Por Rubens Achilles, do home office


A estudante brasileira Karina Tronkos, de 23 anos, foi uma das vencedoras do Swift Student Challenge da WWDC 2020, conferência mundial para desenvolvedores da Apple que começa nesta segunda-feira (22). Graduanda em Ciência da Computação na PUC-Rio e UX Designer da Globo.com, ela faz parte, pela quarta vez consecutiva, de um grupo de 350 estudantes de 41 países que foram selecionados após submeter um aplicativo para avaliação.

Nos últimos três anos, a estudante foi até a Califórnia e acompanhou a feira conhecida por anunciar novos sistemas operacionais da fabricante do iPhone — desta vez, a conferência será feita totalmente online. O TechTudo conversou com Karina, que destaca a honra por representar o Brasil e servir de inspiração para que mulheres entrem no universo da tecnologia. A estudante também mantém um perfil no Instagram (@nina_talks) para a produção de conteúdo sobre design e tecnologia.

Karina Tronkos tira selfie com Tim Cook, CEO da Apple, na WWDC 2018 — Foto: Arquivo Pessoal/Karina Tronkos

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Qual é a sua sensação ao representar o Brasil em um evento como a WWDC?

É uma sensação de um trabalho reconhecido que eu nunca imaginei que teria antes. Eu nunca achei que a Apple iria avaliar um trabalho meu e que eu seria escolhida em meio a milhares de submissões. É algo inexplicável, meu coração ficou a mil durante várias horas, não sei nem dizer. É super maneiro receber mensagens de tantas meninas que falam que se inspiram em mim em relação à tecnologia, não só do Rio de Janeiro mas de vários lugares. Recebi ontem de uma menina da Paraíba falando que "não tem meninas em tecnologia onde eu moro e ver você me inspira pra caramba". Então tem tanto o lado de ter um trabalho reconhecido pela Apple como também de servir de inspiração para as outras pessoas daqui para a frente.

"Trabalho reconhecido", diz Karina sobre representar o Brasil na WWDC — Foto: Arquivo Pessoal/Karina Tronkos

Como é estar presencialmente na WWDC?

As pessoas estão acostumadas a saber só do keynote, no máximo do State of the Union ou do Design Awards, só que é uma semana inteira de eventos, de palestras. A gente fica sempre escolhendo aonde quer ir, e durante o dia tem essas palestras. A gente também pode marcar horários com engenheiros da Apple para poder tirar dúvidas, mostrar os nossos projetos, então a gente consegue marcar um one-on-one. A gente esbarra com pessoas no corredor. Eu consegui falar com o John Geleynse, que é o evangelista de tecnologia e design da Apple e apresenta o Design Awards, conversei com ele. É um networking bizarro, a gente sai de lá com cartões de visita de pessoas do mundo inteiro procurando pessoas de desenvolvimento iOS e tem vários eventos extras para os scholars.

No próprio domingo a gente tem sempre um evento a mais. O Tim Cook foi em 2017 e 2018 e apresentou para a gente, eu até consegui tirar uma selfie com ele, meu Deus, tenho uma selfie com o Tim Cook! A gente tem até uma roda para conversar com recrutadores, só para os estudantes. Tem também as palestras do almoço que, para mim, são bizarras porque são as que não ficam gravadas. Teve um ano em que veio a Michelle Obama dar uma palestra para a gente.

É uma diversão sem fim, e tem muito brasileiro que passa, isso que eu acho muito impressionante de as pessoas não saberem. Ano passado, no Scholarship, passaram 85 brasileiros de 350. Foi o primeiro ano em que passaram mais brasileiros do que americanos. Eu até comecei com uns amigos, na semana passada, uma iniciativa para dar visibilidade para essas pessoas. A gente está criando um repositório, fazendo um caródromo de todo mundo com os projetos que mandaram. Tem link no GitHub, vídeo no YouTube. A gente criou um formulário, o pessoal está preenchendo e está sendo bem maneiro, porque passa muito brasileiro.

Link do repositório: https://www.notion.so/ninatalks/e402b1a1222f4297889d595ae0bfe650?v=812661c53bee470d82e6f51049aa13dd

Karina e Tim Cook na WWDC 2018 — Foto: Arquivo Pessoal/Karina Tronkos

Como é o processo de produção do aplicativo para o concurso?

Faz quatro anos, desde que eu aplico, que é sempre um Swift Playground. Tudo que eles falam é que você tem que um Swift Playground interativo de três minutos, e essas são todas as instruções que eles dão. O Swift Playground é como se fosse um aplicativo normal, ou para iPad ou para MacBook, que tem uma parte que é visual e uma parte de texto em que você pode colocar código e a pessoa consegue interagir. É uma parada bem educacional, você consegue até baixar uns templates da Apple e testar. Só que não é um aplicativo normal porque a gente não consegue submeter para uma loja para subir e as pessoas baixarem. A gente só consegue botar no GitHub ou no YouTube. Porque as pessoas ficam "bota aí o link para eu baixar" e eu fico "ai, não tem como".

