Por Gabriel Oliveira, para o TechTudo

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A histórica campanha da paiN Gaming na ESL One: Birmingham de DotA 2 foi a prova definitiva do crescimento da equipe brasileira no cenário internacional, com destaque para as vitórias sobre a Team Liquid, atual campeã mundial, e Mineski, quinta colocada no DotA Pro Circuit. Pela primeira vez, uma equipe da América do Sul chegou ao pódio em um Major da modalidade, o que reforça o argumento de analistas e atletas que defendem que o intercâmbio e a experiência internacional de regiões consideradas periféricas com os melhores times do mundo é fundamental para a evolução das equipes.

No entanto, diferentemente do que ocorre com o Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL), o DotA 2 não conta hoje com uma competição nacional forte e consolidada, mesmo com a realização da Brasil Game Cup desde 2014. Por isso, muitas organizações importantes, incluindo a própria paiN, chegaram a encerrar suas atividades no MOBA da Valve.

paiN Gaming tem se consolidado como principal força da América do Sul no DotA 2 — Foto: Divulgação/paiN paiN Gaming tem se consolidado como principal força da América do Sul no DotA 2 — Foto: Divulgação/paiN

paiN Gaming tem se consolidado como principal força da América do Sul no DotA 2 — Foto: Divulgação/paiN

O cenário só começou a mudar na América do Sul na temporada 2017/2018, quando a própria Valve anunciou uma mudança no regulamento no DotA Pro Circuit, garantindo sempre uma vaga a times da América do Sul nas principais competições do calendário. Diante disso, a paiN anunciou a sual volta ao DotA 2 em 29 de novembro do ano passado e, desde então, vem se consolidando como principal força da região.

Antes do terceiro lugar na ESL One, o time já havia conquistado o vice-campeonato da World Eletronic Sports Games (WESG), competição em que apenas equipes formadas por jogadores do mesmo país podem competir.

A seguir você vai conhecer a trajetória de ascensão da equipe na modalidade de esports com as maiores premiações do mundo, os atletas que têm feito história pela organização e os principais desafios da equipe na busca de um inédito título internacional para o Brasil.

A formação da nova equipe

Com Kingrd como IGL e w33 como contratação internacional, paiN tem mostrado enorme evolução no cenário internacional — Foto: Divulgação/ESL Com Kingrd como IGL e w33 como contratação internacional, paiN tem mostrado enorme evolução no cenário internacional — Foto: Divulgação/ESL

Com Kingrd como IGL e w33 como contratação internacional, paiN tem mostrado enorme evolução no cenário internacional — Foto: Divulgação/ESL

Após o tricampeonato da Brasil Game Cup entre 2014 e 2016, a paiN, diante de um calendário com pouquíssimas de competições de peso no Brasil e na América do Sul e da dificuldade de times da região em conseguir vagas nas principais competições do mundo, acabou encerrando suas atividades em outubro de 2016. A volta da organização só ocorreria mais de um ano depois, em novembro de 2017.

Entre os atletas da nova line up, estavam velhos conhecidos como Danylo "Kinrgrd" Nascimento, William "hFn" Medeirros e Otavio "tavo" Gabriel, todos campeões da Brasil Game Cup pela própria paiN. Esses mesmo atletas, em 2017, conquistaram alguns bons resultados em competições internacionais pela SG e-sports, como o top 8 no The Kiev Major 2017.

Completaram a formação, Heitor "Duster" Pereira, ex-Midas Club, e o romeno Aliwi "w33" Omar, que inicialmente chegou como jogador substituto e acabou integrado definitivamente ao time em abril desse ano.

A vinda de w33 tinha um objetivo claro: acrescentar à line up um jogador com ampla experiência internacional. Entre os principais os títulos do romeno, estão a MLG World Finals 2015, o Nanyang DotA 2 Championships 2015 e o The Shanghai Major 2016, pela Team Secret, a conquista ESL One Genting 2017 e o vice-campeonato do The International 6, ambos pela Digital Chaos.

Além disso, a volta da maior organização de esports da América Latina ao DotA 2 daria aos jogadores a infraestrutura e investimento necessários para a equipe se preparar adequadamente para o extenso calendário competitivo do MOBA.

Os primeiros torneios do ano

Com mudança no regulamento do Dota Pro Circuit, paiN formou uma nova line mirando grandes competições internacionais — Foto: Divulgação/paiN Gaming Com mudança no regulamento do Dota Pro Circuit, paiN formou uma nova line mirando grandes competições internacionais — Foto: Divulgação/paiN Gaming

Com mudança no regulamento do Dota Pro Circuit, paiN formou uma nova line mirando grandes competições internacionais — Foto: Divulgação/paiN Gaming

O primeiro desafio internacional da paiN em 2018 foi a Captains Draft 4.0. No Minor, o time brasileiro inscreveu Athur "PAADA" Zarzur, atual CEO da org, para atuar ao lado de hFn, Kingr, tavo e Duster, mas acabou se despedindo com três derrotas em três jogos, para OG, Evil Geniuses e Mineski.

