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Por Rodrigo Ghedin; Para O TechTudo


Um dos primeiros posts que escrevi nesta coluna foi este, intitulado “Qual o problema do Windows Phone 7?”. Na época, finzinho de 2010, o Windows Phone ainda não havia chegado ao Brasil e suas marcas, embora expressivas, eram tímidas comparadas a qualquer outra coisa: 5 mil apps no Marketplace, 1,5 milhão de smartphones entregue nas lojas — nem era o caso de vendidos efetivamente.

O Windows Phone surgira alguns poucos meses antes como a promessa de ser o “terceiro cavalo” do páreo dominado por iOS e Android. A Microsoft trouxe um sistema novo, elegante, diferente, disponível por diversas fabricantes e com a promessa de se integrar ao ecossistema da Microsoft.

Nokia Lumia 900 (Foto: Reprodução) — Foto: TechTudo

Corta para 2012. O Windows Phone já está no Brasil e chegou também, pra valer, nos EUA com o Lumia 900. O mercado norte-americano é estratégico para o sucesso de qualquer plataforma móvel e a forma como Nokia e Microsoft o trata reflete bem isso: o topo de linha da empresa sai de graça para clientes antigos da AT&T e custa só US$ 50 para novos. O último relatório fiscal da Nokia revela que as vendas vão bem no país, mas parece não ser o bastante para estancar o sangue verde que jorra dos cofres finlandeses — no último trimestre as perdas foram de euro; 1,9 bilhão.

A parceria entre Nokia e Microsoft é imprescindível para o sucesso do Windows Phone e ele também depende do sucesso que fará (ou não) nos EUA. Ao colidirem, esses três fatores, Nokia, Windows Phone e Estados Unidos, geraram reações… mornas. A chegada ao exigente mercado parece ter derrubado a áurea imaculada do Windows Phone. O terceiro grande sistema entrou no jogo, deixou de ser café com leite e já sente o peso de estar em uma disputa absurdamente competitiva.

As análises do Lumia 900 foram todas positivas, mas com ressalvas. A sensação geral é de que analistas e jornalistas perderam a paciência após um ano e meio de Windows Phone disponível. No Verge, Joshua Topolski teceu alguns dos comentários mais duros direcionados ao sistema móvel da Microsoft:

“Deixe-me colocar isso de forma direta: acho que é hora de pararmos de dar colher de chá para o Windows Phone. (…) Os problemas com o Windows Phone são uma miríade, muitos pequenos. Mas é uma morte por mil cortes. E todos esses pequenos problemas se tornaram uma vez mais aparentes para mim no momento em que comecei a usar o Lumia 900.”

Faltam apps, falta polimento e atenção em coisas que eram dadas como certas, como a integração perfeita do Skype, da própria Microsoft, com o Windows Phone — já em versão final, ele ainda não funciona em segundo plano, ou seja, você só recebe ligações se estiver com o app aberto.

Não bastasse a falta de tração do sistema junto aos consumidores, fatores futuros colocam ainda mais interrogações na cabeça daqueles propensos a comprar um belo Lumia 800 ou um econômico Lumia 710 ou Omnia W.

Windows Phone (Foto: Reprodução) — Foto: TechTudo

O Windows Phone, atrasado na briga dos sistemas móveis, posicionou-se como sendo a união do melhor dos dois mundos. Do Android, trouxe a multiplicidade de fabricantes de hardware; do iOS, as atualizações garantidas e uniformes. Entretanto, duas decisões recentes da Microsoft colocaram em xeque essas características tidas por muitos como essenciais.

A aliança com a Nokia não excluiu outras fabricantes da jogada, mas as relegou a segundo plano. Cada vez mais Nokia e Microsoft estão ligadas e se por um lado isso cria uma identidade forte junto à linha Lumia, em muito ajudada por campanhas de marketing agressivas, por outro joga aparelhos de outras fabricantes para escanteio — e já repercute, como na recente saia justa com a LG.

E tem as atualizações. Até agora o Windows Phone só teve duas grandes, a NoDo e a Mango. Elas chegaram a todos os aparelhos. A Apollo, próxima e maior de todas, muito provavelmente não estará disponível para os modelos hoje à venda, incluindo os flagships Lumia 800 e 900. Embora não haja palavra oficial da Microsoft a esse respeito, analistas conceituados e reconhecidamente inteirados do que acontece lá dentro deram seu parecer nesse sentido, como Paul Thurrott:

“Há algumas histórias controversas sobre se será possível a atualização nos smartphones Windows Phone já lançados — incluindo os dispositivos Windows Phone 7 de primeira geração e os novos que saem de fábrica com o Windows Phone 7.5, como o Lumia 900 — para o vindouro Windows Phone 8. Permita-me ser bem direto nessa resposta. Não. Não vai acontecer. Nem para o Lumia 900, nem para qualquer outro celular existente. Não acontecerá parcialmente, através de uma atualização que entregue apenas algumas funções, e não vai acontecer para aqueles que estiverem dispostos a pagar por essa atualização. Simplesmente não vai rolar. Desculpe.”

Segundo Thurrott, as baixas vendas de smartphones com Windows Phone, somadas ao alto custo de se manter software atualizado em hardware legado, inviabilizam a atualização — e aqui as especificações simples do Windows Phone, pela primeira e derradeira vez, cobram seu preço. O Lumia 900, lançado em abril nos EUA com salvador da Nokia e do Windows Phone, estará desatualizado antes do fim do ano. Pior que muito Android.

O Windows Phone ainda vai patinar muito para se estabelecer, mas pessoalmente não duvido que ele tenha cacife para ser o tal terceiro cavalo do páreo. A Microsoft tem grana para queimar (e assim o faz) e já mostrou que tem paciência para esperar promessas desencantarem. Entretanto, o mercado de smartphones é diferente do de consoles ou buscadores; é mais efêmero, ágil, muda em uma velocidade alucinante. O Windows Phone tem mantido o passo, embora a atualização para o Apollo deva representar um gargalo na escala evolutiva e, mais importante, uma mancha na confiança que os early adopters depositaram na plataforma. Enquanto isso, Android e iOS evoluem por caminhos distintos, ambos muito atraentes, encolhendo o espaço restante para outros. Corra, Microsoft,corra!

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