Redes sociais

Por Ana Letícia Loubak, para o TechTudo


O Facebook é capaz de coletar dados de pessoas que nunca se cadastraram na rede social, e também de seus usuários mesmo se estiverem deslogados. É isso que afirma o relatório da ONG britânica Privacy International, divulgado no último domingo (30) durante a conferência de tecnologia 35C3. Segundo a pesquisa, alguns aplicativos instalados em celulares Android enviam os dados para a rede social. A partir dessas informações, a empresa de Mark Zuckerberg pode traçar um perfil do dono do smartphone.

Recolhimento de dados de não usuários entra na lista das polêmicas que questionam a transparência do Facebook — Foto: Luciana Maline/TechTudo Recolhimento de dados de não usuários entra na lista das polêmicas que questionam a transparência do Facebook — Foto: Luciana Maline/TechTudo

Recolhimento de dados de não usuários entra na lista das polêmicas que questionam a transparência do Facebook — Foto: Luciana Maline/TechTudo

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A Privacy International afirma que esse compartilhamento de informações acontece a partir do Facebook Software Development Kit (SDK). Também conhecido “devkit”, o SDK é um conjunto de ferramentas de desenvolvimento e códigos pré-gravados que pode ser usado pelos desenvolvedores para criar aplicativos em determinado sistema operacional. Por exemplo, o SDK do Facebook pode fornecer a alternativa “Login com o Facebook” como forma de autenticação em um aplicativo, além de oferecer Analytics (dados, tendências e insights agregados) do público que interage com o app.

O relatório avaliou 34 aplicativos disponíveis na Google Play, cada um com uma média de 10 a 500 milhões de instalações, no período de agosto a dezembro de 2018. Segundo o relatório, ao menos 61% dos aplicativos transferem dados automaticamente para o Facebook no momento em que o usuário abre o app. Isso acontece mesmo se a pessoa nunca tiver se cadastrado na rede social, ou até se o usuário estiver deslogado no momento.

Desse grupo de usuários, são recolhidas informações como: o uso do aplicativo e cada vez que ele é acessado, além do tipo de dispositivo usado e sua geolocalização aproximada, com base em configurações de idioma e fuso horário. Aplicativos populares de música, como Spotify e Shazam, de viagem, como o TripAdvisor e o Skyscanner, e de estudos (Duolingo) estão entre os que compartilham dados dos usuários.

Relatório denuncia que Facebook rastreia ação de usuários por aplicativos para Android — Foto: Melissa Cruz/TechTudo Relatório denuncia que Facebook rastreia ação de usuários por aplicativos para Android — Foto: Melissa Cruz/TechTudo

Relatório denuncia que Facebook rastreia ação de usuários por aplicativos para Android — Foto: Melissa Cruz/TechTudo

“Se combinados, os dados de diferentes aplicativos podem fornecer uma imagem refinada e íntima das atividades, interesses, comportamentos e rotinas das pessoas, alguns dos quais podem revelar dados de categorias especiais, incluindo informações sobre a saúde ou a religião”, afirmou a Privacy International em relatório. “Por exemplo, um usuário que instalou os seguintes aplicativos que testamos — Qibla Connect (app muçulmano de orações), Period Tracker Clue (app de registro de ciclos menstruais), Indeed (app de pesquisa por vagas), My Talking Tom (app infantil) —, seria potencialmente descrito como mulher, muçulmana, mãe e em busca de emprego.”

“A razão pela qual focamos no Facebook, e não no Google ou em quaisquer outras tracking companies, é porque o fato de aplicativos como um registrador de ciclos menstruais ou uma lanterna LED compartilharem dados com o Facebook será uma surpresa para muitas pessoas, em especial para aquelas que decidiram não fazer parte da comunidade do Facebook”, disse Frederike Kaltheuner, pesquisador da Privacy International, durante a 35ª edição do Chaos Communication Congress (35C3).

O relatório indicou ainda que alguns aplicativos reportam rotineiramente à rede social. “Como não há transparência por parte do Facebook, é impossível saber com certeza como os dados que descrevemos neste relatório estão sendo usados”, atestou a Privacy International.

Facebook pode traçar perfis de não usuários a partir de aplicativos instalados — Foto: Nicolly Vimercate/TechTudo Facebook pode traçar perfis de não usuários a partir de aplicativos instalados — Foto: Nicolly Vimercate/TechTudo

Facebook pode traçar perfis de não usuários a partir de aplicativos instalados — Foto: Nicolly Vimercate/TechTudo

A resposta do Facebook

Em abril de 2018, o Facebook já havia admitido que recolhe dados de não usuários. O pronunciamento veio em continuidade aos esclarecimentos de Mark Zuckerberg ao Congresso americano, devido principalmente ao escândalo da Cambridge Analytica. Segundo o Diretor de Gerenciamento de Produto do Facebook David Baser a rede social rastreia dados de usuários deslogados e de não usuários por três razões: fornecer serviços diretamente, manter as informações do Facebook seguras e melhorar os produtos e serviços da companhia.

“Quando você visita um site ou aplicativo que usa nossos serviços, recebemos informações mesmo que você tenha feito logout ou não tenha uma conta do Facebook. Isso ocorre porque outros aplicativos e sites não sabem quem está usando o Facebook ”, escreveu o Diretor em comunicado no blog da rede social. Dentre os serviços mencionados por Baser estão plugins sociais (como botões de curtir e compartilhar), o recurso Facebook Login e as ferramentas Facebook Analytics e Facebook Ads.

Facebook declarou que a equipe de desenvolvedores é responsável por coleta de dados — Foto:  Aline Batista/TechTudo Facebook declarou que a equipe de desenvolvedores é responsável por coleta de dados — Foto:  Aline Batista/TechTudo

Facebook declarou que a equipe de desenvolvedores é responsável por coleta de dados — Foto: Aline Batista/TechTudo

Em resposta à Privacy International, a rede social ressaltou que a responsabilidade de configurar o SDK está nas mãos dos desenvolvedores. “Os desenvolvedores podem optar pela coleta de eventos automática, por não coletá-los de maneira geral ou por prorrogar a coleta até que haja consentimento do usuário, dependendo das suas circunstâncias particulares”, escreveu o Facebook. A plataforma de Zuckerberg reconheceu, porém, que a maioria dos desenvolvedores usa as configurações padrões do SDK, ou seja, o compartilhamento imediato de informações assim que o aplicativo é executado.

Vale ressaltar que em junho de 2018 o Facebook lançou um novo recurso em seu SDK que atrasa o chamado “login automático de eventos", o que dá aos desenvolvedores mais flexibilidade para desativar o recurso ou solicitar permissão ao usuário para coletar dados. No entanto, mesmo com as alterações feitas pelo Facebook, o SDK continua reportando um sinal quando aplicativos são abertos, inclusive se o compartilhamento de dados do SDK estiver desativado.

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