Por Dário Coutinho; Para O TechTudo


Apesar de não ser muito conhecida pelo público jovem, em parte pelo seu foco empresarial, a Research In Motion (RIM) é uma importante empresa do mercado de celulares. Criadora dos smartphones BlackBerry e do sistema operacional presente nos aparelhos, a companhia volta a entrar em foco depois de passar os últimos anos no "limbo" do mercado de dispositivos móveis. Tudo graças ao lançamento do seu novo sistema, o BlackBerry 10, que será apresentado na próxima quarta-feira (30).

Logotipo da Research in Motion (Foto: Divulgação) — Foto: TechTudo

A RIM já foi uma das mais prósperas fabricantes de celulares do mundo, com receitas que giravam a casa dos US$ 6 bilhões até 2008. A situação da empresa atualmente, porém, é bem diferente. Depois de uma crise em 2011 que acarretou em cortes de verbas e de funcionários, a empresa perdeu sua força e não conseguiu se firmar na “nova era dos smartphones”, protagonizada pelo iPhone e pelos aparelhos com Android. Conheça a história da companhia e descubra porque ela deposita todas as suas esperanças no novo BB10:

Começo

Situada no Canadá, a RIM foi fundada por Mike Lazaridis e Jim Balsillie em 1984. A companhia começou suas operações desenvolvendo soluções para a Mobitex, uma rede de dados de frequência exclusiva do governo canadense, que depois ganhou acesso público, nos anos 90. Foi dessa rede, aliás, que vieram os famosos bipes, ou pagers, que fizeram algum sucesso entre os eletrônicos da época. A RIM, nesse tempo, também foi responsável pelo desenvolvimento de um editor digital de negativos de filmes, o DigiSync, muito elogiado em Hollywood.

O primeiro BlackBerry, 857 e 957 (Foto Divulgação) — Foto: TechTudo

O conhecimento que a empresa detinha sobre redes móveis e circuitos eletrônicos permitiu que ela lançasse, em 2000, seu primeiro dispositivo móvel comercializável, o BlackBerry RIM 857-957. O aparelho, que ainda não era um telefone, trazia alguns aplicativos, como bloco de notas, calendário, além do já clássico sistema de mensagens BlackBerry Messenger (BBM).


Pensar em armazenamento de dados na nuvem é comum hoje em dia, mas em 2001 parte dessa tecnologia já existia no Blackberry Enterprise Server (BES) e no Blackberry Internet Service (BIS), que compartilhavam e sincronizavam os dados dos usuários entre computador e dispositivos móveis.

Ascensão

A RIM, porém, só começou a se alavancar com o lançamento dos seus primeiros celulares. O Blackberry 5810, lançado em 2002, era um telefone integrado a um organizador pessoal, e já trazia o teclado QWERTY físico, que viria a ser marca registrada da empresa. No entanto, o telefone exigia que você utilizasse um fone de ouvido o tempo inteiro, para fazer ligações.

Blackberry 6210 um dos primeiros smartphones que não pareciam um trambolho (Foto: Divulgação) (Foto: Blackberry 6210 um dos primeiros smartphones que não pareciam um trambolho (Foto: Divulgação)) — Foto: TechTudo

Já o Blackberry 6210, lançado em 2003, foi o primeiro aparelho da empresa que realmente era um telefone celular e um organizador pessoal. Isso representava, além de uma boa ideia, uma economia para as empresas que contratavam os pacotes de serviços da companhia canadense.

Atualmente, a ideia de se ter um celular com características de um computador é comum, mas em 2002 era algo revolucionário. A internet móvel ainda engatinhava e os smartphones não tinham Wi-Fi. A facilidade de se enviar um e-mail direto do telefone era algo encantador, principalmente para as empresas que necessitavam de um serviço confiável e rápido como o oferecido pela RIM.

Além disso, se hoje os smartphones tem 2 GB de memória RAM, nesta época eles tinham apenas 1 MB. Os visores eram em sua grande maioria monocráticos, mas cumpriam muito bem a tarefa de ler e enviar e-mails, agendar compromissos e sincronizar informações com um computador, através de softwares como o Outlook. A instalação de aplicativos de terceiros também ainda engatinhavam, com as primeiras versões do J2ME.

O auge

Mantendo sempre o foco na segurança dos seus aparelhos, a RIM era muito interessante para empresas que desejavam que seus funcionários se comunicassem facilmente. Por isso, grande parte da clientela da RIM era composta por empresas norte-americanas. Um dos principais clientes da RIM na época, aliás, era o próprio governo dos Estados Unidos.

Com o sucesso do Blackberry 6210 e do seu sucessor 6510, vieram os primeiros aparelhos com visor colorido, ainda em 2003. Os Blackberry mais bem sucedidos seriam os da linha Curve, com suas formas anatômicas e design bem interessante. Este era o BlackBerry preferido de muitos executivos. O sucesso em atender a este perfil de cliente, focado em trabalho e em negócios, levou a empresa a uma ascensão meteórica no mercado de ações. Em 2008 a RIM chegou a ser avaliada em mais de US$ 80 bilhões.

