo cujo julgamento sobre assuntos da área de tecnologia da informática e assuntos correlatos me inspira grande respeito, meu ex-editor no FórumPCs, Paulo Couto.

Então vamos às notícias.

Há um par de meses, para promover o lançamento de seus novos modelos de iPhones, a Apple decidiu “premiar” seus usuários com uma obra musical. E fechou um acordo que lhe dava direito a distribuir gratuitamente quinhentos milhões de cópias do mais recente álbum da banda U2, o “Songs of Innocence”.

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E para que todos tomassem conhecimento desta façanha a Apple deflagrou uma campanha promocional liderada por uma peça publicitária, o vídeo que pode ser assistido aqui no sítio do YouTube e de onde foram obtidas as imagens da figura abaixo.

GPC20141128_1Figura 1: imagens do vídeo publicitário da Apple

Aparentemente uma ideia que faria com que o conceito da empresa subisse ainda mais entre seus usuários. Afinal, quem iria recusar incluir gratuitamente em sua coletânea musical do iTunes o último lançamento do U2?

Para surpresa dos idealizadores da “promoção”, muita gente. A começar por mim que, mesmo não sendo usuário da Apple, detestaria que, sem minha anuência, enfiassem em meu telefone celular músicas que não atendessem meu gosto. E a julgar pela reação despertada entre os usuários da Apple o disco não deve ser a maravilha que a empresa julgava.

O resultado foi uma inesperada onda de protestos de usuários da iTunes, o aplicativo de venda e distribuição de músicas da Apple, que simplesmente queriam se ver livre daquela obra (com duplo sentido) que haviam introduzido à sua revelia em sua coletânea de músicas e não tinham como fazê-lo já que o iTunes não oferece meios para tal.

A promoção da Apple gerou polêmica. E quem quiser saborear uma pequena prova pode consultar o artigo do The Guardian “Has rock’n’roll finally sold out with U2’s Apple stunt?” onde o jornal publica um debate de seus leitores sobre o tema.

O assunto rendeu tanta discussão que até o comediante Conan O’Brian (quer dizer, ele pensa que é comediante e, por estranho que me pareça, há quem acredite), que apresenta o programa de entrevistas “Conan” na TV americana, criou um falso vídeo comercial onde um inexistente porta-voz da Apple, “Marcus Pratt”, após declarar que os executivos mais velhos da empresa acharam que a escolha era óbvia porque a banda U2 era sua predileta, acrescentava que ao que tudo indica estavam enganados, pois “Apparently, to today’s youth, giving away a free album from one of the best bands of all time is like going to their house and taking a gigantic crap on their doorstep” (aparentemente, para os jovens de hoje, oferecer gratuitamente um álbum de uma das melhores bandas de todos os tempos era como despejar um gigantesco pedaço de bosta na sua porta da frente [atenção, isto é uma citação e eu estou apenas traduzindo]).

E o pseudocomercial prossegue informando que havia usuários que não estavam satisfeitos apenas com o aplicativo desenvolvido pela Apple para remover o álbum de sua coletânea musical, pois mesmo que as músicas não estivessem mais armazenadas na memória de seus dispositivos, elas continuavam na sua (deles), que não conseguiam parar de “ouvi-las”. E, ainda segundo o falso comercial, para atender a seus reclamos a Apple criou um serviço denominado “erase U2” que, além de remover as músicas da cabeça dos usuários insatisfeitos, removia igualmente todas as lembranças da própria banda. E o “comercial” mostra um usuário da Apple reclamando do problema, depois sendo submetido ao “erase U2” em uma máquina parecida com uma dessas de ressonância magnética para finalmente sair dela com um ar meio abestado – se bem que não parecesse muito mais abestado do que antes de entrar na máquina.

Incidentalmente: o aplicativo desenvolvido pela Apple com o único objetivo de remover o álbum do U2 mencionado no comercial pseudo-humorístico, digo, no humorístico pseudocomercial, não é uma peça de ficção. Ele existe, chama-se “Remove iTunes gift album ‘Songs of Innocence’ from your iTunes music library and purchases” e quem quiser pode baixá-lo diretamente do sítio de suporte da Apple.

