Por Raquel Freire, para o TechTudo


Pacientes estão se baseando em selfies com filtros do Snapchat e Instagram para realizar pedidos de cirurgias plásticas. Esse é o relato de médicos americanos da área, que afirmam que o número de pessoas interessadas em se transformar nas suas versões "perfeitas" está crescendo a cada dia. O fenômeno recebeu o nome de "dismorfia do Snapchat", dado pelo médico britânico Tijion Esho, um dos primeiros a apontar a tendência.

Os pedidos de intervenção cirúrgica têm como objetivo aplicar as mudanças feitas pelos softwares de filtro facial: olhos e cílios maiores, rosto mais fino e pele mais suave — o chamado efeito blur. De acordo com artigo escrito pela diretora do Centro de Cosméticos e Laser da Universidade de Boston, Neelam Vashi, em co-autoria com duas outras médicas, selfies e filtros podem piorar os sintomas de pessoas que foram diagnosticadas ou são propensas ao Transtorno Dismórfico Corporal (TDC).

Filtros de Snapchat e Instagram estão levando pacientes a fazer cirurgia plástica, alegam médicos — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo Filtros de Snapchat e Instagram estão levando pacientes a fazer cirurgia plástica, alegam médicos — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo

Filtros de Snapchat e Instagram estão levando pacientes a fazer cirurgia plástica, alegam médicos — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo

Quer comprar celular, TV e outros produtos com desconto? Conheça o Compare TechTudo

O Dr. Tijion Esho percebeu que, nos últimos cinco anos, as pessoas passaram a mostrar no consultório fotos próprias em que estavam "filtradas", algo que não acontecia antes. "Os pacientes entravam nas clínicas com fotos de celebridades ou modelos que eles admiravam e com quem queriam parecer", contou o médico ao The Independent.

Já a Dra. Neelam Vashi acrescenta que o novo fenômeno tem potencial mais danoso, pois torna mais difícil para o paciente discernir a realidade da fantasia. "Eu posso facilmente aceitar não parecer com uma celebridade, mas é muito mais difícil aceitar que não posso parecer uma versão aprimorada de mim mesma [obtida com] um filtro de mídia social", explicou a pesquisadora em entrevista ao Buzzfeed News.

O cerne do problema está exatamente nas expectativas irrealistas que esses pacientes demonstram ter sobre a própria aparência. O relato de uma paciente — Natalie, que teve o nome alterado pelo site Independent — retrata bem esse quadro. "Nunca fiquei feliz em tirar fotos, mas usar filtros fez com que eu me sentisse bonita", disse a jovem, que procurou o Dr. Esho mas não foi atendida por ele. O médico a encaminhou para acompanhamento psicológico profissional.

Jovens são alvos mais recorrentes

O Diretor de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, Patrick Byrne é um dos médicos que vê o problema atingir principalmente os jovens. Para ele, a frequência e facilidade com que as fotos são postadas têm causado obsessão pela aparência nas redes sociais, o que leva as pessoas a se frustrarem com sua própria pele na vida real e, assim, buscarem cirurgias que as transformem no seu "eu" online.

Imagens perfeitas geradas por filtros levam jovens a fazer cirurgia plástica — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo Imagens perfeitas geradas por filtros levam jovens a fazer cirurgia plástica — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo

Imagens perfeitas geradas por filtros levam jovens a fazer cirurgia plástica — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo

Tijion Esho parece concordar com o aspecto geracional da "dismorfia do Snapchat": "as pessoas nascem em uma era de plataformas sociais, em que seus sentimentos de autoestima podem ser baseados puramente no número de curtidas e seguidores que elas têm, e que está diretamente ligado a quão bonitas elas parecem ou o quão ótimas são essas imagens", avaliou. "A geração de hoje não pode escapar do efeito Truman". O nome faz referência ao filme O Show de Truman, de 1998, em que o personagem principal vive, sem saber, uma realidade simulada dentro de um reality show em que é observado constantemente por uma plateia.

Além da opinião dos profissionais da área de saúde, um estudo de 2015 descobriu que meninas jovens que gostam de compartilhar selfies online e/ou editar as imagens antes de compartilhá-las são mais propensas a ter preocupações relacionadas à alimentação e ao corpo do que aquelas que não o fazem. Segundo uma pesquisa conduzida pelo Royal Society for Public Health (RSPH), o Instagram é a pior rede para saúde mental de jovens, podendo causar ansiedade, depressão e insatisfação com o próprio corpo.

Transtorno Dismórfico Corporal e "dismorfia do Snapchat" não são sinônimos

O Transtorno Dismórfico Corporal é um diagnóstico psiquiátrico catalogado na Classificação Internacional de Doenças (CID) sob código F45.2. Ele caracteriza-se por uma preocupação duradoura com a sua aparência física, que pode se arrastar por anos ou mesmo pela vida toda.

Pessoas com esse quadro clínico costumam olhar no espelho com muita frequência e podem passar horas por dia tentando corrigir o suposto defeito. O tratamento pode incluir terapia e medicação antidepressiva. De acordo com dados do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, o Brasil tem mais de 150 mil casos de TDC por ano.

Por outro lado, a chamada "dismorfia do Snapchat" não é um diagnóstico médico reconhecido. Não há estudos reais até o momento que mostrem uma ligação direta entre filtros e apps de imagem com o aumento dos casos de TDC. "Filtros do Snapchat não estão causando a cirurgia plástica, e dismorfia do Snapchat não é o TDC, mas isso pode ser um gatilho, e [o artigo] está apenas aumentando o entendimento", disse Dra. Vashi.

O que existe é uma percepção do fenômeno pela classe médica. Uma pesquisa feita pela Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial (AAFPRS) em 2017 revelou que 55% dos cirurgiões relataram ter visto pacientes que queriam alterar sua aparência para melhorar as selfies. Em 2016, esse índice tinha sido de 42%.

Chamada "dismorfia do Snapchat" não é sinônimo de Transtorno Dismórfico Corporal, mas pode acender alerta — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo Chamada "dismorfia do Snapchat" não é sinônimo de Transtorno Dismórfico Corporal, mas pode acender alerta — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo

Chamada "dismorfia do Snapchat" não é sinônimo de Transtorno Dismórfico Corporal, mas pode acender alerta — Foto: Carolina Ochsendorf/TechTudo

Responsabilidade médica

Um fator essencial nesse quadro, segundo Dr. Esho, é que profissionais tenham ética ao lidar com esse tipo de paciente. O processo de consulta deve ser rigoroso e buscar sinais que possam indicar qualquer dismorfia corporal, em que o resultado esperado do procedimento é completamente irrealista. "Tratar alguém assim irá iniciá-lo em uma jornada em que nunca será feliz e será necessário apoio psicológico", opina Dr. Esho.

Dra. Vashi também bate nessa tecla. "Para as pessoas com TDC, a cirurgia geralmente não ajuda a aliviar a ansiedade sobre a aparência física", relata. Ela ressalta que o problema não está em tentar melhorar o próprio corpo, mas tornar essa busca obsessiva.

Via Independent, JAAMA Network, Gstatic, SUS, Buzzfeed News

Snapchat: por que não recebo notificação de screenshot? Tire dúvidas no Fórum do TechTudo.

Os melhores Lenses do Snapchat

Os melhores Lenses do Snapchat

MAIS DO TechTudo