Por B. Piropo; Para O TechTudo


Na coluna de hoje vamos falar de dois gigantes, dois ícones da comunicação entre computadores. Um deles nascido nos tempos heroicos dos grandes pioneiros. O outro, fruto dos tempos modernos: AOL e Netflix.

AOL

Conhece a AOL? Se você “mexe com computador” há muito tempo, provavelmente a conhece com o antigo nome de “America Online”. Se é um usuário mais recente, talvez a conheça já designada apenas pela sigla “AOL”, que adotou bem mais tarde.

GPC20130516_1 — Foto: TechTudo

É uma empresa antiga. Suas raízes remontam aos idos de 1985 quando foi fundada com o nome de Quantum Computers Services. O nome “American Online” foi adotado em 1989. Desde o começo foi concebida para prestar serviços “online” para usuários não corporativos. Na verdade, mais que isto: sua estratégia era atender preferencialmente “pessoas não familiarizadas com computadores”, seu grande diferencial para competir com a concorrente CompuServe, a empresa de serviços “online” preferida pelos “escovadores de bits”, como eram então chamados os usuários avançados que dispunham de algum conhecimento técnico.

Talvez tudo isto soe meio estranho para aquela parcela dos leitores nascidos nos tempos da Internet, onde mal se concebe um computador doméstico que não esteja de alguma forma ligado à grande rede, através da qual pode se comunicar com centenas de milhões de outras máquinas também conectadas. Mas convém lembrar que estamos falando da segunda metade dos anos oitenta e início dos noventa do século passado, quando não havia Internet (quer dizer, até havia, mas não estava ao alcance do usuário comum; era um serviço restrito às instituições acadêmicas e agências militares americanas e bastante “fechado”).

Mas se não havia Internet, como poderia haver empresas prestadoras de serviços “online”?

Ora, a Internet também é conhecida como “World Wide Web” (livremente traduzida como “rede de alcance mundial”) justamente porque abrange, sem exagero, todo o planeta. Mas antes dela nada impedia que uma empresa criasse sua própria rede. Que, por maior que fosse, seria sempre ridiculamente pequena se comparada à Internet de hoje. Mas funcionava.

O problema era como fazer com que os computadores dos usuários se conectassem a ela. Ou mais propriamente, a seus servidores de dados, grandes computadores que funcionam como “nós” da rede. O que era feito usando um modem através de uma conexão discada.

Conhece modem?

Provavelmente você acredita que sim.

Eu acredito que provavelmente não.

Calma, que eu explico.

Esta caixa cheia de luzes piscantes instalada junto ao seu computador pelo seu prestador de serviços de Internet via cabo, ou rádio, ou qualquer coisa semelhante, que todos chamam de “modem”, na verdade não é um modem, é outro tipo de dispositivo. Para ser modem, há que está ligado à linha telefônica. E calma, que mesmo assim, se a caixinha com luzes piscantes fornecer um sinal de alta taxa (que se convencionou chamar de “banda larga”), como o Velox ou Speedy, também não é um modem.

Modem é um termo formado pela junção do início de duas palavras, “modulador” e “demodulador” (em inglês, casualmente, “modulator” e “demodulator”, o que resulta no mesmo termo). Portanto um verdadeiro modem é um aparelho capaz de modular e demodular. “Modular”, neste contexto, significa transformar um fluxo de bits em um som que a ele corresponda exatamente. “Demodular” e fazer justamente o oposto.

No computador que transmite, o modem modula um sinal elétrico, transformando-o em um som estranho (uma mistura de apito com chiado que hoje somente ouvimos quando duas máquinas fax estabelecem conexão) e, na extremidade oposta, no computador que recebe, demodula este estranho som, recompondo o sinal elétrico original. Este sinal elétrico representa o conjunto de bits transportado entre as duas extremidades da conexão, cada uma com seu modem. Assim pode-se transferir qualquer coisa entre dois computadores, já que todas as grandezas usadas internamente neles são codificadas em bits (que, agrupados de oito em oito, formam os bytes).

Mas por que cargas d’água é preciso transformar os bits em um som para transportá-los de um computador para outro?

Ora, porque existe um meio praticamente universal de transportar um som entre quaisquer dois pontos do planeta. Como por exemplo de sua casa para Nova Iorque.

