Por Felipe Vinha, para o TechTudo


A chamada “loot box” é uma funcionalidade que não é tão recente nos games, mas causa certa polêmica há pouco tempo. O termo quer dizer “caixa de recompensa”, em tradução livre, e geralmente é usado para definir baús que dão itens aleatórios dentro de jogos, podendo ou não ajudar quem está no controle. Games como Overwatch, Star Wars Battlefront 2 e Clash Royale são alguns dos títulos mais populares que usam a “novidade”. Mas você entende seu funcionamento ou detalhes que podem ter causado os problemas recentes?

O que são e como funcionam as “loot boxes”?

Pense em uma caixa lacrada que só pode ser aberta de tempos em tempos e que te dá recompensas sem qualquer critério. Uma “caixinha de surpresas”. É mais ou menos isso que define uma “loot box” dentro dos videogames. A prática não tem data exata de início, mas começou em jogos orientais, principalmente nos chineses de estilo “gratuito para jogar”. Como forma de monetizar o produto, ou seja, fazer render dinheiro, produtoras inseriram a funcionalidade para também fazer com que jogadores voltem todos os dias.

Uma loot box de Overwatch — Foto: Divulgação/Blizzard Uma loot box de Overwatch — Foto: Divulgação/Blizzard

Uma loot box de Overwatch — Foto: Divulgação/Blizzard

A origem do conceito do que é uma “loot box”, porém, vem de muito antes de qualquer game moderno. No Japão existem as chamadas máquinas de “gashapon”, estações que vendem cápsulas que dão itens aleatórios – geralmente brinquedos de plástico – a partir de poucas moedas. No Brasil e no mundo há equivalentes, como ovos de chocolate que contém brinquedos dentro, sem que o comprador escolha necessariamente qual acessório levar, ou jogos de cartas como Magic the Gathering, que vendem novos cards em pacotes lacrados, sem que você possa escolher quais quer levar.

Do outro lado do mundo, hoje, uma máquina de gashapon pode custar cerca de ¥ 200, ou R$ 6 em conversão direta. As recompensas que vêm na cápsula podem ser itens comuns ou até mesmo algo raríssimo, que poucas pessoas têm. Este conceito de “pagar pouco para ter a chance de receber muito” acabou sendo transferido também para os videogames.

Exemplo de máquina de gashapon, no Japão — Foto: Foto: Felipe Vinha Exemplo de máquina de gashapon, no Japão — Foto: Foto: Felipe Vinha

Exemplo de máquina de gashapon, no Japão — Foto: Foto: Felipe Vinha

Baús de recompensa podem ser positivos. Ao mesmo tempo, os jogos precisam render dinheiro aos seus estúdios, que trabalham neles em busca de crescimento e recompensas. A polêmica, porém, nasceu a partir de práticas teoricamente abusivas, como forçar o jogador a gastar dinheiro para ter uma melhor performance dentro de um jogo ou render poucas caixas gratuitas aos usuários com o passar do tempo.

Os primeiros games no ocidente

O conceito de loot box já está bem difundido no ocidente, mas o primeiro grande game que passou a utilizar a função foi Team Fortress 2, da Valve, em 2010, quando ele se tornou gratuito. Sem a necessidade de vender o título aos fãs, a produtora encontrou na novidade uma forma de continuar ganhando dinheiro. Outros games multiplayer logo seguiram a moda, como Star Trek Online e The Lord of the Rings Online.

Quando se tornou gratuito, Team Fortress 2 passou a usar as caixas — Foto: Divulgação/Valve Quando se tornou gratuito, Team Fortress 2 passou a usar as caixas — Foto: Divulgação/Valve

Quando se tornou gratuito, Team Fortress 2 passou a usar as caixas — Foto: Divulgação/Valve

Hoje até mesmo jogos esportivos contam com a funcionalidade, como a série FIFA em sua modalidade Ultimate Team, que rende novas cartas aos jogadores. Até mesmo títulos grandes e pouco prováveis usam, atualmente, o conceito de loot box. E, quanto maior o jogo, maior a polêmica.