Em resumo: uma empresa de renome, mundialmente respeitada, resolve brindar compulsoriamente seus clientes com um álbum musical, e o fato do brinde ser compulsório despertou tanta celeuma que os protestos destes usuários nas redes sociais a obrigaram a desenvolver um aplicativo para remover o brinde.

A segunda notícia deu no Globo, na edição de 26 de setembro deste ano e é sobre Emma Watson.

Figura 2: Emma WatsonFigura 2: Emma Watson

Emma Watson, ou mais propriamente Emma Charlotte Duerre Watson, é uma jovem atriz britânica que apesar de seus parcos 24 anos é bastante conhecida principalmente por seu papel de Hermione Granger na série de filmes de Harry Potter. A foto ao lado, de Georges Biard obtida na Wikipedia, certamente servirá para avivar a memória de quem não ligou o nome à (bela) pessoa.

Pois bem, esta quase menina é graduada em literatura inglesa e foi escolhida em julho deste ano para ser uma das Embaixatrizes da Boa Vontade da Agência ONU Mulheres. E, nesta qualidade, em setembro último proferiu um discurso na Organização das Nações Unidas sobre a igualdade de gêneros inserido na campanha “He for She” (Ele por Ela).

A campanha tem um objetivo no mínimo inesperado, se bem que altamente elogiável: convidar os homens a participarem da luta pela igualdade de gêneros. Um objetivo que pode parecer despropositado mas, definitivamente, não é.

Recentemente tive o privilégio de ler uma monografia de final de curso de jornalismo de uma amiga, Gabriela Neto Lacerda, onde ela usa a divulgação de uma série de comerciais de televisão alardeando as qualidades de um desodorante para homem que exalta as características daquilo que classifica como “homem Homem”, o equivalente ao “macho man” americano, para estudar a reação do público nas redes sociais e sítios correlatos sobre o comportamento do homem na sociedade moderna. E conclui de forma muito apropriada que se formaram ao longo do tempo diferentes modelos de masculinidade. Diz ela, textualmente:

Ao longo da história humana, a sociedade mudou e os papeis do homem e da mulher acompanharam tal mudança. Atualmente o discurso de superioridade masculina não é aceito por parte da sociedade tal como era antigamente. Há uma discussão em torno da relação entre gêneros. Enquanto uns defendem a superioridade masculina, outros a criticam.“

Se é assim – e, na sociedade moderna, basta olhar em volta para se certificar que de fato o é – não há razão alguma que impeça que os homens que não pertencem à cada vez menos popular categoria do macho hegemônico se aliem às mulheres em busca da igualdade dos gêneros. Afinal, qualquer luta por igualdade é justa (eu pensei um bocado antes de escrever isto em busca de algum exemplo que pudesse contrariar esta afirmativa e não encontrei; quem achar que se manifeste, de preferência na seção de comentários no pé da coluna).

O bonito discurso da suave Emma pode ser acompanhado na íntegra aqui, no sítio do YouTube – em inglês, naturalmente. Mas os não angloparlantes podem encontrar um resumo das ideias mais importantes que ela prega no artigo– em português – publicado no sítio da BBC Brasil: “Cinco ideias do discurso feminista ‘viral’ de Emma Watson.”

Sim, porque o discurso foi visto por milhões de pessoas.

E muitas não gostaram.

O que nos leva, afinal, à notícia do Globo a que aludi alguns parágrafos acima e que está disponível na página “Hackers ameaçam publicar fotos íntimas da atriz Emma Watson na web”.

Pois acontece que, segundo O Globo, menos de um mês antes de proferir seu tão discutido discurso, a atriz havia se declarado contra a publicação de fotos privadas de sua colega Jennifer Lawrence e outras personalidades públicas (que as revistas de mau gosto e mau português classificam como “celebridades”). Disse ela, ainda segundo O Globo: “Pior do que ver a privacidade de mulheres violada em redes sociais é ler os comentários que mostram tamanha falta de empatia.”

