Redes sociais

Por Raquel Freire, para o TechTudo


O Facebook mudou de nome para Meta em outubro de 2021. Segundo Mark Zuckerberg, a mudança ocorreu para demarcar uma nova fase da empresa, agora focada em construir um metaverso – como está sendo chamada a Internet do futuro. Na visão dos críticos, porém, um dos principais motivos para o rebranding foi tentar afastar a empresa dos diversos escândalos atrelados à antiga alcunha, entre os quais destaca-se o da Cambridge Analytica.

Acontece que, como o modelo de atuação da rede social de Mark Zuckerberg não mudou muito desde então, novas crises já apareceram. A última polêmica é a acusação de que a Meta pagou uma consultoria para difamar o TikTok, app da empresa chinesa ByteDance e que recentemente foi eleito como a marca que mais cresce no mundo. Nas próximas linhas, relembre este e outros casos controversos envolvendo a gigante do Vale do Silício.

Meta: lembre seis escândalos e polêmicas do ex-Facebook — Foto: Reprodução/Facebook

1. Promoção de desafio falso para boicotar TikTok

A mais recente polêmica envolvendo a Meta é a de que a empresa pagou para espalhar notícias difamando o TikTok. A instituição contratada para fazer a campanha de difamação foi a Targeted Victory, uma das maiores firmas de consultoria digital dos Estados Unidos, e que trabalha com o Facebook há anos.

A denúncia foi publicada no dia 30 de março, em reportagem do jornal The Washington Post, que teve acesso a e-mails de diretores e funcionários da Targeted Victory. Neles, os executivos pedem para divulgar, nos principais meios de comunicação regionais, artigos nos quais o aplicativo chinês apareça como lugar perigoso para os jovens e onde surgem trends que estimulam comportamentos nocivos.

Em uma das correspondências, enviada em fevereiro, um dos diretores da empresa diz: "[precisamos] passar a mensagem de que, embora a Meta seja o saco de pancadas atual, o TikTok é a verdadeira ameaça, especialmente como um aplicativo de propriedade estrangeira que os jovens estão usando e que é o número 1 no compartilhamento de dados".

"O sonho seria ter histórias com manchetes como ‘Das danças ao perigo: como o TikTok se tornou o espaço de mídia social mais prejudicial para as crianças'”, contou o funcionário que foi fonte do Washington Post.

TikTok foi alvo de campanha de difamação promovida pela Meta, aponta The Washington Post — Foto: Marvin Costa/TechTudo

Para alcançar esse objetivo, a Targeted Victory chegou a criar e promover "desafios" que nunca existiram na rede social. É o caso do “Slap a teacher challenge” ("desafio bata em um professor", em tradução livre), em que supostamente jovens eram encorajados a bater no professor em sala de aula, filmar e postar o vídeo no app chinês.

Rumores sobre o challenge começaram a circular em meados de setembro de 2021, com coberturas de jornais locais culpabilizando o TikTok por esse tipo de impacto negativo nos jovens. Várias entidades oficiais emitiram comunicados sobre o assunto, incluindo associações de professores e unidades policiais.

No entanto, conforme apontou a pesquisadora de desinformação Abbie Richards, o TikTok não possuía nenhum vídeo do tipo até 5 de outubro. A única evidência de sua existência era uma lista onde constavam todos os supostos desafios do TikTok envolvendo escolas. Segundo investigação do Insider, a publicação da lista foi originada no Facebook.

Esses e outros desafios — existentes ou não — foram incluídos em um documento publicado no Google intitulado “Bad TikTok Clips”, o qual também apresenta links para notícias locais que apontam o TikTok como a origem de tendências adolescentes perigosas. A Targeted Victory incentivava os funcionários que trabalhavam na campanha a promover essas trends, como forma de pressionar os legisladores americanos a agir contra a rede chinesa. Eles também eram orientados a usar a proeminência do TikTok para desviar a atenção das polêmicas de privacidade envolvendo a Meta.

