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12/06/2015 15h37 - Atualizado em 12/06/2015 15h38

Uma (curta) viagem no tempo

B. Piropo
por
Para o TechTudo

Semana passada escrevi uma coluna absolutamente despretensiosa sobre os tempos dos BBS e me surpreendi com o interesse por ela despertado. Tanto minha postagem usual no Facebook, que costumo fazer para divulgar as colunas, quanto os diversos compartilhamentos que mereceu por parte de leitores que houveram por bem divulga-las (aos quais agradeço), deram origem a dezenas de comentários, um índice seguro de interesse. Portanto, ao que parece e apesar de ter sido abordado quase superficialmente, o tema agradou.

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Pois bem, se assim é, voltemos ao assunto. Melhor: apenas durante o tempo em que vocês leem esta coluna, voltemos ao passado. Tomemos todos, os diletos leitores, egrégias leitoras e eu, uma nave espaço-temporal e viajemos no tempo até o passado. Agrada-me pensar que para cabermos todos seria necessária uma nave do porte da Enterprise, da série “Viagem nas estrelas” com seus múltiplos deques, mas há quem diga que bastaria uma Kombi. Seja como for, não importando o tamanho da nave, embarquemos todos. Assim os novos micreiros terão uma ideia de como era nossa vida na era do byte lascado e os não tão novos matarão as saudades e reviverão algumas lembranças, boas ou más, de um tempo quase heroico.

Os bravos que me sigam e vamos adiante.

Acabamos de desembarcar na segunda metade dos anos oitenta do século passado. Computador pessoal ainda é uma coisa relativamente nova. O IBM PC, a primeira máquina “de dezesseis bits”, foi lançada pela IBM há poucos anos, em agosto de 1981, e fez tanto sucesso com seu processador 8088 que seus clones, máquinas capazes de rodarem o mesmo sistema operacional e programas, se multiplicaram e invadiram o mercado.

O que, aliás, não é uma façanha tão grande como parece, posto que o mercado é pequeno: estima-se que no mundo há hoje 200 milhões de computadores pessoais (lembre-se: estamos na segunda metade da década de 1980). Comparado com os mais de sete bilhões de telefones espertos que existirão no distante futuro de 2015, cada um deles com uma capacidade computacional imensamente maior que a dos computadores de que falamos, o número parece ridículo.

E como são os computadores de que falamos?

São máquinas bastante simples. Frente aos do futuro, 2015 por exemplo, chegam a inspirar riso. É verdade que ainda no lustro passado a IBM lançou o AT, máquina bem mais poderosa que o velho PC, equipada com o 80286 e que, vejam vocês, já vem de fábrica com um disco rígido que chamamos de “Winchester” por razões jamais bem explicadas.

E mais: inda agora mesmo, em 1987, acabam de serem lançados os primeiros clones equipados com o novo “chip” da Intel, o 386 (diz-se “três-oito-meia”), máquinas poderosíssimas e capazes, vejam vocês, de uma coisa quase mágica denominada “multitarefa”, ou seja: podem rodar mais de um programa simultaneamente desde que tenham instalado um sistema operacional adequado.

Como o primeiro sistema operacional capaz de fazer isso de maneira minimamente decente será o Windows 3, a ser lançado daqui a alguns anos, em 1991 (e haverá quem diga que sequer será um sistema operacional mas um “quebra-galho” para aproveitar as funcionalidades revolucionárias do três-oito-meia – o que aliás será verdade), o que fazemos hoje é rodar o DOS mesmo, o sistema operacional de tela texto (ou seja, não gráfica, que aceita apenas caracteres alfanuméricos) desenvolvido por uma pequena empresa de Seattle, a Microsoft para o 8088/8086, porém equipado com o Deskview, um programeto sensacional da QuarterDeck que mesmo rodando sobre o DOS permite que se rode mais de um programa simultaneamente. Um negócio quase mágico.

GPC20150612_1Monitor de um antigo computador

Porém o que as futuras gerações do próximo milênio mais estranharão será nossa tela. Suspeito que ao vê-la em algum museu daqui a alguns anos haverá quem tenha acessos de riso ou que não acreditará que um dia se pôde trabalhar com uma trapizonga tosca como estas.

Nossos monitores são um negócio mais ou menos do tamanho de um forno de micro-ondas do futuro com um cinescópio em seu interior que exibe uma tela negra na qual são mostradas no máximo 25 linhas nas quais cabem apenas oitenta caracteres. São caracteres que brilham com a cor esverdeada do elemento fósforo, e por isso mesmo essas telas são chamadas “de fósforo verde”. Algumas, mais sofisticadas, exibem uma cor âmbar, mas são raras.

Os sistemas mais avançados possuem uma placa controladora de vídeo capaz de exibir gráficos com uma resolução de 200 x 320 pontos. As imagens ficam quase indecifráveis (veja Figura 1), mas para gráficos comerciais, do tipo linha ou barra, são aceitáveis.