Na sequência da temporada, com o peruano Enzo "Timado" Gianoli atuando como substituto, a paiN acabou caindo na semifinal do qualificatório sul-americano para a ESL One Katowice, após derrota para os peruanos da Infamous. Mas a equipe se recuperou com a conquista da vaga para o The Bucharest Major, depois de uma revanche sobre a própria Infamous na final do qualificatório sul-americano.

O segundo torneio internacional do ano foi o Galaxy Battles II: Emerging Worlds, Minor com mais de US$ 500 mil (R$1,8 milhão em conversão direta) em premiação e a participação de oito equipes, que marcou a estreia oficial de w33 pela paiN. No primeiro jogo, a equipe acabou derrotada por 2 a 1 para a OG e foi enviada para a chave dos perdedores. Logo na sequência, paiN bateu os poloneses da PG.Barracx por 1 a 0.

O time majoritariamente brasileiro acabou eliminado após derrota por 1 a 0 para a Team Spirit, fechando a campanha no top 6 e levando para casa o prêmio de US$ 35 mil (R$131 mil em conversão direta). Em seguida, a equipe acabaria precisando substituir w33 para participar do qualificatório sul-americano da WESG, competição com premiação total de US$ 1,5 milhão (R$5,6 milhões em conversão direta) e que só permitia times formados por jogadores do mesmo país.

Destaque no cenário nacional desde os tempos Midas Club, Duster foi uma das principais contratações da paiN para 2018 — Foto: Divulgação/ESL Destaque no cenário nacional desde os tempos Midas Club, Duster foi uma das principais contratações da paiN para 2018 — Foto: Divulgação/ESL

Destaque no cenário nacional desde os tempos Midas Club, Duster foi uma das principais contratações da paiN para 2018 — Foto: Divulgação/ESL

A equipe acabou trazendo Danilo "Arms" Silva, companheiro de Duster nos tempos de Midas Club e que veio por empréstimo, para completar a equipe no qualificatório conquistado pela paiN de forma invicta, com quatro vitórias em quatro jogos e nenhum round perdido.

Em fevereiro, Gabriel "Rayuur" Pinheiro substituiu Arms nos qualificatórios regionais da Dream League Season 9, Epicenter XL e Dota 2 Asia Championships, todos vencidos pela paiN, mas acabou não permanecendo na equipe para a disputa dessas competições.

Antes da disputa da WESG, a paiN trouxe w33 de volta para a disputa do The Bucharest Major, campeonato onde a equipe acabou na 12ª posição entre os 16 participantes, com uma vitória, sobre a Vici Gaming, e três derrotas, para Evil Geniuses, Team Secret e Natus Vincere.

A grande campanha na WESG

paiN fez ótima campenha na WESG e conquistou o vice-campeonato — Foto: Divulgação/WESG paiN fez ótima campenha na WESG e conquistou o vice-campeonato — Foto: Divulgação/WESG

paiN fez ótima campenha na WESG e conquistou o vice-campeonato — Foto: Divulgação/WESG

Após uma campanha perfeita no qualificatório sul-americano, a paiN foi para a disputa da WESG confiante na busca por um bom resultado. Como a maior parte das principais organizações de DotA 2 são formadas por jogadores de vários países diferentes, o entrosamento dos brasileiros acabaria se mostrando um diferencial na competição.

Sorteada no grupo B, a paiN caiu na mesma chave que a HappyFeet, das Filipinas, Team Leviathan, dos Estados Unidos, e a Team Russia, composta por quatro jogadores da Virtus.pro (Roman "RAMZES666" Kushnarev, Pavel "9pasha" Khvastunov, Vladimir "RodjER" Nikogosyan e Alexei "Solo" Berezin), atual líder do Dota Pro Circuit, e Igor "iLTW" Filatov, da Team Effect.

Na estreia, a paiN conseguiu uma vitória tranquila sobre a HappyFeet por 2 a 0. Na sequência, os brasileiros surpreenderam a Team Russia e conseguiram um bom empate por 1 a 1, e encerraram a campanha na primeira fase na liderança, após nova vitória por 2 a 0 sobre a Team Leviathan.