Os e-mails mostram como a empresa promoveu mensagens anti-TikTok sem revelar que elas saíram de um grupo financiado pela dona do Facebook. Ao ser procurada pela reportagem Washington Post, a Targeted Victory se recusou a responder às perguntas sobre a campanha de difamação do TikTok, dizendo apenas que representa a Meta há vários anos e que está "orgulhosa do trabalho que [ambos] têm feito", em tradução livre.

Antes de tentar difamar o TikTok, porém, o Facebook tentou comprá-lo. Em agosto de 2016, Zuckerberg convidou o cofundador do Musical.ly, Alex Zhu, para visitar sua sede na Califórnia e conversar sobre a compra do app. A tentativa perdurou por boa parte do segundo semestre daquele ano, de acordo com fontes próximas ao CEO do Facebook. Em novembro de 2017, a ByteDance fez a aquisição do Musical.ly, mesclando-o com o já existente TikTok, por US$ 800 milhões.

É importante lembrar que o Facebook é banido da China desde 2009. Desde então, Zuckerberg cortejou as autoridades chinesas com o intuito de voltar ao país, algo que nunca aconteceu. Após 2018, com os escândalos da Cambridge Analytica, o executivo passou a atacar o TikTok instrumentalizando politicamente a China — que, com 1,4 bilhão de pessoas, representa um enorme potencial de mercado inexplorado para a Meta.

2. Facebook Papers

Em setembro de 2021, uma rede de jornais americanos publicou uma série de documentos que ficaram conhecidos como Facebook Papers. Vazados pela ex-funcionária do Facebook Frances Haugen, eles consistem em memorandos, e-mais e pesquisas internas que mostram condutas questionáveis da rede social, a qual "prioriza o próprio lucro em detrimento da segurança pública, colocando em risco a vida das pessoas", nas palavras da delatora.

Um dos principais vazamentos mostra que Zuckerberg cedeu ao pedido de censura do Vietnã para impedir postagens críticas ao governo. A decisão, tomada em 2020, fez com que o número de publicações bloqueadas no país passasse de 834 no primeiro semestre para mais de 2.200 no segundo semestre daquele ano. A medida foi tomada para evitar a perda de US$ 1 bilhão em receita anual vinda do país.

Outro relatório aponta como funcionários alertaram ao Facebook sobre o algoritmo contribuir para disseminação de fake news, mas a chefia demorar para tomar atitudes por medo de perder engajamento — o que reduz o alcance dos anúncios e, consequentemente, a receita da Meta.

Um desses casos é o documento chamado "Carol’s Journey to QAnon". Ele descreve um experimento feito pela equipe do Facebook em que foi criada uma conta fake cuja persona seria uma mãe conservadora da Carolina do Norte. A ideia era observar as recomendações do algoritmo com base em suas curtidas.

Relatório do Facebook Papers mostra que Zuckerberg cedeu ao pedido de censura do Vietnã para impedir postagens críticas ao governo — Foto: Divulgação/Facebook

Em menos de uma semana, o perfil estava recebendo sugestões para participar de diversos grupos de teoria da conspiração. O mais conhecido entre eles era o QAnon, que participou da invasão ao Capitólio, sede do Congresso norte-americano, em janeiro de 2021, durante a contagem de votos que deu vitória ao presidente Joe Biden. A teoria conspiratória de extrema-direita acredita que políticos democratas fazem parte de uma seita formada por pedófilos, satanistas e canibais, e que o ex-presidente Donald Trump era o escolhido para combatê-los.

Em outro experimento, um funcionário criou uma conta fingindo ser um usuário na Índia. Esse perfil seguiu todas as recomendações fornecidas pela rede social, fossem elas curtir páginas, entrar em grupos ou assistir a vídeos. Durante o período da pesquisa, o empregado responsável relatou ter visto "mais imagens de pessoas mortas nas últimas três semanas do que em toda a minha vida". Os arquivos revelam também que contas de celebridades, políticos e influenciadores são tratadas de forma diferente em relação a usuários comuns, sendo pouco ou nada moderadas pelo algoritmo.

