Redes sociais

Por Paulo Alves, para o TechTudo


Conversas de e-mail entre funcionários do Facebook, divulgadas nesta sexta-feira (23), revelam que a rede social já sabia do caso Cambridge Analytica três meses antes que a situação veio à tona. A troca de mensagens envolve as primeiras descobertas sobre a violação de dados de usuários, ocorridas em setembro de 2015. Em depoimento perante o Congresso dos Estados Unidos, Mark Zuckerberg disse que a empresa só havia descoberto o problema quando o assunto se tornou público, em dezembro daquele ano.

Os e-mails internos do Facebook foram obtidos pelo repórter Dylan Byers, da emissora americana NBC News. Horas depois da divulgação, a rede social confirmou a veracidade do documento, mas garantiu que ele “não traz informação nova substancial”. Em nota, o Conselheiro Geral Adjunto do Facebook, Paul Grewal, defende que, no depoimento, Zuckerberg se referiu apenas à data em que ficou sabendo que os dados haviam sido vendidos à Cambridge Analytica.

Em e-mails, funcionários do Facebook discutem possível violação da Cambridge Analytica três meses antes que caso veio à tona — Foto: Divulgação/Facebook Em e-mails, funcionários do Facebook discutem possível violação da Cambridge Analytica três meses antes que caso veio à tona — Foto: Divulgação/Facebook

Em e-mails, funcionários do Facebook discutem possível violação da Cambridge Analytica três meses antes que caso veio à tona — Foto: Divulgação/Facebook

O Facebook não estava ciente de que Kogan havia vendido dados para a Cambridge Analytica até dezembro de 2015. Esse é um fato que testemunhamos sob juramento, que descrevemos para nossos principais reguladores e com o qual nos mantemos firmes - Paul Grewal, Facebook.

As mensagens mostram que funcionários do Facebook ficaram sabendo que aplicativos estavam usavam as APIs públicas da rede social para coletar dados de usuários e, possivelmente, quebrar os termos de uso da plataforma. O conteúdo da comunicação mostra também que eles sabiam que se tratava de uma atividade ligada à campanha política. Um e-mail de 22 de setembro menciona a necessidade de esclarecer informações para “clientes do setor político” e cita, pela primeira vez, a Cambridge Analytica.

Na nota oficial, o porta-voz do Facebook compara o assunto dos e-mails a rumores de Internet. "Esse era o tipo de dados que você podia ver no perfil do Facebook de alguém, mesmo que você não seja amigo da pessoa. Um problema sério, mas frequente na Internet", explica Grewal. No entanto, o material dá a entender que já havia uma discussão interna sobre a potencial invasão de privacidade causada pelo aplicativo desenvolvido pelo pesquisador Aleksandr Kogan. Do mesmo modo, fica evidente que os funcionários da empresa estavam lidando com algo novo, cuja prática a política interna da empresa ainda não previa.

Em 11 de dezembro, quando o caso veio à tona após reportagem do jornal The Guardian, um funcionário solicitou que a revisão do caso da Cambridge Analytica fosse “acelerada”. Na época, o Facebook disse que havia descoberto o problema por meio da imprensa e que só então havia ficado sabendo que Kogan havia vendido os dados para a Cambridge Analytica.

A ligação da coleta de dados e da venda à consultoria de marketing político com as campanhas pró-Trump e pró-Brexit só foram reveladas dois anos depois, em novas reportagens do New York Times e The Guardian.

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Relembre o caso Cambridge Analytica

Em março de 2018, New York Times e The Guardian revelaram que a empresa de marketing político britânica Cambridge Analytica obteve ilegalmente dados de cerca de 50 milhões de perfis de usuários do Facebook nos Estados Unidos para alimentar a campanha de marketing de Donald Trump para a presidência, em 2016. Mais tarde, o número subiu para 87 milhões de contas.

As informações foram coletadas por meio de um teste de personalidade desenvolvido pelo pesquisador Aleksandr Kogan e vendidas à empresa de marketing. Os dados teriam sido usados para alimentar uma ferramenta de hiper-segmentação de publicidade capaz de traçar um perfil psicológico dos cidadãos para orientar o voto.

Segundo o ex-funcionário da Cambridge Analytica, Christopher Wylie, os dados de usuários do Facebook e a ferramenta da empresa britânica também deram subsídio para a criação de notícias falsas espalhadas em banners de publicidade na rede social, com posts patrocinados. O sistema foi utilizado tanto em campanhas de publicidade na Internet quanto em empreitadas presenciais: agentes da campanha de Donald Trump teriam ido de porta em porta em estados-chave munidos de dados pessoais dos eleitores para persuadi-los.

Mais tarde, foi revelado elo entre a Cambridge Analytica e a campanha a favor do voto “Sim” para a saída do Reino Unido da União Europeia, movimento conhecido como Brexit. No entanto, a ruptura ainda não foi concretizada até hoje devido ao impasse político em torno de um acordo com demais países do bloco.

Desde que o caso veio a público, a rede social redesenhou sua política de privacidade e adotou medidas para evitar que aplicativos na plataforma acessem dados de usuários indevidamente. Atualmente, a consultoria de marketing político não tem clientes conhecidos. Já o Facebook entrou em acordo com a Justiça dos EUA para pagar US$ 5 bilhões em indenizações por conta de violações de privacidade de usuários.

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