Nas quartas-de-final, os brasileiros venceram de virada os chineses da Keen Gamng por 2 a 1, e chegaram à grande decisão após nova vitória por 2 a 1 sobre a também chinesa Rock.Y. A campanha histórica da paiN acabou com o vice-campeonato, numa derrota por 2 a 1 para a Team Russia. Além do prêmio de US$ 300 mil (R$ 987 mil, na cotação da época), os brasileiros saíram da competição com o melhor resultado de um time brasileiro na história de uma competição internacional do DotA 2, e iniciaram ali sua ascensão no cenário.

A sequência da temporada

Principal destaque nos abates e acúmulo de ouro para a equipe, hFn é um dos principais nomes da atual line up da paiN — Foto: Divulgação/ESL Principal destaque nos abates e acúmulo de ouro para a equipe, hFn é um dos principais nomes da atual line up da paiN — Foto: Divulgação/ESL

Principal destaque nos abates e acúmulo de ouro para a equipe, hFn é um dos principais nomes da atual line up da paiN — Foto: Divulgação/ESL

Após a grande campanha na WESG, ainda com Arms na equipe, a paiN teve outras duas competições internacionais em sequência: a DreamLeague Season 9 e o DotA 2 Asia Championships. No entanto, o desempenho da equipe brasileira foi decepcionante.

Na DreamLeague, a paiN teve uma estreia difícil contra a Team Liquid, atual campeã mundial, e acabou sendo enviada à chave dos perdedores após uma derrota por 2 a 0. Na sequência, os brasileiros acabaram sendo atropelados pela OG em mais uma derrota por 2 a 0.

No DotA 2 Asia Championships, segundo Major da temporada da paiN, o desempenho do time foi ainda pior. Com impresssionantes sete derrotas em sete jogos, os brasileiros tiveram sua pior participação desde a criação da nova equipe e se despediram do torneio com mudanças em mente.

A volta definitiva de w33

Contratação de w33, trouxe experiência internacional à line up da paiN — Foto: Divulgação/ESL Contratação de w33, trouxe experiência internacional à line up da paiN — Foto: Divulgação/ESL

Contratação de w33, trouxe experiência internacional à line up da paiN — Foto: Divulgação/ESL

Em abril deste ano, a paiN finalmente confirmou a contratação em definitivo de w33 para a sequência da temporada para o lugar Arms. O objetivo passava a ser não apenas conquistar a vaga nos principais eventos do Dota Pro Circuit, como também enfrentar de igual para igual os melhores times do mundo e fazer melhores campanhas nos Majors.

O primeiro compromisso da nova formação, agora com w33 como membro fixo, foi o qualificatório sul-americano China Dota 2 Supermajor, competição mais importante do calendário depois do The International.

Nos quatro primeiros jogos, a paiN venceu conseguiu quatro convincentes vitórias por 2 a 0 e chegou com a vantagem do empate contra a Infamous, maiores rivais do time brasileiro na região. Na partida, porém, a equipe peruana acabou vencendo por 2 a 0 e conquistou a única vaga sul-americana para o evento, frustrando as ambições da paiN.

Na sequência, a equipe brasileira se recuperou e conquistou a vaga para a ESL One Birmingham, após uma vitória apertada por 2 a 1 sobre a Thunder Predator, do Peru, na semifinal, e um triunfo tranquilo na final contra a Mad Kings, formada por três jogadores peruanos, um euatoriano e um colombiano. Passada a fase de eventos qualificatórios, era a hora de fazer as malas e disputar mais dois torneios do circuito Major.

Boa participação no EPICENTER XL

paiN Gaming fez boa campanha no Epicenter XL e terminou competição no top 8 — Foto: Divulgação/Epicenter paiN Gaming fez boa campanha no Epicenter XL e terminou competição no top 8 — Foto: Divulgação/Epicenter

paiN Gaming fez boa campanha no Epicenter XL e terminou competição no top 8 — Foto: Divulgação/Epicenter

Agora com uma formação definitiva mais entrosada, a paiN finalmente começou a alçar voos mais altos nos principais campeonatos do mundo. Na EPICENTER XL, a equipe perdeu na estreia para a Virtus.pro, melhor time do mundo na atualidade, por 2 a 1, mas mostrou ali uma grande evolução em relação a eventos anteriores, com um time jogando mais agrupado e eficiente nos combates e controle das lanes.

Na sequência, nova derrota para a Team Secret, atual top 4 no DPC, dessa vez por 2 a 0. A primeira vitória no campeonato viria sobre os chineses da Newbee, sétima colocada no DPC, por 2 a 0. A equipe fechou a campanha na primeira fase com uma derrota por 2 a 0 para a OG e uma vitória pelo mesmo placar sobre os ucranianos da Natus Vincere.

Com o quarto lugar no grupo B, a paiN acabou avançando aos playoffs pela lower bracket, onde enfrentou os russos e ucranianos da FlyToMoon. A equipe acbou derrotada por 1 a 0 e deu adeus à competição, terminando sua participação no top 8.

