O que são dapps? Apps descentralizados podem revolucionar a Internet

Entenda o que são os softwares que rodam com tecnologia blockchain e como as plataformas abertas estão mexendo com as estruturas da Internet

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Por Isabela Cabral, para o TechTudo

Em ascensão nos últimos anos graças à alta da Bitcoin, a blockchain promete muito mais do que transformar os sistemas financeiros. A tecnologia por trás das moedas virtuais pode revolucionar as estruturas da Internet e atingir todo tipo de indústria. Para isso, os desenvolvedores contam com os aplicativos descentralizados, que são softwares baseados em blockchain — em essência, um mecanismo capaz de validar e preservar transações por meio de um registro compartilhado de alta segurança.

Empresas líderes mundiais, como Microsoft, Facebook e LG, já adotaram o recurso ou estão prestes a aderi-lo. O mercado financeiro, alvo inicial do criador da Bitcoin e da blockchain, investe mais de US$ 1,7 milhão por ano na tecnologia. Entenda, a seguir, como os apps descentralizados, também conhecidos como dapps, fazem a ponte entre a blockchain e os usuários.

Muitos apps descentralizados são criados com a blockchain Ethereum (Foto: Reprodução/CryptoCurry) Muitos apps descentralizados são criados com a blockchain Ethereum (Foto: Reprodução/CryptoCurry)

Muitos apps descentralizados são criados com a blockchain Ethereum (Foto: Reprodução/CryptoCurry)

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Características

A maioria dos programas conhecidos são centralizados, ou seja, são controlados por uma única entidade. Esse responsável guarda e fornece todos os dados, e todas as pessoas dependem dele para utilizar o software. Já com os dapps, a relação cliente-servidor segue um modelo completamente distribuído, o que se reflete em uma série de características.

Aplicativos descentralizados devem ter código aberto e operar de forma autônoma, sem uma autoridade em particular no controle. Qualquer alteração só é executada depois que se atinge um consenso entre os participantes. Protocolos e informações são armazenados em blockchain, protegidos por criptografia e acessíveis à rede descentralizada.

São emitidos tokens, uma espécie de ficha virtual com valor atribuído, para permitir acesso à rede e também recompensar usuários. Os tokens são gerados através de um algoritmo que incentiva a contribuição dos membros da rede. No caso da Bitcoin, o maior exemplo de app descentralizado, o processo de mineração oferece novas moedas àqueles que emprestam a capacidade de seu computador para processar transações, garantir a segurança e manter a sincronização da rede.

Blockchain é a base dos dapps (Foto: Davidstankiewicz /Wikipedia Creative Commmons) Blockchain é a base dos dapps (Foto: Davidstankiewicz /Wikipedia Creative Commmons)

Blockchain é a base dos dapps (Foto: Davidstankiewicz /Wikipedia Creative Commmons)

Segundo o documento A Teoria Geral dos Aplicativos Descentralizados, publicado em 2014 no GitHub, existem três tipos de dapps. O Tipo I consiste em aplicativos que possuem sua própria blockchain nativa, como a Bitcoin. Os de Tipo II são protocolos que usam a blockchain de um dapp de Tipo I e precisam de tokens para seu funcionamento. Por fim, os apps descentralizados do Tipo III também são protocolos e têm tokens, mas utilizam o protocolo de um dapp Tipo II.

Para ficar mais claro, podemos fazer uma analogia com os softwares comuns. Os dapps Tipo I são como sistemas operacionais — Windows, macOS, Linux. Um dapp Tipo II é similar a um programa de propósito genérico, como o Word, um processador de texto, ou o Dropbox, um gerenciador de arquivos. E os dapps Tipo III seriam aplicativos com soluções mais especializadas, como uma ferramenta de mala direta que usa um processador de texto.

Vantagens

Tudo que um programa comum pode fazer, um app descentralizado pode fazer melhor. Eles são uma maneira rápida, acessível e eficiente de processar grandes volumes de dados. Primeiro, a natureza descentralizada desses softwares proporcionam um alto nível de segurança. Já que as informações são distribuídas em um registro compartilhado, um hacker mal-intencionado teria que acessar todas as máquinas conectadas à rede para conseguir um ataque.

Essa segurança também está na imunidade a falhas físicas, pois os dados não ficam guardados em um data center, sujeito a falta de energia e outros defeitos. Transparência é mais um ponto importante: todas as transações realizadas em uma blockchain podem ser verificadas com facilidade. Além disso, nesse tipo de ecossistema, o envolvimento da comunidade é encorajado. Todo mundo pode contribuir para a gestão de um dapp e ainda pode ser recompensado por isso, então é do interesse das pessoas participar ativamente e produzir.