Os mais polêmicos

Star Wars Battlefront 2 foi o estopim sobre a atual discussão de loot boxes. Quando o jogo foi lançado, ele apresentou o conceito de forma que beneficiava usuários no modo multiplayer, conforme gastassem mais dinheiro real com as caixas. Isso atrapalhava não apenas a evolução do próprio usuário, mas também de outros dentro das partidas. A polêmica foi tanta que a produtora, EA, resolveu desativar as microtransações – possibilidade de fazer compras dinheiro real – dentro do game. Neste jogo as loot boxes dão acessórios que vão além de cosméticos, como cartas mais poderosas para os personagens.

Star Wars Battlefront 2 usa as loot boxes — Foto: Reprodução/Felipe Vinha Star Wars Battlefront 2 usa as loot boxes — Foto: Reprodução/Felipe Vinha

Star Wars Battlefront 2 usa as loot boxes — Foto: Reprodução/Felipe Vinha

O recente Call of Duty WWII foi outro que recebeu críticas por conta de seu sistema de loot box, já que ele te permite abrir as caixas na frente de outros jogadores – o que seria uma forma de incentivar que outros usuários gastem dinheiro com elas. Há ainda títulos mobile que receberam duras críticas ao implementar o sistema de forma abusiva, como Puzzle & Dragons em seu início.

Temos até mesmo exemplos de games focados na experiência “um jogador” que usam loot box e que foram criticados por isso, como o recente Terra-Média: Sombras da Guerra. Ainda que tenha componente multiplayer, aqui os baús influenciam pouquíssimo e são pouco nocivos.

Até mesmo Terra-Média Sombras da Guerra apresenta as caixas — Foto: Reprodução/Felipe Vinha Até mesmo Terra-Média Sombras da Guerra apresenta as caixas — Foto: Reprodução/Felipe Vinha

Até mesmo Terra-Média Sombras da Guerra apresenta as caixas — Foto: Reprodução/Felipe Vinha

Porém, a polêmica atual foi tanta que, há alguns anos, a funcionalidade chegou a ser comparada a "jogos de azar" em alguns locais do mundo. China, Japão e Coreia do Sul são alguns países que criaram regulamentações que obrigam as produtoras dos games a explicar as chances de obter cada tipo de item - comum, incomum ou raro. Uma forma de evitar que os jogadores se frustrem ou gastem muito dinheiro sem ter a ideia de como funciona.

Nem tudo está perdido

Mas games modernos ainda podem ter bons exemplos de como usar as loot boxes. Um dos mais recentes, e dos mais elogiados, é Overwatch, da Blizzard. O game de tiro online permite ganhar itens a partir de caixas aleatórias, recebidas a cada nível de experiência ou compradas com dinheiro real. O detalhe é que os acessórios não influenciam na forma com que o título é jogado e nem melhoram os personagens dos usuários. São visuais, sprays para decorar o cenário, falas, poses e outros no mesmo sentido.

Overwatch oferece apenas itens cosméticos em suas caixas — Foto: Divulgação/Blizzard Overwatch oferece apenas itens cosméticos em suas caixas — Foto: Divulgação/Blizzard

Overwatch oferece apenas itens cosméticos em suas caixas — Foto: Divulgação/Blizzard

O já citado Team Fortress 2 segue estilo bem próximo, com itens cosméticos que vêm nos baús. Atualmente, games no estilo “Moba”, como Heroes of the Storm, League of Legends e Dota 2, também adotaram o sistema de forma positiva. E, seguindo o exemplo do clássico Magic the Gathering, Hearthstone é um jogo de cartas que concede recompensas que podem deixar seu baralho mais poderoso, porém, o sucesso depende de como as cartas serão utilizadas, de acordo com sua habilidade e com alguma pitada de sorte que a própria mecânica de um card game colecionável já carrega dentro de si.

Hearthstone segue o estilo 'Magic', mas depende mais da habilidade do jogador — Foto: Divulgação/Blizzard Hearthstone segue o estilo 'Magic', mas depende mais da habilidade do jogador — Foto: Divulgação/Blizzard

Hearthstone segue o estilo 'Magic', mas depende mais da habilidade do jogador — Foto: Divulgação/Blizzard

Atualmente há até marcas que vendem loot boxes no mundo real, com acessórios colecionáveis e temáticos, como camisas, decorativos ou revistas e livros, ainda que nem sempre venham de forma aleatória. O conceito já é bem difundido e pode ser bem prestativo. Cabe ao jogador decidir como utilizar as caixas e se quer realmente gastar com elas, com base no que ele ou ela entender ser uma possível prática abusiva, que pode prejudicar a comunidade ou seu próprio bolso.

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