Campanha histórica na ESL One: Birmingham

Tavo teve papel fundamental na campanha da paiN na histórica campanha da ESL One: Birmingham — Foto: Divulgação/ESL Tavo teve papel fundamental na campanha da paiN na histórica campanha da ESL One: Birmingham — Foto: Divulgação/ESL

Tavo teve papel fundamental na campanha da paiN na histórica campanha da ESL One: Birmingham — Foto: Divulgação/ESL

A boa participação no EPICENTER trouxe à paiN confiança para a disputa da ESL One: Birmingham, e a campanha da equipe superou as expectativas até mesmo dos torcedores mais otimistas. Logo na estreia pelo grupo B, o time majoritariamente brasileiro surpreendeu ninguém menos do que a Team Liquid por 1 a 0, campeã do The International 7, em uma peformance dominante do início ao fim.

Na sequência, a paiN enfrentou a OG em duelo que valia a vaga direta aos playoffs, mas acabou dominada pelos europeus e foi derrotada por 2 a 0. No terceiro e decisivo jogo da repescagem do grupo B, a equipe brasileira acabou enfrentando novamente a Team Liquid, e mais uma vez surpreendeu os atuais campeões do The International com uma emocionante vitória de virada por 2 a 1, garantindo a vaga nas quartas-de-final.

Team Liquid foi novamente surpreendida no duelo contra Pain e está fora da ESL One: Birmingham — Foto: Divulgação/ESL Team Liquid foi novamente surpreendida no duelo contra Pain e está fora da ESL One: Birmingham — Foto: Divulgação/ESL

Team Liquid foi novamente surpreendida no duelo contra Pain e está fora da ESL One: Birmingham — Foto: Divulgação/ESL

O duelo seguinte foi contra a Mineski, quinto melhor time do mundo no DPC e atual campeão do DotA 2 Asia Championships. No entanto, o time do sudeste asiático não foi páreo para uma inspirada paiN, que controlou o jogo quase o tempo inteiro e fechou a partida em 2 a 0. A vitória classificou os brasileiros à semifinal e garantiu a melhor campanha de um time sul-americano em um Major.

Na semifinal, a paiN enfentou uma Virtus.pro que vinha de uma campanha impecável, sem perder nenhum round. Com uma performance dominante, a equipe russa/ucraniana controlou bem o jogo e venceu por 2 a 0.

Mesmo com a derrota, a paiN ainda disputaria o terceiro lugar contra a Fnatic, e mostrou que a grande campanha não era obra do acaso. Em um duelo emocionante, especialmente na terceira e decisiva partida, a paiN venceu o duelo por 2 a 1 e encerrou a melhor campanha de sua história em um Major com um lugar no pódio e um prêmio de US$ 100 mil (R$ 366 mil).

O próximo grande desafio

Com terceiro lugar na ESL One: Birmingham, paiN conseguiu maior resultado do Brasil na história do DotA 2 — Foto: Divulgação/ESL Com terceiro lugar na ESL One: Birmingham, paiN conseguiu maior resultado do Brasil na história do DotA 2 — Foto: Divulgação/ESL

Com terceiro lugar na ESL One: Birmingham, paiN conseguiu maior resultado do Brasil na história do DotA 2 — Foto: Divulgação/ESL

Mesmo com o terceiro lugar na ESL One: Birmingham, a paiN ocupa apenas a 16ª posição no Dota Pro Circuit, o que inviabiliza uma classificação direta para o The International. Como não conseguiu a vaga para o DotA 2 Supermajor, que distribui 2.250 pontos para o DPC, sendo 1.125 para o campeão, a equipe foca todos os seus esforços em conseguir a vaga para o mundial da modalidade através do qualificatório aberto da América do Sul.

Na busca por uma vaga no TI 8, a paiN terá com principais rivais a Infamous, que se revezou ao longo de toda a temporada com a organização brasileira para representar a América do Sul nos Majors, e a SG, que embora não tenha participado de nenhum Major em 2018, é uma equipe que pode surpreender tanto a Infamous quanto a paiN em um dia inspirado.

Outra equipe que merece ser observada é a Thunder Predator, que mesmo não se classificando para nenhum Major na temporada, já eliminou a Infamous em em qualificatório regional e se mostrou um adversário duro para a própria paiN no começo do ano.

Embora pensar em um eventual título do The International ainda pareça um sonho distante, a paiN já mostrou que é capaz de enfrentar de igual para igual, e vencer, algumas das melhores equipes do mundo. E hoje não parece absurdo pensar em mais uma campanha histórica da equipe no mundial de maior premiação dos esports, principalmente se não pegar a Virtus.pro pelo caminho.

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