Como é interativo e de três minutos, a gente pode fazer de qualquer coisa, o que é bom e o que é ruim, porque a gente pode fazer de qualquer coisa de que a gente goste e é difícil escolher alguma coisa em meio a 1 bilhão de temas diferentes. Eu, por exemplo, tento sempre ir para o lado educativo, educacional e explorar algum tema que a Apple valoriza. Em 2017 eu fiz ensinando o corpo humano para crianças, em 2018 fiz sobre daltonismo e a importância de aplicativos acessíveis. Em 2019 eu fiz sobre uma das mulheres da Nasa, que foi responsável pelo lançamento do Hubble, e esse ano eu fiz sobre a Estação Espacial, falando sobre a importância de a gente fazer projetos que sejam colaborativos entre várias nações, que é algo de que a gente está precisando muito, então encaixou bem com o contexto atual.

A gente tem dez dias desde que eles lançam até o dia que a gente tem para mandar, e aí é uma correria bizarra, porque é individual, então a gente tem que fazer todo o brainstorming, toda a ideia, todo o visual, todo o código. Eu ainda tento testar muito com as pessoas, porque a gente tem dez dias, fica viciado naquela coisa, então já sabe o caminho feliz de fazer tudo. Então eu chamo a minha mãe, chamo o meu pai e falo "testa aí, onde você clicaria?". Eles acham vários bugs, clicam em lugares em que eu nunca pensei que alguém ia clicar antes. É se colocar em dez dias na mente de um avaliador para entender se eles vão conseguir navegar direitinho e entender o que você quer mostrar de valor.

Projeto da estudante em 2020 foi sobre a Estação Espacial Internacional — Foto: Reprodução/Karina Tronkos

O que fez você se interessar pelo universo da tecnologia e pelo UX Design?

Meu primeiro estágio foi na Apple Developer Academy, que é a iniciativa da Apple com várias universidades do Brasil para fomentar desenvolvimento iOS. Eu sempre fui uma pessoa que gostou dos dois lados. Antes de entrar na faculdade eu até pensei se eu faria Computação ou Design. Lá eu me encantei por essa área de UX Design, eu falei "caramba, a gente consegue tornar palpáveis todas as nossas ideias", então foi lá que eu tive esse contato e falei "eu quero migrar de área". Eu gosto de entender de programação, mas eu me vejo muito mais na parte de pesquisa com o usuário e conseguindo tangibilizar isso depois em visual. Eu fiquei dois anos na Apple Developer Academy, que foi onde eu descobri que era possível aplicar para o Scholarship, que a maioria das pessoas nem sabe, e aí de lá meu primeiro estágio na Globosat já foi em UX, foi lá que eu fiz a minha transformação.

O mercado da tecnologia ainda tem pouco espaço ocupado pelas mulheres. O que suas conquistas representam para você?

Acho que a gente muitas vezes não tem a dimensão de quanto isso impacta em outras meninas. Eu participo de várias iniciativas, sou convidada para várias iniciativas para justamente falar da importância de ter meninas nesses espaços, porque eu vejo que a maioria delas sente uma cobrança muito grande que elas mesmas muitas vezes colocam, de que elas têm que ser extremamente perfeitas no que elas fazem. Se elas estão começando a programar e não se acham boas, elas simplesmente largam. Então, ter pessoas que estão conquistando coisas um pouco mais para a frente de onde elas estão é algo super inspirador para elas, eu não imaginava que seria tanto. Eu vejo pessoas aplicando para estágio por que eu falei "você está conseguindo, o que você fez agora está perfeito, o seu projeto está super bom, aplica para o estágio" e a pessoa consegue. É realmente um empurrãozinho de que elas precisam, porque tem muito poucas.

Eu faço aula na PUC, e lá já tem muito mais meninas do que o normal em Computação, e eu ainda faço aula em que eu sou a única ou tem duas. É inacreditável. Só que eu não sinto, pelo menos lá na faculdade ou no trabalho, um ambiente tóxico. As pessoas me tratam super bem, mas faltam meninas. Então é super importante cada vez ter mais iniciativas voltadas para isso para estimular as meninas a entrar. Eu estou nessa área basicamente porque o meu pai fez Computação, meu irmão faz Computação, então eu sempre tive esse estímulo. A pessoa simplesmente do nada ter um estalo e dizer "vou fazer", sendo que ela não vê ninguém lá, é algo meio estranho, como que isso vai acontecer? Então a gente precisa ter alguém para se espelhar.

Que recado você daria a outra mulheres que desejam entrar nesse mercado?

Eu acho que é super importante a gente buscar uma rede de apoio, buscar outras meninas que ou estão no mesmo momento que você na carreira ou um pouco mais para a frente, para você conseguir trocar ideia e ver que você tem capacidade, sim, que você consegue, sim, chegar aonde você quer. Ter outras meninas te ajudando e conversando com você eu acho que é algo super importante, te mantém motivada e te mantém empolgada para chegar aonde você quer.

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