Este meio é a linha telefônica, uma rede que cobre praticamente o mundo inteiro e que é capaz de transmitir sons de qualquer ponto dela para qualquer outro. E, se ligarmos dois computadores, cada um deles a um telefone comum, daquele ligado a um computador discarmos o número do outro, que atende a ligação, modularmos os dados do primeiro em um som que possa ser transmitido pela rede telefônica e recebido pelo segundo computador, basta demodulá-lo para termos os dados neste último computador.

É isto que se chama “conexão discada” (“dial up conexion”): conversão do fluxo de dados em um som que pode ser transmitido pela linha telefônica comum. É lenta, já que por questões técnicas, o máximo fluxo de dados que admite é cerca de 56 Kb/s (quilobits por segundo), instável, devido as possíveis interferências na rede telefônica, pouco segura, mas para quem não dispõe de alternativa, é a oitava maravilha do mundo.

Pois era assim que os usuários da AOL (e os da CompuServe, nos EUA, dos saudosos Eureka e Unikey no Rio de Janeiro e milhares de outros em todo o mundo) conectavam seus computadores com os servidores da empresa. Via conexão discada.

A AOL oferecia serviços aos seus usuários na modalidade plataforma fechada, em inglês conhecida como “walled Garden” (“jardim murado”). Semelhantemente aos visitantes de um jardim totalmente murado com entradas e saídas controladas, os usuários da AOL após com ela conectados podiam usar apenas os aplicativos fornecidos pela empresa e acessar seu conteúdo através de meios por ela controlados. Para isto, quando o usuário contratava a AOL, instalava em seu computador um pacote de programas por ela fornecidos gratuitamente que permitiam acesso aos serviços prestados pela empresa (por exemplo: o usuário somente podia gerenciar seu correio eletrônico na AOL usando o programa por ela desenvolvido para este fim, e o mesmo ocorria com todos os demais serviços).

Isto era compreensível na era pré-internet, onde todos os acessos eram feitos diretamente aos servidores do prestador, que além de armazenarem os dados, armazenavam parte do software. Mas a AOL continuou usando o sistema mesmo depois que passou a ser um prestador de serviços de Internet, já nos tempos da Internet aberta. E este foi o segredo de seu sucesso. Porque, se o sistema em plataforma fechada tinha a desvantagem de limitar bastante as ações dos usuários, por outro lado tinha a imensa vantagem de simplificar extraordinariamente a configuração e o uso dos programas.

Isto, em um tempo onde não havia o barramento USB com seu sistema “plug-and-play” e as configurações tinham que ser feitas pelo usuário ajustando valores de números de interrupção e endereços de portas, acreditem, facilitava extraordinariamente a instalação do hardware e configuração dos programas. Além disto, como tudo o que se fazia dentro do “jardim murado” havia que ser feito usando os programas fornecidos pela AOL, simples de instalar e fáceis de usar pois a diretriz da empresa era servir “pessoas não familiarizadas com computadores”, era a preferida dos iniciantes. E isto em uma época em que o advento da Internet fez o uso dos computadores domésticos se popularizarem como nunca, atraindo uma imensa quantidade de principiantes que não queriam – e não sabiam – lidar com coisas complicadas.

Hoje, o sítio da AOL é um portal típico de prestadora de serviço de Internet, com suas seções de notícias, entretenimento, finanças e coisas que tais.

Mas seja como for, a AOL ainda pode ser considerada um dos ícones dos tempos pioneiros da conectividade, começando na era da conexão discada e continuando a expandir sua base de usuários mesmo depois que a Internet se tornou pública.

Em 2001, quando a Netflix entrou no mercado, a AOL tinha 25 milhões de usuários e continuava crescendo. Em 2002 atingiu o auge do crescimento, passando dos 26 milhões de assinantes, cujo número começou a declinar desde então.

Netflix

E a Netflix, você conhece?

Se sim e há muito tempo, provavelmente a conhece como locadora de vídeo. Mas uma locadora diferente destas que há (ou havia; estão desaparecendo) pelas esquinas. A Netflix é uma locadora “online” onde o vídeo ou filme é escolhido visitando o sítio da empresa, enviado ao cliente pelo correio e devolvido igualmente pelo correio. Foi fundada em 1997 oferecendo apenas este tipo de serviço depois que um de seus fundadores, Reed Hastings, foi obrigado a pagar quarenta dólares de multa por haver devolvido com atraso um vídeo alugado em uma locadora tradicional.