A RIM, então, aproveitando o embalo, ensaiou seus primeiros passos no mercado não-corportativo em 2006. O Blackberry Pearl era um smartphone com design bonito e pequeno, feito para atrair o público jovem. Ele vinha com câmera e um player de música, e sua publicidade não era tão focada em "trabalho" como os smartphones anteriores da empresa. O objetivo era abocanhar mais fatias do mercado, ainda que a companhia já comandasse cerca de 40% dele em 2007.

Contudo, uma grande mudança de paradigma chegaria em 2007 para estremecer as estruturas do mundo mobile. O iPhone foi uma grande mudança de design e proposta no universo dos smartphones. Ele era tão inovador e diferente que um novo padrão de interface, baseado não em botões físicos, mas em telas touch capacitivas, seria estabelecido naquele ano.

Blackberry Pearl e Curve, símbolos de sucesso da RIM (Foto: Divulgação) (Foto: Blackberry Pearl e Curve, símbolos de sucesso da RIM (Foto: Divulgação)) — Foto: TechTudo

Um dos maiores erros cometidos pela RIM foi ignorar esta mudança nascida com a primeira geração do iPhone. Nada cegou mais os executivos da RIM do que a confiança no BlackBerry como produto. Mal sabiam eles que, em pouco menos de 2 anos, os teclados físicos virariam mais um acessório extra do que uma necessidade.

Graças a explosão de aplicativos e a segurança do sistema, o iOS, sistema presente no iPhone, passou a ser uma opção muito mais interessante para as empresas frente ao BlackBerry. Aproveitando-se da Internet, seja via 3G ou Wi-Fi, era possível utilizar o aparelho da Apple para realizar os mesmo serviços do BB de forma muito mais rápida e intuitiva. O navegador de internet Safari, por exemplo, oferecia uma navegação muito mais natural frente aos navegadores dos smartphones da época, que pareciam estar 10 anos atrasados.

Queda

Pode-se dizer que a internet foi a responsável pela ascensão e pela queda da RIM. Se o acesso móvel à web ajudou a canadense a lucrar no ramo corporativo, também afastou os usuários quando eles quiseram ter uma experiência mais próxima à do computador, algo muito melhor explorado por seus concorrentes.

Em junho de 2011 a empresa anunciou, pela primeira vez em nove anos, uma queda nas previsões de receitas para o primeiro semestre e também anunciou planos para reduzir seu quadro de empregados. O mercado reagiu, com as ações da RIM caindo para um nível mais baixo desde 2006. De junho de 2008 a junho de 2011, os acionistas que investiram na RIM perderam quase US$ 70 bilhões. Ironicamente, pouco antes, em 2009, a RIM foi listada pela revista Fortune como a empresa de crescimento mais rápida do mundo, com um crescimento de 84% nos lucros em três anos.

Para piorar a situação, em outubro de 2011, a companhia canadense experimentaria um das piores falhas nos serviços da história da empresa. Milhões de usuários de BlackBerry na Europa, Oriente Médio, África e América do Norte ficariam sem acesso às suas mensagens e e-mails. A interrupção fora causada por uma falha nos sistemas da própria companhia, e marcou o ponto mais baixo da história da empresa.

Em Outubro de 2011, o sistema do BlackBerry sofreu uma pane (Foto: Em Outubro de 2011, o sistema do BlackBerry sofreu uma pane) — Foto: TechTudo

A esperança

Para tentar voltar a figurar como uma empresa de expressão no ramo mobile, a RIM anunciou, em março de 2012, o seu novo sistema operacional, o chamado BlackBerry 10. A plataforma foi totalmente refeita, e passou a dar suporte a aparelhos com telas sensíveis ao toque, além de fazer uma interessante divisão: ela dá acesso tanto a uma interface "pessoal", com tarefas mais cotidianas e divertidas, como a uma corporativa, para ser acessada durante o período de trabalho.

Contudo, o novo sistema, que era aguardado para o começo de 2012, foi adiado para 2013. Seu lançamento, então, acontece na próxima quarta-feira (30), durante um evento dedicado à apresentação da plataforma e dos primeiros celulares que a carregam. Já é conhecido, porém, que a empresa lançará não só smartphones com tela touch, mas também modelos com os famosos teclados QWERTY físicos.

Novo BlackBerry aparece em video ao lado do protótipo (Foto: Reprodução) — Foto: TechTudo

O TechTudo testou o BlackBerry 10 em uma versão ainda não finalizada, e mostrou que a plataforma é muito interessante. O BB10 trará uma usabilidade limpa, intuitiva e segura, além de explorar diversas partes da tela para realizar seus comandos, focando os esforços no uso do smartphone com somente um dedo. A RIM também deu grande importância à nova loja de apps do BB10, a BlackBerry World, que já conta com os principais aplicativos disponíveis, além de uma biblioteca de filmes e músicas.

Para saber mais sobre o novo sistema operacional da RIM, confira um vídeo que mostra as principais novidades do BB10 (em inglês). E não deixe de conferir a cobertura do TechTudo sobre o lançamento que ocorre na próxima quarta.

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