Internet

Por Raquel Freire, para o TechTudo


Desde que Mark Zuckerberg anunciou a mudança de nome do Facebook para Meta, muito se tem debatido sobre o que é o metaverso. Considerado o "próximo capítulo da Internet", o mundo virtual onde as pessoas poderão interagir e realizar qualquer atividade — trabalhar, jogar, fazer compras, se divertir — é a mais recente aposta das gigantes da tecnologia e promete dar novos contornos à comunicação humana.

Empresas como Microsoft e Roblox também estão investindo pesado para disputar uma fatia dessa próxima etapa da rede mundial, em que estaremos não apenas vendo os conteúdos, mas dentro deles. Nas próximas linhas, o TechTudo lista sete perguntas e respostas sobre o metaverso, para que você entenda o que é e como funciona o mundo virtual que pode tomar conta da Internet nos próximos anos.

Metaverso: projeto ambicioso de construção de ambiente virtual imersivo fez Facebook mudar de nome; entenda — Foto: Reprodução/Facebook

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1. O que é o metaverso?

O metaverso é um universo virtual onde as pessoas vão interagir entre si por meio de avatares digitais. Esse mundo será criado a partir de diversas tecnologias, como realidade virtual, realidade aumentada, redes sociais, criptomoedas etc.

A ideia é que o metaverso seja uma espécie de Internet 3D, onde comunicação, diversão e negócios existirão de forma imersiva e interoperável. A principal dificuldade para descrever esse universo está no fato de que ele ainda não existe — mas as gigantes de tecnologia estão investindo pesado para que isso mude em pouco tempo.

Horizon Workrooms cria sala de conferências completa para interagir e trabalhar na realidade virtual; plataforma é o primeiro passo na construção do metaverso — Foto: Divulgação/Facebook

O termo metaverso (metaverse, em inglês) apareceu pela primeira vez em "Snow Crash", livro de ficção científica escrito por Neal Stephenson em 1992. Nele, as pessoas usam o metaverso para escaparem de uma realidade distópica.

Não é de hoje que essa e outras obras do autor têm servido de inspiração para o mundo real. Vale mencionar que Neal Stephenson trabalhou como consultor da Blue Origin, empresa de astronáutica de Jeff Bezos, desde sua fundação até 2006. Atualmente, o novelista ocupa o cargo de "futurista chefe" da empresa de realidade virtual Magic Leap.

2. Como funciona o metaverso e o que é possível fazer lá?

No futuro metaverso, as pessoas poderão reproduzir todos os aspectos da vida no mundo virtual. Em comunicado à imprensa na ocasião do anúncio da mudança de Facebook para Meta, Mark Zuckerberg explicou o que será possível fazer no metaverso da seguinte forma:

"Você será capaz de fazer quase tudo que você possa imaginar — reunir-se com amigos e família, trabalhar, aprender, brincar, fazer compras, criar —, bem como experiências completamente novas que realmente não se encaixam na forma como pensamos sobre computadores ou telefones hoje."

Usuário fora do metaverso veria contato na versão 3D — Foto: Reprodução/Meta

Para dar exemplos concretos, suponha que você tem um avatar no metaverso da Meta. Esse avatar assiste a uma sessão de cinema e, ao sair, compra um livro em uma banca — tudo virtualmente, é claro. O bilhete, o livro e as passagens, assim como todas as demais coisas, são pagas com criptomoedas. Mais tarde, ao entrar no Roblox, um amigo pede o livro digital emprestado, e você concede o favor.

Vale ressaltar, porém, que isso só será possível se todas as plataformas forem compatíveis entre si. Os avatares, os livros, os ingressos — tudo será mantido ao passar do Facebook para o Roblox, e daí para o Microsoft Teams, e então para o WhatsApp.

Conceito de WhatsApp no metaverso — Foto: Reprodução/Meta

Aliás, o mensageiro da Meta já está neste caminho. O vice-presidente da companhia, Andrew Bosworth, revelou com exclusividade ao TechTudo que uma espécie de WhatsApp 3D já está sendo desenvolvido.

"Nós estamos muito animados em trazer o WhatsApp para metaverso. [...] Ele faz parte do tecido social da vida cotidiana de muita gente. Seria ingênuo de minha parte pensar que um usuário colocaria óculos VR na cabeça e, ao receber uma mensagem via WhatsApp, teria que retirar essa tela gigante para checar a informação numa tela diferente, do smartphone", disse o executivo.

3. Metaverso e realidade virtual são a mesma coisa?

Não. Realidade virtual (RV) é o uso de um sistema computacional para criar ambientes virtuais capazes de enganar os sentidos humanos — visão, audição, tato —, de maneira a possibilitar uma imersão completa nesse mundo simulado.

A tecnologia é parte central no metaverso, uma vez que é ela quem vai garantir o transporte a esse outro mundo digital. Mas a RV não é tudo. A construção desse universo amplo e integrado dependerá de muitas outras tecnologias, incluindo criptomoedas e NFTs.

4. Qual a relação entre NFTs e o metaverso?

NFT é um tipo de token baseado em blockchain e usado para provar a propriedade de itens digitais. A sigla vem do inglês "Non-fungible Token" ("Token não-fungível", em tradução livre), que deriva do fato de esses tokens certificarem a exclusividade e a originalidade dos objetos virtuais.

Atualmente os NFTs são mais conhecidos pelo seu emprego na compra de arte virtual, mas isso não significa que a tecnologia se restringe a essa finalidade. Os tokens não-fungíveis poderão ser empregados para dar aos usuários acesso controlado a diversas plataformas, funcionando como uma chave de ingresso e trânsito no metaverso.