Os muitos documentos que fazem parte do Facebook Papers foram compartilhados pelos principais jornais estadunidenses, incluindo The New York Times, The Washington Post, CNN e NBC. O escândalo fez com que Frances Haugen prestasse depoimento ao Senado americano. Na ocasião, a engenheira da computação, que trabalhou no Facebook de 2019 a maio de 2021, pediu regulamentação da rede social.

3. Apagão das redes sociais

Uma falha nos servidores da Meta fez com que Facebook, Instagram e WhatsApp ficassem fora do ar em outubro de 2021. Ao tentar acessar qualquer uma das plataformas, os usuários se deparavam com mensagens de erro como "Conectando ao WhatsApp" ou "5XX Server Error".

A falha global levou mais de seis horas para ser corrigida e afetou milhares de brasileiros. Por conta disso, o Procon-SP multou a dona do Facebook em R$ 11.286.557,54, valor calculado com base no Código de Defesa do Consumidor (CDC). A Meta disse, na ocasião, que iria recorrer da penalidade.

A entidade brasileira explicou que a decisão foi tomada porque, embora não cobre diretamente de seus usuários, a Meta lucra com eles, o que gera relação de consumo. Por isso, as cláusulas dos termos de uso em que a empresa se desobriga de responsabilidades por problemas na prestação de serviços são abusivas, infringindo o CDC.

WhatsApp, Facebook e Instagram ficaram fora do ar por mais de seis horas em outubro de 2021 — Foto: Tainah Tavares/TechTudo

A discussão ainda envolve a acusação de que a Meta detém monopólio ilegal das redes sociais. Dois processos, abertos pela Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC, na sigla em inglês) em dezembro de 2020, afirmam que o Facebook usou a compra de Instagram e WhatsApp como tática para impedir o surgimento de apps concorrentes.

As ações judiciais chegaram a ser arquivadas em junho de 2021. No entanto, a FTC apresentou outra queixa em agosto, introduzindo novos elementos para o caso. Em janeiro de 2022, o juiz rejeitou a tentativa da Meta de arquivar o caso, que continua em andamento.

4. Cambridge Analytica

Maior escândalo envolvendo o nome do Facebook até hoje, o caso Cambridge Analytica veio à tona em março de 2018, quando os jornais The New York Times e The Guardian publicaram como a consultoria de marketing político havia coletado ilegalmente dados de usuários da rede social.

O esquema foi revelado pelo ex-funcionário da Cambridge Analytica Christopher Wylie. Ele contou que um teste de personalidade em formato semelhante ao quizz "com qual celebridade você se parece?", muito popular nas redes sociais, foi disponibilizado na plataforma em 2014. O formulário era capaz de traçar o perfil de qualquer pessoa de forma rápida, a partir de informações como posts e páginas curtidas.

A grande questão é que o teste coletava dados não apenas de quem o respondia, mas de todos os seus amigos do Facebook. Com isso, a consultoria conseguiu informações de uma enorme parcela da população dos Estados Unidos.

Facebook permitiu vazamento de dados de até 87 milhões de usuários no escândalo da Cambridge Analytica — Foto: Melissa Cruz/TechTudo

Embora originalmente tenha se falado em 50 milhões de usuários, relatórios posteriores mostraram que a Cambridge Analytica teve acesso a até 87 milhões de perfis — quase um terço do total de cidadãos aptos a votar nas eleições americanas em 2016 (249,48 milhões de pessoas). A empresa, então, usou os dados para criar uma campanha digital hiper-segmentada para clientes como Donald Trump, que saiu vitorioso da disputa eleitoral.