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A Netflix cobrava quatro dólares americanos pelo aluguel mais dois pela postagem além, naturalmente, das multas por atraso. Mas estas eram raras, já que o porte de retorno já estava pago e até mesmo o envelope par devolução era fornecido com o DVD. Portanto, visto o filme, bastava introduzir o disco no envelope, fechá-lo e colocá-lo na caixa de correio mais próxima (lá, funciona). E a coisa deu certo. Tão certo e com uma porcentagem de atraso no retorno tão baixa que dois anos depois a Netflix anunciou seu serviço de assinaturas que permitia ao assinante pagar uma taxa mensal fixa para receber mensalmente um determinado número de filmes (que variava com o valor da assinatura). O que funcionou tão bem que no ano seguinte a empresa descontinuou o serviço de aluguel de filmes individuais, permanecendo apenas com o das assinaturas. Uma iniciativa tão bem sucedida que, em 2005, a Netflix já oferecia 35 mil títulos e despachava um milhão de DVDs a cada dia. Ou seja, uma sucessão de êxitos.

Dois anos depois, em 2007, a Netflix despachava seu bilionésimo DVD e inaugurava um novo tipo de serviço: o de vídeo sob demanda (“video on demand”). E se você é daqueles que só tomaram conhecimento da existência da empresa recentemente, provavelmente a conhece como prestadora deste tipo de serviço, sem fazer ideia que um dia ela foi uma vídeo locadora…

De fato, quem visitar o sítio da empresa no Brasil, apenas encontrará referências a vídeo sob demanda.

Não sabe o que é isto?

Se você conhece o YouTube, sabe. E, afinal, quem não conhece o YouTube?

A diferença é que enquanto o YouTube é gratuito e oferece quase que exclusivamente clipes de vídeo de curta duração, a maior parte deles criados por amadores, o serviço da Netflix é pago na modalidade de assinatura (e nem sequer é caro: no Brasil, menos de dezessete reais mensais) e oferece os filmes e vídeos comerciais que podemos ver nos cinemas ou encontrar nas locadoras de vídeo. Em suma: aqueles mesmos que ela distribuía pelo correio, mas agora envia diretamente para seu aparelho através da Internet (“aparelho” porque os vídeos da Netflix podem ser exibidos em televisores, computadores, telefones espertos, tabletes e até mesmo consoles de jogos, como PlayStation3, Xbox e Wii (são dezenas deles; veja aqui a lista completa).

É claro que para assistir comodamente, sem interrupções, um vídeo de longa duração, é preciso dispor de uma conexão de Internet de alta taxa (ou “banda larga”). É por isto que a Netflix só lançou esta modalidade de serviço em 2007, quando estas conexões se popularizaram. E a coisa deu certo. Tão certo que, com a implementação e expansão dos serviços de Internet em alta taxa nos demais países, a Netflix entrou neste mercado, expandindo-se para o Canadá, América Latina (inclusive Brasil) e Europa. Hoje, o aluguel de DVDs ainda é feito pela empresa em alguns países, mas converteu-se em um serviço subsidiário.

A Netflix tornou-se, então, uma enorme prestadora do serviço de vídeo sob demanda. Um serviço que exige conexões de alta taxa e equipamentos de última geração. Em suma: o que há de moderno.

A Netflix – ou pelo menos aquela na qual a empresa se converteu a partir de 2007 quando começou a oferecer vídeo sob demanda – pode então ser considerada como um ícone dos tempos da Internet moderna.

No final do ano passado a Netflix atingiu a marca aproximada dos trinta milhões de assinantes, ultrapassando pela primeira vez o máximo atingido pela AOL dez anos antes.

E daí?

Pois é, e daí? O que tem a AOL a ver com a Netflix? Uma presta serviços de Internet, como correio eletrônico, publicação de notícias, joguinhos e coisas que tais. A outra fornece vídeo sob demanda. Aparentemente a única coisa que têm em comum é o fato de ambas usarem a Internet para prestarem seus serviços.

Mas se você reparar bem notará mais uma característica em comum: cada uma é um ícone de seu tempo e representa uma era.