Ora, isso motivou os intelectuais do movimento em defesa do machismo (a média do QI deste grupo se situa abaixo de cinquenta, mas são as mentes mais brilhantes do movimento, por isso o termo “intelectuais”) a prometer deflagrar uma campanha de protesto baseada na publicação de fotos da atriz nua. A justificativa de um desses argutos manifestantes, ainda segundo o artigo d’O Globo, é “Ela faz discursos feministas estúpidos na ONU, e agora seus nus irão ao ar”, um tipo de argumentação que escapa à minha limitada capacidade de entender estultices.

De novo, resumindo: uma personalidade pública fez um discurso na ONU que desagradou a um grupo de pessoas e este grupo promete protestar publicando nas redes sociais fotos privadas da dita personalidade.

Agora, vamos ao comentário de meu amigo Paulo Couto. Comentário que, como logo se verá, nada tem a ver com o teor das notícias, mas com a reação dos internautas a elas.

Paulo Couto diz, essencialmente, o seguinte (editei o texto procurando não alterar o conteúdo, já que o original era o corpo de uma mensagem informal entre amigos e não se destinava a ser publicado):

Tenho duas observações a fazer sobre esses eventos e outros similares. A primeira: o usuário de internet (e de serviços baseados em internet) tornou-se muito mais consciente. E encontrou meios de protestar em grupo de forma organizada, sejam legais, como no caso da Apple, sejam ilegais, como no da atriz. A segunda: percebo claramente um sentimento de propriedade individual (no sentido de defender a liberdade na internet, território livre das iniciativas individuais) e táticas de guerrilha muito bem executadas, tanto pelos usuários que usam meios legais (na forma como se organizam e se manifestam) quanto pelos que utilizam táticas ilegais (ao que parece os hackers assumiram uma posição do tipo “Robin Hood”, contra os abusos dos poderosos embora, como sempre, nesses casos haja abusos de ambos os lados).

Há alguns anos, se eu ganhasse um LP de presente e não gostasse, eu o repassaria a terceiros, o que a iTunes não permite, voltaria à loja onde foi comprado e o trocaria, e neste caso a loja foi a iTunes, que também não permite, ou simplesmente o jogaria fora. Até recentemente, inacreditavelmente, mesmo esta última hipótese era proibida pela iTunes. Mas, graças à força dos usuários protestando em massa, agora ela é possível usando a ferramenta desenvolvida pela Apple.

E há algum tempo, se eu fizesse um discurso que incomodasse algum grupo, no máximo levaria umas porr… digo, pancadas [isto é parte da minha edição; BP]. Ou teria minha casa pichada ou coisa do gênero. Agora, ameaçam publicar fotos íntimas obtidas usando subterfúgios tecnológicos. Antes, para uma foto intima não vazar, bastava que fosse obtida com câmara tipo polaroide, que não usava negativos a serem revelados em laboratórios comerciais e guardá-la em casa, bem guardada. Hoje a tecnologia tornou essa proteção quase impossível.

Estamos evoluindo mal… infelizmente. E a polícia especializada ainda está muito longe de resolver os crimes digitais (tanto os de invasão, quanto os de abuso econômico ou de poder).”

Quanto a mim, não vejo muito a acrescentar. Exceto, talvez, uma ponderação.

É fato que os usuários da Internet se conscientizaram da força que dispõem quando agem em grupo e desenvolveram meios de exercer pressão sobre as empresas, as autoridades e quem quer que se meta com eles. Mas é fato, também, que esta pressão pode ser exercida por meios lícitos ou ilícitos, conforme mostrado nas duas notícias citadas.

Vai depender de nós, usuários da Internet, nos imbuirmos da responsabilidade que esta força implica. E fazermos um esforço consciente e organizado para que ela seja usada sempre em nosso benefício, sem prejudicar inocentes e usando meios sempre lícitos.

Porque se deixarmos a cargo das autoridades ou, pior, da natureza humana, aí mesmo é que a vaca vai para o brejo…

B. Piropo

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