Alguns monitores obedecem ao padrão CGA (“Color Graphics Adaptor”) o que os torna capazes não somente de exibir gráficos mas também, pasmem: em cores. Conseguem exibir até dezesseis cores diferentes e os raros micreiros que têm a oportunidade de ver um bicho desses ficam extasiados. Mas, no Brasil, ainda são raros.

Isso porque vivemos um tempo em que vige uma lei curiosa denominada “reserva de mercado da informática”. Eu a classifico como “curiosa” porque, tanto quanto eu saiba, durante todo negro período da ditadura militar foi a única iniciativa governamental que teve o apoio da extrema esquerda. Ora, como seria de esperar, algo que recebe o apoio concomitante dos militares “gorilas” da extrema direita e dos militantes fanáticos da extrema esquerda só pode ser a essência concentrada da estupidez.

E é.

Criada supostamente para proteger a indústria de informática nacional mas na verdade para enriquecer ainda mais alguns industriais apropinquados (desculpem, mas usam-se termos como estes nos tempos atuais; afinal, ainda não existem as redes sociais que nas próximas décadas encolherão o vocabulário caboclo até meia dúzia de “kkkks”) dos militares do governo, industriais estes que ficarão ainda mais ricos à custa do atraso científico e acadêmico do país fabricando sob licença máquinas ultrapassadas nos países de origem e copiando seus sistemas operacionais.

A lei é simples: proíbe a importação de qualquer bem de informática. Neste contexto, “qualquer” significa qualquer, mesmo. Ou seja, tudo, seja lá o que for. Até uma simples caixa de disquetes, se surpreendida na bagagem de um cidadão honesto que entra no país, é imediatamente apreendida.

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Com isto se garante que, nas lojas de informática, sejam vendidos apenas uns aparelhos razoáveis para uso em editoração de textos e confecção de planilha simples, máquinas de oito bits fabricadas cá mesmo e que seus fabricantes denominam de “computadores” mas que nos países civilizados ou não mais existem ou são encontradas apenas nas seções de jogos das lojas especializadas.

Mas estamos no Brasil. Com ditadura ou não, Brasil é Brasil e sempre se dá um jeitinho. E a lei da reserva do mercado da informática ensejou a criação de uma atividade ilícita peculiar, aquilo que se conhece hoje como “importabandista”: pessoas especializadas em trazer do exterior computadores e/ou seus componentes que eram vendidos a preços inicialmente escorchantes.

Felizmente hoje, com o aumento do número de importabandistas que acabou equilibrando demanda e procura, um computador “montado” (ou seja, construído a partir de peças adquiridas dos importabandistas) é vendido a preços razoáveis – o que, diga-se de passagem, fez com que vicejasse uma nova atividade profissional, a de “montadores de micros”. E, o mais interessante: como há gente de todo tipo dedicada à atividade do importabando, a lei de informática conseguiu produzir uma contradição em termos: o contrabandista honesto, ou seja, aquele que lhe vende um produto contrabandeado, mas de boa qualidade.

Como se vê, a lei da reserva de mercado de informática gerou diversos resultados interessantes.

Menos o progresso da indústria de informática nacional.

Há hoje uma jovem cronista, Cora Ronai, que assina a coluna “Circuito Integrado” no Jornal do Brasil, que um dia, terminada a ditadura e extinta a vigência da lei de Reserva do Mercado, cunhará a frase magistral: “Toda universidade brasileira deveria erigir, no centro de seu campus, uma estátua em homenagem ao contrabandista desconhecido”. Pois foi ele que impediu que o atraso tecnológico brasileiro na área de informática fosse ainda maior do que será no início do próximo milênio.

Hoje (hoje mesmo; voltamos temporariamente a 2015 para fechar a coluna), vamos parar por aqui. Mesmo porque a NET, que deveria me prestar serviços de internet, não presta. Deixou-me sem sinal, o que me fez editar toda esta coluna consultando apenas minha memória, o que considero uma façanha, pois como sabem todos os que me leem há muito tempo (ou seja, os passageiros daquela Kombi citada no início), a dita memória volta e meia me prega peças. Até para a figura tive que recorrer a meus guardados.

Mas na semana que vem prometo falar nos modems que eram realmente modems (modulavam e demodulavam) já que estes que usamos hoje (em 2015) apenas recebem e processam um sinal digital. E descrever as aventuras e desventuras dos “BBzeiros”, como chamávamos naquela época os colegas de BBS.

Até lá.

B. Piropo.


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  • Marcelo Eiras
    2015-06-13T00:43:54  

    Por sinal onde foram parar aqueles monitores monocromaticos verdes, brancos ou ambar que eram onipresentes nos micros das décadas de 80 e inicio de 90, isso quando não utilizavam TV com RF ou RCA... Nunca vi nenhum nos mercados livres da vida.

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    • Marcelo Eiras
      2015-06-13T00:43:54  

      Eu tenho um 286 com um monitor de fósforo verde. Acho que ele tem 10".

  • Alexandre Souza
    2015-06-12T18:20:31

    Adorei a coluna, foi uma verdadeira viagem no tempo :)