Enquanto a AOL, uma das poucas empresas nos EUA a ainda oferecer a conexão de Internet discada, nasceu nos anos em que tudo era complicado, computadores eram máquinas que assustavam os iniciantes e as conexões eram lentas e cresceu justamente por oferecer serviços simples (a mensagem “you have mail” da AOL e seu alarme sonoro se tornaram símbolo do correio eletrônico nos EUA), fáceis de usar e configurar, a Netflix com seu vídeo sob demanda, que exige acima de tudo uma conexão de alta taxa (“banda larga”) e equipamentos rápidos e modernos, floresceu em um tempo em que tecnologias como “plug-and-play” simplificaram tanto a instalação e uso de acessórios que os computadores podem ser operados por qualquer criança de cinco anos ou menos – e são.

E é justamente sob este ângulo que a comparação das taxas de crescimento ou declínio de seu número de usuários pode ser bastante ilustrativa.

Pois foi exatamente isto que fez Dan Frommer em seu artigo na Splaft F mui apropriadamente intitulado “AOL vs. Netflix: The Entire Internet In One Simple Chart” (AOL x Netflix: a Internet inteira em um simples gráfico).

O gráfico, obtido deste mesmo artigo, é o mostrado na Figura 3.

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Ele mostra a evolução do número de usuários da AOL e do Netflix no período entre 2001, pouco antes da AOL atingir seu número máximo de usuários e da Netflix oferecer seu serviço de assinaturas, e o final de 2012, com a AOL oferecendo basicamente os mesmos serviços que prestava em 2001 (veja aqui o relatório financeiro da empresa no último ano) e cinco anos depois da Netflix oferecer seu serviço de vídeo sob demanda.

O primeiro – e mais importante – aspecto a chamar a atenção é que no intervalo examinado, após um pequeno aumento no início do período, o número de usuários da AOL declina, primeiro rapidamente, depois mais lentamente, até um ponto em que, no final do período, o número de usuários da Netflix é aproximadamente igual ao dos assinantes da AOL em 2004.

Já o número de assinantes da Netflix cresce, lentamente à princípio, muito rapidamente a partir de 2007 (quando começou a ser oferecido o serviço de vídeo sob demanda) e continua crescendo após uma breve e pequena queda em 2011 (devido provavelmente à crise econômica que atingiu a Europa e EUA). E cresceu tanto que em 2012 alcançou e, finalmente, ultrapassou o total de usuários da AOL em seus melhores tempos, chegando a 29 milhões de assinantes

Quer dizer: cada empresa tirou proveito da tecnologia disponível em sua época áurea para prestar seus serviços com eficiência. O que leva à fácil conclusão que a evolução tecnológica se reflete diretamente na saúde financeira das empresas – coisa que todos sabemos mas que raramente se vê tão bem ilustrada como no gráfico da Figura 3.

Segundo Frommer, o crescimento da Netflix é fácil de explicar: a oferta de computadores mais baratos que nunca, a disseminação de dispositivos móveis que podem exibir os filmes oferecidos por ela, incluindo não apenas telefones espertos e tabletes mas também consoles de jogos conectados à internet e a própria oferta de conexões de alta taxa a preços acessíveis (no exterior, naturalmente; no patropi ainda são extorsivos) fizeram aumentar o número de clientes em potencial e a variedade de títulos e a qualidade dos serviços foram responsáveis pelo o resto.

Mas talvez o ponto mais interessante do curto artigo de Frommer são as conjeturas que ele faz sobre um tema fascinante, especialmente se considerarmos que a Netflix continua crescendo cada vez mais rapidamente: que fatores, no futuro, poderão causar seu declínio?

Sim, porque a tecnologia continua evoluindo e da mesma forma que a queda de popularidade dos DVDs e a oferta de taxas de conexão capazes de suportar facilmente a transmissão de vídeo sob demanda causaram o declínio da AOL, algo pode surgir adiante que tenha o mesmo efeito sobre a Netflix.

O que poderia ser?

Frommer especula duas causas possíveis: decadência interna da empresa e possibilidade do surgimento de mais uma “era” da Internet que a afete da mesma forma que o surgimento do vídeo sob demanda e a quase queda em desuso da conexão discada afetaram a AOL e da qual ela não saiba – ou não consiga – se aproveitar.

Mas inclui ainda uma terceira e instigante opção: será que os anos de ouro da Netflix estão apenas começando?

Quem ainda estiver acompanhando a evolução dos negócios que gravitam em torno da Internet dentro de, digamos, dez anos, saberá.

Mas, seja como for, a comparação da evolução da AOL com a da Netflix, apesar de serem empresas que jamais competiram diretamente, é um bocado esclarecedora sobre como funcionam as coisas nestes últimos e atribulados tempos…

B. Piropo

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