Exemplos

O caso mais popular de aplicativo descentralizado é a criptomoeda Bitcoin. Outro exemplo conhecido é o Ethereum. Esse dapp, porém, é muito mais abrangente que sua moeda virtual, o Ether. Trata-se de uma plataforma aberta voltada para a execução de contratos inteligentes, usada como base para outros softwares das mais diversas categorias. Ou seja, o Ethereum é um dapp Tipo I muito utilizado por programas descentralizados do Tipo II. Mas há outros exemplos para ilustrar uma ideia mais concreta das aplicações da blockchain.

Golem: É um mercado global de poder de processamento de máquina, criado com Ethereum. Por meio do sistema, qualquer um que tenha capacidade computacional ociosa pode cedê-la à rede Golem, em troca de tokens. Quem precisa, compra. Já foi usado por artistas para renderizar animações feitas com computação gráfica.

Golem é um mercado global de poder de processamento (Foto: Reprodução/Crypto New Network) Golem é um mercado global de poder de processamento (Foto: Reprodução/Crypto New Network)

Golem é um mercado global de poder de processamento (Foto: Reprodução/Crypto New Network)

Sia: Faz o mesmo que o Golem, mas com armazenamento de dados. Usuários que possuem espaço sobrando no hard drive podem vendê-lo. Para os que desejam adquirir uns gigabytes e salvar seus arquivos, o preço é baixo, se comparado aos serviços tradicionais de armazenamento na nuvem. A Sia tem blockchain própria.

Aragon: Plataforma de administração descentralizada construída em Ethereum. O objetivo do dapp é criar organizações autônomas descentralizadas (DAO, na sigla em inglês) privadas, incluindo arbitragem, gerenciamento de token e transferências, atribuições de função, captação de recursos e muito mais. O Aragon Network Token (ANT) permite a participação das pessoas na operação e tomada de decisões da rede.

CryptoKitties: Jogo em que os usuários colecionam e criam gatinhos virtuais, que podem ser bem caros. Cada gato é definido por um código único, que define sua aparência e personalidade. Os jogadores podem até usar seus animais para procriar e gerar novos CriptoKitties. A brincadeira, também desenvolvida com Ethereum, já movimentou mais de US$ 40 milhões.

Jogo usa blockchain para gerar gatinhos virtuais únicos (Foto: Reprodução/CryptoKitties) Jogo usa blockchain para gerar gatinhos virtuais únicos (Foto: Reprodução/CryptoKitties)

Jogo usa blockchain para gerar gatinhos virtuais únicos (Foto: Reprodução/CryptoKitties)

Peepeth: Alternativa descentralizada ao Twitter, imune a censura. A rede social funciona de modo bastante parecido com o microblog, mas tudo fica registrado em blockchain, em vez de nos servidores de uma companhia. É preciso pagar em Ether para se registrar no Peepeth e também a cada ação realizada. São valores baixos, equivalentes a poucos centavos.

Desafios

Apesar de todas as vantagens da blockchain e do crescimento dos apps descentralizados, ainda há obstáculos para uma adesão em massa. A começar pela criação de novos dapps: desenvolvedores precisam enfrentar processos complexos de armazenamento de informações, manutenção da sistema e depuração.

Além disso, como ainda são poucos os usuários de tokens e navegadores baseados em blockchain, fica difícil atrair um número suficiente de pessoas para o sucesso de um software. Outro desafio é que, mesmo sem uma base de usuários clara, os criadores desses aplicativos precisam vender, no início, tokens que dão acesso aos serviços.

Desenvolver softwares descentralizados pode ser complicado (Foto: Reprodução/Ethereum World News) Desenvolver softwares descentralizados pode ser complicado (Foto: Reprodução/Ethereum World News)

Desenvolver softwares descentralizados pode ser complicado (Foto: Reprodução/Ethereum World News)

Especialistas, no entanto, são otimistas. De acordo com um relatório recente da Juniper Research, uma empresa britânica de inteligência de mercado, haverá uma expansão significativa dos dapps durante o próximo ano. Os pesquisadores acreditam que aqueles que lidam com verificação de identidade ou rastreamento da proveniência de produtos são os mais promissores.

A ideia é que a aplicação de blockchain se torne invisível e o usuário comum possa usar um programa descentralizado como usa qualquer outro, no computador, no smartphone, no smartwatch.

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