A responsabilidade do Facebook foi não ter garantido a privacidade de seus usuários. A rede social fornecia todos os dados dos perfis da plataforma aos desenvolvedores de aplicativos. Esse banco de informações inclui idade, sexo, histórico de lugares por onde a pessoa passou, entre diversas outras. As mais valiosas para a Cambridge Analytica eram interesses e gostos pessoais armazenados de acordo com as páginas e publicações.

Com o vazamento, a FTC entendeu que o Facebook continuava enganando os usuários sobre a capacidade da empresa de controlar a privacidade das informações pessoais. A conduta descumpria uma ordem de 2012 da entidade federal americana, quando a gigante do Vale do Silício se comprometeu a mudar suas práticas de compartilhamento de dados, o que não foi feito.

5. Multa bilionária por violação de privacidade

O escândalo da Cambridge Analytica rendeu ao Facebook uma das maiores multas do setor de tecnologia — e a maior em se tratando de privacidade. Em 2019, para encerrar as investigações sobre o caso, a empresa de Mark Zuckerberg desembolsou US$ 5 bilhões (equivalente a R$ 20 bilhões, pela cotação da época) em um acordo judicial com a FTC.

Multa de US$ 5 bilhões do Facebook no caso Cambridge Analytica foi a maior já aplicada envolvendo privacidade dos clientes — Foto: Divulgação/FTC

Um dos vazamentos do Facebook Papers revelou a existência de processo dos acionistas do Facebook contra a própria rede social a respeito do valor pago à Comissão Federal de Comércio. A alegação é de que a quantia foi muito alta, e que a gigante só chegou a esse número para evitar que Mark Zuckerberg fosse responsabilizado pessoalmente na justiça.

6. Fomento de violência em Mianmar

O Facebook também foi acusado de disseminar o discurso de ódio contra a minoria muçulmana rohingya em Mianmar, país do sudeste asiático de maioria budista. Tensões entre os dois grupos começaram a se intensificar em 2012, dois anos após a rede social ter entrado no país, onde é o principal veículo de Internet.

Desde então, campanhas contra os rohingyas ganharam cada vez mais força dentro da plataforma da Meta. Um dos casos emblemáticos foi o post feito pelo monge extremista Ashin Wirathu, que alegava que uma menina budista tinha sido estuprada por homens muçulmanos.

Com a viralização do post, uma multidão provocou o linchamento dos acusados. Mais tarde, a investigação policial revelou que os homens assassinados eram inocentes, e que a história não passava de invenção do monge budista.

O desenrolar do episódio não mudou o curso de perseguições. Somente em 2017, aproximadamente 1 milhão de rohingya tiveram que deixar Mianmar à força. E seis meses após o golpe militar — dado em janeiro de 2021 e apoiado por monges budistas —, o país passava de 930 mortes de civis.

Por conta desse histórico, refugiados rohingyas entraram, no final de 2021, com processo contra a Meta. A principal alegação é de que a plataforma não fez nada para conter os apelos de violência que viralizaram na rede social e que promoveram, na última década, genocídio da população muçulmana.

"O Facebook é como um robô programado com uma missão singular: crescer. E a realidade inegável é que o crescimento do Facebook, alimentado pelo ódio, divisão e desinformação, deixou centenas de milhares de vidas rohingyas devastadas em seu rastro”, diz, em tradução livre, o documento encaminhado ao Tribunal Superior do Estado da Califórnia.

"Havia tão pouco para o Facebook ganhar com sua presença contínua em Mianmar, e as consequências para o povo rohingya não poderiam ter sido mais terríveis. No entanto, diante desse conhecimento e possuindo as ferramentas para detê-lo, ele simplesmente continuou marchando", acrescenta a ação coletiva, que pede US$ 150 bilhões por reparação de danos.

O Facebook admitiu, em 2018, que não fez o suficiente para impedir a incitação à violência e o discurso de ódio contra os rohingyas em Mianmar. No entanto, a companhia não acatou o valor ou outras penalidades.

Veja também: Quatro funções odiadas do Facebook

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