NFT é muito usado para venda de obras de arte e itens colecionáveis — Foto: Reprodução/NBA

Não por acaso, games baseados em blockchain utilizam bastante os NFTs. Um dos muitos exemplos é o The Sandbox, em que os jogadores criam o mundo através da compra de tokens não-fungíveis. Com esse tipo de token, os usuários podem, por exemplo, vender imóveis virtuais a outros jogadores; no metaverso, poderão realizar esse e outros tipos de transações pelas diversas plataformas.

Esse tipo de aplicação inclusive já tem sido feita no mundo real. A entrada para a NFT.NYC 2019, conferência anual sobre NFT, vendeu ingressos baseados em NFT. Dependendo do ticket, o espectador tinha direito a assistir às palestras, ter acesso a um jantar VIP e até exibir uma mensagem personalizada no outdoor da Times Square. Assim, o NFT tem sido visto como um dos principais meios pelos quais o metaverso será viabilizado, em termos econômicos.

5. O metaverso é um tipo de internet? Ele vai substituir a internet?

Antes de mais nada, é preciso ter em mente que o metaverso é um projeto em fase inicial, e que tudo o que se fala sobre ele são projeções. Essas especulações não partem do nada; elas são elaboradas a partir dos planos das gigantes de tecnologia, as empresas que agora lideram e determinam o que é a Internet. Ainda assim, o futuro da web está em disputa, e o que será dela na próxima década é incerto.

Para a maioria dos executivos, o metaverso será um complemento à Internet atual, e não um substituto. E ele será acessado não apenas por meio de dispositivos de realidade virtual, mas estará presente também no PC, celulares e consoles de videogame. A medida que ele vai disputar o lugar com a web convencional, porém, é sempre debatida.

Metaverso vai englobar todos os aspectos da vida, de entretenimento a trabalho — Foto: Divulgação/Facebook

Em entrevista ao Washington Post, Tim Sweeney, CEO da Epic Games, definiu o metaverso como um playground online. "Seria uma espécie de playground online onde os usuários poderiam se juntar a amigos para jogar um jogo multiplayer como o Fortnite em um momento, assistir a um filme via Netflix no outro e levar os amigos para um test drive em um carro novo feito exatamente da mesma forma no mundo real e no virtual", propõe.

Já Zuckerberg defende que o metaverso irá muito além do entretenimento. "Eu acho que o entretenimento vai ser grande parte disso, mas não acho que seja apenas jogos. Eu acho que este é um ambiente persistente e síncrono onde podemos estar juntos, o que eu acho que provavelmente vai se assemelhar a algum tipo de híbrido entre as plataformas sociais que vemos hoje, mas um ambiente onde você está incorporado nele", disse o CEO da Meta em entrevista ao site The Verge.

6. O Facebook é a única empresa construindo um metaverso?

A mudança de nome do Facebook para Meta certamente significa que esse novo universo virtual é o principal objetivo da companhia para o futuro. Antes mesmo de a nova marca ser oficialmente lançada, a empresa já havia anunciado investimento de US$ 50 (cerca de R$ 277 milhões, em conversão direta) nos próximos dois anos para construção do metaverso.

Mas o metaverso não é um projeto exclusivo da Meta. A Microsoft, por exemplo, anunciou a chegada de avatares 3D ao Teams. A novidade faz parte do recurso Mesh, que atualmente oferece ambientes de trabalho em realidade virtual e realidade aumentada para o Teams, mas que no futuro englobará outras ferramentas de produtividade da companhia.

Microsoft Teams terá reuniões virtuais em ambientes 3D; fabricante do Windows está de olho no metaverso — Foto: Divulgação/Microsoft

A The Sandbox — que se define como plataforma onde os criadores podem monetizar ativos de voxel e experiências de jogo no blockchain — exibe sua pretensão criar um metaverso logo na página inicial. Roblox, Epic Games, Decentraland, Unity, Amazon e Nvidia são apenas algumas das muitas outras gigantes que estão investindo nessa próxima fase da Internet, na qual a conexão 5G — ou talvez 6G — será indispensável.

7. O metaverso vai mesmo virar realidade?

Não é possível garantir que o metaverso se concretizará. Vários aspectos da tecnologia vigente precisam mudar para que esse mundo se torne realidade, incluindo uma internet ultrarrápida e de baixa latência. O atual 4G nos permite ficar conectados de qualquer lugar, mas não é capaz de lidar com o fluxo de dados de inúmeras plataformas de realidade aumentada e realidade virtual sendo acessadas por bilhões de usuários, simultaneamente.

Outro desafio é garantir que as empresas efetivamente construam plataformas intercambiáveis e compatíveis. Se as grandes companhias oferecerem restrições quanto aos itens e experiências dos usuários oriundos de concorrentes, o metaverso como ele é pensado atualmente nunca chegará a acontecer. Teremos, no máximo, vários metaversos independentes, mas não uma experiência virtual geral compartilhada por todos.

O ponto crucial, porém, são as questões éticas que o metaverso traz consigo. O próprio Facebook está constantemente envolvido em escândalos de privacidade — o mais conhecido deles, Cambrigde Analytica, impactando inclusive campanhas eleitorais. Não é razoável pensar que a companhia conseguirá garantir a segurança dos dados pessoais de seus usuários, especialmente em um futuro no qual vai dispor de muito mais informações.

Roger McNamee, um dos primeiros investidores da rede social e hoje ferrenho crítico ao Facebook, disse em entrevista à BBC que "o Facebook deveria ter perdido o direito de fazer suas próprias escolhas. Um regulador deveria estar presente dando pré-aprovação para tudo o que eles fazem. A quantidade de danos que eles causaram é incalculável".

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